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sábado, outubro 28, 2017

O JUIZ E A BÍBLIA

O JUIZ E A BÍBLIA

O país recebeu com estupefacção e com justa indignação um acórdão do Tribunal da Relação do Porto, assinado pelos juízes desembargadores Neto de Moura e Maria Luísa Abrantes, em que condenam a pena suspensa marido e amante de uma mulher pelo crime de violência doméstica. A estranheza e a torpeza estão terem revertido a culpa para mulher e nos argumentos de autoridade utilizados. A vítima mantivera uma relação adulterina, o que constitui um “gravíssimo atentado à honra e à dignidade do homem.” Sendo o adultério uma conduta condenada socialmente, seria de ver “com alguma compreensão a violência exercida pelo homem traído, vexado e humilhado pela mulher.” Em virtude da deslealdade da mulher, o marido teria caído em depressão e agido dessa forma. Em apoio da decisão, os juízes citam a Bíblia, na qual lêem a condenação à morte a que a adúltera era votada, o facto de haver sociedades que as mandam lapidar e, por fim, o Código Penal de 1886, que “punia com uma pena pouco mais que simbólica o homem que, achando sua mulher em adultério, nesse acto a matasse.” Que interessa, para os doutos juízes, que os dois arguidos tivessem agido em “conluio” (é o termo usado), marido e amante (recorde-se) que tivessem, individualmente e em conspiração, perseguido, assediado, ameaçado, raptado, humilhar, torturado violentamente uma mulher com uma moca com pregos? Que interessa que tenham aceitado como demonstrado que os arguidos agiram conscientes de que da sua acção resultaria para a vítima “mau estar físico e psicológico, bem sabendo da especial censurabilidade das suas condutas, não se coibindo, no entanto, de as levá-las a cabo.” Faz-se prova de que o arguido marido caíra em estado depressivo, sendo para essa patologia medicado, mas questiono se a se trataria de uma verdadeira depressão, porquanto uma patologia destas conduz geralmente à prostração do doente em si mesmo, à inacção, não à conspiração contra terceiros. Mas faço-o sem ser médico, apenas na qualidade de curioso mais ou menos informado.
Toda a sentença se fundamenta em vetustos conceitos culturais sobre os sexos, a dignidade e honra de cada. Patriarcado serôdio, numa palavra, coisas que o Direito já há muito arrasou, pese embora, como se vê, não terem desaparecido de certas mentes. Nada direi sobre o aborto jurídico que este acórdão constitui, sobre a abominável fundamentação em que se apoia. Já muitos se pronunciaram, e bem, sobre o dever de a justiça decidir com base na Constituição da República, nas leis e nas convenções internacionais sobre violência doméstica e direitos humanos de que Portugal é signatário. Nada acrescentarei ao que já tem sido dito e escrito pela Associação Portuguesa de Mulheres Juristas, pela Associação Portuguesa de Apoio à Vítima, e nos jornais e redes sociais. Pretendo comentar a citação da Bíblia. A minha Bíblia. Ao fazê-lo, não inauguro o gesto, pois já as cúpulas da Igreja Católica, justamente, o fizeram. Nisto assoma já um grito: DEIXAI A BÍBLIA EM PAZ! Grito incontido.
Como cristão, creio que a Bíblia é a palavra revelada de Deus para ensinar, corrigir transformar o coração humano graças à presença de Deus em Cristo. Foi escrita em momentos diferentes, por homens, a partir das experiências destes, em relacionamento uns com os outros e com Deus. Ora, os Meritíssimos juízes citam uma lei, a de Moisés, que declara que o adultério merece a morte. O adultério é, com efeito, um mal: um desvio do amor de aliança em que se fundamenta o casamento e a negação da promessa feita no dia do matrimónio. Causa sofrimento no cônjuge traído e não um apenas atentado à sua honra e dignidade. O “bom nome”, como sói dizer-se hoje. Sendo que o “bom nome” depende incomensuravelmente mais do que fazemos do que aquilo que nos fazem. Mais mal fizeram esses dois homens à sua própria honra e dignidade, muito mais mal fizeram os Meritíssimos juízes com este arremedo de acórdão do que pela aplicação recta da justiça.
