quarta-feira, julho 16, 2014

DEVASTAÇÃO

"And the dead tree gives no shelter, the cricket no relief"
“E a árvore morte não dá abrigo, nem alívio vem do grilo”
T. S. Eliot, de "Waste Land", secção I v. 23

as árvores escondem o que há de cinza
avessas ao vulgo, ao desenfado profano
só lhes dava o sol, de manhã,
e têm frio
(quanto mais lhes dá mais frio têm)

não procures indagar para onde
te eleva o voo da locusta
para onde a mancha dos grilos
que do céu galopa sobre a terra
eles não adivinharão nada do mistério
do dia e da noite,
ou o marulhar potente do exército de pedras

só um vento vermelho
que te descascam as folhas até à solidão
até ao vazio das palavras

o que vês do alto da tua copa
é o oceano seco que tuas raízes jorram
roídas

ainda que o fruto minta, mente
o rio do olvido vem reclamar
os fardos das árvores: que dispam
os seus troncos
assim entoarás louvores à nuvem que
passa

Rui Miguel Duarte
15/07/14

terça-feira, julho 01, 2014

A FIGUEIRA

“Então Jesus exclamou: «Nunca mais ninguém coma do teu fruto!»”
Evangelho segundo Marcos 11:14
Darás fruto algum dia, ó figueira
gotas de água do fundo da tua raiz
alguma vez nascerá em ti o Verão
haverá um rasto de amor para o meu ardor?
em ti mais não escorre
do que a secura que o livor pôs
na tua mudez tens a morte por rebento
não há sol perante ti, árvore de prata,
mas um apetite de uma palavra uma só
que salve a madrugada da fome da terra
não há nada pronto mas uma vontade
de mãos cheias de sabores vivos
arrancados à conjura do vento e das sombras
porque persiste em ti o Inverno?
Rui Miguel Duarte
02/06/14

QUE PEDE UM POETA?

Quid dedicatum poscit Apollinem
vates?
"Que pede um poeta a Apolo, a quem um templo
foi dedicado?"
Horácio, Ode 1.31 vv. 1-2 (original e a tradução de Pedro Braga Falcão)

que pede um poeta a um deus?
à claridade que fala e em oculto
inspira vozes? riquezas, elevados
lugares de influência, ser senhor
de minas de ouro e prata? um avião
estacionado à porta de cada manhã

um poeta não procura ser o criador
de todas as cores, não é o sol
nem o condutor dos seus carros
não cruza os mares como
o príncipe da navegação por nos seus olhos
caberem o mundo mas não caberem os seus limites
nem a glória de imperador
lhe recobre os palácios construídos e os
por construir, não tem mármore
nas espaldas ou particular conhecimento
de escansão, os pedidos que um poeta

concebe vão para além de tudo quanto
possa prender o homem, mas só
do que o surpreende, basta-lhe
ter a língua a palpitar por uma
gota de hidromel, sem nada perguntar
são as perguntas que vêm até ele

é o que pede este poeta ao deus que queira

Rui Miguel Duarte
25/06/14

sábado, maio 03, 2014

EPODO AO SALMO 139

a J. T. Parreira, com amizade, solidariedade poética e votos de saúde


Alguém lá em cima gosta de mim
alguém lá em cima tem colo de ouro
e braços de estrelas
para os meus cansaços

posso estar no chão e os meus pés
pisarem os céus e os ínferos dos mortos
pode não sobrar de mim mais do que
a voz que grita a ocidente e a oriente
e Alguém aí está e gosta de mim

posso não ter mais do que algas podres
em vez de mãos um seixo túrgido
em vez de uma canção que se atira
contra os tremores de ventos e marés

que claro e imperceptível é
que, ao mostrar-se treva luz,
Alguém gosta de mim

Rui Miguel Duarte
03/05/14

domingo, abril 20, 2014

RELATO

“Quem acreditou naquilo que ouvimos?”
Livro do Profeta Isaías 53:1

pediram-nos uma palavra 
aberta em melodia que falasse
do drama da alegria

do seu breve trânsito pelos velhos mortos
em que foram decompostas as nossas pobrezas

