quarta-feira, maio 23, 2018

AS PREGAS

“se eu tão-somente tocar na borda do seu manto, sararei”
Ev. Mateus 9:21


O meu manto tem muitas pregas
uma para deter o teu sangue,
que na torrente com que jorra
lava de ti gota a gota as cores
e os músculos do coração
outra guarda as lágrimas
que a dor, ao castigar
a tua persistente negação
sem uma vara a que se amparar,
te deixou como tristíssimo refrigério
há uma outra para dilatar o som
dos teus clamores e fazê-los voar
por sobre os montes, em busca
do socorro, até quem a ele será sensível,
até quem a ele atenderá
assim nos céus como na terra
há uma prega no meu manto
que é uma tenda para dormires
os teus Invernos, ela é o calor
da casa, o lume fluido
dos serões em festa na família,
enquanto o frio vai caindo lá fora
se me tocares nesta prega
limparás a vergonha, não mais poderão
continuar a dizer que és aquela
impura que corre sangue
e que tudo mancha à passagem do teu manto
Rui Miguel Duarte
29/04/18

domingo, janeiro 28, 2018

O pão nosso de cada dia


Esta expressão encontra-se na célebre oração “Pai Nosso”, que todos, ou quase todos, aprendemos de cor.

A liturgia católica segue o texto do Evangelho segundo Mateus 6.9-13. O “Pai Nosso” não é, em rigor, uma oração. Jesus dissuadia os discípulos de recorrer a fórmulas e frases feitas e repetidas para se dirigirem ao Pai, princípio que enunciaram poucos segundos antes. Este era o modo de orar dos outros povos. O que ele fez foi mais propriamente fornecer-lhes um modelo de oração. Uma oração deveria então conter, à luz desse modelo: invocação e glorificação de Deus; anseio por que a sua vontade seja realizada e sujeição a esta; petições pelas necessidades humanas; petição da misericórdia de Deus na medida do exercício de misericórdia para com o próximo; invocação da protecção divina contra o mal. Pão aqui tem valor metonímico: representa o todo das necessidades humanas de alimento e sustento.
O texto grego reza: τὸν ἄρτον ἡμῶν τὸν ἐπιούσιον δὸς ἡμῖν σήμερον (ton arton hēmōn ton epiousion dós hēmin sêmeron). Merece a pena determo-nos nele. Pão é ἄρτος (artos, ἄρτον é forma de acusativo). A petição completa é: “o pão nosso de cada dia dá-nos hoje”. O texto de Lucas 11.2-4 apresenta uma pequena variante, nas últimas palavras do versículo: δίδου ἡμῖν τὸ καθ᾽ ἡμέραν (dídou hēmin tò kath’ hēméran “dá-nos quotidianamente”, ou “o de cada dia”). Do adjectivo ἐπιούσιος (epioúsios), que ocorre em ambas as transcrições das palavras de Jesus) a tradução é: “quotidiano, de cada dia”. A “velha tradução latina” (Vetus Latina) inaugurou a tradição (quotidianum). As línguas modernas têm-na simplesmente seguido. Por exemplo, entre nós, a recente (de 2009) tradução interconfessional A Bíblia para todos (BPT), com a chancela da Sociedade Bíblica de Portugal: “o pão de que precisamos”. Informa Orígenes que o termo teria sido cunhado pelos evangelistas[1]. Tratar-se-ia, deste modo, de um hapax legómenon. Por meio desta expressão grega se designa um vocábulo ou forma morfológica de uma língua de que somente se conhece uma única ocorrência atestada. Todavia, no século XX foi assinalada a descoberta do papiro Sammelbuch 5224,20, do século V d.C., contendo uma banal lista de compras. Nesse papiro, achou-se o termo em questão inscrito junto aos nomes de diversos artigos de mercearia. A pessoa que elaborou a lista teria querido precisar que as quantidades a comprar não deveriam transcender quanto bastasse para uma ração diária. Perdido por um certo tempo, o papiro reapareceu em 1998 na Yale Beinecke Library. Novos estudos levaram a concluir que a transcrição inicial fora incompetente e que o papiro lê outra coisa, EΛΑΙΟΥ (ELAIOU) “de azeite”. Afinal, sempre temos um hapax.
Contudo, o vocábulo grego é de derivação ambígua e dúbia. E por assim ser, são igualmente dúbios e ambíguos os sentidos possíveis. Se derivado de ἐπιοῦσα (episoúsa), forma feminina do particípio do verbo ἔπειμι (épeimi), formado do prefixo ἐπί (epí“sobre”) com εἰμί (eimí “ser”), tem, entre outros, os sentidos de “estar ou ser iminente, presente, sobreviver”. Para facilitar ao leitor o acompanhamento da análise da questão, assinalarei doravante este verbo como épeimi1 Neste caso, tratar-se-ia de pedir o pão ou o alimento do sustento diário.

Pão vivo

Outra formação possível do termo teria por base o tema do tema do particípio ἐπιοῦσα (epioúsa) na forma feminina do verbo de ἔπειμι (épeimi, ou, para comodidade do leitor e para o distinguir do verbo anterior, épeimi2), derivado do mesmo prefixo ἐπί (epí“sobre”) e de εἶμι (eími “ir, vir”). Em algumas das suas formas conjugadas, os dois verbos são homógrafos. Entre essas formas, a da primeira pessoa do singular do presente do indicativo. Fenómenos destes ocorrem em verbos irregulares. Poderíamos, salvaguardadas as distâncias entre os idiomas, comparar com os verbos portugueses ir ser, cujos sistemas do perfeito (pretérito perfeito e mais-que-perfeito) são, na conjugação, totalmente idênticos. Regressando ao nosso tema, o sentido seria diferente, virado para o futuro: o pão, o sustento “por vir”. A última tradução dos Evangelhos em português, por Frederico Lourenço (publicada pela Quetzal em 2016), segue esta interpretação básica: “o pão de amanhã”. E em nota ao texto de Mateus observa que o particípio do verbo épeimi ocorre não apenas em autores clássicos (por exemplo, Platão) como igualmente na Bíblia, na Septuaginta em Provérbios 27.1 e, no Novo Testamento, em Actos dos Apóstolos 16.11. Aliás, neste último livro, há um total de cinco ocorrências, todas no dativo, indicando todas “o dia seguinte”. Tratar-se-ia de pedir já para hoje a provisão de pão que pertence a amanhã.
O pão por vir pode compreender um outro sentido, mais elevado. A hermenêutica deste termo prestar-se-ia a um entendimento além do mais simples e literal. Seria o pão vivo, o verdadeiro maná que é o próprio Jesus (João 6.47-49). A alusão seria ao pão eucarístico, o corpo de Jesus cuja entrega foi anunciada pelo próprio em outras duas ocasiões: num discurso, na margem do Mar da Galileia (Lago Tiberíades), em que se identifica a si mesmos como o pão vivo e ensina os ouvintes sobre a necessidade de o comerem para terem vida, a vida de Deus (ζωή), discurso que escandalizou os auditores (ler todo o capítulo João 6); e na Última Ceia, na presença restrita dos Doze, em termos idênticos aos daquele discurso, mas sem que nesse momento suscitasse a indignação daquele outro (Mat. 26.26; Mar. 14.22; Luc. 22.19; 1 Cor. 11.23-24). Anunciada explicitamente duas vezes, implicitamente uma (no Pai Nosso), essa entrega haveria de se consumar na crucificação. Entre os autores da Patrística, este pedido foi amplamente entendido deste modo, como uma alusão ao pão eucarístico: Jesus oferece-se à morte e o seu corpo, ele mesmo, é o alimento que nutre os seus discípulos, integrando-os nele, para formarem com ele um só Corpo (ver Rom. 12 e últimos versículos de1 Cor. 11).

