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quarta-feira, julho 04, 2012

DA INSPIRAÇÃO POÉTICA

Texto de aula de Oficina de Poesia na UNISETI (Universidade Sénior de Setúbal) 20/06/12


ϛοῖδα δ᾽ὀρνίχων νόνως
πάντων
“Conheço as melodias de todas
as aves"
Álcman de Sardes (séc. VII a.C.), frg. 40 D. L. Page


UM MANIFESTO

O fragmento citado, do poeta grego Álcman dá do poeta o retrato de um perscrutador. Atento, com coração de aluno, ou profeta que recebe palavra, revelação de mistério e oráculo de outrem e é deles intermediário, o que fazer. Artista, que aprende com outrem como fazer. E marco bem o verbo fazer, visto que poesia, na origem grega, significa realização de uma obra, ou o produto dessa realização. Em grego, poiesis é a realização; poema, donde “poema”, é o produto, a obra; e o verbo poiéo, o acto ou efeito de fazer algo. Na língua helénica, esta família de palavras não se restringia em exclusivo à criação poética, mas a tudo. Fazer algo: na poesia, na arte, em tudo. O apóstolo Paulo, na sua carta à igreja de Éfeso (Paulo, Carta aos Efésios 2:10) diz que, quem se une a Jesus Cristo, é uma obra divina, um poiema.
Centenas, para não dizer milhares de poetas e teorizadores e críticos literários, de todas as épocas e lugares, reflectiram e escreveram sobre a inspiração poética, sobre o que é ser poeta. Não acrescentarei nada a esse debate. Até porque um poeta prefere a função poética da linguagem (nos termos da teoria de Jakobson) à metalinguística, a escrever poesia a pensar e escrever porque escreve poesia e o que é poesia. Tão-somente falarei da minha experiência, da intimidade da minha alma enquanto (pequeno) poeta. Da criação e de temáticas, de motivações e recorrências deste poeta. Ilustrarei com poemas o que procuro dizer-vos. Em suma, este poeta falará de si próprio e da sua própria poesia. Como testemunhos, poemas insertos especialmente nos dois volumes publicados (Muta uox e Subida).
Falar sobre si próprio é, para um poeta (pelo menos para este), como que um exercício de narcisismo. Não que o poeta não pense, não pense, mas normalmente esses pensamentos ficam para si próprio; quando se revela aos outros, é em novos poemas. E ao fazê-lo induz obviamente linhas de sentido, que partem da situação que motivou o poema, das imagens, símbolos, palavras, jogos de linguagem e propósitos e efeitos pretendidos no leitor. E pode com isto substituir-se ao leitor, o que se não deseja. Que outros falassem. Mas procurarei simplesmente abrir portas, franquear postigos e janelas, apenas isso, de modo que os leitores entrem.
Escreve António Ramos Rosa, a propósito das fontes da inspiração poética:
“Se no intervalo das palavras se pode ouvir o silêncio dos campos como se o poema fosse um harmónio côncavo é a inversão do mundo num silêncio e não o mundo e a atenção sem objecto entre o interior e o exterior do poema.”
E um pouco este “intervalo das palavras” em que se pode ouvir “o silêncio dos campos”, que este o poeta busca, como a impressão do mundo em negativo, nesse espaço, sempre indefinido mas ténue, entre o interior e o exterior em côncavo. É aí, nessa película de silêncio, que se inscreve a poesia.