pediram-nos uma memória,
quente, nova que fizessem acreditar
que a memória é símbolo e é carne

pediram-nos um relato
mais vivo e que mais fortemente
arrepiasse a espinha ao silêncio
do que o próprio evento
que contar o espinho ferisse mais
do que o espinho,
porque a mortalha dele é nossa roupa nova
para dia de festa
e o sangue dele o nosso músculo enxuto
contar quanto a pedra caiu à beira do caminho
diante do clamor das mulheres
quanto o dia em que a noite
foi apenas a preparação da manhã

o que temos é só o que ouvimos
porque Ele retornou ao Pai
deixou-nos, contadores

necessário é: para manter
os ouvidos ouvindo
e em desemparo acreditando

e nós contamos

Rui Miguel Duarte
19/04/14

quinta-feira, março 06, 2014

CONCLUSÃO

“É tempo de concluir; já tudo foi dito.”
Eclesiastes 12.4

De tudo isto a conclusão é: o sol brilha
e não deixa vivalma isenta de meio-dia
a noite consome-nos quando faz assobiar os gonzos
por trás de nós, por trás da memória

a areia devora-nos o rosto, é uma mó
que de tanto moer grão seco quebrou

o coração dissolve-se no vento
sem saber o que o leva às alturas
sem saber se há alturas ou apenas vertigem

de tudo isto, dos velhos que são fortes
curvados, do deserto em que não entrámos
que perdemos na ilusão de ser mar mas que entra
por nós dentro, e nos traga as mãos
ao tanto escorrer

de tudo isto a conclusão
é afinal irrefragável:
teme ao Senhor ama os preceitos dum Pai
a eternidade que são
todas as horas da tua vida de homem,
esta é a tua condição, esta é a tua conclusão

Rui Miguel Duarte
06/03/14

terça-feira, fevereiro 25, 2014

Língua Portuguesa: a hora da esperança

Os deputados não serão indiferentes à ideia de seus filhos e netos, e todos os portugueses, se tornarem deficientes linguísticos ad aeternum

Neste fulgor baço da terra/ que é Portugal a entristecer/ – é a Hora!
Fernando Pessoa