Pão Palavra

Outro entendimento tem a teologia reformada. Lutero, em Explicação do Pai Nosso, vê no pão Palavra. Esta interpretação é compatível com a declaração do próprio Jesus a Satanás, com a qual se defende da primeira das três tentações a que este o sujeita no deserto (Evangelho segundo Mateus 4.4; Lucas 4.4): “O homem não vive de pão só, mas de toda a palavra oriunda da boca de Deus.” A declaração, citação de Deuteronómio 8.3, institui uma analogia que se reparte em pólos de um binómio. Primeiramente, este último: o pão e a palavra marcam de uma constante de significado, a ideia de alimento (segundo a terminologia de Greimas, uma “isotopia”)Mas, a diferença assenta naquilo em relação ao qual o objecto que designam constitui alimento, isto é, cada uma das dimensões do homem: um é alimento para o corpo, o outro para a alma e o espírito; um é pão no sentido próprio, ao passo que o outro, a palavra, o é por analogia. A referência ao pão no Pai Nosso suscita duas leituras, segundo os hábitos exegéticos da comunidade nacional e religiosa que produziu os textos bíblicos e foi o seu primeiro destinatário, os Hebreus. Uma é eminentemente literal, denotativa e remete para o mundo e vivência empírica, compreendendo o pão como alimento para o corpo físico; outra é alegórica, evoca um significado mais mediato, entendendo o termo como designativo de um outro alimento, mais elevado e espiritual. Dito de um modo corrente: o pão é para o corpo o que a palavra é para o espírito. Assim se compreenderia a exegese luterana. Que não se aparta muito, de resto, da católica romana: para Jesus, a oração expõe perante Deus o pedido de satisfação das nossas maiores necessidades, sendo a maior de todas a do espírito.
Temos, pois, duas etimologias, cada uma das quais gera uma via de interpretação e, por consequência, uma tradução distinta. Por qual decidir? Bento XVI (Joseph Ratzinger), no capítulo dedicado a este texto no II volume da trilogia Jesus von Nazareth, observa justamente que entender a petição por antecipação (que seja dado hoje o que pertenece a amanhã) não se acomoda muito bem ao estilo de vida dos discípulos. A menos que a petição pelo pão futuro fosse pelo tal pão vivo eucarístico, que é Jesus. Fiel a esta exegese corrente no seio da Patrística, Jerónimo, na sua versão latina (a Vulgata), cunhou, por decalque puro e simples do grego, o lema latino supersubstantialissuper por ἐπί (epi); substantialis por οὐσία (ousía, “essência” ou “substância”). Portanto, o pão da “nova substância” ou “essência”. Porém, a exegese jeronimiana é, por assim dizer, mista, visto que o étimo que lhe subjaz é o particípio de épeimi1 “sobre + ser; sobreviver”. Ao grego ousía corresponde literalmente em latim essentia ou substantia. Este seria o pão superior, que está acima daquele que é simplesmente essencial e substancial, isto é, Cristo, o pão da ceia eucarística.

“O pão de amanhã”

A despeito das ocorrências do particípio de épeimi2, entendo que deve ser dada razão à reserva de Ratzinger e ao testemunho de Orígenes. Temos um hapax. E a interpretação sugerida (“o pão de amanhã”) não só não está em harmonia com o modo de vida dos discípulos como, muito menos, com o ensino de Mestre, em especial com o expresso neste longo discurso. O texto e o contexto viabilizam esta interpretação tradicional: orar pelo sustento do dia-a-dia, um dia de cada vez, é a forma certa de confiar em Deus, sem a antecipação ansiosa pelo dia de amanhã, que é típica dos pagãos, como Jesus explicita de modo mais claro um pouco mais adiante (Mat. 6.25-33). Porque havemos de estar ansiosos e preocupados com o que havemos de comer, beber e vestir amanhã? Aprecie-se o conselho final (vv. 32-33):
πάντα γὰρ ταῦτα τὰ ἔθνη ἐπιζητοῦσιν· οἶδεν γὰρ ὁ πατὴρ ὑμῶν ὁ οὐράνιος ὅτι χρῄζετε τούτων ἁπάντων. Ζητεῖτε δὲ πρῶτον τὴν βασιλείαν [τοῦ θεοῦ] καὶ τὴν δικαιοσύνην αὐτοῦ, καὶ ταῦτα πάντα προστεθήσεται ὑμῖν. Μὴ οὖν μεριμνήσητε εἰς τὴν αὔριον, ἡ γὰρ αὔριον μεριμνήσει ἑαυτῆς· ἀρκετὸν τῇ ἡμέρᾳ ἡ κακία αὐτῆς.
Com efeito, todas estas coisas procuram os gentios. O vosso Pai celeste sabe bem que tendes necessidade delas todas. Procurai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e todas elas vos serão acrescentadas. Portanto, não fiqueis preocupados com o amanhã, porque o amanhã já terá as suas próprias preocupações. Suficiente é para o dia[2] o seu próprio mal.
Palavras claras. A petição pela provisão diária é a de uma vida cristã simples, rica ou pobre (medite-se nas palavras do apóstolo Paulo em Filipenses 4.12-16), sabedora de que não pode confiar nas circunstâncias e nos recursos materiais. Estes podem existir ou não, ser proveitosos ou falhar de um momento para o outro. Antes, confia-se a Deus e reconhece que este é a fonte donde tudo provém, dadora de tudo quanto é necessário no momento em que necessário é. É um duplo desafio: por um lado, a uma fé não cega, mas que se traduz numa confiança absoluta fundada na certeza de que Deus é o Pai, e o Pai do céu, que, de forma e em medida mais perfeita do que os pais da terra, amam os filhos; por outro, a uma vida de mente tranquila, que frui o dia que corre. Horácio, na Roma pagã, imbuído de sabedoria epicurista mas num horizonte sem deus, não o expressara melhor décadas antes, na célebre ode 1.11, em que aconselhava a destinatária poética, Leucónoe, a não procurar adivinhar o futuro, devendo antes conformar-se com o dia de hoje e com o que este traga, ou não traga: carpe diem, quam minimum credula postero “colhe cada dia, confiando o menos possível no amanhã”[3].
Mais à frente, Jesus retoma o tema do pão. Estamos ainda na mesma lição (Mat. 7.9). Dar pão é marca, atributo de um pai; mais, de um pai que ama. Os pais da terra – diz – não dão pedras aos filhos, ao pedirem-lhes estes pão. Esta razão justifica a tese dos versículos do capítulo 6: Deus é Pai, o Pai por excelência. E confirma logicamente, em meu entender, a petição pelo pão diário.
Como quer que seja, falta-nos o texto aramaico das reais palavras de Jesus, que –aspecto que deve ser realçado – nesta língua as teria proferido, e não em grego. No silencia dele temos apenas a mediação grega e é só a partir destas que se constroem as hermenêuticas.

NOTAS

[1] Sobre a oração 17. Teólogo cristão de Alexandria (184/185 – 253/254 a.C.), escritor pródigo, foi um dos mais notórios cultores da hermenêutica alegórica das Escrituras. Nesta perspectiva, entre as várias abordagens interpretativas dos textos, o superior e mais perfeito era o alegórico, aquele pelo qual o texto comunica um sentido moral e espiritual, não discernível numa leitura imediata e literal.
[2] Traduzi de raiz o passo, por a versão BPT não me parecer suficientemente satisfatória. Frederico Lourenço interpreta e acrescenta bem, para completar o sentido da frase, . Pois é do hoje que Jesus fala.
[3] Conforme a tradução de Pedro Braga Falcão, Lisboa, Cotovia, 2008.