Voltemos à Bíblia. Ora, como lemos no Novo Testamento, Jesus Cristo cumpriu a velha Lei para que os homens, crendo n’Ele, fossem declarados justificados por Deus. A Lei servia para mostrar ao homem que os padrões divinos estão muito acima do que ele pode cumprir e que esse cumprimento é efectivamente impossível. Os Meritíssimos juízes, ao citarem a Bíblia, esqueceram-se dela. Designadamente do que disse e fez Jesus quando lhe levaram uma mulher adúltera (João 8:1-11). Jesus não nega a falta da mulher, mas perdoa-a, recomendando-lhe que mude de vida. Quanto aos seus moralistas acusadores, próceres dos Meritíssimos juízes da Relação do Porto, despediu-os com muito maior severidade: são corruptos na sua conduta e interpretação da Lei. A sua consciência culpada remeteu-os ao silêncio envergonhado: culpados hipócritas não estão em condições de julgar outros. No mesmo Evangelho (4:1-26), relata-se o encontro com a samaritana. Nele, Jesus transpôs a barreira da multi-secular discriminação dos Samaritanos pelos Judeus, a barreira da distância recomendada entre um homem e mulher estranhos (como é hábito nos países islâmicos), ficando-se a saber que essa mulher tivera cinco maridos — sem que saibamos se por viuvez ou por ter os maridos dela se terem divorciado — e vivia em concubinato com um sexto homem. Não teria passado sem censura dos Meritíssimo Juízes da Relação do Porto. No entanto, Jesus, um homem e judeu, tratou-a como um igual, um congénere da mesma humanidade.
O testemunho neotestamentário reabilitam e elevam o papel e dignidade da mulher como nenhum outro. E recolocam o homem no papel e protector da mulher. Amar é tratar bem, de forma a não provocar nelas amargura (Colossenses 3:16). A responsabilidade do marido é acentuada em termos fortes na I Epístola de Pedro 3:7: saber tratar a mulher com inteligência e tacto, como alguém fisicamente mais fraco e que por isso carece de protecção, a ainda com honra, porque homem e mulher são herdeiros da graça da vida em idêntica posição. Não sendo assim, existirá barreira às orações dos homens diante de Deus. Mas também na I Epístola a Timóteo 3:2: o bispo (ou presbítero, homem com função de liderança numa igreja) deve ater-se a uma única mulher. Enormemente contundentes são igualmente as palavras da Epístola aos Efésios 3:25: os maridos devem amar as suas mulheres como Cristo amou a igreja, tendo-se entregado por ela. Trata-se, por conseguinte, de um amor sacrificial, que pode levar a que o marido esteja pronto a morrer pela esposa: morrer em vida, figuradamente, entendido como dar-se a si mesmo e pôr de lado a sua conveniência e interesses próprios para o bem e segurança da esposa e, literalmente, morrer para a vida, morrer pela esposa.
Há muitas lições da Bíblia a que os Meritíssimos Juízes não atentaram. Mas evidentemente, estamos no Novo Testamento. A Lei de Talião terminara com o sacrifício de Cristo. Prestemos, contudo, uma atenção maior ao Antigo Testamento, à velha Lei de Moisés. Levítico 20:10 prescreve que o homem que comete adultério merece a morte. Deuteronómio 22:22 determina que tanto é culpado o homem como a mulher que praticam tal acto. No II livro de Samuel, caps. 11 e segs., lê-se a aventura de David, o rei, com Bateseba, mulher de Urias, militar do exército israelita, e de como o rei ordenou que este marido fosse deixado sozinho no núcleo de uma batalha, no ponto onde a refrega mais quente era, de modo a ser morto e assim ficar escondida a vergonha de Bateseba ter engravidado de David, não do marido. A ira de Deus recaiu sobre o rei, adúltero e assassino. Pela Lei, merecia a morte. Não sobreviveu a criança, sobreviveram os pais, acabando David por receber Bateseba como esposa, uma entre várias. Desse casamento, nasceu Salomão. David reconheceu amargamente o seu erro e foi tratado com misericórdia (leia-se o Salmo 51 a esse respeito). Em vários livros proféticos do AT, a relação de Deus com Israel, Seu povo, é alegorizada como a relação de um homem com uma prostituta, em virtude da infidelidade daquele. Assim, por exemplo, o livro de Oseias. Indignação divina, anúncio de justiça pelo delito sobre o adúltero povo, e misericórdia, paciência que se renova. Nenhuma lapidação.
