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quinta-feira, outubro 25, 2012

CAMÕES E A TENÇA


“Este país te mata lentamente.”
Sophia de Mello Breyner Andresen, “Camões e a tença”

Irás aos Paços, Camões, pedir a tença
— disseram-te e tu acreditaste
são tantas as palavras
que se dizem hoje que amanhã se desdizem
e depois há sempre quem diz tudo
e mais alguma coisa
sem saber o que dizer, simplesmente diz
pois quando te disseram, Camões,
irás aos Paços pedir a tença
deverias ter entendido de outra forma,
Camões,
ou não fosses poeta, os poetas
têm sempre múltiplo entendimento

eis o que deverias ter entendido:
irão os Paços a ti, Camões, hoje,
pedir-te a tença que te deram ontem
e amanhã voltarão os Paços a ti
pedir-te a tença que te dão hoje
para que queres mais? aos Paços não sobejam
as tenças, cada moeda de cuja carga te aliviarem
é uma asa mais que te dão, pois és poeta,
e os poetas só precisam de fogo
que arde e se não vê,
de mares nunca dantes navegados
e de buscar mais Taprobanas
e aos Paços não sobejam as tenças
pois enormes são os passos perdidos e achados
dos Paços, tantas as alcovas,
câmaras e antecâmaras dos Paços,
Camões

este país te mata lentamente, Camões,
és poeta
e os poetas morrem devagar
e o povo que oiça os poetas, devagar,
na passagem do vento
pelo ventre vazios, mas de corações
cheios dos teus poemas
Camões, e dos dos outros poetas
sim, Camões, lentamente,
tença alguma paga os teus poemas, Camões,
somente a lentidão da morte é preço suficiente
até à escansão do último verso,
aquele que ficou branco e em branco…

irão os Paços a ti, Camões, pedir-te a tença,
e se a tença já não tiveres,
se já a tiveres gastado
ou perdido na pena do voar,
pedir-te-ão a camisa, as calças,
e se camisa e calças já não tiveres
pedir-te-ão o pão, pois de pão não vive
um poeta, mas de todos os versos
que provêm da sua boca
este é o desconcerto do mundo,
mas o poeta
tem sempre o coração no alto, e a boca
nas longínquas Índias

e por fim se nada mais houver
até os teus versos
te levarão, Camões, porque te preocupas?
com eles farão uma bela edição póstuma
e um belo dia, num momento especial
citá-los-ão comovidos
e chorarão de saudades tuas, e dirão
que esses versos foram proféticos,
que falavam desses bravos e mostrengos
que os Paços e este país atravessam,
mas com os Paços ao leme, com os reis
no comando do batalhão
não haverá fome que não dê em fartura,
Camões

lentamente te mata, Camões, este país,
porque te preocupas?
entrega a tença, sê magnânimo,
em breve findará a tença
deixará também de haver país
que te mate, e sem país que te mate,
como morrerás, Camões?
porque te preocupas?
se Deus quiser, também se perderão
os Paços e as suas penas
e as suas tenças

Rui Miguel Duarte
24/10/12

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