domingo, dezembro 07, 2014

DÁ-ME O TEU CORAÇÃO

"Je puis faire les rois, je puis les déposer:
Cependant de mon coeur je ne puis disposer."
Imperador Tito, em "Berenice", de Racine.

Porque me pedes o que não posso dar
nem eu posso do coração dispor
como posso dispor da ave
se mesmo o vento domino e aprisionei
só para alcançar as asas que batem?

posso fazer e desfazer reis
enlaçar e soltar os cavalos
pelos freios dos rios, das flores
extraí algoritmos, dos mastros
moldei oceanos, e ao olhar mais longe,
para o universo não hesitei em fragmentá-lo
de que mais preciso? eu sou o imperador
que clareia as noites e obscurece os meios-dias

mas ao meu coração não ponho a mão,
como posso chegar-lhe?
se a mão bate no peito, no metal
emite algum som, alguma música
este céu da ave que nem de vento carece?

não é meu, já to dei ou já o tomaste de mim
e o que tenho é só teu

Rui Miguel Duarte
05/12/14

sábado, novembro 15, 2014

CONTRA OS ACORDÕES MARCHAR MARCHAR!

Acção popular judicial contra o chamado "Acordo Ortográfico de 1990", cuja tenho a honra de ser um dos autores.
Falhada a via política, com todos os partidos com assento parlamentar em geral, com a excepção da CDU e de alguns deputados do CDS a prestarem-se à ignomínia e à persistência na ignorância, resta aos cidadãos a via judicial. Esperando que esta seja sensível à argumentação técnica e jurídica coligida e expendida, que é excelente. Participam dela alguns cidadãos conhecidos da política, da cultura, da academia, do jornalismo. Transcreve-se a notícia do Público:


"Acção judicial popular contra Acordo Ortográfico


Freitas do Amaral, Manuel Alegre, Pacheco Pereira e Miguel Sousa Tavares são alguns dos subscritores de uma acção judicial popular contra a aplicação do Acordo Ortográfico no ensino público.
Mais de uma centena de personalidades de diversas áreas – incluindo académicos, escritores, músicos, actores e políticos de vários quadrantes – intentou, no Supremo Tribunal Administrativo, uma acção judicial popular contra a aplicação do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90) ao sistema de ensino público, do ensino primário ao secundário.
Manuel Alegre, Diogo Freitas do Amaral, António Arnaut, António Bagão Félix e Isabel Pires de Lima são alguns dos ex-governantes que subscrevem a acção, a par de José Pacheco Pereira e Miguel Sousa Tavares, dos músicos António Victorino d’Almeida, João Braga, Pedro Abrunhosa, Pedro Barroso ou Rão Kyao, dos escritores Joaquim Pessoa e Teolinda Gersão, da actriz Lídia Franco ou de professores e ensaístas, como Miguel Tamen, Raul Miguel Rosado Fernandes ou o prestigiado camonista e teórico da literatura Vítor Aguiar e Silva.
A acção judicial foi patrocinada por Francisco Rodrigues Rocha, docente da Faculdade de Direito da Universidade Lisboa, e a respectiva fundamentação foi preparada a partir de pareceres jurídicos de Ivo Miguel Barroso, docente da mesma faculdade, e de Fernando Paulo Baptista, filólogo que publicou um livro em que analisa o modo como a aplicação do AO90, ao impor “a supressão arbitrária” das consoantes “c” e “p”, contribuiu para distanciar a ortografia portuguesa das principais línguas europeias, do castelhano, francês, italiano ou romeno ao inglês e alemão.
Este mesmo conjunto de pessoas interpôs também um requerimento à Procuradora-Geral da República, solicitando que o Ministério Público intente uma acção pública contra a "imposição inconstitucional" do AO90.
Duas iniciativas que se vêm somar à queixa contra o AO90 que Ivo Miguel Barroso fez chegar no final de 2001 ao Provedor de Justiça e que não teve, até ao momento, qualquer resposta.
Se a acção popular vier a obter uma decisão favorável do tribunal, a aplicação do Acordo Ortográfico de 1990 nos vários escalões do ensino público, do 1.º ao 12.º ano, será considerada ilegal.»"