No relato genesíaco, lê-se que a mulher foi criada do lado do homem. Não raro, e justamente, nos sermões das igrejas protestantes e evangélicas se ouve que isto tem um significado profundo e óbvio: a mulher está ao lado do homem; homem e mulher são companheiros, iguais em dignidade e direitos e de vida. Semelhantemente, no casamento romano, a mulher pronunciava a fórmula ubi tu Gaius, ego Gaia “Onde tu fores Gaio, eu serei Gaia”. O esposo respondia: ubi tu Gaia, ego Gaius “onde tu fores Gaia, eu serei Gaio”. Com esta fórmula se pretendia notar que, idealmente, o casamento era uma fusão de duas pessoas iguais. “Serão os dois uma só carne”, nas palavras do Génesis.
Ainda no Antigo Testamento, o capítulo 31, o derradeiro, do livro de Provérbios contém uma descrição da mulher. É um texto belíssimo. A mulher figura aí como mãe de família, patroa, gestora da casa e dos recursos domésticos como de uma pequena empresa, previdente e organizada, como educadora e líder que provê ao bem-estar de marido e filhos. Muito longe do retrato de uma mulher passiva, confinada ao gineceu, à submissão pela submissão, a um mero papel cosmético e de genitora. Uma tal mulher confere estabilidade ao lar e boa fama ao marido, envolvido na vida pública. Este, em contrapartida, admira a esposa e prodigaliza-lhe elogios.
Os Meritíssimos juízes, para fundarem na Bíblia a sua decisão, teriam muito mais onde procurar sobre a mulher, a sua dignidade e papel. Não o fizeram. Retiraram dela o que lhes interessou. A Bíblia, embora retrate culturas em que a mulher era tratada como ser menor, honra a mulher. Porém, séculos e geografias têm havido em que não é assim. Os homens adulteraram (sim!) o que ela ensina. Séculos de civilização judaica farisaica e grega. Contra a tradição judaica, bateu-se Jesus. Entre os Gregos, é sabido que o bom Aristóteles questionava se a mulher teria alma; a ela estava reservado o papel de parir filhos e viver no gineceu, enquanto o marido exercia cidadania e procurava satisfação com prostitutas e jovens adolescentes do mesmo sexo. Os dois milénios de civilização dita cristã não foram menos culpados: o homem, rei, nobre ou plebeu, frequentava bordéis e tinha amantes, gerava com gáudio filhos bastardos, enquanto a mulher sofria em casa a rejeição, o ser apenas uma entre as parceiras de cama do marido. Que o homem cometa adultério e vá às “putas”, é normal; que a mulher o faça, exige lapidação!
A Bíblia, em suma, nada tem a ver com isto. A Bíblia carece de ser interpretada e citada na transparência do que nela está escrito, não apenas de uma parte. Hermenêutica e rigor científico. A Bíblia foi usada – nos termos de Umberto Eco, a propósito do uso que fazemos de um texto, colocando nele os nossos juízes culturais e morais prévios de modo a extrair dela justificação para eles). O texto, cada texto, tem as suas regras próprias; do leitor modelo é requerido que jogue essas regras, nele dispostas pelo autor. Com efeito, ela tem sido o pretexto para muitas abominações praticadas pelo homem, desde guerras santas ao segregacionismo branco sobre os negros. No entanto, ela não é ouvida nem achada em nada disto. Bem pelo contrário: ela foi e continua a ser uma fonte de sabedoria. Tivésseis dado à Bíblia a honra devida, tivéssei-la, pelo menos, lido e, lendo-a, entendido, poderíeis ter-vos permitido ser influenciados pelas suas palavras. Quão justas teriam sido, Meritíssimos juízes, as vossas sentenças (Provérbios 8:15-16) e quão justamente teríeis cumprido a missão que vos é cometida. Não o tendo feito, uma outra jurisdição pende sobre vós. Sim, a da Bíblia que levianamente usais (Isaías 1:17, 20): Defendei os oprimidos; se o não fizerdes, sereis devorados pela espada.
DEIXAI A BÍBLIA EM PAZ!


