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quinta-feira, dezembro 19, 2013

Sermão do desacordo aos Deputados

Transcrição do meu artigo no Público:

Filipe […] perguntou-lhe: "Tu entendes o que estás a ler?"
Actos dos Apóstolos 8:30
Está agendada para o próximo dia 20, a partir das 10 horas, a apreciação da Petição N.º 259/XII/2, pela Desvinculação de Portugal em relação ao Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 (AO90). A petição (disponível aqui http://www.peticaopublica.com/?pi=DPAO2013), que conta já com mais de 15.000 subscrições, mereceu da parte do relator, o deputado Michael Seufert (CDS), um parecer exemplar, que merece ser lido e entendido (http://www.parlamento.pt/ActividadeParlamentar/Paginas/DetalhePeticao.aspx?BID=12378).
No passado dia 27/11, representantes de um Grupo de Trabalho do Senado do Brasil, os professores Ernâni Pimentel e Pasquale Cipro Neto, foram recebidos na Assembleia da República, em audiência conjunta das 2.ª e 8.ª Comissões (http://www.parlamento.pt/ActividadeParlamentar/Paginas/DetalheAudiencia.aspx?BID=96404). Debruçar-me-ei sobre a matéria da 2.ª parte da audiência, de ordem “técnica”, com os deputados que haviam integrado o Grupo de Trabalho para Acompanhamento da Aplicação do Acordo Ortográfico (GTAAAO), cujos trabalhos decorreram entre Janeiro e Julho do corrente.
Na audiência (gravação aqui:https://dl.dropboxusercontent.com/u/25444665/audio-audiencia.zip), os dois professores fizeram críticas contundentes ao AO90. De seguida, coube aos deputados anfitriões colocarem questões e comentários, às quais os visitantes responderam. Ora, importa comentar as intervenções dos deputados.
A pergunta da deputada Rosa Arezes (PSD) sobre declarações do embaixador do Brasil em Portugal, segundo as quais o AO90 seria para cumprir, os representantes do Senado deixaram explícito que foi graças a pressões suas (pontificando nestas o movimento Acordar Melhor (verhttp://simplificandoaortografia.com), do qual Ernâni Pimentel é fundador) se tornou possível congregar apoios entre senadores, conduziram à prorrogação do prazo de transição para a vigência plena do AO90 no Brasil (Decreto Presidencial n.º 7875/2012, de 27/12), até 31/12/2015. Essa teria sido a forma expedita de levar a repensar o processo, como era sentimento do Senado, de modo a “melhorar as regras”. Haveria “uma fala do Senado” e “uma fala oficial do Itamaraty” (sede da Presidência da República). Ou seja, há o discurso do poder executivo, diplomaticamente correcto, que alega que o decreto presidencial pretendia tão-só harmonizar os prazos brasileiros com os portugueses, e o discurso do Senado. Esse é, precisamente, o entendimento há muito existente entre os subscritores da petição. As fontes brasileiras confirmam-no.
Ficam na memória, penosamente, intervenções de dois deputados. A primeira, de Gabriela Canavilhas (PS). Entendendo que o processo político está fechado e que o AO90 estaria em vigor, delega para o Instituto Internacional de Língua Portuguesa (IILP) a criação do Vocabulário Ortográfico comum. Em relação à oposição ao AO90, afirma ser de índole ideológica (“ideológico da essência da problemática”, frase enigmática e que não se sabe o que significa). E é aqui que se torna penoso ouvir e tomar conhecimento da insciência da sra. deputada. De tudo quanto foi dito nas inúmeras audiências e audições e exarado por escrito nos abundantes contributos apensos ao trabalho do GTAAAO, e posteriormente no âmbito da apreciação da petição supra, é penoso só ter lido e ouvido o que lhe interessou. Ou, dando-se de barato que leu e ouviu tudo, não deixa de ser penoso que demonstre ter uma cognição condicionada. Assim, não deu atenção, mais uma vez, senão apenas àquilo que lhe interessa. É penoso ouvir invocar a autoridade do sr. embaixador do Brasil, depois de os professores brasileiros terem declarado haver dois tipos de discurso: um falacioso e o outro que corresponde às intenções e aspirações do Senado. A posição de Gabriela Canavilhas só se pode perceber pela dificuldade em assumir o erro da Resolução do Conselho de Ministros n.º 8/2011, de 25/01, à qual está intrinsecamente ligada, enquanto ministra da Cultura à época.