Publicado primeiramente no Jornal Tornado


Pão e utopia

Este capítulo poderia chamar-se de outro modo. Por exemplo, Pão e revolução. 
Mas também poderia chamar-se O pão da esperança, ou das esperanças, por simbolizar esperanças de poetas e profetas, diversas nos meios e em parte nos resultados, mas partilhando o ideal de um estado civilizacional perfeito, ou a raiar a perfeição da justiça, da paz e da prosperidade. Chamei-o Pão e utopia. Como designação, é mais bela e evocadora de um fértil e longo imaginário cultural e literárioEstes dois vocábulos definem, julgo que de forma mais perfeita do que nenhum outros, as isotopias que nortearão a análise que se seguem e aquilo que há em comum entre o poeta Sérgio Godinho, Pablo Neruda, Artur Fonseca, Vasco Matos Sequeira e Reinaldo Ferreira e o hino do PSD.
Entre os cinco primeiros nomes ainda se pode, à primeira vista, perceber a partilha de pontos em comum. Trata-se de poetas, portugueses e um chileno, sendo que um, Sérgio Godinho, é o que se chama um cantautor, um autor de poesia que canta os próprios poemas, uma espécie de trovador dos séculos XX e XXI. Mas o que faz aqui o hino de um partido político? Bom, um hino o que é, senão um poema cantado? Sim, o PSD tem um hino. Pouco tem a ver com o PSD e a sua realidade de hoje, mas remetem para um ponto no friso cronológico da História em que a utopia emergira e conduzia a realidade, em que era o motor da História. Vamos então ao pão e à utopia.
O pão mereceu a Neruda um longo poema de versos curtos e rápidos, a Oda al pán. E o poema merece ser transcrito na íntegra:

Oda al pán

Pan,
con harina,
agua
y fuego
te levantas.
espeso y leve,
recostado y redondo,
repites el vientre
de la madre,
equinoccial
germinación
terrestre.
Pan,
qué fácil
y qué profundo eres:
en la bandeja blanca
de la panadería
se alargan tus hileras
como utensilios, platos
o papeles,
y de pronto,
la ola
de la vida,
la conjunción del germen
y del fuego,
creces, creces
de pronto
como
cintura, boca, senos,
colinas de la tierra,
vidas,
sube el calor, te inunda
la plenitud, el viento
de la fecundidad,
y entonces
se inmoviliza tu color de oro,
y cuando se preñaron
tus pequeños vientres,
la cicatriz morena
dejó su quemadura
en todo tu dorado
sistema de hemisferios.
Ahora,
intacto,
eres
acción de hombre,
milagro repetido,
voluntad de la vida.
Oh pan de cada boca,
no
te imploraremos,
los hombres
no somos
mendigos
de vagos dioses
o de ángeles oscuros:
del mar y de la tierra
haremos pan,
plantaremos de trigo
la tierra y los planetas,
el pan de cada boca,
de cada hombre,
en cada día,
llegará porque fuimos
a sembrarlo
y a hacerlo,
no para un hombre sino
para todos,
el pan, el pan
para todos los pueblos
y con él lo que tiene
forma y sabor de pan
repartiremos:
la tierra,
la belleza,
el amor,
todo eso
tiene sabor de pan,
forma de pan,
germinación de harina,
todo
nació para ser compartido,
para ser entregado,
para multiplicarse.
Por eso, pan,
si huyes
de la casa del hombre,
si te ocultan,
te niegan,
si el avaro
te prostituye,
si el rico
te acapara,
si el trigo
no busca surco y tierra,
pan,
no rezaremos,
pan,
no mendigaremos,
lucharemos por ti con otros hombres,
con todos los hambrientos,
por todos los ríos y el aire
iremos a buscarte,
toda la tierra la repartiremos
para que tú germines,
y con nosotros
avanzará la tierra:
el agua, el fuego, el hombre
lucharán con nosotros.
iremos coronados
con espigas,
conquistando
tierra y pan para todos,
y entonces
también la vida
tendrá forma de pan,
será simple y profunda,
innumerable y pura.
Todos los seres
tendrán derecho
a la tierra y a la vida,
y así será el pan de mañana,
el pan de cada boca,
sagrado,
consagrado,
porque será el producto
de la más larga y dura
lucha humana.
No tiene alas
la victoria terrestre:
tiene pan en sus hombros,
y vuela valerosa
liberando la tierra
como una panadera
conducida en el viento.
Ode aparece no livro Odas elementales, de 1954. Exalta essa coisa simples e elementar que é o pão e seu processo de fabrico, mas também a sua qualidade matricial, genesíaca, da vida humana na terra. Palavras e isotopias como “el ventre / de la madre, germen, tierra, la ola / de vida, fuego” são disso sinal. Intrinsecamente ligado à terra, torna-se símbolo de fecundidade, com formas de corpo feminino. Uma função e uma essência que se tornam redentoras, mas não divinas, porquanto “no somos / mendigos / de vagos dioses / o de ángeles oscuros”, antes por acção do homem (“acción de hombre”, “porque será el producto / de la más larga y dura / lucha humana), que de pão colonizará mesmo os mares e planetas, mas o “pan de cada boca”. O ideal do poeta visa pois um alcance universal. Mas vira-se irresistivelmente para os homens, todos, cuja fome o pão matará: “no para un hombre sino / para todos, el pan, el pan / para todos los pueblos”. O anseio do poeta é de uma salvação para a Humanidade inteira, no pão irmanada. O seu discurso incessantemente se alarga e estreita entre o particular (cada homem) ao universal (todos os homens e povos, terra e planetas). O pão que dá o sabor à “terra”, à “belleza” e ao “amor”. Três lexemas que por sinédoque dizem o alcance universal, o todo do homem e da sua vida.
Na utopia nerudiana, os povos e a terra ver-se-ão livres de opressores, do “rico” e do “avaro”. É uma utopia ateia, inteiramente épica e por isso resultante da obra e realização humanas, embora não isso menos “sagrado, / consagrado”, qualificações próprias do domínio do transcendente, dos domínios espiritual e religioso. Outro desses lexemas do domínio religioso, usado pelo poeta, é “milagro”. Neruda era comunista e o comunismo é filosoficamente um ateísmo. Todavia, o seu ideário, a sua aspiração de uma espécie de redenção da Humanidade releva do mesmo impulso religioso que, em qualquer outro membro da espécie humana, percebe os mais diversos males na sua espécie e procura fora e acima de si o desatar das ataduras e a salvação. Face à negação de Deus, ou de qualquer deus, um Ideal ocupará esse lugar. O poeta não é filósofo nem o puro materialista dialéctico: expressa o anseio da alma, busca a redenção. Quer seja a alma do crente, do santo ou de um qualquer homem. Ao poeta autorizado está a celebração e o sonho arrebatado de plenitude e liberdade, aqui na “victoria terrestre”. “No rezaremos”, e porém, quão reminiscente parece ser este apelo e anelo do da da oração pelo “pão nosso de cada dia” de Jesus, “aqui na terra” restaurada que, como nas promessas no livro de Êxodo, “mane leite e mel”. Para todos os povos. O pão que, como o dos Judeus e o pão vivo que é Jesus, é para ser “compartido”. E eis-nos regressados a um ponto a que aportámos noutro capítulo: o pão, mais do que alimento, é um elo entre pessoas.
O pão como elemento do “lema” comunista / socialista remonta, ao que parece, a Vladimir Ilitch Ulianov, Lenine. Era o ano de 1917, a Europa encontrava-se mergulhada na Primeira Guerra Mundial, e na Rússia, que também nela beligerava, corria a revolução contra o regime imperial dos czares, após a deposição do último soberano, Nicolau II. A frase é: “Paz, terra e pão; todo o poder aos sovietes.” Ao partido bolchevique, comunista, não agradava o rumo social-democrata e moderado que a Revolução de Fevereiro estava seguindo. Lenine, regressado a Petrogrado (S. Petersburgo) do exílio, apresenta aos seus companheiros, a 4 de Abril (segundo o antigo calendário russo), uma série de dez directrizes sobre o rumo que, em seu entender, deveria a Revolução seguir. Três dias depois, publica-as em artigo no jornal Pravda. A frase citada constitui o lema que sintetiza estas directrizes, que ficaram conhecidas como Teses de Abril. Todos os pontos expressos no lema se entendem circunstancialmente. O primeiro propósito, de paz, aponta a saída da Rússia da guerra, a mais terrível de quantas até então se haviam travado; segundo Lenine, “uma guerra burguesa do capitalismo”. A terra: o movimento tinha como plano a reforma agrária, com novas formas de redistribuição das terras destinadas ao sector primário, que passariam pela sua expropriação aos senhores terratenentes. Então, o Estado deveria redistribuí-las, com vista a serem exploradas colectivamente por quem de facto nelas trabalhava, os camponeses. O pão representava o desígnio de garantir que todos teriam o que comer, desta forma se acabando com a pobreza e fome. A Rússia era, no contexto das potências europeias e mundiais, um país vasto com uma maioria de população sobrevivendo na mais vergonhosa miséria, governado por monarcas hereditários imperiais, ditos “Césares” (os czares ou tzares), autocratas absolutos, num regime económico e social de tipo fortemente feudal. Finalmente, nas Teses Lenine apelava aos trabalhadores, reunidos em sovietes (conselhos de operários), que cessassem toda a sorte de colaboração com o Governo Provisório e tomassem o poder. Só desse modo se garantiria a mudança total de regime social e económico e a satisfação das necessidades dos trabalhadores do país.
Neruda, filho do marxismo, é, neste poema, um vate (no duplo sentido de poeta e profeta) desta utopia. Esta perduraria com declinações em outras paragens. Aportemos a Portugal. No nosso país, o 25 de Abril de 1974 foi “o dia inicial inteiro e limpo”, como o cantou Sophia de Mello Breyner Andresen. Jovem ainda era a Revolução dos Cravos, os cidadãos, de repente libertos de longa hibernação e jugo, saltam, tão frescos quanto eternos, para o quotidiano social, dos relacionamentos, palavras e gestos, da sociedade e da cultura, para a vida. Na exaltação da mudança, tanto da já conseguida como da esperada, o cantautor Sérgio Godinho regressa a Portugal  com 29 anos de idade, pondo fim a uma ausência de onze. Com o fogo da Revolução ainda inflamado, lança o seu terceiro álbum de originais, À queima-roupa. O primeiro tema intitula-se, justamente, “Liberdade”:

Liberdade

Viemos com o peso do passado e da semente
esperar tantos anos torna tudo mais urgente
e a sede de uma espera só se ataca na torrente
e a sede de uma espera só se ataca na torrente

Vivemos tantos anos a falar pela calada
só se pode querer tudo quanto não se teve nada
ó se quer a vida cheia quem teve vida parada
só se quer a vida cheia quem teve vida parada

Só há liberdade a sério quando houver
a paz o pão
habitação
saúde educação
só há liberdade a sério quando houver
liberdade de mudar e decidir
quando pertencer ao povo o que o povo produzir.
A canção é toda ela um manifesto, um quase completo programa político, social e cultural, a síntese perfeita do espírito e das aspirações depositadas na Revolução dos Cravos por largas camadas de Portugueses, findos os quarenta e oito anos de ditadura. O tempo é de todas as utopias de um devir radioso e mais feliz para todos. É óbvia a inspiração, de novo conforme o espírito do século: socialista. Nela, o pão vem associado, mais uma vez, à paz, e a ambas “a paz o pão / habitação / saúde educação”. A liberdade é um ideal transversal e universal; enquanto conceito, é, na canção de Sérgio Godinho, a matriz de tudo, pois a tudo ela abrange e para ela tudo tende. O novo homem dos novos tempos, os da utopia socialista, é livre, senhor de si próprio e das suas obras, mas é-o na medida em que tem condições de que antes estava desprovido, enquanto direitos que são efectivamente detidos e exercidos: a paz, o alimento, habitação, saúde e educação. Anteriormente, estes direitos mão existiam enquanto tais. Assim se caracteriza a “liberdade a sério”. Respirava-se a liberdade reconquistada, após a longa e odiada ditadura que sufocou as liberdades e as consciências e tratou com injustiça social a população, repartida entre uma elite arregimentada e detentora do poder político e económico e uma maioria de pessoas vivendo “habitualmente” — como o Presidente do Conselho entendia a vida dos Portugueses —, no remedeio, e entre as quais grassavam baixos níveis de escolaridade, para não dizer de analfabetismo. Segundo o Pordata, em 1970 a taxa de analfabetismo contava-se em 25,7 %. Um pouco acima de um em cada quadro portugueses. A tudo isto aponta a canção de Sérgio Godinho, elevando a esperança. Não se diria utopia, mas esperança, vera, de uma concretização no tempo e no espaço próximos, neste mundo referencial. O pós-25 de Abril foi essa era em que o sonho (para me exprimir como António Gedeão) comandava a vida.
Não há acasos nisto. O Zeitgeist era este, e enquanto tal, se insuflava vida à música e às canções, também o fazia às ideologias políticas, à legiferação e às concepções de devir social. Numa época em que se tornara difícil afirmar-se de direita e democrata — porquanto a noção de direita política se confundira, na semiologia política, com a de ditadura e esta com fascismo —, as ideias dedemocracia e de democrata ficaram impregnadas, em contrapartida, da acepção de ser de esquerda e defender uma interpretação da história e do devir social mais ou menos lineares ou variantes face ao modelo hermenêutico tutelar fundado por Marx. No espírito do tempo, pois, vulgarizara-se o entendimento de democracia como de um regime inclinado à esquerda, em que mesmo os partidos conotados com a direita política liberal (PPD/PSD) e democrata-cristã (CDS) se colocavam ao centro, conforme esta concepção de sociedade. Não há que admirar que os partidos políticos fundadores do parlamentarismo da III República, reunidos na Assembleia Constituinte, reunida a 2 de Abril de 1976, tenham aprovado e votado um texto de Constituição da República em cujo preâmbulo se lia:
A Assembleia Constituinte afirma a decisão do povo português de defender a independência nacional, de garantir os direitos fundamentais dos cidadãos, de estabelecer os princípios basilares da democracia, de assegurar o primado do Estado de Direito democrático e de abrir caminho para uma sociedade socialista, no respeito da vontade do povo português, tendo em vista a construção de um país mais livre, mais justo e mais fraterno.
O ideal de uma sociedade socialista, temperada por outros de génese anterior, oriundo da Revolução Francesa (veja-se afraternidade).
Não por acaso, o PPD/PSD, assenta no centro, não sem trair a hermenêutica marxista na declinação social-democrata e socialmente defensor de uma matriz democrata-cristã (compatível com a dignidade do indivíduo e da justiça social e com o propósito de proporcionar oportunidades de educação, saúde e trabalho para todos), avança com uma canção identitária, ainda hoje cantada entusiasticamente como hino em conclaves e comícios do partido. Sim, esse famoso:
Paz, Pão,
Povo e Liberdade
Todos sempre unidos
No caminho da verdade
Paz, Pão,
Povo e Liberdade
Todos sempre unidos
No caminho da verdade
Canta Povo canta
Por um Portugal em paz
Por uma democracia
P’lo nascer de um novo dia
Paz, Pão,
Povo e Liberdade
Todos sempre unidos
No caminho da verdade
Paz, Pão,
Povo e Liberdade
Todos sempre unidos
No caminho da verdade
Canta Povo canta
Trabalhando pelo pão
Com toda a tua vontade
Tu ganhaste a liberdade
Paz, Pão,
Povo e Liberdade
Todos sempre unidos
No caminho da verdade
De novo o binómio paz pão, pão pelo qual se trabalha, fim e recompensa do trabalho e metonímia pelo sustento. De tudo isto, o sujeito e agente é colectivo: o povo todos unidos, um plural que é perífrase deste povo. Como no mote de Lenin (os sovietes). Na canção de Sérgio Godinho, um tu, no qual se implica o ouvinte, representante desse povo. Como nesta, aparece a liberdade como alvo: conquistada e a construir, não um evento, um aoristo pontual (como no verno grego antigo), mas um presente contínuo e imperfeito, (ainda) inacabado.
Estranho, se me é permitida esta observação, é verdade. Ou pelo menos, invulgar. O que é a verdade? — foi a pergunta de Pôncio Pilatos, transcrita no Evangelhos segundo João 18:38, a uma declaração identitária de Jesus: “Eu sou testemunha da verdade.” Uma resposta, aparentemente, de cepticismo e de pouca paciência para o que lhe pareceria ser algo mais do domínio dos debates sofísticos filosóficos, com os quais ele nada teria de familiar. Pilatos era um político e um militar à romana, o que lhe interessaria mais senão a pragmática fria da governação, da subjugação e taxação dos povos súbditos e ocupados e a manutenção do seu emprego e vida perante aquele a quem tinha de responder, o imperador? Aristóteles, na Retórica, defendera que esta trata daverosimilhança e não da verdade. Estando a retórica ligada à política (debates de cidadãos nas assembleias legislativas, nos tribunais e em outras ocasiões), a questão da verdade fora relegada para a filosofia.
Então pois, o que é a verdade? E o que faz ela num hino de um partido político? Não parece que se tenha pretendido conferir-lhe dignidade filosófica, mas uma mais banal questão de sublimidade de palavras, de grandiloquência. Sim, o hino como um épico, que para se expressar selecciona palavras grandes, ideais, de absoluto. Assim se podem, penso, explicar, além da verdade, a liberdade e a exaltação do trabalho e do fruto do trabalho, o pão. Questão de estilo, de escolha de léxico, pois. E de espírito do tempo. Sinais de outros tempos, portanto.
 Diferente no tom é a canção de Artur Fonseca, Vasco Matos Sequeira e Reinaldo Ferreira, a celebérrima Uma casa portuguesa, com música do primeiro e letra dos segundos:

Uma casa portuguesa

Numa casa portuguesa fica bem
Pão e vinho sobre a mesa
E se à porta humildemente bate alguém,
Senta-se à mesa com a gente
Fica bem essa fraqueza, fica bem,
Que o povo nunca a desmente
A alegria da pobreza
Está nesta grande riqueza
De dar, e ficar contente

Quatro paredes caiadas,
Um cheirinho a alecrim,
Um cacho de uvas doiradas,
Duas rosas num jardim,
Um São José de azulejo
Mais o sol da Primavera,
Uma promessa de beijos
Dois braços à minha espera

É uma casa portuguesa, com certeza!
É, com certeza, uma casa portuguesa!

No conforto pobrezinho do meu lar,
Há fartura de carinho
A cortina da janela é o luar,
Mais o sol que bate nel
Basta pouco, poucochinho p’ra alegrar
Uma existência singela
É só amor, pão e vinho
E um caldo verde, verdinho
A fumegar na tijela

Quatro paredes caiadas,
Um cheirinho a alecrim,
Um cacho de uvas doiradas,
Duas rosas num jardim,
Um São José de azulejo
Mais o sol da Primavera,
Uma promessa de beijos
Dois braços à minha espera

É uma casa portuguesa, com certeza!
É, com certeza, uma casa portuguesa!
É uma casa portuguesa, com certeza!
É, com certeza, uma casa portuguesa!
Lançada e gravada em 1953, foi celebrizada na voz de Amália Rodrigues. A canção descreve uma casa portuguesa ideal como como pobre, humilde, florida, com esperança de afectos, simples, colorida, rural. Tudo imbuído de um ideal de pobreza remediada e feliz. Para utilizar a expressão do poeta Horácio, uma aurea mediocritas (áurea mediania) económica, social e de espírito. Na década seguinte, Portugal mergulhado na guerra colonial e vendo partir jovens para África e outros, em fuga, para a emigração em massa, poderão ter servido de consolo nostálgico de um regresso à Pátria, aos afectos familiares e à casa deixada no rectângulo do extremo ocidental da Europa. Entre os elementos desse ideal de portugalidade, o pão e o vinho. Da mesma época, aliás (1955), data o filmeMarcelino, pan y vino, de Ladislao Vajda, produto de uma Espanha subjugada pela sua ditadura, a franquista, e cujo protagonista é um miúdo travesso e inocente.
Melodia ainda hoje trauteada, contribuiu para associar Amália ao Estado Novo e tornou-se ícone cultural forte de uma certa identidade portuguesa, precisamente moldada pelo modelo ideológico do regime. Esta questão não será aqui tratada, contentando-nos a aceitar a opinião corrente, que a própria expressou, de que nada tinha a ver com governo nenhum:
Embora tenham dito que era uma exportação do governo passado, é mentira, nunca fui nem serei de governo nenhum.”
  Disse numa entrevista a uma rádio, citada na sua autobiografia. Nem sequer os autores da canção pretenderam associar-se ao regime. Nuno Pacheco, em artigo do Público de 21 de Setembro de 2017, lembra os pormenores da sua génese: foi escrita num dia da década de 40, numa sala do cosmopolita Hotel Girassol, actual Girassol Bahia Hotel, em Lourenço Marques, hoje Maputo, capital de Moçambique, não no “Portugal profundo”, e surgiu de um episódio “picaresco”. Ora, Vasco Sequeira e Reinaldo Ferreira (filho do célebre Repórter X) entretinham-se a escrever versos pornográficos. Nisto, o maestro Artur Fonseca tê-los-á advertido que se encontravam numa casa portuguesa, o que, implicitamente, requeria “respeitinho”. Num ápice, Reinaldo Ferreira terá exclamado: “Ora aí está um bom título para uma canção!” Amália imortalizou-a, mas não  foi ela quem a estreou. A primeira difusão foi por rádio, na voz foi de Sara Chaves, uma cançonetista de Moçambique. Quanto a Amália, conta-se no livro O Fado da tua voz, Amália e os poetas, de Vítor Pavão dos Santos (Bertrand, 2014), não terá apreciado a canção mas, com vergonha de recusar, acabou por cantá-la, ainda que contrariada. E mais do que uma vez terá expressado um certo enfado em fazê-lo. A tese de Nuno Pacheco: há no poema de Reinaldo Ferreira mais ironia do que exaltação de uma lusa pobreza. Tal não impediu, todavia, que o regime tivesse adoptado, ou mais propriamente se tivesse apropriado, do poema, da canção e da cantora como ícones da sua concepção ideal de Portugal. A concepção de um país de gloríolas baças, de remedeios, de mediania e pobreza. Afinal, Salazar e o regime eram os intérpretes, os profetas e os executores do destino português, ao qual todos estavam sujeitos. O mesmo passe de propaganda e apropriação da excelência da arte, da cultura e do desporto que explica o célebre mito do Benfica como clube do regime. Mas um mito que, ao contrário do pessoano, é o tudo que é nada.