Publicado originalmente no blog Salmo Presente


sexta-feira, agosto 26, 2016

O PÃO: Um cheiro salutar

Um cheiro salutar


O poema “O Sentimento dum ocidental” de Cesário Verde é um dos poemas mais conhecidos da literatura de pátria e língua portuguesa, e com justiça. É, aliás, um dos daqueles pelos quais tenho predilecção. Integra o único livro do autor, O livro de Cesário Verde, publicado postumamente (1887). No poema, composto de quatro secções, o sujeito poético descreve uma experiência de deambulação pela cidade de Lisboa, pelo fim da tarde. Nele desfilam pessoas, tipos sociais, lugares, acções, objectos, edifícios, ao ritmo das impressões emocionais que o espectáculo urbano lhe provoca, entre o spleen, um desejo de evasão e um mal du siècle de fim de século XIX. O início marca o tom. Porém, todo o bom poema merece ser degustado do princípio ao fim. Por isso, transcrevamo-lo todo:

O sentimento d’um[1] ocidental

A Guerra Junqueiro

               I

           Avé-Marias

    Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Ha tal soturnidade, Ha tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

    O céu parece baixo e de neblina,
O gaz extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se d’uma cor monótona e londrina.

    Batem os carros d’alluguer, ao fundo,
Levando á via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposições, paizes:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!

    Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edificações sómente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.

    Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquetão ao hombro, enfarruscados, seccos;
Embrenho-me, a cismar, por boqueirões, por beccos,
Ou erro pelos caes a que se atracam botes.

    E evoco, então, as chronicas navaes:
Mouros, baixeis, heroes, tudo ressuscitado!
Lucta Camões no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu não verei jámais!

    E o fim da tarde inspira-me; e incommoda!
De um couraçado inglês vogam os escaleres;
E em terra n’um tinir de louças e talheres
Flamejam, ao jantar, alguns hotéis da moda.

    N’um trem de praça arengam dois dentistas;
Um tropego arlequim braceja n’umas andas;
Os cherubins do lar flutuam nas varandas;
Às portas, em cabelo, enfadam-se os logistas!

    Vasam-se os arsenaese as oficinas;
Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;
E n’um cardume negro, herculeas, galhofeiras,
Correndo com firmeza, assomam as varinas.

    Vem sacudindo as ancas opulentas!
Seus troncos varonis recordam-me pilastras;
E algumas, á cabeça, embalam nas canastras
Os filhos que depois naufragam nas tormentas.

    Descalças! Nas descargas de carvão,
Desde manhã á noite, a bordo das fragatas;
E apinham-se n’um bairro aonde miam gatas,
E o peixe pôdre géra os focos de infecção!

               II

          Noite Fechada

    Toca-se as grades, nas cadeias. Som
Que mortifica e deixa umas loucuras mansas!
O Aljube, em que hoje estão velhinhas e creanças,
Bem raramente encerra uma mulher de «dom»!

    E eu desconfio, até, de um aneurisma
Tão mórbido me sinto, ao accender das luzes;
Á vista das prisões, da velha sé, das cruzes,
Chora-me o coração que se enche e que se abysma.

    A espaços, illuminam-se os andares,
E as tascas, os cafés, as tendas, os estancos
Alastram em lençol os seus reflexos brancos;
E a lua lembra o circo e os jogos malabares.

    Duas egrejas, n’um saudoso largo,
Lançam a nódoa negra e funebre do clero:
N’ellas esfumo um ermo inquisidor severo,
Assim que pela Historia eu me aventuro e alargo.