Elsa Triolet, esposa do poeta Aragon, escritora também, deu um lindo e especioso título a um romance seu, em português Rosas a Prestações. Seguindo a sua lógica de maravilhoso a conta-gotas, pode também falar-se de esperança neste nosso tempo de desespero. Não da esperança económica, que talvez se fique por ganhos empresariais e subidas da palavra Portugal em gráficos de Mercados. Nem do viver melhor, para a maioria, que se limitará a ler a notícia disso nos jornais.
Mas, se para alguma coisa serviu o 25 de Abril (neste 40.º aniversário próximo, frisarei: “25 de Abril sempre, fascismo nunca mais!”), foi para instaurar a democracia entre nós e, com ela, a possibilidade de pensar livremente, criticar, reconsiderar: para amparar e reconstruir o país. Agora, em ruína… a precisar de tanto amparo. A precisar de clarividência e isenção.
Mas pensar e criticar faz-se com palavras, com linguagem, com uma formação profissional prática e teórica, que se enriquece com a cultura de cada um, feita de aprendizagem do quotidiano, da vivência própria do indivíduo, tendo por base a escola, educação, exercício profissional, experiência de cultura e arte, exercício da cidadania. As palavras são manancial de riqueza: juntam a criatividade de “crescer” em diversos sentidos, a partir das suas raízes fortes, em lógica de desenvolvimento que é tanto delas mesmas como dos que as usam, quando respeitam o seu étimo. E reúnem-se na família vocabular que é a Língua: o Português, cujas raízes estão no Latim e no Grego, beneficiando de outras línguas no seu convívio. São como um chão em que nos movimentamos, tanto quanto um firmamento de sonho, que em nós suscita desejos e projectos, leva a sucessos e invenções. Quase sem darmos por elas, como nos entenderíamos sem palavras fortes, não dúbias e bem definidas?
Ora já sabemos como o chamado Acordo Ortográfico as veio maltratar, como as cortou das raízes da sua proveniência, como lhes decepou ligações de vizinhança com línguas europeias. E antevemos vários cortes de raciocínio (o raciocínio que leva à acção concertada!) a que tal conduz. Reencaminhamo-nos, assim, para o “orgulhosamente sós” de Salazar e, mais do que sós, ficamos decepados. Com a desculpa que a ortografia não é a língua (como se ela não fosse parte integrante da língua, como a pele que cobre o corpo!), o Acordo Ortográfico desfigura a linguagem: desmembra famílias de palavras, estraçalha vocábulos (que parecem outros, com os quais os falantes os confundem), isola termos que ficam lexicalmente à deriva, num oceano de incongruências, arbitrariedades, confusões, deslocalização do sentido original, que já não é possível perceber para se atinar de imediato com o sentido. Um desatino!
Ficámos aleijados a escrever em português. Por determinação da lei que impôs o Acordo Ortográfico como medida política de aproximação com os países de língua oficial portuguesa. Os quais, afinal, enjeitam tal medida, pois não o adoptaram! E aleijados também porque ninguém entre nós sabe escrever segundo o Acordo, tão impossível de fixar ele é, ilógico nas suas regras, infinidade de excepções e hipóteses de escrita múltipla. Não se consegue fixá-las, é preciso decorar o que está correcto e o que não está! Não há hoje quem saiba escrever em Portugal segundo o Acordo: escrevem os correctores automáticos (ditadores mecânicos da linguagem que “faz” cultura: como Deus a fazer um “pato” com o Diabo, num livro de Saramago; como a locutora da TV que lança um “réto” (“repto” quis ela dizer, e não “recto”) ou como o aluno que, lendo sobre “a Imaculada Conceção”, passa a escrito como “Imaculada Concessão” – exemplos sem fim, que parecem anedota, se é que tudo isto o não é… Por uma vez, as piadas deixam de fazer rir em Portugal, pois é o ser humano, física e mentalmente, que o Acordo Ortográfico agride, já que a saúde do indivíduo reside também na sua fala e poder de escrita, e ambas se interpenetram.
Não vale a pena exibir mais agravos do Acordo Ortográfico: as críticas que lhe têm sido feitas chegam e sobejam para entendermos o seu alcance de danificação, em expressão e raciocínio, a curto prazo (e já actual!), no falante luso. E as implicações a vir na descida do nosso nível cultural, profissional e económico, no futuro. É uma amputação! Quem aprovou a lei não o supunha, talvez. Embora tenha havido claros pareceres e advertências, na altura devida – e os responsáveis fizeram, no sentido mais próprio, ouvidos de mercador.
Mas ainda é tempo! A Assembleia da República que aprovou esse instrumento de atraso mental não é hoje a mesma, e os que nela permanecem, do grupo anterior, tiveram entretanto ensejo de reflectir, de compreender. Tenhamos esperança! Os portugueses que formam esta AR podem mostrar-se cidadãos responsáveis, que não querem depender, durante o resto da vida, de conversores automáticos colocados em computadores, os quais ainda por cima erram na aplicação do próprio Acordo, e o resultado é que não se fica a escrever nem em Português nem na ortografia imposta…, escreve-se em língua que não existe, não é a da lei, nem a usual! Os deputados não serão indiferentes à ideia de seus filhos e netos, e todos os portugueses, se tornarem deficientes linguísticos ad aeternum, com os custos que isso acarretará, em atraso e marginalidade decorrente, para Portugal. “Medida política”, isto?!
Tal medida, impensadamente aprovada em 2008, que desfigura a fisionomia do Português, vai ser reexaminada na Assembleia da República no próximo dia 28, graças a mais uma Petição de cidadãos que pretendem desvincular-se do Acordo Ortográfico, recebida por este órgão de soberania. Esse pode ser um dia de efectiva recuperação para o nosso país, e o 28 de Fevereiro ser data marcante da democracia, como efectiva participação do povo na res publica! A esperança é a última a morrer? Talvez, mas… quem espera sempre alcança. Em Rosas a Prestações, as heroínas, jovens raparigas belas, ambiciosas e ignorantes, deitaram tudo a perder. Porque a sua esperança se apoiava em gestos de exibição social, aparência física de vazio interior e relações de interesse… e tudo isso, se não tem linguagem segura a apoiar o indivíduo e a torná-lo gente, estilhaça-se. Esse é um romance que foca a falência humana pela incapacidade da linguagem na comunicação. Mas a vida não é um romance, e, em democracia, o decisor é o povo, pelos seus representantes. Haja, pois, confiança!
Centro de Estudos Comparatistas – FLUL

