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terça-feira, julho 15, 2008

Um FARCuinho comunista


A libertação de Ingrid Betancourt e de outros catorze reféns das FARC (Forzas Armadas Revolucionarias de Colombia) a 2 de Julho foi motivo da apresentação de votos de congratulação na Assembleia da República, como nos demais países europeus. Dois votos foram apresentados: um apresentado por PS, PSD e CDS-PP, o outro pelo PCP.
O primeiro voto classificava as FARC de grupo terrorista, repudiando as suas actividades, e foi aprovado com voto contra do PCP e a favor dos demais partidos. O segundo voto, por sua vez, proposto pelo PCP, foi rejeitado, com votos a favor do pleno da esquerda à esquerda do PS e dos partidos de centro-direita.
O PCP recusa-se a classificar as FARC de organização terrorista, a despeito dos seus métodos, a que não são alheios, por exemplo, a ameaça de morte que pesa sobre os seus membros que, na luta militar e de espionagem contra o exército estatal, deixem escapar um prisioneiro ou se deixem tocar por um pouco de compaixão, à revelia das chefias.
No seu voto, o PCP prefere um registo neutro de satisfação por esta libertação e mostra insatisfação por esta luta de décadas, com prisioneiros e mortos de cada lado. Ao fim e ao cabo, como salientam os restantes partidos de esquerda, o mal não está apenas de um dos lados, e de ambos os lado há vítimas (como o próprio PCP assume). Não bastando porém isto, logo a seguir borrar a pintura, desancando somente no "fascista" do Presidente da Colômbia, Álvara Uribe e descarregando toda a sua bílis, como era previsível, sobre os EUA, com o blá blá blá do costume. A famosa cassete.
O PCP mantém-se fiel ao que sempre foi. Revela, mais uma vez, que nada aprendeu, e que a fidelidade à ideologia e às simpatias partidárias falam mais alto do que a justiça em sentido absoluto. Assim é fiel ao saudoso pai dos povos Estaline, como ao comunismo dinástico de Pyongyang. É a mesma fidelidade que tem ao Fidel. A tirania de direita é má; aquela que se proclama de Marx, Lenine, Estaline, da família Kim, de Mao, de Castro e Che Guevara é sacrossanta e libertadora. Não importa que haja homicídio, tortura, massacres, coacção, roubo e saque no currículo destes senhores. O genocídio cultural do Tibete pelos comunistas de Pequim é uma bagatela para o PCP. Apesar da semelhança em relação à estratégia do "direitista" e imperialista pró-americano Suharto aquando do domínio indonésio em Timor Oriental, colonizando os territórios dominados com populações de funcionários, elites e militares da etnia dominante no governo (estratégia que os Romanos e outras puseram em prática).
A proverbial "coerência" de Álvaro Cunhal e seus herdeiros é de facto — já as mentes sensatas o sabiam há muito — incoerente. O pior é que o PCP se mantém prisioneiro destas insanáveis contradições. Teria sido escandaloso não se congratularem, de todo, pela libertação dos reféns. Na sua contragutalação, porém, limitam-se a um shame on you, mister Uribe, and on you, mister Bush, and on those before you! A santidade revolucionária das FARC, debaixo do pétreo silêncio do PCP a seu respeito, permanece imaculada.

Ter-lhes-ia feito bem atentarem um pouco no percurso político dessa senhora, ex-candidata presidencial. Antes e depois da sua captura e libertação, lutava politicamente contra a corrupção, o rapto, o homicídio, o tráfico de droga, tanto de um lado como do outro. Se Álvaro Uribe, por exemplo, é suspeito de tráfico de droga para financiar o seu poder, as FARC, ao que parece, recorrem ao mesmo meio para adquirir armamento.

Quem não quer aprender, como o PCP, não só fica ignorante como de nenhuma utilidade serve.

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