    Na parte que abateu no terremoto,
Muram-me as construcções rectas, eguais, crescidas;
Affrontam-me, no resto, as ingremes subidas,
E os sinos dum tanger monástico e devoto.

    Mas, n’um recinto publico e vulgar,
Com bancos de namoro e exiguas pimenteiras,
Bronzeo, monumental, de proporções guerreiras,
Um épico d’outr’ora ascende, n’um pilar!

    E eu sonho o Colera, imagino a Febre,
N’esta acumulação de corpos enfezados;
Sombrios e espectraes recolhem os soldados;
Inflama-se um palácio em face de um casebre.

    Partem patrulhas de cavalaria
Dos arcos dos quarteis que foram já conventos:
Edade-média! A pé, outras, a passos lentos,
Derramam-se por toda a capital, que esfria.

    Triste cidade! Eu temo que me avives
Uma paixão defunta! Aos lampeões distantes,
Enlutam-me, alvejando, as tuas elegantes,
Curvadas a sorrir ás montras dos ourives.

    E mais: as costureiras, as floristas
Descem dos magasins, causam-me sobressaltos;
Custa-lhes a elevar os seus pescoços altos
E muitas d’ellas são comparsas ou coristas.

    E eu, de luneta de uma lente só,
Eu acho sempre assunto a quadros revoltados:
Entro na brasserie; ás mesas de emigrados,
Ao riso e á crua luz joga-se o dominó.

           III

             Ao gaz

    E saio. A noite peza, esmaga. Nos
Passeios de lajedo arrastam-se as impuras.
Ó molles hospitais! Sai das embocaduras
Um sopro que arripia os ombros quase nus.

    Cercam-me as lojas, tépidas. Eu penso
Ver círios laterais, ver filas de capelas,
Com santos e fiéis, andores, ramos, velas,
Em uma catedral de um comprimento imenso.

    As burguezinhas do Catolicismo
Resvalam pelo chão minado pelos canos;
E lembram-me, ao chorar doente dos pianos,
As freiras que os jejuns matavam de hysterismo.

    N’um cutileiro, de avental, ao torno,
Um forjador maneja um malho, rubramente;
E de uma padaria exala-se, inda quente,
Um cheiro salutar e honesto a pão no forno.

    E eu que medito um livro que exacerbe,
Quisera que o real e a análise mo dessem;
Casas de confecções e modas resplandecem;
Pelas vitrines olha um ratoneiro imberbe.

    Longas descidas! Não poder pintar
Com versos magistrais, salubres e sinceros,
A esguia difusão dos vossos reverberos,
E a vossa pallidez romântica e lunar!

    Que grande cobra, a lubrica pessoa,
Que espartilhada escolhe uns chales com debuxo!
Sua excellencia attráe, magnética, entre luxo,
Que ao longo dos balcões de mogno se amontoa.

    E aquella velha, de bandós! Por vezes,
A sua traîne imita um leque antigo, aberto,
Nas barras verticais, a duas tintas. Perto,
Escarvam, á victoria, os seus mecklemburguezes.

    Desdobram-se tecidos estrangeiros;
Plantas ornamentaes seccam nos mostradores;
Flócos de pós de arroz pairam suffocadores,
E em nuvens de cetins requebram-se os caixeiros.

    Mas tudo cansa! Apagam-se nas frentes
Os candelabros, como estrellas, pouco a pouco;
Da solidão regouga um cauteleiro rouco;
Tornam-se mausoléus as armações fulgentes.

    «Dó da miséria!... Compaixão de mim!...>>
E, nas esquinas, calvo, eterno, sem repouso,
Pede-me esmola um homenzinho idoso,
Meu velho professor nas aulas de latim!

               IV

           Horas mortas

    O tecto fundo de oxygenio, d’ar,
Estende-se ao comprido, ao meio das trapeiras;
Vem lágrimas de luz dos astros com olheiras,
Enleva-me a chimera azul de transmigrar.