quarta-feira, fevereiro 19, 2014

O ÚLTIMO CÁLICE

até amanhã
já me basta o vinho de hoje
o mal de cada dia que vem a nós

só o vinho o novo e o velho
de cada hora

até amanhã 
quando às estrelas
forem cortados os ventres das uvas

até amanhã
lá no meu Reino
lembrai-vos de mim

Rui Miguel Duarte
18/02/14

segunda-feira, janeiro 27, 2014

JUSTAMENTE

JUSTAMENTE

“… e justamente quando
já não eram precisos
apareceram os poetas à procura…”
Mário Cesariny, “Uma certa quantidade”


justamente — dizes
são os poetas, os que caem e vêm à procura
em cada pedra o sol
gente, pássaros de regresso ao Norte
do que já não precisamos, do que já temos

a pólvora, a gente, a agitação das ondas
a perturbação da areia
a fugir

justamente — dizes
são os poetas, os que aparecem de repente
quando já
não eram requeridos,
quando já
foram, estão substituídos
quando já a comida tem sal
que chegue, mas para que precisamos do sal
afinal, se nem temos o vinho?

justamente — dizes
são os poetas, os que doem
e fingem aqui e acolá, que não
cantam, mas emitem pássaros
que cantam por eles


quando já não são precisos
quando são poetas

Rui Miguel Duarte


23/01/13

Publicado ineditamente em Poeta Salutor

sexta-feira, janeiro 17, 2014

Acordo Ortográfico: das fraudes de uma missiva

Transcrição do artigo publicado no Público de 16 de Janeiro de 2014

“Atenienses, de quão grandes têm sido as diligências e as manobras partidárias em torno do presente debate, suponho bem que quase todos já vos tendes apercebido, ao verdes ainda agora aqueles que, quando eram os vossos nomes escrutinados, vos vieram perturbar e assediar. Pedir-vos-ei, a todos vós, aquilo que é justo colocar ao dispor mesmo de quem o não pede: que não tenhais em maior apreciação nem o favor nem o factor pessoal do que a justiça e o juramento que cada um de vós pronunciou ao entrar neste lugar.”
Demóstenes, Discurso sobre a embaixada fraudulenta, 19.1 (proémio)

