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sexta-feira, maio 30, 2008

Verdade conveniente



As árvores já têm copas de lava
de tão violentadas as águas do rio
exibem fissuras nos dedos
os ursos polares têm calor em pouco gelo
ao sol.

O que antes foram cedros e figueiras e abetos
não são hoje cardos?
E não pode a água fluir límpida
da boca do ventre?
Cessarem os sacrifícios de canários em minas de carvão?
Não basta o sangue de um só para lavar as suas entranhas?

Tirar o cinto que garroteia as nuvens
e retêm os mananciais na esponja e a luz
a rega precoce e tardia que fala e beija a terra
e alimenta com a profecia os chacais e as avestruzes
as bestas selvagens do ermo?

Vamos, filhos do Rei, que não é a hora de a rocha
emanar a lava, mas de estancar o vómito aos vulcões!
Manifestai a vossa glória de príncipes!
É a hora de plantar os lírios e colher o vetusto jardim
de deixar que os ossos enterrados sejam as raízes
da árvore da vida.
De rasgar no deserto a via por onde passarão os exércitos!
De fazer brotar o rio das ânsias de parto do pesadelo!

(27/05/08 Após ver o filme An inconvenient truth e correr a ler Paulo, Carta aos Romanos 8:19 “Porque a ardente expectação da criatura espera a manifestação dos filhos de Deus.”)

2 comentários:

J.T.Parreira disse...

Rui Miguel, obrigado pela visita e breve crítica ao m/poema: viu nele humanidade.
Com gosto, retribuo aqui:
"As árvores já têm copas de lava" é um início que vem da realidade para a metáfora, todo o poema está construído sobre imagens que sabemos reais. Os primeiros versos «lembram-me» o que poderia ser a completa esconstrução do Salmo I, da completa inversão dos valores e do homem ímpio «espalhando-se» e espalhando males.
É um retrato à maneira da "Terra sem Vida" t.s.eliotiana", mas com uma esperança final.
Gostei.
Um abraço.
João

Ghernandes disse...

E quantos dos filhos têm se manifestado e mostrado o caminho a verda e a vida a outros?
Essa é uma grande luta,
Deus abençoe
www.thepescador.blogspot.com