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Jornal Tornado

Nem só de pão vive o homem, mas também

Não aprecio particularmente pão branco. Nele, só gosto da parte menos branca, a côdea, e quanto mais morena melhor. Pélo-me por pão de outras cores: amarelo (broa de milho); o preto alemão; os vários pães de cereais franceses, e com figos e nozes. Tenho uma epifania com a broa de Avintes.
Acho sinceramente que quem gosta de pão branco tem um gene regressivo. Mas há um pão branco que me reconcilia com a cor e a espécie. Ele é a quintessência, a causa efficiens principalis de toda a panificação, o pão vivo e o maná. Com azeitonas, é outra epifania. Com marmelada ou queijo, proporciona uma experiência estética e sensorial mais perfeita e intensa do que uma sinfonia de Beethoven e é mais belo do que o coro dos cativos hebreus na Babilónia no Nabucco de Verdi. O pão acompanhando o vinho sobre a mesa da casa portuguesa de que fala a canção deve ser pão desse. Talvez o pão com que foi alimentado Elias pelos corvos e que Jesus e os seus discípulos comiam com peixe grelhado fosse um proto-pão desse. Os Antigos é que sabiam.
Comer um casqueiro alentejano deveria ser obrigatório para todos os mortais em todos os continentes e um ritual religioso a exigir mais devoção do que uma peregrinação.
Uma banal confissão, uma impressão sensorial e papilar, daquelas a que a maioria das mensagens publicadas no Facebook se reduz, gerou uma viagem. Uma viagem à degustação do pão. Gosto de pão, embora nem todos os tipos de pão colham as minhas preferências. E é verdade: o texto acima transcrito dever ser lido autobiográfica, embora não psicologicamente. Restrinjam-se, pois, as abordagens a uma hermenêutica que não deve passar de gustativa: gosto de pão e sou comedor de pão. Ponto.
Apresentem-me um pão acabado de sair do forno, estaladiço, do dia. Num restaurante, as esperas pela refeição são distraídas com pão, acompanhado das inevitáveis azeitonas, manteiga, paté ou queijo.
Tenho a certeza de que muitos — senão a maioria — dos leitores me entenderão. Entre tantas variedades de bases, acréscimos, cores, formas e — sobretudo — aromas, estou certo de que há sempre um tipo de pão preferido de cada um.
O pão pão, e o pão que provém das palavras. Neste gosto de textos viajaremos ao mundo do pão. Não tanto do pão que se come — sobre esse, quanto melhor é comê-lo do que falar dele; e enquanto se come não se fala. O pão como ícone, metonímia, como signo linguístico, cultural, literário e civilizacional. Viajaremos por civilizações, culturas, o pão de provérbios e ditados populares, o pão constante desde a Antiguidade até hoje. Asmo ou fermentado, o pão será sempre o pão. E na nossa casa há pão.
No acesso aos textos antigos, os a Bíblia, dos Clássicos gregos e latinos e de outras origens, procederei como se quer de um filólogo, fornecendo os textos nas línguas originais e traduções de minha lavra. Nos casos, porém, da existência de traduções em português, é destas traduções que citarei. Apresentar trabalho próprio, quando há trabalho alheio de reconhecida qualidade e por mãos competentes, não só seria, por assim dizer, um delito de lesa filologia como desonra científica a quem referência e honra merece. E este livro reclama-se de um duplo carácter, científico e de divulgação.
Venha o pão e vinho.

Publicado primeiramente no Jornal Tornado

UM CHEIRO SALUTAR

O poema O Sentimento dum ocidental de Cesário Verde é um dos poemas mais conhecidos da literatura de pátria e língua portuguesa, e com justiça. É, aliás, um dos daqueles pelos quais tenho predilecção.
Integra o único livro do autor, O livro de Cesário Verde, publicado postumamente (1887). No poema, composto de quatro secções, o sujeito poético descreve uma experiência de deambulação pela cidade de Lisboa, pelo fim da tarde. Nele desfilam pessoas, tipos sociais, lugares, acções, objectos, edifícios, ao ritmo das impressões emocionais que o espectáculo urbano lhe provoca, entre ospleen, um desejo de evasão e um mal du siècle de fim de século XIX. O início marca o tom. Porém, todo o bom poema merece ser degustado do princípio ao fim. Por isso, transcrevamo-lo todo:

O sentimento d’um occidental[1]

