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domingo, setembro 26, 2010

O BOM PASTOR


O Bom Pastor é aquele

que conhece as quatro estações

das ovelhas


conhece a espessura da sua lã

e sabe que esta se no Verão lhes sobra

no Inverno não lhes calafeta

todas as portas e janelas da pele

ao frio


O Bom Pastor

conhece os azimutes todos

dos caminhos bravios das montanhas

onde habitam todos os caules

que lhes servem

de alimento


no cajado do tempo

na vara das estações

cada uma com o seu açoite

cada uma com o seu consolo


conhece-lhes os esgares do céu

de que boca de floresta

de que toca da noite

espreitam quentes os focinhos dos lobos


O Bom Pastor

é aquele que canta um canção

de amor à lânguida flauta

para as suas ovelhas

que lhes oferece no flanco

moribundo

um redil para seu abrigo


no cajado do tempo

na vara das estações

cada uma com a sua morte

cada uma com a sua vida


19/09/10

terça-feira, setembro 21, 2010

ELIAS


Quem está na montanha vê as coisas de cima

e a roupa do corpo parece-lhe durar

para sempre imune aos temporais

e ao alvoroço vacilante da multidão


quem está na montanha

toca com a ponta dos dedos

nos lumes do céu

e maneja mais destramente

o trovão, a majestosa imponência

dos dedos de Deus


quem está na montanha

de um gesto

incendeia o altar do sacrifício

e jorra o rio

na água límpida das pedras


quem está na montanha

domina as artes do discurso

é mestre de ilusionismo bobo de feira

tratador de ventos terramotos fogos

doutor da mais cristalina sabedoria


quem está na montanha

é paladino e chanceler da justiça

da nação


quem está na montanha

da montanha pode cair

e só numa gruta abscôndita na alma

pode escutar o sussurro

o harmonioso murmúrio

da voz de Deus


12/09/10

quarta-feira, setembro 08, 2010

PROCURAMOS UM DEUS


"O reino dos antigos deuses não resgatou a morte / E buscamos um deus que vença connosco a nossa morte"

Sophia de Mello Breyner Andresen, in "Senhora da Rocha"


Há manhãs que acordam nos rostos

opacos e escuros das tempestades

para nosso afrontamento, e que assim

nos conduzem a quebrar a aliança

que nos liga às coisas

à realidade


a estilhaçar o fio de prata

que nos liga ao corpo, ao chão fremente


mas tudo se pode afundar no mar


é então que sacerdotes de um culto estranho

nos aproximam do peito as facas

igualmente escuras e opacas

e no-las apontam com rigor ao coração

e nós derivamos o olhar, o clamor

para os recintos rasgados na terra

para os círculos dilacerados no céu

em demanda no voo das aves

de um olhar fresco dos deuses antigos

de uma voz que se fizesse ouvir

na vibração dos ares


nas paredes poliédricas de templos de seda

procurámos o reino, o lugar de repouso

a casa à beira-mar

mas nada nos resgatou da morte

nada desviou a sombra da faca

da aorta, para longe da boca do medo

o reino dos antigos deuses

não chegou ao nosso meio

porque era vazio e frio de granito

e quanto se exaltou o vento

assim se foi


e sem saber sabíamo-lo: buscávamos um deus

que transpusesse as paredes e o espaço

que morresse connosco a nossa morte

nos secasse o rio que dos rostos

nos colos das manhãs ainda caem

e nos desdobrasse as asas

da sua vida


Rui Miguel Duarte

04/09/10

SIMÃO DE CIRENE


“Quando o levavam, obrigaram um homem de Cirene chamado Simão, que vinha do campo, a carregar a cruz de Jesus às costas e a seguir atrás dele.”

Evangelho de Lucas 23,26 (versão A Bíblia para todos)


Simples homem da terra,

tisnado e áspero como os bois

irmãos do arado


o teu braço,

que antes se habituara

a quebrar na enxada

outro braço agora, de soldado

amante de sangue

ignorante das tuas horas

nesta hora ignaro

de demente vingança

prende e esmaga


braço por braço

ombro por ombro

sobre as tuas costas

faz poisar o peso de pena

de um condenado


abate-se a canga do céu

despojado de estrelas

a cruz toda do mundo


RUI MIGUEL DUARTE

29/08/10