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terça-feira, março 21, 2006

O despir da roupa



“… ergui os olhos e vi a última coisa que esperava: um enorme leão a aproximar-se de mim lentamente. E uma coisa estranha é que não havia luar a noite passada, mas havia luar no sítio onde o leão se encontrava. (…) Eu estava terrivelmente assustado. Podes pensar que, por ser um dragão, podia ter enfrentado qualquer leão com toda a facilidade. Mas não era essa espécie de medo que sentia. Não tinha medo de que ele me comesse, tinha só medo dele, não sei se estás a perceber. Bom, chegou junto de mim e olhou-me bem de frente, nos olhos. E eu fechei os meus com toda a força, mas de nada serviu, pois ele disse-me para o seguir.
(…)
Fizemos uma grande caminhada pelas montanhas. E havia sempre esse luar por cima e à volta do leão para onde quer que ele fosse. Por fim, chegámos ao cimo de uma montanha que eu nunca vira e lá no alto havia um jardim, com árvores, frutos e isso tudo. No meio, havia um poço. (…) A água era límpida como tudo e pensei que, se pudesse lá mergulhar e tomar banho, isso aliviaria a dor no meu braço. Mas o leão disse-me que primeiro tinha de me despir. (…) Ia dizer-lhe que não me podia despir porque não tinha roupa, quando de súbito pensei que os dragões são uma espécie de cobras e que as cobras largam a pele. Por isso, comecei a esfregar-me e as escamas come¬çaram a sair por todo o lado. Depois esfreguei um pouco mais fundo e, em vez de escamas a sair aqui e ali, toda a minha pele começou a cair que era uma beleza, como se eu fosse uma banana. Daí a um minuto ou dois pude sair de dentro dela. Vi-a ali caída ao meu lado com um aspecto bastante desagradável e foi uma sensação maravilhosa. Por isso comecei a entrar no poço para tomar banho. Mas, quando ia meter os pés na água, olhei para baixo e vi que eles estavam tão duros, rugosos, cheios de vincos e de escamas como antes. «Oh, não há problema», pensei, «isto só significa que tinha um fato mais pequeno por baixo do primeiro e que também vou ter de o tirar.» Por isso voltei a esfregar e a segunda pele também caiu muito bem; saí dela, deixei-a cair no meu lado, como a primeira, e entrei no poço para tomar banho. Bem, aconteceu de novo exactamente a mesma coisa. E pensei para comigo: «Oh meu, Deus, quantas peles terei ainda de tirar?» Estava desejoso de molhar o braço. Por isso esfreguei-me pela ter¬ceira vez, tirei uma terceira pele, igualzinha às outras duas, e saí dela. Mas, mal olhei para o meu reflexo na água, vi que de nada servira. Então o leão disse (embora eu não saiba se falou): «Tens de deixar que seja eu a despir-te.» Garanto-te que estava com medo das suas garras, mas também estava desesperado. Por isso deitei-me de costas e deixei-o actuar. O primeiro golpe que me deu foi tão fundo que pensei que me chegara ao coração. E, quando começou a puxar a pele, senti a maior dor que já tive na vida. A única coisa que me ajudou a suportar aquilo foi o prazer de sen¬tir a pele a sair. Se já alguma vez arrancaste a crosta de uma ferida, sabes como é. Dói que se farta, mas é tão bom vê-la sair!
– Estou a ver exactamente o que queres dizer – respondeu Edrnund.
– Bem, tirou-me aquela coisa horrorosa, como eu pensara ter feito das outras três vezes, só que não doera, e para ali estava, deitada na erva. Mas aquela pele era muito mais grossa, escura e nodosa do que as outras. Fiquei tão liso e macio com uma vara descascada e muito mais pequeno do que antes. Então ele pegou em mim (não gostei muito porque agora, que não tinha pele, estava muito sensível) e atirou-me para a água. Ardeu-me que se fartou, mas só durante um instante. Depois tornou-se delicioso e, mal comecei a nadar e a mexer-me na água, descobri que já não sentia nenhuma dor no braço. Foi então que percebi porquê. Era outra vez um rapaz. Nem acreditavas se eu te dissesse como sentia os meus braços. Sei que não têm músculos e que são moles, comparados com os do Caspian, mas estava tão contente por os ver! Pouco depois o leão tirou-me para fora da água e vestiu-me... (…)
– Penso que viste Aslan.
– Aslan! – exclamou Eustace. – Já ouvi esse nome várias vezes desde que chegámos ao Camínheíro da Alvorada. E sentia... não te sei dizer... odiava-o. Mas nessa altura odiava tudo. A propósito, quero pedir desculpa. Acho que fui detestável.
– Não há problema – respondeu Edmund. – Aqui para nós, não foste tão mau como eu durante a minha primeira viagem a Nárnia. Só foste palerma, mas eu fui um traidor.
– Bem, então não me fales disso. Mas, diz-me, quem é Aslan? Conhece-lo?
– Bem... Ele conhece-me – respondeu Edmund. – É o grande Leão, o filho do Imperador de Além-Mar, que me salvou e também salvou Nárnia.”