A Guerra Junqueiro


I
Avé-Marias
Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, Há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.
O céu parece baixo e de neblina,
O gaz extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se d’uma cor monótona e londrina.
Batem os carros d’alluguer, ao fundo,
Levando á via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposições, paizes:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!
Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edificações sómente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.
Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquetão ao hombro, enfarruscados, seccos;
Embrenho-me, a cismar, por boqueirões, por beccos,
Ou erro pelos caes a que se atracam botes.
E evoco, então, as chronicas navaes:
Mouros, baixeis, heroes, tudo ressuscitado!
Lucta Camões no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu não verei jámais!
E o fim da tarde inspira-me; e incommoda!
De um couraçado inglês vogam os escaleres;
E em terra n’um tinir de louças e talheres
Flamejam, ao jantar, alguns hotéis da moda.
N’um trem de praça arengam dois dentistas;
Um tropego arlequim braceja n’umas andas;
Os cherubins do lar flutuam nas varandas;
Às portas, em cabelo, enfadam-se os logistas!
Vasam-se os arsenaese as oficinas;
Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;
E n’um cardume negro, herculeas, galhofeiras,
Correndo com firmeza, assomam as varinas.
Vem sacudindo as ancas opulentas!
Seus troncos varonis recordam-me pilastras;
E algumas, á cabeça, embalam nas canastras
s filhos que depois naufragam nas tormentas.
Descalças! Nas descargas de carvão,
Desde manhã á noite, a bordo das fragatas;
E apinham-se n’um bairro aonde miam gatas,
E o peixe pôdre géra os focos de infecção!
II
Noite Fechada
Toca-se as grades, nas cadeias. Som
Que mortifica e deixa umas loucuras mansas!
O Aljube, em que hoje estão velhinhas e creanças,
Bem raramente encerra uma mulher de «dom»!
E eu desconfio, até, de um aneurisma
Tão mórbido me sinto, ao accender das luzes;
Á vista das prisões, da velha sé, das cruzes,
Chora-me o coração que se enche e que se abysma.
A espaços, illuminam-se os andares,
E as tascas, os cafés, as tendas, os estancos
Alastram em lençol os seus reflexos brancos;
E a lua lembra o circo e os jogos malabares.
Duas egrejas, n’um saudoso largo,
Lançam a nódoa negra e funebre do clero:
N’ellas esfumo um ermo inquisidor severo,
Assim que pela Historia eu me aventuro e alargo.
Na parte que abateu no terremoto,
Muram-me as construcções rectas, eguais, crescidas;
Affrontam-me, no resto, as ingremes subidas,
E os sinos dum tanger monástico e devoto.
Mas, n’um recinto publico e vulgar,
Com bancos de namoro e exiguas pimenteiras,
Bronzeo, monumental, de proporções guerreiras,
Um épico d’outr’ora ascende, n’um pilar!
E eu sonho o Colera, imagino a Febre,
N’esta acumulação de corpos enfezados;
Sombrios e espectraes recolhem os soldados;
Inflama-se um palácio em face de um casebre.
Partem patrulhas de cavalaria
Dos arcos dos quarteis que foram já conventos:
Edade-média! A pé, outras, a passos lentos,
Derramam-se por toda a capital, que esfria.
Triste cidade! Eu temo que me avives
Uma paixão defunta! Aos lampeões distantes,
Enlutam-me, alvejando, as tuas elegantes,
Curvadas a sorrir ás montras dos ourives.
E mais: as costureiras, as floristas
Descem dos magasins, causam-me sobressaltos;
Custa-lhes a elevar os seus pescoços altos
E muitas d’ellas são comparsas ou coristas.
E eu, de luneta de uma lente só,
Eu acho sempre assunto a quadros revoltados:
Entro na brasserie; ás mesas de emigrados,
Ao riso e á crua luz joga-se o dominó.
III
Ao gaz
E saio. A noite peza, esmaga. Nos
Passeios de lajedo arrastam-se as impuras.
Ó molles hospitais! Sai das embocaduras
Um sopro que arripia os ombros quase nus.
Cercam-me as lojas, tépidas. Eu penso
Ver círios laterais, ver filas de capelas,
Com santos e fiéis, andores, ramos, velas,
Em uma catedral de um comprimento imenso.
As burguezinhas do Catolicismo
Resvalam pelo chão minado pelos canos;
E lembram-me, ao chorar doente dos pianos,
As freiras que os jejuns matavam de hysterismo.
N’um cutileiro, de avental, ao torno,
Um forjador maneja um malho, rubramente;
E de uma padaria exala-se, inda quente,
Um cheiro salutar e honesto a pão no forno.
E eu que medito um livro que exacerbe,
Quisera que o real e a análise mo dessem;
Casas de confecções e modas resplandecem;
Pelas vitrines olha um ratoneiro imberbe.
Longas descidas! Não poder pintar
Com versos magistrais, salubres e sinceros,
A esguia difusão dos vossos reverberos,
E a vossa pallidez romântica e lunar!
Que grande cobra, a lubrica pessoa,
Que espartilhada escolhe uns chales com debuxo!
Sua excellencia attráe, magnética, entre luxo,
Que ao longo dos balcões de mogno se amontoa.
E aquella velha, de bandós! Por vezes,
A sua traîne imita um leque antigo, aberto,
Nas barras verticais, a duas tintas. Perto,
Escarvam, á victoria, os seus mecklemburguezes.
Desdobram-se tecidos estrangeiros;
Plantas ornamentaes seccam nos mostradores;
Flócos de pós de arroz pairam suffocadores,
E em nuvens de cetins requebram-se os caixeiros.
Mas tudo cansa! Apagam-se nas frentes
Os candelabros, como estrellas, pouco a pouco;
Da solidão regouga um cauteleiro rouco;
Tornam-se mausoléus as armações fulgentes.
«Dó da miséria!… Compaixão de mim!…»
E, nas esquinas, calvo, eterno, sem repouso,
Pede-me esmola um homenzinho idoso,
Meu velho professor nas aulas de latim!
IV
Horas mortas
O tecto fundo de oxygenio, d’ar,
Estende-se ao comprido, ao meio das trapeiras;
Vem lágrimas de luz dos astros com olheiras,
Enleva-me a chimera azul de transmigrar.
Por baixo, que portões! Que arruamentos!
Um parafuso cai nas lajes, às escuras:
Collocam-se taipaes, rangem as fechaduras,
E os olhos d’um caleche espantam-me, sangrentos.
E eu sigo, como as linhas de uma pauta
A dupla correnteza augusta das fachadas;
Pois sobem, no silencio, infaustas e trinadas,
As notas pastoris de uma longinqua flauta.
Se eu não morresse, nunca! E eternamente
Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas!
Esqueço-me a prever castissimas esposas,
Que aninhem em mansões de vidro transparente!
Ó nossos filhos! Que de sonhos ageis,
Pousando, vos trarão a nitidez às vidas!
Eu quero as vossas mães e irmãs estremecidas,
N’umas habitações translúcidas e frageis.
Ah! Como a raça ruiva do porvir,
E as frotas dos avós, e os nómadas ardentes,
Nós vamos explorar todos os continentes
E pelas vastidões aquaticas seguir!
Mas se vivemos, os emparedados,
Sem arvores, no vale escuro das muralhas!…
Julgo avistar, na treva, as folhas das navalhas
E os gritos de soccorro ouvir, estrangulados.
E n’estes nebulosos corredores
Nauseam-me, surgindo, os ventres das tabernas;
Na volta, com saudade, e aos bordos sobre as pernas,
Cantam, de braço dado, uns tristes bebedores.
Eu não receio, todavia, os roubos;
Afastam-se, a distância, os dúbios caminhantes;
E sujos, sem ladrar, ósseos, febris, errantes,
Amarelladamente, os cães parecem lobos.
E os guardas, que revistam as escadas,
Caminham de lanterna e servem de chaveiros;
Por cima, as imorais, nos seus roupões ligeiros,
Tossem, fumando sobre a pedra das sacadas.
E, enorme, nesta massa irregular
De prédios sepulcrais, com dimensões de montes,
A Dôr humana busca os amplos horizontes,
E tem marés, de fel, como um sinistro mar!
Fernando Pessoa e a sua geração reivindicaram a herança cesariana. Em 1912, no artigo “A Nova Poesia Portuguesa no seu aspecto psicológico”, para a revista A Águia (2ª série, nº 9, 11 e 12. Porto: Set., Nov. e Dez. 1912), Pessoa designa Cesário um dos representantes da “poesia objectiva”. Em 1916, chama-lhe um “precursor inconsciente” do Sensacionismo português. E declara que a sua influência se fez sentir em Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Com efeito, é sobretudo no heterónimo autor da “Ode Triunfal”, que a poesia cesariana do quotidiano, da vida comum da cidade parece ter encontrado um mais notório avatar. Em “Ode Marítima”Álvaro de Campo invoca explicitamente Verde como alguém próximo na estética, como um precursor na perscrutação das pessoas, das histórias e das vidas por trás de coisas triviais do quotidiano:
Complexidade da vida! As facturas são feitas por gente
Que tem amores, ódios, paixões políticas, às vezes crimes —
E são tão bem escritas, tão alinhadas, tão independentes de tudo isso!
Há quem olhe para uma factura e não sinta isto.
Com certeza que tu, Cesário Verde, o sentias.
