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domingo, janeiro 01, 2012

O CAMELO E A AGULHA

“Então Pedro dirigiu-se a Jesus: «Olha que nós deixámos tudo para sermos teus discípulos.» Jesus respondeu: «Pois eu garanto-vos que todo aquele que tenha deixado casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos ou terras por minha causa e por causa do evangelho, receberá cem vezes mais, ainda neste mundo, em casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e terras, e também perseguições. E no outro mundo receberá a vida eterna.” Evangelho segundo Marcos 10:28-30

Quem não conhece o célebre símile hiperbólico proferido por Jesus Cristo, em que declara, em diálogo com os seus discípulos, ser mais difícil entrarem ricos no Reino de Deus do que um camelo entrar no buraco de uma agulha (v. 25)? Uma impossibilidade empírica seria menor do que uma outra (v. 27), ao contrário das expectativas sociológicas de então, que não viam a justiça (no sentido de qualidade e estado de rectidão perante Deus) pelo estatuto social ou financeiro, mas pela fidelidade a certas normas de conduta, a Lei mosaica. Este diálogo remata e constitui o epimythion de um outro diálogo, concluído poucos segundos antes, entre Jesus e um jovem rico, cumpridor da Lei e das tradições dos seus maiores, que procurava aprofundar a sua relação com Deus e confirmar a sua posição de justiça aos olhos dele. Para Pedro e os demais discípulos, aquele jovem teria parecido, pelo estilo de vida, merecedor do beneplácito divino. E a verdade é que eles viam a relação com Deus numa perspectiva de do ut des, de negócio comercial, de que o cumprimento de determinadas regras pelo homem implica Deus e o força a retribuir na devida proporção. Veja-se, no passo paralelo do Evangelho segundo Mateus, a afirmação transcrita de Pedro, que reforça esta noção (19:27): “que recompensas teremos?”. Isto mostra que a noção de deve-e-haver subjazia ao sentido dos relacionamentos entre homens e Deus e entre homens.
As palavras de Jesus contêm, por um lado, preocupações sociais e o sentido da justiça equitativa, económica e social. E promessas, grandiosas e maravilhosas. Afinal, Deus recompensa. E numa medida que desafia a imaginação e as melhores expectativas. Deixar tudo, família, bens, a segurança e o conforto, merecem, da parte de Jesus e da causa do Evangelho. E em copiosa: cem vezes mais, cifra a não entender à letra, como conta certa, mas como linguagem trópica, figurada, como a hipérbole do camelo e do buraco da agulha, significadora de “abundância”. Tanto para o Mestre como para os discípulos e para os antigos biógrafos de Jesus, como também para o leitor hodierno, uma das facetas do Evangelho, esse poliedro, é social. E no sistema exegético sociológico, a dialéctica riqueza/pobreza impõe-se como nuclear. Lembremo-nos da parábola do rico e Lázaro (Lucas 16:19-31; cf. também 12:13-21; 6:20). Na concepção da história sobretudo de Lucas (não exclusivamente, mas em especial), o rico representa o excluído, ao passo que o pobre representa o incluído no Reino. Como remata Jesus no episódio aqui em apreço (Marcos 10:31), os primeiros serão relegados aos últimos lugares, e os que se encontram em último, serão promovidos aos primeiros. Tudo isto, pela acção da justiça retributiva.
As palavras de Jesus estão aí. Mas como em tudo o que tem a ver com a Bíblia, e com qualquer texto, ele espera ser interpretado. O que aqui se pretende é dar um contributo para tal. Embora modesto e pessoal, porém atento, reflectido e responsável.
Nos dias de hoje, a tensão dos pólos inverteu-se. Na chamada Teologia da Prosperidade (na pura, dura e simplória versão, pois o autor destas linhas crê na prosperidade como um desígnio de Deus para os seus filhos), quem tem fé é rico e quem ser rico é indício, sinal da fé e da posição de justo face a Deus; pobre, pelo contrário, é o maldito, o que se não libertou das amarras da maldição da Lei, seja por falta de fé, seja pela ignorância da vontade e palavra divina. Como quer que seja, o pobre é-o responsavelmente, culpa sua. No entendimento deste sistema teológico, para o qual a fé e a bem-aventurança se afere pelo número de algarismos à esquerda no extracto bancário (contrariamente à bem-aventurança lucana 6:20), o jovem falhou em perceber que Jesus lhe estava a prometer que, se abdicasse de toda a sua riqueza (sinal de bênção), lho retribuiria com muito mais bênção, o converteria de milionário em multimilionário. Tão-somente ele tivesse entendido (e bem) que a verdadeira riqueza é interior, do coração, da obediência à chamada de Deus, e que esta pode implicar a renúncia. Mas que o bom Pai que é Deus (Marcos 10:18), em última instância, não deixa de recompensar, e de pagar nos mesmos géneros e espécies, conquanto que proporção mais generosa, aquilo que nos pede: se deixámos família, dar-nos-á mais e maior família; se deixámos riquezas, emprego, bens, dar-nos outros, ainda maiores e melhores.
