quinta-feira, dezembro 12, 2013

Ultra-Acordo Ortográfico

Já dei aulas na Universidade Lusófona (do Porto). E com a liberdade académica que prezo, repudio a dupla desastrosa posição da Lusófona face ao AO90: (1) aderiu há uns 3 anos; (2) adere agora ao projecto de simplificação (ou antes, "projeto de simplifikasão") conhecido como Acordar Melhor.

quarta-feira, dezembro 11, 2013

La neige qui tombe

La neige quand elle 
         tombe
tombe oblique sur le visage qui un fil
laisse à la peau, dévoile le manteau
creuse les toits, force le vent
à la danse sur le fil quand elle monte descendant
constant en une mélodie
         oblique

c’est pour cela, pour ce manteau
sans couture
qu’elle est un étonnement nocturne
en passant par les campanules
où les troncs se
         déclinent
à la danse
qu’elle est l’expression la plus sublime
du dessein céleste

Rui Miguel Duarte
5/12/13

NADIR AFONSO FALECEU

Depois de Ramos Rosa e Mandela, mais um passamento que custa noticiar: Nadir Afonso, um pintor que pessoalmente apreciava, e ao qual estou ligado por ser o patrono de uma escola do 2.º e 3.º ciclo em Chaves, onde trabalhei (e gostei de trabalhar).

segunda-feira, novembro 11, 2013

VIA SACRA

VIA SACRA

“                      …… Só vou por onde

Me levam meus próprios passos”
José Régio, “Cântico Negro”


Há um caminho por onde vou
e um caminho por onde não vou

pelos olhos doces da legião
pela inquietação segura dos amigos
que tentam dizer que vá por aí
não vou, por aí não vou

um rito sobre as pedras,
o meu caminho é aquele
em que os pés marcham descalços
e se sujam, bastante tendo por fardo
a penumbra dos homens
o caminho em que o pó é feito de arestas

por aqui me levam os meus passos,
quanto mais indecisos mais firmes,
pelo húmus lamacento é que se alevanta
o firmamento

Rui Miguel Duarte
11/11/2013


sábado, setembro 28, 2013

Mais uma do chamado "acordo" ortográfico


Não, isto não é campanha eleitoral nem comentário político, não venha a CNE incomodar-me, pois nem sou eleitor amanhã! 
Ouça-se, a partir de 1m36s, uma maravilhosa pérola do acordo ortográfico… 
E não venham os sacerdotes do dogma religioso do Açordo Ortopédico dizer que a escrita não influencia a pronúncia… :D

segunda-feira, setembro 23, 2013

ANTÓNIO RAMOS ROSA (17/10/1924 — 23/09/2013)

Deixou-nos um grande, enorme, dos maiores que a Língua e a Literatura Portuguesa, e mundial, já tiveram. Poesia muito tensa, de inesperadas associações, de encantação na pura viagem das palavras, umas com as outras. Lê-lo é aprender a amar, a descobrir a surpresa que é a poesia.
Até sempre, ARR.



Poema de um funcionário cansado

A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só
Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço
Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida
num quarto só.


António Ramos Rosa

quinta-feira, agosto 08, 2013

À TARDE


“La pena de la tarde estremece a mi pena”
Federico García Lorca, “Meditaciones bajo la lluvia”

à tarde mesmo ao fim
a voz procurava o alívio
da pena sobre o tremor da pena

as árvores em que a sombra nasce,
a voz, mesmo
no fim do jardim
da tarde que estremece
no gume, há a pena
à qual tudo foi destinado
estremecem os olhos os ouvidos
a pele da testa lavrada do peso do sangue
que levanta pérolas no cálice,
o cálice bebido na oração redita

nessa angústia
da impossibilidade do salmo
que afague como pena
a dor da angústia do mundo todo

no jardim do Getsémani
o Filho do Homem
é uma ave de penas soltas


Rui Miguel Duarte
08/08/13