sábado, outubro 25, 2014

UM CAFÉ EPICURISTA

um poema auto-aniversário

sentado com a água do rio por tecto
à escuta de um sabor, que me chegue
um veludo agreste talvez novo
um perfume furtado à árvore
por pássaros de passagem

assim sentado bebo um café,
com o descuido por mastro, epicurista
sapiente de muito pouco, muito menos
de contar os minutos pelo relógio
— pois nem sei se existe tempo

o café que bebo epicurista é o que tenho
de certo ou só pontos de luz que saltam
e nem sequer o café pois, epicurista, é ele que me bebe
bebe-me de rosto frio, quando
o sol deste lado se levanta à beira da dor
que passa no enlace da chávena

Rui Miguel Duarte
17/10/14

terça-feira, setembro 16, 2014

PORCO NOJENTO

“Foi pedir trabalho a um homem da região que o mandou para os seus campos guardar porcos.”
Evangelho segundo Lucas 15:15

é nojento esse porco até à
milésima casa e à milésima
geração de dias
faltam-lhe as subtilezas do alfabeto
declinado às cordas do amor, o velho
abraço à sombra escorrendo
seiva fosforescente da barba
sobram-lhe o nojo o cuspo
o beijo viscoso à procura de uma palpitação
assim nasce e cresce
o porco o nojo o cuspo a que se reduz o corpo
que a alma foi perdida lá atrás
num descaminho de má vida
disseram-lhe que podia beber o pus
pois as bolotas são dos porcos nojentos
e o pão é nosso de cada dia dos ratos
a alma foi perdida lá atrás: pergunta onde?
lá atrás há porcos que regressam ao velho
abraço à sombra que escorre
o sol

Rui Miguel Duarte
12/09/14

quarta-feira, julho 16, 2014

DEVASTAÇÃO

"And the dead tree gives no shelter, the cricket no relief"
“E a árvore morte não dá abrigo, nem alívio vem do grilo”
T. S. Eliot, de "Waste Land", secção I v. 23

as árvores escondem o que há de cinza
avessas ao vulgo, ao desenfado profano
só lhes dava o sol, de manhã,
e têm frio
(quanto mais lhes dá mais frio têm)

não procures indagar para onde
te eleva o voo da locusta
para onde a mancha dos grilos
que do céu galopa sobre a terra
eles não adivinharão nada do mistério
do dia e da noite,
ou o marulhar potente do exército de pedras

só um vento vermelho
que te descascam as folhas até à solidão
até ao vazio das palavras

o que vês do alto da tua copa
é o oceano seco que tuas raízes jorram
roídas

ainda que o fruto minta, mente
o rio do olvido vem reclamar
os fardos das árvores: que dispam
os seus troncos
assim entoarás louvores à nuvem que
passa

Rui Miguel Duarte
15/07/14

terça-feira, julho 01, 2014

A FIGUEIRA

“Então Jesus exclamou: «Nunca mais ninguém coma do teu fruto!»”
Evangelho segundo Marcos 11:14
Darás fruto algum dia, ó figueira
gotas de água do fundo da tua raiz
alguma vez nascerá em ti o Verão
haverá um rasto de amor para o meu ardor?
em ti mais não escorre
do que a secura que o livor pôs
na tua mudez tens a morte por rebento
não há sol perante ti, árvore de prata,
mas um apetite de uma palavra uma só
que salve a madrugada da fome da terra
não há nada pronto mas uma vontade
de mãos cheias de sabores vivos
arrancados à conjura do vento e das sombras
porque persiste em ti o Inverno?
Rui Miguel Duarte
02/06/14

QUE PEDE UM POETA?

Quid dedicatum poscit Apollinem
vates?
"Que pede um poeta a Apolo, a quem um templo
foi dedicado?"
Horácio, Ode 1.31 vv. 1-2 (original e a tradução de Pedro Braga Falcão)

que pede um poeta a um deus?
à claridade que fala e em oculto
inspira vozes? riquezas, elevados
lugares de influência, ser senhor
de minas de ouro e prata? um avião
estacionado à porta de cada manhã

um poeta não procura ser o criador
de todas as cores, não é o sol
nem o condutor dos seus carros
não cruza os mares como
o príncipe da navegação por nos seus olhos
caberem o mundo mas não caberem os seus limites
nem a glória de imperador
lhe recobre os palácios construídos e os
por construir, não tem mármore
nas espaldas ou particular conhecimento
de escansão, os pedidos que um poeta

concebe vão para além de tudo quanto
possa prender o homem, mas só
do que o surpreende, basta-lhe
ter a língua a palpitar por uma
gota de hidromel, sem nada perguntar
são as perguntas que vêm até ele

é o que pede este poeta ao deus que queira

Rui Miguel Duarte
25/06/14