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sexta-feira, junho 05, 2009

O ALTAR DE ALMOFADA 1 – NO CAMINHO

Aquele era o dia da partida. No alforge, além de provisão para uns dias de viagem, levava a bênção e o conselho do pai e o beijo da mãe. Um era a certeza de que o propósito da viagem se cumpriria, pois o Deus de seu pai e avô haviam prometido para a sua família uma descendência numerosa, e se Ele fora com eles cumprindo a Sua aliança com eles, seria igualmente com ele. O outro alimentava-lhe a alma com a garantia da cumplicidade: da sua mãe querida, que o ajudara a ganhar o lugar da primazia destinado, segundo o costume, ao irmão, sabia que podia esperar o mais terno acolhimento e as mais calorosas boas-vindas, ao regressar com sua esposa.
– Escuta bem, meu filho: não deves casar com nenhuma mulher de Canaã. Vai à Mesopotâmia, a casa do teu tio materno Labão, escolhe uma das filhas dele. Estão em idade de casar, e são gente de bem. E que o Deus do teu avô Abraão e teu pai seja contigo.
Partiu. Estava só. A bênção e conselho do pai e a cumplicidade da mãe davam-lhe força aos pés na caminhada, mas estava só. Os quilómetros sucediam-se e essa percepção tornava-se progressivamente mais clara. Só. Ele teria apenas de escolher a noiva entre as primas, e suportar a desilusão caso nenhuma lhe agradasse verdadeiramente. Mas, segundo o costume, deveria procurá-la entre os parentes dos seus pais. O irmão já tinha várias esposas, ele nem uma. Talvez esta, para lhe dar os filhos prometidos e assim continuar a inumerável descendência de Abraão, e depois tomasse outras.
Mas talvez esse Deus de Abraão e de Isaac o guiasse e a prima que tinha para lhe dar por esposa fosse, afinal, lindíssima. Assim fizera com seus pais Isaac e Rebeca, e bem sabia quantos se amavam.
Deixara Bersheba ao nascer do sol em direcção a Haran, e ao cabo de muitas horas eis que o sol tombara. Aproveitou até ao último vestígio de escarlate no céu. O vindo de ocidente ficava-lhe pelas costas, e a sua sombra caminhava adiante de si. Por fim, o facho solar esgotava-se, e com ele a luz para lhe iluminar a estrada. Não adiantava continuar.
Estirou as pernas longamente, espreguiçou-se, respirou fundo e bocejou. Fechou os olhos e deixou-se ficar uns instantes, em silêncio, a captar a murmúrio do repouso na respiração. A textura doce da eternidade na chama de uns poucos segundos: abriu os olhos.
Novamente mãos à obra.
Com umas poucas ervas rasteiras por leito, recostou-se ao abrigo de uma rocha – um parco abrigo contra o fresco vento nocturno, mas ainda assim um abrigo. Tomou uma pedra suficientemente grande e suficientemente lisa para nela encostar a cabeça e fechou os olhos de vez. A única luz eram estrelas no céu, aquelas que se podiam deixar ver por entre as clareiras nas nuvens.

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