Outra intervenção, que dói ouvir, é a de Luís Fazenda (BE). Também este deputado denota nada ter apreendido do que ouviu e leu. Ainda acredita no mito, amplamente desacreditado, da vantagem da grafia única na era da globalização. Diz que a oposição anti-AO é de ordem identitária. Noutros termos, por nacionalismo. É-o, em parte: quem de bom senso crê numa globalização assente na diluição das fronteiras do que é próprio e típico a cada cultura e nação? Mas tudo o mais o sr. deputado ignorou. Porém, reconhece haver aspectos a “melhorar” e “rever”; opondo-se a Gabriela Canavilhas, discorda que o processo político esteja encerrado, não aceitando que o IILP seja o único santuário da língua. É uma posição de lamentar, embora mais matizada. A redenção está a um curto passo.
Michael Seufert (CDS) e Miguel Tiago (PCP) mostraram ter lido e ouvido e ter o pensamento de ambos sido transformados pelo que leram e ouviram. Merecem o nosso aplauso. Caros concidadãos, há deputados que honram o seu mister, que lêem, ouvem, estudam e pensam com a devida honestidade intelectual. Que actuam como representantes dos eleitores e a estes ouvindo e prestando contas, mais do que a interesses partidários ou extrínsecos ao seu mister.
E porque a esperança no movimento desacordista em Portugal existe que me dirijo aos demais deputados, os que não têm acompanhado esta matéria. Hão-de todos pronunciar-se no debate do dia 20. Não façais, por má-fé, o que fizestes em 2008 por desconhecimento, ao ignorardes olimpicamente uma petição de 110.000 pessoas e todos os pareceres de especialistas, à excepção de um, do prof. Malaca Casteleiro, parte interessada na matéria. Informai-vos junto dos colegas que a têm acompanhado. Dai-vos à pena de ouvir as gravações (sobretudo a da audiência aos professores brasileiros) e lede os documentos. Testemunhai os efeitos perversos da abertura dessa caixa de Pandora que que foi a ratificação do 2.º Protocolo Modificativo do AO90 e da RCM 8/2011. Verificai que, batendo leve levemente, entraram nas nossas vidas os contatos e os fatos, além dos patos (por pactos), impatos(por pactos), compatos (por compactos), adetos (por adeptos), recessões (dereceções, por recepções), etc.. Até no Diário da República, na escrita de professores que exigem correção aos alunos não sendo eles próprioscorretos nem correctos. Conferi que entre os efeitos perversos se contam a influência no domínio de outras línguas, em formas como diretion, excetion, ation (em lugar das palavras inglesas direction, exception, action). Tudo isto está amplamente documentado e tem livre curso. Confrontai os vários dicionários, vocabulários, correctores e conversores ortográficos; estes, embora alegadamente obedientes ao AO90, não raro discrepam entre si e o violam, deixando o mais sincero e dogmático adepto do dito no incerto fado de não saber escrever em “acordês” sem o violar. Percebei de vez que, com o recuo pré-anunciado do Brasil, com a rejeição de Angola e Moçambique e a indiferença entre os demais países, Portugal está “orgulhosamente só” com o seu “acordês”.
Lede, ouvi e entendei. Tomai a decisão óbvia: a desvinculação de Portugal do penoso 2.º Protocolo Modificativo ao AO90 ou, no mínimo, a suspensão imediata do mesmo. Não vos deis às penas de fugir aos vossos deveres virando as costas à maioria dos cidadãos, que estes deixaram se de dar à pena da indulgência. Basta com a ignomínia de não-leituras, leituras parciais e tresleituras! É A HORA.