    Por baixo, que portões! Que arruamentos!
Um parafuso cai nas lajes, às escuras:
Collocam-se taipaes, rangem as fechaduras,
E os olhos d’um caleche espantam-me, sangrentos.

    E eu sigo, como as linhas de uma pauta
A dupla correnteza augusta das fachadas;
Pois sobem, no silencio, infaustas e trinadas,
As notas pastoris de uma longinqua flauta.

    Se eu não morresse, nunca! E eternamente
Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas!
Esqueço-me a prever castissimas esposas,
Que aninhem em mansões de vidro transparente!

    Ó nossos filhos! Que de sonhos ageis,
Pousando, vos trarão a nitidez às vidas!
Eu quero as vossas mães e irmãs estremecidas,
N’umas habitações translúcidas e frageis.

    Ah! Como a raça ruiva do porvir,
E as frotas dos avós, e os nómadas ardentes,
Nós vamos explorar todos os continentes
E pelas vastidões aquaticas seguir!

    Mas se vivemos, os emparedados,
Sem arvores, no vale escuro das muralhas!...
Julgo avistar, na treva, as folhas das navalhas
E os gritos de soccorro ouvir, estrangulados.

    E n’estes nebulosos corredores
Nauseam-me, surgindo, os ventres das tabernas;
Na volta, com saudade, e aos bordos sobre as pernas,
Cantam, de braço dado, uns tristes bebedores.

    Eu não receio, todavia, os roubos;
Afastam-se, a distância, os dúbios caminhantes;
E sujos, sem ladrar, ósseos, febris, errantes,
Amarelladamente, os cães parecem lobos.

    E os guardas, que revistam as escadas,
Caminham de lanterna e servem de chaveiros;
Por cima, as imorais, nos seus roupões ligeiros,
Tossem, fumando sobre a pedra das sacadas.

    E, enorme, nesta massa irregular
De prédios sepulcrais, com dimensões de montes,
A Dôr humana busca os amplos horizontes,
E tem marés, de fel, como um sinistro mar!


Fernando Pessoa e a sua geração reivindicaram a herança cesariana. Em 1912, no artigo “A Nova Poesia Portuguesa no seu aspecto psicológico”, para a revista A Águia (2ª série, nº 9, 11 e 12. Porto: Set., Nov. e Dez. 1912), Pessoa designa Cesário um dos representantes da “poesia objectiva”. Em 1916, chama-lhe um “precursor inconsciente” do Sensacionismo português. E declara que a sua influência se fez sentir em Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Com efeito, é sobretudo no heterónimo autor da “Ode Triunfal”, que a poesia cesariana do quotidiano, da vida comum da cidade parece ter encontrado um mais notório avatar. Em “Ode Marítima”, Álvaro de Campo invoca explicitamente Verde como alguém próximo na estética, como um precursor na perscrutação das pessoas, das histórias e das vidas por trás de coisas triviais do quotidiano:

Complexidade da vida! As facturas são feitas por gente
Que tem amores, ódios, paixões políticas, às vezes crimes —
E são tão bem escritas, tão alinhadas, tão independentes de tudo isso!
Há quem olhe para uma factura e não sinta isto.
Com certeza que tu, Cesário Verde, o sentias.

O Sensacionismo é devedor do norte-americano Walt Whitman. Mas as marcas da deambulação emocional do sujeito poético pela cidade acham-se, por exemplo, na observação de Lisboa como porta para uma tripla viagem. Uma das viagens é pela evocação de outros tempos, redivivos no presente em que o poeta escreve, a partir do porto:

E evoco, então, as chronicas navaes:
Mouros, baixeis, heroes, tudo ressuscitado!
Lucta Camões no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu não verei jámais!

Álvaro de Campos expressa assim esta viagem mental de ida e volta ao passado, na “Ode Marítima”:

Homens do mar actual! Homens do mar passado!
Comissários de bordo! Escravos das galés! Combatentes de Lepanto!
Piratas do tempo de Roma! Navegadores da Grécia!
Fenícios! Cartagineses! Portugueses atirados de Sagres
Para a aventura indefinida, para o Mar Absoluto, para realizar o Impossível!