INSPIRAÇÃO, EXPIRAÇÃO

Em primeiro, título desta lição: o vocábulo inspiração remete para a fonte, aquilo que motiva e gera a poesia. É uma questão batida. É bem conhecida a máxima “dez por cento de inspiração e noventa de transpiração”. Nela, consigna-se à inspiração propriamente dita (como ideia, frase ou palavra espirituosa que nos chega à mente e se torna o ponto de partida e o próprio sistema circulatório que dá vida ao poema, o seu ADN) um papel quase residual. Atribui-se a Paul Valéry a confissão segundo a qual o primeiro verso nos é dado. Como uma bênção, uma dádiva, a tal inspiração, se quisermos; o resto tem o poeta de procurar. Escreve Júlio Saraiva, jornalista e poeta em S. Paulo, o seguinte testemunho a propósito da poesia de J. T. Parreira: “nunca acreditei em inspiração - em talento e trabalho, sim. leio sua alta e elaboradíssima poesia, encantado, como quem bebe o ar de um dia feliz."
A posição deste poeta estriba-se, desde logo, na própria etimologia de poesia. Poesia é fazer, construir, elaborar. Pessoalmente, entendo e experimento que por vezes o tal primeiro verso me é dado. Por vezes, há só isso, nem, digamos, o tema, a ideia, imagem, motivação e impressão nuclear. Mas o resto, é ainda o branco vazio; o resto tem de ser mesmo construído. E é-o numa luta comigo próprio e com as palavras, com aquilo que elas me exigem e me permitem, e com o que eu lhes exijo e permito. Procurar, explorar a história a contar, a imagem, a metáfora, o voo da frase, a palavra certa. A qual, não raro, me toma pela certa, e me ultrapassa e se impõe.
Leio um poema (inédito), um exemplo, em que o poeta busca a própria inspiração, a matéria, o que dizer, que viaja à descoberta, e que anseia por ser total, completo, integrador:

DA MATÉRIA DO POEMA

“Subi ao alto, à minha Torre esguia,
Feita de fumo, névoas e luar”
Florbela Espanca, “Torre de névoa”

o meu poema não habita
em torres de névoa não há espera matinal
por D. Sebastião
morreram todos eles para sempre
e os seus corpos  secaram
nos dentes dos chacais
em Alcácer-Quibir
no meu poema não ardem baixo os luares
sobre as águas

no meu poema há só o sol a prumo

não há Ítacas, Társis nem Índias
de fuga ou nostalgia
há a amplidão nítida dos rios
que duma mão nascem e na outra desaguam

no meu poema há a outra margem
uma terra toda inteira
ainda sem nome nem padrão
de descoberta

30/09/11


POETA CRIADOR

As primeiras palavras da Bíblia (Génesis 1:1) referem a actividade criadora de Deus, como súmula, que o escritor discrimina nesse primeiro capítulo e no seguinte: o que criou, como criou, por que ordem, e a relação que estabeleceu com a sua obra. No cap. 1 vv. 26 e 27 diz uma coisa extraordinária acerca do homem: que é sua imagem e semelhança. Muito se tem discutido sobre o sentido deste atributo do homem. Há trinta e quatro anos, a 25 de Maio de 1978, em Portugal, um grupo de cristãos evangélicos (composto por António, Luís Horta, João Tomaz Parreira, Jorge Pinheiro, Brissos Lino, Samuel R. Pinheiro) iniciaram um movimento cultural (corporizada na Associação Bara e responsável por uma revista), que se reclamava desta mesma declaração; o credo deste grupo baseava-se nas premissas de que se Deus é criador, e se o homem é usa imagem e semelhança, então o ímpeto criador é parte dessa imagem e semelhança, e o homem, com maioria de razão o cristão, ao criar honra o seu Deus, e cria precisamente em devoção ao seu culto e como forma de o adorar. Isto atingiria as variadas expressões artísticas: poesia, pintura, música, etc..
Assim entende este poeta. Se na poesia tudo cabe (o quotidiano, o belo horrível de Baudelaire, ou o dirty realisms norte-americano, o sublime e o elementar), cabe também a religião, a relação do homem com Deus, os motivos bíblicos. E acrescenta, a título de manifesto: o poeta, como criador que se entende deve ser, não apenas adora o Deus em que crê, como também cumpre em estreita colaboração e por inspiração dele o que crê ser a sua missão, dele recebida. O poeta como vate, como profeta? Não apenas, se profeta é um intermediário de palavras de outrem e lhes empresta a voz; também como criador de mundos pela palavra, feito de palavra, e o autor da palavra. Ouça-se este “Evolução das espécies”, em evocação da teoria da evolução de Darwin, mas com a declaração do único que há em que cada ser, assim como em poeima, em cada obra (biológica e poética). Nele, o poeta participa das mesmas faculdades, cumprindo por delegação essa atribuição divina:

EVOLUÇÃO DAS ESPÉCIES (in Subida p. 23)

Depois Deus disse: «Que a terra produza toda a espécie de seres vivos: animais domésticos, animais selvagens e todos os bichos, conforme as suas diferentes espécies.» E assim aconteceu.»”