quinta-feira, dezembro 12, 2013

Ultra-Acordo Ortográfico

Já dei aulas na Universidade Lusófona (do Porto). E com a liberdade académica que prezo, repudio a dupla desastrosa posição da Lusófona face ao AO90: (1) aderiu há uns 3 anos; (2) adere agora ao projecto de simplificação (ou antes, "projeto de simplifikasão") conhecido como Acordar Melhor.

quarta-feira, dezembro 11, 2013

La neige qui tombe

La neige quand elle 
         tombe
tombe oblique sur le visage qui un fil
laisse à la peau, dévoile le manteau
creuse les toits, force le vent
à la danse sur le fil quand elle monte descendant
constant en une mélodie
         oblique

c’est pour cela, pour ce manteau
sans couture
qu’elle est un étonnement nocturne
en passant par les campanules
où les troncs se
         déclinent
à la danse
qu’elle est l’expression la plus sublime
du dessein céleste

Rui Miguel Duarte
5/12/13

NADIR AFONSO FALECEU

Depois de Ramos Rosa e Mandela, mais um passamento que custa noticiar: Nadir Afonso, um pintor que pessoalmente apreciava, e ao qual estou ligado por ser o patrono de uma escola do 2.º e 3.º ciclo em Chaves, onde trabalhei (e gostei de trabalhar).

segunda-feira, novembro 11, 2013

VIA SACRA

VIA SACRA

                      …… Só vou por onde

Me levam meus próprios passos
José Régio, “Cântico Negro”


Há um caminho por onde vou
e um caminho por onde não vou

pelos olhos doces da legião
pela inquietação segura dos amigos
que tentam dizer que vá por aí
não vou, por aí não vou

um rito sobre as pedras,
o meu caminho é aquele
em que os pés marcham descalços
e se sujam, bastante tendo por fardo
a penumbra dos homens
o caminho em que o pó é feito de arestas

por aqui me levam os meus passos,
quanto mais indecisos mais firmes,
pelo húmus lamacento é que se alevanta
o firmamento

Rui Miguel Duarte
11/11/2013


sábado, setembro 28, 2013

Mais uma do chamado "acordo" ortográfico


Não, isto não é campanha eleitoral nem comentário político, não venha a CNE incomodar-me, pois nem sou eleitor amanhã! 
Ouça-se, a partir de 1m36s, uma maravilhosa pérola do acordo ortográfico… 
E não venham os sacerdotes do dogma religioso do Açordo Ortopédico dizer que a escrita não influencia a pronúncia… :D

segunda-feira, setembro 23, 2013

ANTÓNIO RAMOS ROSA (17/10/1924 — 23/09/2013)

Deixou-nos um grande, enorme, dos maiores que a Língua e a Literatura Portuguesa, e mundial, já tiveram. Poesia muito tensa, de inesperadas associações, de encantação na pura viagem das palavras, umas com as outras. Lê-lo é aprender a amar, a descobrir a surpresa que é a poesia.
Até sempre, ARR.



Poema de um funcionário cansado

A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só
Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço
Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida
num quarto só.


António Ramos Rosa

quinta-feira, agosto 08, 2013

À TARDE


“La pena de la tarde estremece a mi pena”
Federico García Lorca, “Meditaciones bajo la lluvia”

à tarde mesmo ao fim
a voz procurava o alívio
da pena sobre o tremor da pena

as árvores em que a sombra nasce,
a voz, mesmo
no fim do jardim
da tarde que estremece
no gume, há a pena
à qual tudo foi destinado
estremecem os olhos os ouvidos
a pele da testa lavrada do peso do sangue
que levanta pérolas no cálice,
o cálice bebido na oração redita

nessa angústia
da impossibilidade do salmo
que afague como pena
a dor da angústia do mundo todo

no jardim do Getsémani
o Filho do Homem
é uma ave de penas soltas


Rui Miguel Duarte
08/08/13

sexta-feira, julho 26, 2013

DONDE VEM

os anjos bem anseiam perscrutar 
e os profetas nos indícios notificados 
pelo vento até mesmo os poetas ao rasgarem
na matéria pétrea o veio 
da extracção da palavra bruta

ninguém sabe, ninguém percebe 
donde vem de que ponto cardeal,
a não ser as almas simples
as que se encantam dos cantos dos pastores
dos olhos claros das crianças,
ninguém de que lado do monte desce
o orvalho

e é o orvalho que importa
e nos limpa a sede

Rui Miguel Duarte
22/07/13

quinta-feira, julho 25, 2013

Legislação homófila e heterófoba

Isilda Pegado:

"A adopção conjugal prevista no código civil aplica-se só no âmbito do casamento. Os unidos de facto heterossexuais não podem co-adoptar, porém os unidos de facto homossexuais, caso esta lei seja aprovada, poderão co-adoptar. Estamos a criar discriminação positiva dos casais homossexuais contra os heterossexuais”, considera. "

Ler aqui.

