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segunda-feira, agosto 22, 2011

ΤΕΤΕΛΕΣΤΑΙ (TETELESTAI)


“Tudo está cumprido.”
Evangelho segundo João 19:30

Para sempre se desfizeram
os equívocos dos espelhos
para sempre ficaram em branco
os velhos teares

cobriram-se de pó
as mãos que acendiam a chama
o ar mudou no coração
do eclipse

deixou de ser possível
continuar a percorrer
os extintos valados
já não são navegáveis
as águas de outrora
tornaram-se salobras
na pele

de espinhos cravados nas pupilas
sentimos escorrer pelos dedos
no suor e no sangue
o fim
o necessário fim

22/08/11


segunda-feira, agosto 15, 2011

PARÁBOLA DA SEMENTE





A semente saiu da mão
partiu para onde a levasse
a ausência de asas
pois não foi destinada
a ganhar raiz
nos bicos dos pássaros

rumou para uma terra qualquer
mas não foi destinada
a perder-se no anonimato
dos espinhos
nem a fundir-se com o sol
nas pedras

ao ser lançada, foram-lhe
dados pela mão ângulos no voo
e assim partiu ela incendiada
no vento por uma terra, essa terra
que a escolhesse,

a semente partiu da mão
e encontrou quem lhe desse
raiz um leito e água
onde ela morreu, sonhou
e a sua alma subiu
com carne de árvore

12/08/11

FÁBULA DA ESPIGA



A espiga tinha de se mostrar
ao sol de esquecer o passado
os dias da semente 
e as noites do caule

tinha de crescer de cortar 
rente o sono de abandonar
no chão a sua névoa 
e seguir com o vento
tinha de conhecer 
o segredo do céu

mostrar-se ao sol
e seguir com o vento
era-lhe necessário 
assim faz o ouro
e à espiga restava
aprender

tinha apenas
de rasgar o tegumento 
e para lá do restolho

ser

13/08/11

DE MANHÃ

“Un vague bonheur leur était élan et ménace” 
Nic Klecker, “Matin” (conto), in Jadis au village 

A manhã de Outono veio trazer prenúncios 
de Inverno e sombras de geada
veio montada nos raios oblíquos
e conduziu as rodas das bicicletas
uma em direcção à outra 
dele e dela

uma brisa fresca
juntou-se ao encontro
que seria a dois
estavam eles conscientes 
do mistério do dia? 
foi-lhes ele anunciado na noite já distante? 
tê-la-ia ele visitado, ter-lhe-ia ela
franqueado o ardor do umbral?
ter-se-iam amado no corpo 
do sonho? as mãos 
eram jovens e virgens
ainda seguravam 
os guiadores das bicicletas 
e os olhos de um faziam tangentes
nos do outro
decidiriam unir-se
para o receio e a ousadia do salto 
para a existência e a aventura?

os peitos respiravam ténues
o mesmo ar de sol e gelo
debruçados sobre as bicicletas
os sentimentos eram felizes
os corações abriam-se em ramos de flores 
para a beleza palpitante
um do outro

14/08/11

sábado, agosto 06, 2011

CEGO

o dia estava tão belo
e ele não o podia ver
os dedos estendidos 
levavam os olhos e procuravam
estrelas à vista desarmada

o mundo era tão belo
povoado de árvores,
rios e sombras
e ele não o podia ver
nos olhos que lhe restavam
projectava pessoas às cores
que podiam ver
os ouvidos teciam ventos
e seres voláteis que pousavam
na sombra do seu ombro

ele não podia ver
ele era uma dessas sombras
do dia e do mundo
que ele podia ver
mas que não o podiam ver

5/08/11





L’AVEUGLE

le jour était si beau
et il ne pouvait pas le voir
les doigts tendus
portaient les yeux et cherchaient
des étoiles à l’œil nu

le monde était si beau
peuplé d’arbres,
de fleuves et d’ombres
et il ne pouvait pas le voir
dans les yeux qui lui restaient
il projetait des gens en couleurs
qui pouvaient entendre
les oreilles tissaient des vents
et des êtres volatils qui atterrissaient
sur l’ombre de son épaule

il ne pouvait pas voir
il était une de ces ombres
du jour et du monde
qu’il pouvait voir
mais qui ne pouvaient le voir

06/08/11
(trad. par l'Auteur)