Não digo que Deus não recompense assim, exactamente assim. Que ele nos possa enriquecer de facto. E que até o deseje. Deixai-me dizer que sim, que o creio, que prefiro e escolho crer, esperar, sonhar e orar por isso. Prefiro ser rico, ter dinheiro para não dizer mal da minha vida, não estar aflito para pagar contas, para que a minha família tenha sustento garantido. Gosto de pensar que, como o próprio Jesus disse nas Bem-aventuranças (Mateus 6:33), se me empenhar primeiramente em viver para Ele e o seu Reino, ele garante que cuida de mim. E mais, muito mais: que, na provisão que Deus me dá, tenho recursos para dar de comer aos pobres, casa aos sem-abrigo, para distribuir pelas vítimas da injustiça, para que a mensagem de esperança e vida em Cristo lhes chegue. O que me recuso a aceitar é que esse seja o alvo tanto de Deus como que o deva ser dos seus filhos; que a qualidade de vida cristã seja aferida pela quantidade de finanças e património. E que riqueza e ser rico signifique exactamente que todos serão empresários de sucesso, banqueiros, e tudo o mais que habitualmente se considere como signo de prosperidade. Como pode, por conseguinte, ser a promessa profética de Jesus cumprida? Como em tudo o que é linguagem profética, é intrinsecamente trópica, e assim há que interpretá-la. Seria engraçado pensar que um homem ou mulher já adultos, sem pais, possa vir a ter mais irmãos e irmãs, e pais e mães. Ou um homem idoso, ou uma mulher que já passou pela menopausa, possa vir a ter mais filhos. Ou o que interessa a crentes urbanos vir a ter terras? E cem vezes mais?
O próprio Jesus, ao ser-lhe anunciado a mãe e os irmãos o desejavam ver, respondeu que mãe e irmãos são quem ouve o seu ensino e o pratica (Mateus 16:49). É impossível não entender estas palavras como tropos: é à familiaridade espiritual que se refere, que advém de crerem, confessarem e viver para o mesmo Senhor e Pai. Ser irmãos em Cristo. O sentido destas palavras parece pois esclarecer o daquelas outras, com que comenta a recusa do jovem rico à renúncia. Ao novo cristão é dada uma nova família, todos aqueles que em Cristo Jesus colocam fé e esperança enquanto salvador, segundo a mensagem bíblica, são integrados na família de Deus, como irmãos e irmãs, mães, pais, filhos e filhas espirituais.
E as terras, e as casas? Pode ser que alguns cristãos tenham visto o seu património crescer depois se aceitarem a salvação proporcionada por Cristo. Parte deles são pregadores. E não digo que desonestamente. Mas a grande maioria não. Os cristãos de África? De países asiáticos, ou da América hispânica? Estão eles, os mais pobres, desagregados do Reino? Em que sentido se deve entender a profecia de Jesus? Se partirmos do princípio de que esta não está invalidada, mas se cumpre. Certo é que alguns passos bíblicos declaram a soberania divina sobre a Terra e tudo e todos quantos nela existem, e que essa soberania foi e é delegada. [salmo 2?] É pois lícito, fazendo fé na profecia de Jesus, que os seus filhos têm direitos, na qualidade de herdeiros. O facto de não vermos que todos sejam proprietários, patrões em vez de empregados e locatários é que coloca questões.
Talvez o problema seja, mais uma vez entre tantas, de interpretação, de vício de leitura. Por outras palavras, os juízos, cultura e grelhas de análise prévios do intérprete condicionam a interpretação — dado consabido da exegese bíblica e literária. O conceito de ser dono, proprietário, terratenente pode não ter variado muito em relação ao sentido que teria então, pelo que o parece aqui estar em questão é que as palavras de Jesus podem ser lidas dentro do registo trópico, e não apenas literal.
Como contra-prova, ponderemos alguns textos neotestamentárias. Primeiramente, uma experiência da Igreja pristina, comummente aplaudida entre cristãos como a experiência cristã mais genuína, porque vivida e estabelecida sobre o testemunho da palavra e do exemplo do próprio Jesus e dos seus apóstolos, sendo por consequência tomada como digna de imitação, ou no mínimo de inspiração mesmo nos nossos dias (em Actos 2:43-45):