O Sensacionismo é devedor do norte-americano Walt Whitman. Mas as marcas da deambulação emocional do sujeito poético pela cidade acham-se, por exemplo, na observação de Lisboa como porta para uma tripla viagem. Uma das viagens é pela evocação de outros tempos, redivivos no presente em que o poeta escreve, a partir do porto:
E evoco, então, as chronicas navaes:Mouros, baixeis, heroes, tudo ressuscitado!Lucta Camões no Sul, salvando um livro a nado!Singram soberbas naus que eu não verei jámais!
Álvaro de Campos expressa assim esta viagem mental de ida e volta ao passado, na “Ode Marítima”:
Homens do mar actual! Homens do mar passado!
Comissários de bordo! Escravos das galés! Combatentes de Lepanto!
Piratas do tempo de Roma! Navegadores da Grécia!
Fenícios! Cartagineses! Portugueses atirados de Sagres
Para a aventura indefinida, para o Mar Absoluto, para realizar o Impossível!
A outra viagem é no tempo contemporâneo do poeta, mas para outros espaços. Lisboa ligava-se ao mundo, oferecia-se ao cosmopolitismo. Todavia, era sentida por ambos os poetas como um mero porto de partida. O mundo está alhures, alhures há outras coisas por ver e sentir. A porta mágica para a evasão de Verde são os pontos de transbordo, os canais de saída da cidade empírica, o caminho-de-ferro e porto. O poeta inveja esses outros que partem, invejando-lhes a fortuna:
Batem carros de aluguer, ao fundo, Levando á via-férrea os que se vão. Felizes!Ocorrem-me em revista, exposições, países:Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!
O poeta de “Ode Marítima” invoca exclusivamente a tecnologia dos transatlânticos a vapor, que cruzavam a barreira dos oceanos. Tecnologia estabelecida no século de Verde, expandiu-se significativamente no novo século. O expoente de tecnologia no século XIX eram os comboios, e Portugal não escapou a tal progresso, tendo sido o seu território semeado de via férrea, por mão de Fontes Pereira de Melo. A sua acção, primeiramente no Ministério das Obras Públicas, que criou, depois em outros ministérios e finalmente como Presidente do Conselho de Ministros (1871-1877, 1878-1879, 1881-1886, designação dada, até ao Estado Novo, ao cargo hoje denominado Primeiro-Ministro), traduziu-se, marcadamente, na construção de estradas, caminho-de-ferro, industrialização (Este nome ficaria, por esta e outras decisões. Por estes motivos, do seu nome é oriundo o neologismo fontismo, que designa uma acção governativa caracterizada por um acentuado investimento em obras públicas e vias de comunicação. Na História mais recente de Portugal, foi com termo utilizado para designar a política de Cavaco Silva enquanto Primeiro-Ministro e do Ministro das Obras Públicas Joaquim Ferreira da Amaral, um século posterior à do seu antecessor e modelo. O caminho-de-ferro, pois, era então a via de ligação geográfica mais utilizada e mais veloz entre Portugal e o resto do mundo – na visão dum ocidental de então, restrita à Europa, sendo Lisboa e S. Petersburgo os pontos extremos da ocidentalidade. A poesia do hodierno de Verde, como a de Campos, não ignora este elemento, mas dá-lhe lugar importante. Do mesmo modo, Campos, o poeta sensacionista e futurista, evoca como típico da sua época os vapores. Que tecnologia evocaria se escrevesse hoje, um século depois do poeta de “Tabaqueira”?
Assim, Campos saúda um “amigo casual” que vai encetar uma viagem num desses engenhos (um vapor, tecnologia de ponta no tempo da escrita). Casual, logo efémero, fátuo e passageiroporque a época das máquinas e da velocidade a isso se presta.
Enternece-me o pobre vapor, tão humilde vai ele e tão natural.
Parece ter um certo escrúpulo não sei em quê, ser pessoa honesta,
Cumpridora duma qualquer espécie de deveres.
Lá vai ele deixando o lugar defronte do cais onde estou.
Lá vai ele tranquilamente, passando por onde as naus estiveram
Outrora, outrora…
Para Cardiff? Para Liverpool? Para Londres? Não tem importância.
Ele faz o seu dever. Assim façamos nós o nosso. Bela vida!
Boa viagem! Boa viagem!
Boa viagem, meu pobre amigo casual, que me fizeste o favor
De levar contigo a febre e a tristeza dos meus sonhos,
E restituir-me à vida para olhar para ti e te ver passar.
Boa viagem! Boa viagem! A vida é isto…
Neste trecho, Álvaro de Campos mistura as duas viagens: a temporal “por onde as naus estiveram / Outrora, outrora…”; e a espacial “Para Cardiff? Para Liverpool?”. Mas há uma terceira viagem nos dois poetas, já um pouco aflorada nas linhas anteriores: a viagem psicológica: o mal-estar de viver demanda a evasão e assim se cumpre na perfeição a fúria sensacionista. Evoca-se a evasão física, geográfica, mas é sobretudo a mental que os poetas almejam. Portanto, regredir ao passado ou partir para outros lugares, mais cosmopolitas, viajar no tempo ou no espaço aparecem como pretextos para escape de almas poéticas cativas de mal de vivre. Esta viagem comanda as outras, tudo se reduzindo afinal ao partir e estar longe, um longe de si próprio que é mais nítido em Campos e na geração modernista do século XX.
Na segunda estrofe do seu poema, Verde expressa a sensação de enjôo provocada pelo gás. O ar da cidade, poluído, contribuía para a melancolia e sensação física de náusea. O gás era o combustível utilizado na iluminação urbana, antes da generalização da electricidade. E é na terceira secção do poema, “Ao gaz”, quando a noite já plena “esmaga”, que emerge a salvação, a nota singular de alegria de toda a deambulação:
N’um cutileiro, de avental, ao torno,
Um forjador maneja um malho, rubramente;
E de uma padaria exala-se, inda quente,
Um cheiro salutar e honesto a pão no forno.
Uma nota de esperança, que poderia salvar o poeta. “Salutar” e “honesta”, n’um mundo de soturnidade, miséria social, económica e moral, e de hipocrisia. A deambulação pela noite pára um momento diante do calor da cutelaria e da padaria. Um assomo de coragem: que o concerto entre “real” e reflexão (“análise”, ou como dirá Pessoa ortónimo), o “fingimento”, lhe dessem um livro que “exacerbe”, que ultrapasse os limites da estética e se torne quiçá um poder capaz de influenciar a sociedade. O real dá o mote, contém os elementos a caberem no livro. A poesia, na sua ars poetica, deseja exibir e conter o real e reflectir sobre eleMas acaba por sentir a frustração de “Não poder pintar / Com versos magistraes, salubres e sinceros” esse real urbano, moderno, inestético e banal. Terá a poesia de esperar pela formulação mais febril desta aspiração expressa na “Ode Triunfal” de Álvaro de Campos? O poeta, afinal, não encontrou — ou nem sequer procurou — consolo; antes prossegue com as suas deambulações, e com estas continuam a entrar e desfilar no poema o pó, as luzes mortiças, o sufoco no ar que respira, a miséria de um mendigo cuja fortuna sofreu uma revolução, pessoas personagens várias, vivendo “emparedadas”, lojas e tabernas, em suma, o real que lhe causa odesejo absurdo de sofrer. Afinal, o desejo é de poesia, e esta existe, revela-se, exacerbante, úbere da “Dôr humana” e das “marés de fel” que a compõem.
A mim, como leitor, foi o último verso desta estrofe que me salvou. Uma noite acabada a comer pão quente, acabado de sair do forno, era bem acabada. Tinha necessariamente de ser um epílogo. Na década da minha primeira juventude (os anos 80), algumas madrugadas de boémia acabaram assim. No Mercado da Ribeira, havia uma casa que era santuário de peregrinação de noctívagos. Havia outras dessas padarias, noutros locais.
A vida, a condição e a idade cessaram de ser desta sorte, pelo que desconheço se ainda existem padarias dessas, que de madrugada servem, salutarmente, o bom pão quente, fresco do forno, redenção de noctâmbulos e foliões. Contudo, as voltas da vida levaram-me, mais recentemente, a exercer por um período de tempo um emprego no Luxemburgo em horário nocturno. Nestas desoras, o que o meu ser todo cobiçava era uma fleuriane (uma baguete artesanal feita de farinha de tripo isenta de aditivos, com crosta estaladiça sob a qual se esconde um miolo de gosto pronunciado) da minha padaria francesa de Herserange, para comer bem recheada em opíparo pequeno-almoço. Antes de ir dormir, à hora a que a maioria da gente descreve o movimento contrário, o pão, ainda quente do forno, era o meu epílogo de dignidade e honrade saúde e salvação.
Com certeza que tu, Cesário Verde, o sentias.

[1] Segui, naturalmente, a ortografia da 1.ª edição, da responsabilidade de Silva Pinto.


Publicado primeiramente no Jornal Tornado