sexta-feira, julho 12, 2013

EXAMES…

As médias do Bac(calauréat) francês, exames finais do ano terminal de secundário, foram de 86,8 %. Em Portugal são negativos. 
Porquê? Não sei. 
Mas caberá aos decisores eduqueses, peritos e expertos do Ministério e das Ciências da Educação reflectir. Talvez não seja alheio a tudo isto o contraste entre um sistema perfeitamente consolidado e um outro, em permanente deriva experimentalista, que faz fé no axioma segundo o qual o caminho se aprende a caminhar caminhando, e a coxear coxeando. Entre os possíveis factores (penso eu de que), as mudanças nos programas, designadamente no de Matemática, e nos de Português, com a aplicação, por exemplo, do Aborto (mais conhecido por Acordo) Ortográfico e da famigerada e antropofágica TLEBS, e com o menosprezo pela literatura.

segunda-feira, julho 08, 2013

AO90: Petição pela desvinculação de Portugal

No âmbito da audição legalmente obrigatória, nos termos da lei das Petições, foram representantes dos Peticionários, entre os quais eu, ouvidos no dia 2 de Julho.
Aqui o vídeo:



domingo, maio 19, 2013

PENTESCOSTES

que esperássemos
na escadaria dos céus
por uma ave que nos abraçasse
de poder, em tua honra
fomos queimando incenso
de brilho tenso escorreito
ao teu olfacto
queimámos, e tu trasladaste
o teu brilho em línguas escorreitas
ao sonho e à visão


entretanto fomos traduzidos
no rumor de um vento
surdo como um terramoto
e as nossas cabeças feitas pequemos sóis
a esperança foi contada
em inúmeras línguas
as línguas em que os anjos
compõem sonhos e visões aos homens


19/05/13

Rui Miguel Duarte

quinta-feira, maio 02, 2013

FUNDAMENTOS DA LUZ

Hoje absorto pela fulgência nascente da tua boca, acerquei-me do teu palácio arrebatado às ameias do teu corpo. Esse é o branco castelo da alegria que me é dada. O pranto escarlate, reverdecido na paisagem que os olhos contemplam, expandido nos rios que as mãos apreendem. 
Oriundos da tua boca, do sangue luminescente do teu flanco, são pássaros novos produzidos, aos bandos rendidos ao vento. 
Aí, mato a sede, aí possuo a terra.

Hoje é sempre hoje, na luz que se abriu, no lume do teu corpo feito pão.

Rui Miguel Duarte
08/04/13

FLORES DE CEREJEIRA

FLORES DE CEREJEIRA

ein windstoß nur und
kirschblüten bringen den schnee
zum schmelzen — siehst du”
Nico Helminger (poeta luxemburguês)

uma rajada de vento só
e novas cores trazem na mesma palidez
para perto de ti
— sombras de neve

quando chegam as flores abrem o ramo
vazio derretem o esplendor em cristais ao vento
— nas volutas das pétalas

nesse relicário em que pasma o mundo
o que vês é a passagem de um puro sopro
— pincel incoarcto de branco novo

Rui Miguel Duarte

29/04/13

quarta-feira, abril 10, 2013

AS "INMENTIRAS" JOSÉ MÁRIO COSTA DO CIBERDÚVIDAS

UM DEPOIMENTO QUE MERECE RECTIFICAÇÃO:


As "inmentiras" de José Mário Costa. 

No seu depoimento deixado em "audição" no GT para Acompanhamento da Aplicação do Acordo Ortográfico, José Mário Costa, coordenador editorial do Ciberdúvidas (texto que publica neste portal, no endereço ), elenca o que ele chama "inverdades" do desacordismo. 

1. Entre eles a questão do adiamento no Brasil, que se deveria a uma harmonização com o prazo português. Cita para tanto uma das proponentes do Decreto Legislativo ao Senado, Senadora Ana Amélia Lemos.
A declaração da Senadora vem igualmente citada aqui. O próprio Secretário da Educação Básica do Brasil se exprime em termos análogos — ajudo eu o José Mário Costa.
Entretanto, porém (cf. a mesma notícia da Globo), consultas com Ministros do Governo de Dilma Rous­sef conduziram ao parecer de que "a melhor abordagem seria por meio de um decreto". Isto porque, tra­tando-se de um tratado internacional, um projecto legislativo «criaria alguns problemas de ordem legal».
A bota não bate com a perdigota, no Brasil ou no entusiasmo iconoclasta do ciberdúbio José Mário Costa. Em que ficamos quanto às razões do prolongamento Brasileiro do prazo de transição? É uma questão de alinhamento cronológico com Portugal ou de atalhar caminho relativamente à tramitação e poder legal de um decreto senatorial? É o quê, afinal? Qual é a "inmentira" no meio de tudo isto? Ou é tudo isto e mais outras coisas? Ou a Senadora não diz coisa com coisa ou faltam dados... 
Mas vejamos: essa Proposta de Decreto Legislativo Senatorial n.º 498 (PDL), de que a Senador Ana Amélia é co-autora juntamente com o Senador Cyro Miranda, diz o seguinte, EXPLICITAMENTE:

"O presente projeto de decreto legislativo objetiva solucionar controvérsias suscitadas por determinados gramáticos e paí­ses no tocante à implementação do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, que dizem respeito a:

1. Divergências existentes entre os textos do Acordo e do Vocabulário Ortográfico da Lingua Portuguesa, que prejudi­cam a padronização gráfica pretendida, como foi demonstrado em duas audiências públicas realizadas nesta casa
2. Inadequação do Acordo aos padrões didáticos atuais, desvalorizando o raciocínio e o entendimento do aluno. O Acordo, pensado em 1975 e assinado em 1990, reflete a visão pedagógica daquela época, baseada principalmente no deco­rar, e não no entender. A existência de confusas regras, listas de exceções, incoerências e contradições não seriam questi­onadas no passado, mas hoje fortalecem o irrebatível argumento de que “nem os professores de Português apren­dem tais regras”, como justificam Angola e Moçambique, pela sua não homologação;
3. O acordo amplia seus efeitos para pontos não discutidos, exemplo: a supressão do trema foge ao escopo do acordo, pois o trema não é um sinal apenas ortográfico, mas ortofônico, indicador de pronúncia, e sua eliminação dificulta o en­sino da prolação correta;
4. O não estabelecimento, até hoje, por meio das instituições e órgãos competentes dos Estados signatários, de um vocabulá­rio ortográfico comum da língua portuguesa, necessário à maior união dos povos e de sua ortografia. Com efeito, referido vocabulário deve ser tão completo quanto desejável e tão normatizador quanto possível, no que se re­fere às terminologias científicas e técnicas. É o que dispõe o Artigo 2° do Acordo."


É claro? Explico: não há, como é bom de ver, entusiasmo especial no Brasil com este AO. A proposta di-lo!!


Há problemas de interpretação dos dados existentes. Quanto a mim, penso que duas duas uma: ou que a Senadora está tate-bitate, ou que as suas palavras parecem bem mais cortesia cheia de omissões, muito própria da linguagem política; parece impossível explicar que se fale de um alinhamento puro e simples com os prazos de Portugal. E só por ingenuidade se pensará, em Portugal, que foi isso e só isso que o Brasil fez. Está tudo acima. É que não acredito que de manhã a Senadora pensasse que o AO90 está datado, e à tarde que afinal é excelente e afinal só não está plenamente em vigor por especial cortesia com os prazos lusos!… Não acredito que a Sra. Senadora sofra de mal bipolar. Mas sabe-se lá, pois aqui a Senadora dizia há um ano outra coisa diferente da da notícia indicada por José Mário Costa, todavia mais conforme à PDL. Terá ela mudado de ideias? Em princípio, uma lei, ou proposta de lei, tem prevalência sobre ditos à comunicação social, pelo que é de crer que a citada PDL constitua o mais efectivo repositório do pensamento da Senadora.


O Sr. José Mário Costa não deve ter lido a PDL — ou, se o fez, fê-lo obliquamente. E só citou as fontes que lhe interessavam para corroborar a sua tese de que a maravilhosa aplicação do AO90 no Brasil está bem e se recomenda. Também se desconhece se viu o vídeo para o qual acima se remete. Note-se que a Senadora cita o Prof. Ernani Pimentel. É de crer que a Senadora, para a elaboração da PDS, se tenha baseado, pelo menos parcialmente, nas opiniões deste professor. Aliás, a tal prorrogação do prazo de aplicação por parte do Brasil ter-se-á a pressões da sociedade civil, e foi apoiado sem reservas por membros do governo e outros partidos da oposição, e a recomendação final veio do Ministério de Relações Exteriores, secundado pelo Ministério da Educa­ção. Entre os que pressionaram, e que foram inspiradores do processo que conduziu ao Decreto Presidencial, conta-se precisamente Ernani Pimentel e o seu Movimento Acordar Me­lhor, do Prof. Ernani Pimentel). 
Será bom lembrar o que pretendem: o prolongamento da fase transitória entre ortografias, e mais, a revisão do texto do tratado de acordo ortográfico, ou até mesmo a elaboração de «um outro acordo, com maior participação da sociedade, e que só passasse a valer a partir de 2018», como propôs o Senador Cyro Miranda. Tal revisão seria no sentido de que «Simplificar a ortografia é promover a inclusão social». Assim, este movimento defende uma radical simplificação ortográfica, conside­rando que as regras ortográficas são ainda muito complicadas e obrigam à memorização, tornando-se factor de exclusão social