Génesis 1:24

Não há evolução das espécies

Não o digas ao poeta
de olhar pendurado da dor da aurora
e da expectação de um voo de pássaro

ele dir-te-á
que o poema é filho
da sua uranografia
enteado do temor de que
o seu coração ganhe asas
e se volatilize, porque é no peito
que ele é dado à luz

como se fosse
o último e o único
na sua espécie e género
como única e última
é a dor
cada dor que lhe espinha a carne

Não há evolução das espécies
cada uma é gerada da boca do poeta

digna de ser aclamada
por uma nova e última e única
salva de palmas

18/06/10

Ou este, que tem como mote um verso de Carlos Drummond de Andrade:

DA ORIGEM DO POEMA (Subida p. 60)

“E a flauta, sem nada mais que puro som”
  Carlos Drummond de Andrade
           
           
Não precisa de ser complicado
o poema, de te beber a linfa
no labor de o interpretar

não tem de ter razões
nem de as não ter

o poema não é um inimigo
que te dá punhadas no peito
e te consome as forças
e te descasca a coração
até não dispores de nada mais
senão fragmentos de palavras
cacos de ideias, e as tuas emoções
te tenham sido secadas
como a terra que ficou ressequida

o poema não te pergunta semântica
nem te ensina gramática
nem te exige conhecimentos de retórica

o poema só precisa
que uma flauta toque
que a pura substância do som
encarne o sonho, e a tua voz
se solte uma e outra vez
e molde o mundo

31/12/10


INDAGADOR

O poeta é um indagador. Com esta palavra, a indagação, procuro condensar um sem-número de sentimentos, emoções, pensamentos, hesitações, questionamentos, disposições atentas aos outros e às coisas que o circundam. Indagação requer inquietação, atenção, disposição para escutar e ver.
Essa indagação pode vir do diálogo com outros poemas e poetas. Será aqui talvez que o poeta é mais lírico, com um eu poético presente e que tudo organiza, se manifesta e faz manifestar o poema, que nele sente e pensa, autopoético (por analogia com o termo autodiegético, em que o narrador é o próprio protagonista, aquele que vive e conta a diegese). 
Um exemplo, a propósito da contemplação do espectáculo de cisnes:

OS CISNES (Subida p. 22)

Os cisnes, que nadam na regularidade
cerúlea das águas,
vêm habitar
no intervalo cego
entre os meus olhos

ao passarem de um lado
para o outro
de cada banda do lago
há momentos em que deixo de os ver
— terão levantado um breve voo
ou ter-se-ão liquefeito
no líquido manto?

12/06/10

Neste outro poema, intitulado “Depois”, um poema que se pode dizer, em parte, de amor, o poeta procura algo mais no fim, após o esgotamento de tudo (palavras, emoções…). É a indagação, a perscrutação, com uma intuição e uma impressão de que há sempre inesgotavelmente algo mais:

DEPOIS (Subida p. 44)

Haverá ainda muitas coisas
por dizer
depois, meu amor,
do amarelecer das folhas

a neve ainda nos cobrirá
como um capuz os cabelos
tudo o que do céu houver por cair
e da terra por subir

o fogo do vulcões ainda nos beijará
os flancos, pelas mãos correrá
o fio da areia das nuvens translúcidas
que o nosso canto
deixa ao se extinguir

mesmo então,
depois que à noite tirarmos o véu
e lhe desvendarmos a frescura,
essa frescura que bate nas vidraças
e nos molda a pele à faca,
mesmo então

depois de a voz nos trair
e a penumbra nos engelhar
os dedos no enlace, e os frutos morrerem
como os sonhos pelo chão

haverá muitas coisas
por dizer ainda por dizer

26/09/10

Os versos em epígrafe de Álcman forneceram ao poeta a epígrafe para uma outra reflexão sobre a condição de poeta, como ser à escuta, em busca de inspiração. É o poeta vate, profeta, depositário de segredos das coisas e que estabelece com outros seres, e coisas, uma relação de simbiose. Intitula-se precisamente “Simbiose”.