C. S. Lewis, O Caminheiro da Alvorada

Neste breve excerto de um dos contos da série Crónicas de Nárnia, conta-se uma profunda operação de metamorfose sofrida por uma das suas personagens, Eustace. Caída no ponto mais baixo da solidão e da desgraça e atingido o ponto máximo do grotesco do se carácter, transformou-se num feio dragão, na ilha em que a extrema tentação atacava o incauto, a sedução de um tesouro. A metamorfose em dragão era assim a consequência natural e a figuração perfeita da decadência do coração.
E foi precisamente no estado de feio dragão, ou antes, de homem-em-dragão, que se manifesta o arrependimento e o desejo de mudança. É então que se revela alguém, Aslan, que lhe diz que tem de o despir. Eustace ainda tenta despir-se a si mesmo, mas em vão: cobrem-no camadas de velha pele, sem jamais atingir a mais interior, a última. Uma esconde sempre outra. E só Aslan o pode vestir. Só assim a metamorfose se reverte e o homem-em-dragão torna-se dragão-em-homem, ou melhor, em verdadeiro e total homem, exterior e interiormente, melhor do que antes fora. O despir desssa velha roupa assemelha-se ao rebentar do casulo da crisálida da lagarta, uma vez feita borboleta. Foi um processo com dor, mas o resultado é belo.
Em Nárnia, só Aslan era apto para limpar, revestir de justiça e transformar a natureza íntima. Na Terra dos filhos de Adão e Eva, igualmente só Jesus Cristo, o filho do Criador, pode dizer (Apocalipse 3:17-18):
“Não se apercebem que são desgraçados e miseráveis, pobres, cegos e nus. Aconselho-vos a que me comprem ouro fino para serem ricos; roupas brancas para se vestirem e não se sentirem envergonhados da vossa nudez; e remédio para porem nos olhos de modo a poderem ver.”

5 comentários:

Tinoca Laroca disse...

É dooroso o "tirar" a pele a que já nos habituámos, ainda que não gostemos dela. sofremos imenso nesse processo... mas depois... poderemos nadar, pular, e, sermos novamente... NÓS!

rui miguel duarte disse...

É precisamente isso. A alegoria de C. S. Lewis parece-me perfeita.

Vilma disse...

Fizeste-me lembrar as últimas palavras que ouvi da minha irmã mais nova e que me tocaram tanto. antes de morrer, ela entregou-se a Jesus e quando me contou, disse-me: Mana, tenho vestes novas! Sou uma nova pessoa! Que alegria saber que Deus mesmo toma a iniciativa de nos vestir com novas roupas...

Catarina disse...

Esse é o meu volume preferido de toda a série das Crónicas de Nárnia!

rui miguel duarte disse...

Catarina, até agora li três volumes (o Sobrinho do Mágico, O Leão…, e este). Posso dizer-te que preferi o segundo pela centralidade do sacrifício voluntário de Aslan e pelo paralelismo deste com o de Jesus, e pela redenção de Edmund. E amei também muito o 1ª, por ser o da criação do Universo de Nárnia. Este, o 5ª, é o mais complexo e denso dos 3 que até agora li.