Fará bem o Sr. José Mário Costa consultar estas fontes para ter uma ideia mais clara da complexidade do processo que conduziu à tal prorrogação. Não é matéria linear.

Voltando à PDS, que consubstancia em princípio o pensamento dos seus proponentes (Senadores Ana Amélia Lemos e Cyro Miranda), atente-se em uma coisa mais: essa proposta AINDA ESTÁ EM TRAMITAÇÃO nelas salas e secretárias das Comissões do Senado. Isto quer dizer que poderá vir a ser aprovada e que poderá nesse circunstância vir a ter força de lei o seguinte (da proposta):

"2° A implementação do Acordo coincidirá com o fim do período
de transição, que será de 1° de janeiro de 2009 a 31 de dezembro de 2019,
durante o qual coexistirão a norma ortográfica atualmente em vigor e a
nova norma estabelecida, em todos os Estados que o tenham ratificado."

em todos os Estados que o tenham ratificado

Com ou sem a emenda oriunda da Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania, que elimina." Por outras palavras, poderá vir a haver um novo adiamento no Brasil, desta feita parlamentar, e não presidencial, para 2019!! Há esse risco. Porventura, será para alinhar com os prazos portugueses, não é?

O Sr. José Mário, na busca de "inverdades", esquece ou desconhece outras "inmentiras", numa matéria que é tudo, repito, menos linear do que pretende.

2. O VOP e o Lince estão bem e recomendam-se. Pois. Discordam entre si, dão informações erróneas (por exemplo, que no Brasil se escreve baptismo), violam o AO90. O VOP então manda escrever sotavento, à antiga, quando o AO90 manda que o prefixo sota- seja seguido de hífen (base XVI, 1.º, e) Isto está em quadro de lemas) que demonstra as incongruências entre diversos instrumentos lexicográficos, e mais ainda: que violam o próprio AO90. E é com base nisto que se defende algo que não passa de um dogma.
O Sr. José Mário Costa faria bem em ler o depoimento do Eng. Vasco Teixeira, acordista, que verbera o VOP. Já que não acredita nas "inverdades" dos oponentes, talvez dê mais atenção às "inmentiras" de um defensor do AO90, de alguém que, até há pouco, se sentia bem com as promessas de negócio que o AO90 lhe proporcionava. 

3. Cita a resposta do Chefe de Gabinete do Ministro da Educação a perguntas de Deputados do PSD-Açores, dando-lhe o crédito que se dá a dogmas e axiomas, que dispensam análise, explanação e prova, para provar que está tudo bem e se recomenda. Isto menos de um mês depois de o Ministro ter concordado, em Luanda, que havia "constrangimentos e estrangulamentos". Ministério da Educação dixit, é verdade.
E que é uma "inverdade" que se escreva fato em vez de facto. É "inverdade" no plano teórico, pois na prática o Sr. José Mário Costa ignora, ou faz que ignora, que muito boa gente escreve e fala assim, como o Dr. Pedro Santana Lopes, o treinador da equipa de futebol do FCP, para não falar do que se lê no Diário da República, e passim. A isto acrescem os inúmeros tropeços diários. Não há dia em que não entre pelos olhos ou pelos ouvidos dentro mais um fato, um contato, um impato, um intato, um pato, um compato, uma oção, uma invita, uma recessão, assim mesmo (transcrição do Sol de notícia da Lusa sobre receção a caloiros). E não há influência da escrita na pronúncia?? 
Dir-se-á que o AO90 não sanciona fato e contato em Portugal, quanto mais impato! É "inmentira". Mas também o é que a prudência e o bom senso mandam retirar da circulação medicamentos que comprovadamente provocam efeitos secundários. Que não eram inesperados. António Emiliano, Ivo de Castro, Jorge Morais Barbosa, entre outros, chamaram previamente a atenção para tal possibilidade. E eis que as piores previsões são ultrapassadas pela realidade. Abram-se os olhos.