SIMBIOSE (Subida p. 56)

ϛοἶδα δ᾽ὀρνίχων νόνως
πάντων
“Conheço as melodias de todas
as aves"

Álcman de Sardes frg. 40 D. L. Page

De quantas aves há
aprendi o canto e adestrei-me
a compor e recompor
a melodia

de todos as notas e harpejos
recebi a ciência
dos acentos secretos
do timbre e do tom do voo

eles ondulam e palpitam,
mas de repente
soltam e saltam
da pauta do coração
para as cordas da voz
do poeta

19/12/10


POESIA DE JÚBILO

O poete tem anseios, mas também aspirações a conter em si sensações, vida, o desejo de vida, de ascensão. A vontade de superação, a busca da de plenitude (u.g. “Da matéria do poema”).
O poete tem anseios, mas também aspirações a conter em si sensações, vida, o desejo de vida, de ascensão. A vontade de superação, a busca da de plenitude (u.g. “Da matéria do poema”). O próprio título do livro (Subida) o sugere, e como é explicado na sinopse na contracapa: subida, ascensão tanto espiritual como poética.
Esta poesia, a despeito de invocar dor e provações, é de júbilo, e de esperança. Há angústias, mas estas são passageiras, são próprias do caminho que se faz na vida, não o seu termo. A corrida para o alvo (lembro das palavras do apóstolo Paulo na carta aos Filipenses 3:14). Por que razão há-de ser o poeta um ser macambúzio, deprimido, suicida? O poeta crê que o poeta, e a poesia, pode ser de esperança, de restauração, de vigor, de superação. A fé cristã do poeta, assente no Cristo Jesus ressuscitado, e nas promessas dadas a quem crê neste Cristo, não é alheia a essa postura, que é uma decisão e determinação. Para si próprio, e como mensagem profética (de encorajamento) para os outros. Oiçamos um poema:

CORAÇÃO LEVE (Subida p. 50)

Procuro um coração leve
que se deixe abraçar por uma criança
numa brisa de água pura
numa curva larga para os volteios da dança

ter-se-á volatilizado, com as marés
partido para outro país, habitado de magos e reis?
que coração que nada pese, nem o chão nem uma toca
que seja translúcida alegria, alheio a normas e a leis

um coração com a certeza de um fruto
no extremo estreito da árvore, certo no tempo certo
como chuva que não tarda, que vence o vento
ou um hieróglifo batido no ouro do deserto

procuro um coração leve
que se deixe encantar pelo canto de uma criança
numa ilusão que recria, que ganha osso e carne,
no zénite total das ondulações da esperança

22/11/10

Em outro poema expressa-se claramente esse anseios de superação:


NEM SÓ (Subida p. 72)


Οὐκ ἐπ’ ἄρτῳ μόνῳ ζήσεται ὁ ἄνθρωπος, ἀλλ’ ἐπὶ παντὶ ῥήματι ἐκπορευομένῳ διὰ στόματος θεοῦ
“Não se vive só de pão, mas também de toda a palavra que vem de Deus”

Evangelho segundo Mateus 4:4

nem só de pão
do que os dentes arrebatam
à fome vivemos
há também as palavras

nem só de fandangos da noite
de vigílias quebradas nas mãos cheias
mas também dos silêncios
dos olhos que se perdem e rendem

nem só de paixão se faz a canção
faz-se de flores de pedra
e risos de dor faz-se enfim
sempre de palavras antigas
que nos vêm inteiras da boca de Deus
reditas em sempre
novas sílabas

28/03/11

A vida, a sua canção e o seu poema, fazem-se de pão, como no texto bíblico. Mas também de outras coisas, de dores e silêncios, de contradições. Mas há mais: há a redenção, e esta pela Palavra divina. E assim se adquire nova vida e novo poema.
E um outro gostaria de citar, de superação, para lá da quebra dos limites que na vida se nos deparam, findo o teatro desta:

AO CAIR DO PANO (Subida p. 70)

Seremos felizes, meu amor,
ao cair do pano
quando as gotas da chuva
ocultarem os olhos
às máscaras do mundo

ao despirmos o colo
da morte das palavras
que nos restam, que nos ficam
para além do acto, para além da dança
por trás da cena, onde o pássaro,
já desnudo de cordas,
principia o voo
seremos felizes, meu amor,
especialmente felizes

onde deixar de haver o cá e o lá
e se extinguirem bastidores
plateia e palco
ao cair do pano
ao tombar dos véus

19/03/11

Um poema de amor, é certo. Um desejo de cumprimento desse amor. A superação dos limites, a plenitude, o cumprimento alcançam-se findo esse teatro, mas equivale isso à morte? Será a morte esse cumprimento? Ecos desse fim de acto motivados pelo capítulo 12 do livro bíblico de Eclesiastes, que têm como referente precisamente a morte. Ou a superação, quando se calarem os limites entre o cá, na própria vida, no apaziguamento desta? O poeta teve uma intenção quando escreveu, mas hoje, ao ler-se a si próprio, lhe parece que aquilo que escrevera o trai e que escreveu afinal coisa diversa. Traído pelo seu próprio discurso?