A outra viagem é no tempo contemporâneo do poeta, mas para outros espaços. Lisboa ligava-se ao mundo, oferecia-se ao cosmopolitismo. Todavia, era sentida por ambos os poetas como um mero porto de partida. O mundo está alhures, alhures há outras coisas por ver e sentir. A porta mágica para a evasão de Verde são os pontos de transbordo, os canais de saída da cidade empírica, o caminho-de-ferro e porto. O poeta inveja esses outros que partem, invejando-lhes a fortuna:

Batem carros de aluguer, ao fundo,
Levando á via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!

O poeta de “Ode Marítima” invoca exclusivamente a tecnologia dos transatlânticos a vapor, que cruzavam a barreira dos oceanos. Tecnologia estabelecida no século de Verde, expandiu-se significativamente no novo século. O expoente de tecnologia no século XIX eram os comboios, e Portugal não escapou a tal progresso, tendo sido o seu território semeado de via férrea, por mão de Fontes Pereira de Melo. A sua acção, primeiramente no Ministério das Obras Públicas, que criou, depois em outros ministérios e finalmente como Presidente do Conselho de Ministros (1871-1877, 1878-1879, 1881-1886, designação dada, até ao Estado Novo, ao cargo hoje denominado Primeiro-Ministro), traduziu-se, marcadamente, na construção de estradas, caminho-de-ferro, industrialização (Este nome ficaria, por esta e outras decisões. Por estes motivos, do seu nome é oriundo o neologismo fontismo, que designa uma acção governativa caracterizada por um acentuado investimento em obras públicas e vias de comunicação. Na História mais recente de Portugal, foi com termo utilizado para designar a política de Cavaco Silva enquanto Primeiro-Ministro e do Ministro das Obras Públicas Joaquim Ferreira da Amaral, um século posterior à do seu antecessor e modelo. O caminho-de-ferro, pois, era então a via de ligação geográfica mais utilizada e mais veloz entre Portugal e o resto do mundo - na visão dum ocidental de então, restrita à Europa, sendo Lisboa e S. Petersburgo os pontos extremos da ocidentalidade. A poesia do hodierno de Verde, como a de Campos, não ignora este elemento, mas dá-lhe lugar importante. Do mesmo modo, Campos, o poeta sensacionista e futurista, evoca como típico da sua época os vapores. Que tecnologia evocaria se escrevesse hoje, um século depois do poeta de “Tabaqueira”?
Assim, Campos saúda um “amigo casual” que vai encetar uma viagem num desses engenhos (um vapor, tecnologia de ponta no tempo da escrita). Casual, logo efémero, fátuo e passageiro, porque a época das máquinas e da velocidade a isso se presta.

Enternece-me o pobre vapor, tão humilde vai ele e tão natural.
Parece ter um certo escrúpulo não sei em quê, ser pessoa honesta,
Cumpridora duma qualquer espécie de deveres.
Lá vai ele deixando o lugar defronte do cais onde estou.
Lá vai ele tranquilamente, passando por onde as naus estiveram
Outrora, outrora...
Para Cardiff? Para Liverpool? Para Londres? Não tem importância.
Ele faz o seu dever. Assim façamos nós o nosso. Bela vida!
Boa viagem! Boa viagem!
Boa viagem, meu pobre amigo casual, que me fizeste o favor
De levar contigo a febre e a tristeza dos meus sonhos,
E restituir-me à vida para olhar para ti e te ver passar.
Boa viagem! Boa viagem! A vida é isto...

Neste trecho, Álvaro de Campos mistura as duas viagens: a temporal “por onde as naus estiveram / Outrora, outrora…”; e a espacial “Para Cardiff? Para Liverpool?”. Mas há uma terceira viagem nos dois poetas, já um pouco aflorada nas linhas anteriores: a viagem psicológica: o mal-estar de viver demanda a evasão e assim se cumpre na perfeição a fúria sensacionista. Evoca-se a evasão física, geográfica, mas é sobretudo a mental que os poetas almejam. Portanto, regredir ao passado ou partir para outros lugares, mais cosmopolitas, viajar no tempo ou no espaço aparecem como pretextos para escape de almas poéticas cativas de mal de vivre. Esta viagem comanda as outras, tudo se reduzindo afinal ao partir e estar longe, um longe de si próprio que é mais nítido em Campos e na geração modernista do século XX.