Mas está tudo bem e recomenda-se: José Mário Costa e outros defensores do dogma do AO90 são o Dr. Pangloss da Nação. 

4. Não há três ortografias em curso. Não, há mais, muitas mais: o tugo-acordês, o brasuco-acordês, a brasileira de 1943, a portuguesa de 1945 em África e outros países africanos, além de na pena de muitos hereges em Portugal; e há as ortografias à la carte: a do VOP, a do Lince, as dos dicionários da Porto Editora, da Texto Editora, da Priberam, do VOLP de Malaca Casteleiro, do VOALP; a do Correio da manhã e a do Jornal do Barlavento Algarvio, que resolveram obedecer a umas normas do AO90 e desobedecer a outras. Há tantas quantas as diversidades de opinião, parecer e sentir. 


Rui Miguel Duarte

segunda-feira, abril 01, 2013

CELEBRAÇÃO


“Quando eu morrer batam em latas,

Rompam aos saltos e aos pinotes”

Mário de Sá-Carneiro, “Fim”

Quando morri batestes em latas
fizestes do meu corpo o tambor das vossas festas
rompestes em pinotes na seda de acrobatas

ocultastes-me nas costas de uma pedra
ajaezado numa câmara escura 
na ausência de um fandango
descurado na concha de um frio chão 

Quando nasci de novo bebestes
um brinde de celebração

Quando nasci de novo foi só
uma nova manhã para palpitar 
o encontro dos cálices do coração

no sol o rosto lavastes, ao céu quente
aprendestes a nova canção que os astros 
de há muito sussurravam
as estrelas cadentes 
eram os alegros esparsos

dessa composição por tecer 

Rui Miguel Duarte
31/03/2013

quinta-feira, março 28, 2013

LENDA DO ÉDEN


Não procures: é aqui
que as folhas caem
ao fim da tarde 
da primeira tarde
aquela em que o corpo de Adão
foi levantado do chão em que
foi mais do que um sonho
a véspera do novo dia

aqui é Adão
o corpo de Eva
caídas as folhas da tarde
soltas de papel timbrado
dos rios, os quatro rios
do Éden

não procures: é aqui
que o vento grava nas árvores
para sempre o esboço preciso
da primeira tarde
grava-o nos dedos de Deus

Rui Miguel Duarte
25/03/13

sexta-feira, março 15, 2013

O QUE SE DIZ DO SANGUE

“Aqui, do sangue, nasceu o encontro
o esplendor”
António Ramos Rosa

Do sangue nasceu o que foi dado
do céu e da terra, e nisto ambos se abriram
no enlace fatal

em que o poder foi quebrado nas mãos
molhado o rosto da penitência

foi aqui, na boca da manhã
que a justiça
reclamou o seu sangue desde a raiz
do tempo quando muitos cálices
eram derramados
mas um só havia a beber

no sangue que as mãos
rebentaram e deram ao oiro
o seu esplendor

Rui Miguel Duarte
15/03/14

quarta-feira, fevereiro 27, 2013

ARMA

Carrega o teu coração 
por dentro mas carrega-o
de espingardas

verifica todos os meandros
de que cores os pintas
nas pontas dos canos 
onde as balas
se declaram ao silêncio
coloca a carne viva das flores

carrega o teu coração
por dentro, onde as balas
explodem fazendo fluir o sangue
carrega-o de amor

Rui Miguel Duarte
23/02/13

domingo, fevereiro 24, 2013

THE MYTH THAT CAME TRUE

A C. S. Lewis

desde a primeira tarde do primeiro dia
da primeira hora irrompeu o som cavo
de histórias antigas, já antigas
quando foram contadas

pela voz do pregoeiro o raio de sol
trazia cores de um novo dia o rasto
de um novo século, o altar falava
em nome de um Cordeiro de carne e sangue

o papel em que o mito foi inscrito
era a folha que declarava
que depois da pedra o ramo daria o fruto

Rui Miguel Duarte
24/02/13

sábado, fevereiro 23, 2013

Da historicidade de Jesus


Joseph Ratzinger, "Jesus da Nazaré" vol. 1, cap. 8, da historicidade de Jesus (a partir da versão francesa):