HERANÇA CLÁSSICA

O poeta é classicista. Estudou e mantém como objecto de estudo a Antiguidade, as línguas e a cultura clássica, grega e latina. Episódios de textos ou da História das civilizações grega e latina, ou versos de poetas. A começar pelo “Epitáfio das Termópilas”, que tem como mote famoso epitáfio escrito pelo poeta Simónides de Céos, em honra dos trezentos espartanos (ou lacedemónios), comandados pelo rei Leónidas, que tombaram heroicamente perante a horda de milhares do exército do rei persa Xerxes, que tentava a invasão da Grécia. Um feito que ficou na memória. O epitáfio de Simónides é colocado na boca dos próprios mortos, dirigindo-se a tu que é o viandante, aquele que passa por esse caminho, e a quem pede que seja o mensageiro destes factos aos seus concidadãos lacedemónios. Célebre o evento, célebres os dois versos que o fixaram para sempre. Nesta versão do epitáfio, o poeta imagina que o eu poético é o viandante estrangeiro cumprindo o pedido do epitáfio, transmitindo a notícia aos Lacedemónios, como mensageiro do pedido dos mortos aos vivos, para que mantenham viva a memória. Tão viva que o evento merece ser celebrado, e resgatado, salvo, da memória, entendida esta como um lugar de morte. Expresso em termos de linguagem informática, como numa memória de disco rígido, à qual se acede de quando em vez sem que afecte o quotidiano, para uma memória RAM, de superfície. De uma memória de arquivo morto, por assim dizer, para uma lembrança sempre permanente, que afecte o quotidiano. É um poema em quadras, com rima dos segundo e quarto versos.

EPITÁFIO DAS TERMÓPILAS

ὦ ξεῖν’ ἀγγέλλειν Λακεδειμονίοις ὅτι τῇδε
κείμεθα τοῖς κείνων ῥήμασι πειθόμενοι
Estrangeiro, vai anunciar aos Lacedemónios que jazemos
aqui, por termos obedecido às suas ordens”

Simónides de Céos, Epitáfio das Termópilas frg. 92 Diehl

Das longínquas Termópilas, estrangeiro
à passagem, Lacedemónios, vos escreve
ao ler à beira do caminho
da pedra fria esta inscrição breve

o silêncio pede um reconto,
que a salve da memória:
deste estreito onde só os heróis ousam
surge a lenda onde tombou a história

a lápide sepulcral não desprende gemidos
as letras nela gravadas são de memória brilhante
não as carcome o bolor nem o verdete
nem o tempo sobre ela é lume de um instante

dos trezentos de Leónidas que não hesitaram
lutar ou morrer para obedecer às vossas leis
recebei o testemunho, Lacedemónios, silente
e que admiração perpetuamente viva lhes celebreis

18/12/10


POESIA BÍBLICA

A temática cristã, bíblica está largamente presente na poesia deste poeta. Uma poesia de devoção, portanto. Episódios bíblicos, do Antigo como do Novo Testamento, versículos que tocam o coração do poeta, constituem motivos para a construção de um poema. Difícil a escolha. Fico-me por alguns exemplos, um mais recente, outros mais remotos. Primeiramente, pois, um inédito:

EXORTAÇÃO

Uma árvore tem sempre esperança”
Livro de Job 14:7

uma árvore tem sempre
esperança
semeada na raiz
enquanto os homens
deixam na terra, que lhes suportou
o peso, por tributo os ossos

só as árvores não morrem
mesmo que lhes separem
o tronco dos pés sempre darão
de si rebentos novos
pois persistentemente os seus olhos
fixam o seu amigo sol

tu homem em vez de rendido
ao rosto do pó
sê como as árvores
que se mantêm de pé,
em quem as aves do céu

também esperam

15/05/12

Nele se acham motivos amados pelo poeta (algumas das tais isotopias): a esperança, as árvores ou o sol. Os versos de Job põem em contraste a vida das árvores e a dos homens: aquela sempre com esperança, enquanto a raiz existir e esta permanecer na terra; esta última, pelo contrário, uma vez ceifada, é destruída. A esperança, como vista pelo poeta, infecto-contagiosa, por assim dizer, é transmissível: a árvores tem esperança, mas há quem (inominado) também tenha esperança na árvores.
Não seria justo omitir o poema cujo título é a versão ampliada do título próprio volume, e que sintetiza o seu espírito. Invoca a subida de Moisés ao Sinai, para um encontro com Deus. O título Subida é a versão reduzida do título de um dos poemas do livro, “Subida ao Sinai”. Este poema, como o título dá a entender, evoca a subida ao monte Sinai por Moisés (na verdade, foram várias as subidas, relatadas no livro bíblico de Êxodo caps. 3 e 19 a 34). As subidas ao monte foram para o legislador de Israel o encontro com o Todo-Poderoso, o Deus do universo, sem limites. Este encontro proporcionou-lhe por outro lado um encontro consigo mesmo, a sua humanidade, feita de falhas, lacunas e limitações. A subida é curvada, esforçada, de humilhação. Não apenas corporal, mas igualmente espiritual, em direcção a esse encontro. Encontro dual, mas não dicotómico, pois um, a revelação de Deus, seu carácter e lei, resolve o outro, levando-o à salvação, à superação de si mesmo, no meio e a despeito de todas as dificuldades.

SUBIDA AO SINAI (Subida p. 31)

Ao subir ao monte
subo de dorso curvado
e olhar arrastando
no chão

o coração ainda se ergue
para o pico
mas o peso da convocação de Deus
a massa ingente da profecia por nascer
acabrunha o próprio ar
que respiro

sarça que arde nos pés
sobre a delicadeza sagrada
da terra,
temo apenas rasgá-la
por isso o meu dorso
pesado sem asas
e carente dum mistério duma voz duma palavra
que o salve
vai curvado

e sobe

20/07/10

Finalmente, um mais antigo, do volume Muta uox:

VALE DA SOMBRA DA MORTE (Muta uox p. 82)

“Perguntou-lhe Simão Pedro: «Para onde vais, Senhor?» Jesus respondeu-lhe: «Para onde eu vou, tu não me podes seguir agora, mas hás-de seguir-me mais tarde.»”
Evangelho segundo João 13,36 (versão A Bíblia para todos)

Não podes, querido amigo,
seguir-me agora
sabes, tenho uma estrada diante de mim
que tu não conheces
pés nenhuns foram nela ainda
experimentados
o couro de sandálias nenhumas
nas suas pedras jamais se gastou

Querido amigo,
o céu aqui não é de açucenas
os penedos são gigantes espessos
ao passarmos rente a eles
acendem um véu negro no rosto
do abismo
o chão não é de pétalas
mas tem arestas é pontiagudo
como pregos que não descansam
o sangue

Sei que nele
há um vale da sombra
é todo o céu e toda a terra
em peso sobre a minha cabeça
sombra da morte mais temível
do que a própria
morte

Esse vale foi moldado à forma
rósea do meu corpo
o meu sangue foi-lhe
desde a Eternidade prometido
poderei eu estancá-lo?

Só eu,
querido amigo
só eu posso atravessá-lo

Deixa-me ir, querido amigo,
até à outra fímbria do vale

Lá as águas dos riachos
têm a cor do sol
então ao meu chamado virás
dirás que vens da minha parte

E no prado dos teus olhos
desenrolar-se-á,
até o perderes de vista, o verde

18/03/10


O título é retirado do v. 4 do Salmo 23 de David, e associado à Paixão de Cristo. O poema em si parte de um diálogo entre Jesus e o discípulo Simão Pedro, no Evangelho segundo João 13:36. Todo ele imagina as palavras desenvolvendo-se mediante imagens que denota o sofrimento pelo qual ele se preparava na passar. E terminando com um convite a Pedro para o seguir posteriormente, até à plenitude, figurada pelo “verde”, mas não antes que o próprio eu poético, Jesus, percorra esse caminho, de sofrimento, que somente ele estava em condições de percorrer, porque somente a ele estava destinado.

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