“Os crentes viviam unidos e punham em comum tudo o que possuíam. Vendiam as suas propriedades assim como outros bens e dividiam o dinheiro entre todos, de acordo com as necessidades de cada um.”

Se esta experiência pode ser tomada como canónico de uma conduta, salta à vista que a propriedade privada não era valorizada. Deixo de lado as considerações por vezes aduzidas à leitura deste texto, segundo as quais esta experiência constituiu um socialismo avant la lettre. Igualmente não preocuparei em justificar o que possa parecer uma depreciação da propriedade privada e a apologia de um colectivismo à maneira socialista. Nem defendo este, como também não aceito que um objecto do passado, seja um evento histórico ou um texto, sejam lidos à luz de grelhas de leitura posteriores. Porém, não queria deixar de chamar a atenção para este aspecto, que é factual: esses primitivos cristãos não colocavam ênfase no ter nem mediam a bênção e favor divinos pela quantidade do ter. Este relato deve surpreender-nos. Os cristãos ricos cumpriam aquilo em que o nosso jovem rico falhara: vendiam os seus bens para dividir os recursos com os socialmente desvalidos. Por outro lado, estes eram alimentados, sustentados, resgatados da fome, da miséria, da condição de sem-abrigo, do esgoto social. Esta era a vida dessa comunidade nascente: uma família acolhedora, em que todos eram objecto de cuidado e atenção, na qual os pobres deixavam de o ser e os ricos nem por isso se convertiam em pobres. Somente uma comunidade organizada nestes moldes, como família, como corpo, poderia funcionar com base na visão do bem comum, sem lugar para invejas, exclusivismos ou preferências. O que resulta, no fim de contas, é o cumprimento, por intermédio dos crentes, daquela promessa proferida por Paulo de Tarso, na sua carta aos cristãos de Filipos (4:19): Deus preocupa-se, e providencia todo o tipo de provisões necessárias à vida dos seus filhos. E esta é a grande promessa a abraçar por eles, não a e que ele tornará todos multilionários, ainda que a provisão divina a alguns possa traduzir na obtenção de um fortuna colossal, embora esta lhe tenha agregada a condição já referida, de que não é um valor nem um fim em si mesmo, mas é meramente instrumental no serviço aos outros. Esta é a esperança em que se deve insistir, e a viver na prática, não a de que todos serão multimilionários, sendo que se alguém o não for, a razão só poderá ser a fé lacunar. Toda a riqueza, do ponto de vista de Jesus, tem tal qualidade e função.
O segundo testemunho é o de Paulo de Tarso, precisamente o versículo citado e os anteriores (vv. 12-19):