"… o grande escritor inglês Clive Staples Lewis, após ler uma obra em doze volumes sobre os mitos em questão [da morte e ressurreição dos deuses das colheitas e do pão], chegara à conclusão que este Jesus, que tomara o pão nas mãos com as palavras «este é o meu corpo», não era mais do que um destes reis do trigo que davam a sua vida em prol da vida do mundo. Certo dia, porém, no decurso de uma conversa, ouviu de um ateu inveterado que as provas que atestavam a
historicidade dos Evangelhos eram surpreendentemente boas.
E ocorreu-lhe à mente a seguinte ideia: «Estranho. Toda esta cena do Deus que morre, dir-se-ai que ocorreu uma vez.»
Sim, ocorreu verdadeiramente. Jesus não é um mito, é um homem de carne e sangue, uma presença real na história. Podemos seguir os caminhos que ele empreendeu. Podemos ouvir as suas palavras graças às testemunhas. Ele morreu e ressuscitou. O mistério da paixão do pão, por assim dizer, esperou por ele, virou-se para ele, e os mitos esperaram por ele, ele, em quem a esperança se tornou realidade."

Nas palavras de C. S. Lewis, "the myth that came true".

segunda-feira, fevereiro 04, 2013

DEIXEM


“Jesus, no entanto, disse: «Deixem as crianças vir ter comigo! Não as estorvem, porque o reino dos céus é dos que são como elas.»
Ev. Mateus 19:14


Deixem as crianças vir
equilibradas num pé
periclitantes nas cordas da dança

deixem-nas vir com a voz
nos acordes de uma tocata e fuga
não lhes coloquem armaduras de frente
não lhes prendam as mãos com tenazes
que têm de tocar o vento

deixem-nas vir com as mãos
trazer o rio no abraço
elas conhecem o concerto
das ondas ao rastejarem
pelas pedras suaves
conhecem o burburinho
que a corrente traça
ao beijar o tronco
dos que nela se lavam

deixam-nas vir de rostos
abertos sem manchas
eles vêm com a macieza dos risos


Rui Miguel Duarte
4/02/13




segunda-feira, janeiro 14, 2013

SE ESPUMA

se espuma ainda te resta
dos dias 
sacode-a no oceano 
sacode-a no império da maré

o oceano tem o seu modo de contar 
a história tem o seu jeito
de levar e trazer a espuma 
a vaga retorta
o que ele tem desfaz
o que não tem dá

ora tu, tu deixa
que o sangue das anémonas
vá, vá no azul forte
que os teus dedos com ele
se desfaçam

deixa ao oceano
ao seu fundo de anénoma palpitante
a tua espuma

Rui Miguel Duarte

12/01/13



segunda-feira, janeiro 07, 2013

Carta aberta ao Ministro da Educação e Ciência sobre o Acordo Ortográfico de 1990 (AO90)


O Brasil adiou a prazo da vigência oficial da aplicação do AO90 para 1 de Janeiro de 2016, assumindo que não gosta nem se sente confortável com o dito. Países como Angola não querem nem ouvir falar do dito, preferindo manter a genuinidade da língua como a receberam. Se, como se prova, o AO90 é incongruente e os dicionários, vocabulários e "corretores" ortográficos  que putativamente seguem o seu preceituado o violam, em especial os ditos oficiais Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOP) e o Lince (ambos produzidos pelo Instituto de Linguística Teórica e Computacional) e discrepam entre si, como haverá certezas quanto à ortografia "correta", como as havia, mal ou bem, sobre as correctas? Apresenta-se um  quadro comparativo de lemas em vários desses instrumentos, e pasme-se com aquilo que ele permite perceber da babel reinante. Se os governantes de Portugal, país, a par das suas ex-colónias, que mais perde com o coiso, se remeteram à hibernação burocrática e são indiferentes a tudo isto, estado a que não poderá não ser alheio algum interesse inconfesso, poderão continuar a ser indiferentes face aos desenvolvimentos lá fora, adoptando a atitude orgulhosamente só de má memória?
Um grupo de cidadãos acha que não e subscreveu uma carta ao Ministro da Educação e Ciência, com cópia para o Ministro dos Negócios Estrangeiros e para o Secretário de Estado da Cultura. Esta carta é aberta: é para dar dela conhecimento público, é para passar palavra. E a sua subscrição continua disponível, de modo a poder convertê-la numa Petição a dirigir à Assembleia da República, aqui.

Peço pois a quem ler esta página e que concordar com o conteúdo e propósito da carta, que a subscreva. 
PARA A SUSPENSÃO IMEDIATA DO DESGRAÇADO AO90!

Carta (com a lista dos primeiros signatários)