Na segunda estrofe do seu poema, Verde expressa a sensação de enjôo provocada pelo gás. O ar da cidade, poluído, contribuía para a melancolia e sensação física de náusea. O gás era o combustível utilizado na iluminação urbana, antes da generalização da electricidade. E é na terceira secção do poema, “Ao gaz”, quando a noite já plena “esmaga”, que emerge a salvação, a nota singular de alegria de toda a deambulação:

    N’um cutileiro, de avental, ao torno,
Um forjador maneja um malho, rubramente;
E de uma padaria exala-se, inda quente,
Um cheiro salutar e honesto a pão no forno.

Uma nota de esperança, que poderia salvar o poeta. “Salutar” e “honesta”, n’um mundo de soturnidade, miséria social, económica e moral, e de hipocrisia. A deambulação pela noite pára um momento diante do calor da cutelaria e da padaria. Um assumo de coragem: que o concerto entre “real” e reflexão (“análise”, ou como dirá Pessoa ortónimo), o “fingimento”, lhe dessem um livro que “exacerbe”, que ultrapasse os limites da estética e se torne quiçá um poder capaz de influenciar a sociedade. O real dá o mote, contém os elementos a caberem no livro. A poesia, na sua ars poetica, deseja exibir e conter o real e reflectir sobre ele. Mas acaba por sentir a frustração de “Não poder pintar / Com versos magistraes, salubres e sinceros” esse real urbano, moderno, inestético e banal. Terá a poesia de esperar pela formulação mais febril desta aspiração expressa na “Ode Triunfal” de Álvaro de Campos? O poeta, afinal, não encontrou — ou nem sequer procurou — consolo; antes prossegue com as suas deambulações, e com estas continuam a entrar e desfilar no poema o pó, as luzes mortiças, o sufoco no ar que respira, a miséria de um mendigo cuja fortuna sofreu uma revolução, pessoas personagens várias, vivendo “emparedadas”, lojas e tabernas, em suma, o real que lhe causa o desejo absurdo de sofrer. Afinal, o desejo é de poesia, e esta existe, revela-se, exacerbante, úbere da “Dôr humana” e das “marés de fel” que a compõem.

A mim, como leitor, foi o último verso desta estrofe que me salvou. Uma noite acabada a comer pão quente, acabado de sair do forno, era bem acabada. Tinha necessariamente de ser um epílogo. Na década da minha primeira juventude (os anos 80), algumas madrugadas de boémia acabaram assim. No Mercado da Ribeira, havia uma casa que era santuário de peregrinação de noctívagos. Havia outras dessas padarias, noutros locais.
A vida, a condição e a idade cessaram de ser desta sorte, pelo que desconheço se ainda existem padarias dessas, que de madrugada servem, salutarmente, o bom pão quente, fresco do forno, redenção de noctâmbulos e foliões. Contudo, as voltas da vida levaram-me, mais recentemente, a exercer por um período de tempo um emprego no Luxemburgo em horário nocturno. Nestas desoras, o que o meu ser todo cobiçava era uma fleuriane (uma baguete artesanal feita de farinha de tripo isenta de aditivos, com crosta estaladiça sob a qual se esconde um miolo de gosto pronunciado) da minha padaria francesa de Herserange, para comer bem recheada em opíparo pequeno-almoço. Antes de ir dormir, à hora a que a maioria da gente descreve o movimento contrário, o pão, ainda quente do forno, era o meu epílogo de dignidade e honra, de saúde e salvação.
Com certeza que tu, Cesário Verde, o sentias.










[1] Segui, naturalmente, a ortografia da 1.ª edição, da responsabilidade de Silva Pinto.