“Sei viver na pobreza e também na abundância. Aprendi a viver em toda e qualquer situação: a ter fartura e a ter fome, a ter em abundância e a não ter o suficiente. Posso enfrentar todas as dificuldades naquele que me fortalece. Contudo, fizeram bem em compartilhar as minhas dificuldades. Irmãos filipenses, bem sabem que no início da pregação do evangelho, quando parti da Macedónia, vocês foram a única igreja a ajudar-me. Compartilharam comigo no dar e no receber. Por mais que uma vez, quando eu estava em Tessalonica, me enviaram ajuda para as minhas necessidades. Não é que eu procure ofertas, mas desejo que seja acrescentado o mérito à vossa recompensa. Eu possuo tudo e em abundância. Agora que recebi tudo o que me enviaram por meio de Epafrodito, tenho mais do que o necessário. Essa oferta foi como o perfume de um sacrifício que Deus aceita e lhe agrada. O meu Deus há-de conceder-vos com largueza tudo aquilo de que precisarem, segundo a sua riqueza gloriosa em Cristo Jesus."

Esta confissão pessoal do apostolo dos pagãos deveria ser a lâmina que corta o emaranhado novelo em que a chamada Teologia da Prosperidade, e as suas concepções meramente financeiras da fé, tem envolvido muitas pessoas. O apóstolo não era um magnata, um grande empresário ou banqueiro, e diz ainda mais: conheceu a privação e a abundância, a fome e a saciedade, o conforto de uma e o desconforto do espancamento e da prisão, a pobreza e a riqueza, e, mais do que isso, aprendeu a lidar com essas situações e com estas alternâncias de tal forma que não se deixava cair na depressão nem resvalar para a protesto eram negativas, nem dominar pela soberba e pela senso de auto-suficiência quando eram positivas. O seu testemunho revela um homem que treinou o seu espírito a não mudar de estado em função do que o rodeava, fosse agradável ou desagradável, a reagir com a mesma tranquilidade e desprendimento. Aquilo que ele podia afirmar, em conclusão (versículo citado acima), era a certeza de que o Deus que servia cuidava de que nada lhe faltasse a ele nem a nenhum outro dos seus filhos.
Outro texto é o já citado do parábola do rico e de Lázaro. Nos padrões do mundo, o  primeiro era abençoado, o segundo um proscrito por Deus. Para Jesus, contudo, aquele, como o seu jovem interlocutor, confiava no dinheiro, nos bens e no estatuto socioeconómico, por isso era desprezado por Deus; e este dependia da misericórdia de outrem, e por isso foi acolhido por ele.

A conclusão do testemunho de Paulo serve bem de remate a esta reflexão. Com efeito, a pedagogia e o aconselhamento cristãos fariam bem, a este propósito, em refazer muitos dos seus pressupostos teóricos e respectiva aplicação prática. Medir o sucesso na carreira da fé pelo número de algarismos à esquerda da vírgula no saldo bancário tem feito estragos, não só à imagem do evangelho como à saúde espiritual de muitas pessoas que conheceram ou conhecem o desfavor, a pobreza, o desemprego, a falta, fazendo assim pior do que o mundo, que as condena, lançando-as para a geena reservada aos ímpios. Muitas vezes, o pecado da Igreja não tendo sido o da condenação explícita dessas pessoas, mas o da indiferença e da parca iniciativa face às questões da pobreza e da exclusão social. É tempo de a Igreja voltar a perceber que o seu papel é salvar e integrar, ser depositária das riquezas para as redistribuir, garantindo que todos no seu seio são alimentados e ninguém terá falta de nada. Assim, as palavras de Jesus aos que o seguirem parecem indicar que terão o usufruto de casas, terras, bens, e não necessariamente a sua propriedade. O que já não é coisa de somenos, pois não somos apenas mordomos, administradores dos bens que, na verdade, pertencem a Deus, não a nós (1 Pedro 4:10)?

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