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sábado, julho 31, 2010

A MOSCA


“no seu peito insuflou a coragem da mosca”
Ilíada 17.570

A águia não apanha moscas
— pois não, nem a poesia
não sabias? não haverá método mais prosaico?
mais indolor?
a mosca, cuja coragem foi outrora clonada no peito de Menelau

ah se tivesse aqui o Luciano — não o meu pai,
o outro, o de Samósata,
pedia-lhe ao menos um discurso
um arrebatado elogio
e um culto e rebuscado encómio
talvez conseguisse comover a sua inteligência
e apelar ao seu bom senso
mas o bicho danado, estúpida filha
de uma… mosca parideira
não deixa de importunar o condutor
de lhe zumbir o ângulo de visão
e lhe volitar à roda da cabeça, penetrar nos ouvidos
e na esfera dos olhos,
de lhe debicar a pele
e o condutor lá tem de descolar as mãos do volante
para atender às solicitações da fulana
pária da vida, invasora dos habitáculos alheios

— Bem, se não temos o Luciano,
temos o Parreira — intervém a Cristina
como é belo o senso prático das mulheres quando é preciso —
se não vai lá com discursos de prosa
dá-se outra estética,
a da mão que brande os versos e mede o livro
uma pancada de metáforas bem escandidas
e já era!

28/07/10

segunda-feira, julho 26, 2010

SUBIDA AO SINAI

Ao subir ao monte
subo de dorso curvado
e olhar arrastando
no chão

o coração ainda se ergue
para o pico
mas o peso da convocação de Deus
a massa ingente da profecia por nascer
acabrunha o próprio ar
que respiro

sarça que arde nos pés
sobre a delicadeza sagrada
da terra,
temo apenas rasgá-la
por isso o meu dorso
pesado sem asas
e carente dum mistério duma voz duma palavra
que o salve
vai curvado

e sobe

20/07/10

terça-feira, julho 13, 2010

MEDITAÇÃO SOBRE O SALMO 93


“A selvagem exalação das ondas”
Sophia de Mello Breyner Andresen, “O Mar”

A selvagem exalação das ondas
subindo aos astros é mais possante
do que eu

o exaltado rugido do tropel das águas
abre mais a boca escura aos céus
do que o clamor cavo
da minha alma

o estampido excessivamente rouco
do seu chicote
flagelando os penhascos
consomem o ar que respiro
e desmantelam o chão que piso

Mas o Senhor nas alturas, forte e grandioso
no Seu trono
é mais levantado do que todas as águas
o fragor da Sua voz
mais sonora de eternidade
e escora-me o mundo sob os pés

é então que
toda a minha vacilação diluída
nas ondas se esvai, e todo o sobressalto
recolhe à vazante

é então que
a voz do Senhor acima dos céus, forte e grandioso
no Seu trono
ensurdece esse muito ruído das marés
num estreito murmúrio de búzios

10/07/10