Estava agendada, para o passado dia 20 de Dezembro, para plenário na Assembleia da República a apreciação da Petição n.º 259/XII/2 “Pela desvinculação de Portugal do ‘Acordo Ortográfico’ de 1990”. Na véspera, foi a apreciação cancelada, a pedido dos Deputados José Ribeiro e Castro e Michael Seufert (CDS), que apresentaram na mesma data, em conjunto com o Deputado João B. Mota Amaral (PSD-A) um projecto de resolução n.º 890/XII/3.ª. Este projecto recomenda ao Governo a criação urgente de um Grupo de Trabalho sobre a Aplicação do Acordo Ortográfico. O propósito é de fazer acompanhar a apreciação da Petição (que fica adiada, faltando agendar nova data) de uma iniciativa que force os Deputados a pronunciar-se por meio de votação, porquanto a mera apreciação de uma Petição não implica votação, tornando-se ineficaz jurídica e legislativamente.
No mesmo dia, envia o Director Executivo Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP), sediado na Praia, Cabo Verde, o Doutor Gilvan Müller de Oliveira, uma carta aos Deputados (alojada aqui: http://www.ciberduvidas.com/acordo.php?rid=2850). Basicamente, a carta procura contestar alguns fundamentos da Petição e os Peticionários que a elaboraram, de modo a influenciar a decisão dos Deputados. Manobra de assédio político exterior na relação que um órgão de soberania do nosso país deve manter com os seus cidadãos, ao caber-lhe o mister de apreciar uma petição subscrita por milhares destes?
Como peticionários, admitimos o contraditório, que o IILP é parte interessada e vamos a jogo, com destemor. Nada devemos. Já a carta muito deve. É um exercício falacioso, frustre e fraudulento. A carta padece toda ela de inúmeros erros, vários deles crassos. A argumentação expõe dados falsos, generalizações rápidas sem a devida atenção aos factos e sem a imprescindível actualização da informação.A carta é um exercício a que nenhum académico se pode prestar, sob pena de constituir um defeito curricular maior.
Praticamente tudo quanto é nela alegado está a priori refutado na Petição, seu anexo e pareceres adjuntos. Todavia, porque os Peticionários têm um sentido mínimo da seriedade e competência científica e jurídica, decidiram responder à carta ponto por ponto, com extensa argumentação e documentação, tendo enviado o todo para os Srs. Deputados. Deter-nos-emos aqui num único ponto da carta. Tal permitirá perceber quão arenosos são os fundamentos desta.
Reza assim o ponto 1 da carta:
"Os dois professores brasileiros que estiveram em Portugal não são "representantes do Senado", como se tem tentado fazer crer em alguma imprensa. São dois cidadãos individuais, ligados a iniciativas privadas (sobretudo do ensino), que foram ouvidos por uma comissão no Senado Brasileiro no âmbito de uma sua proposta de revisão radical da ortografia portuguesa e enviados a Portugal para conhecerem a situação no país quanto à aplicação do Acordo Ortográfico."
Os Professores Ernani Pimentel e Pasquale Cipro Neto (os dois cidadãos referidos), representantes do Grupo de Trabalho Técnico do Senado Federal da República Federativa do Brasil (GTT), criado no âmbito da Comissão de Educação, Cultura e Esporte, foram recebidos em audiência conjunta das 8.ª e 2.ª Comissões da AR (respectivamente, de Educação, Ciência e Cultura e dos Negócios Estrangeiros e das Comunidades Portuguesas) no passado dia 27 de Novembro (cf. gravação áudio emhttp://www.parlamento.pt/ActividadeParlamentar/Paginas/DetalheAudiencia.aspx?BID=96404). Na segunda parte da audiência, de carácter técnico e destinada aos Deputados do ex-GTAAAO, os Professores fizeram críticas contundentes ao Acordo Ortográfico e apresentaram, por intermédio de Ernâni Pimentel, as linhas gerais de uma proposta de simplificação deste acordo. Pretendem levar a proposta aos responsáveis políticos e académicos dos países lusófonos com vista à recolha de contributos para essa simplificação, a serem congregados no Seminário Internacional Linguístico-Ortográfico da Língua Portuguesa, promovido pela Academia de Letras de Brasília, no próximo dia 10 de Setembro. Até Outubro, os participantes de cada país lusófono levariam às respectivas autoridades competentes a mesma proposta geral, como subsídio para implantação das simplificações.
O que daqui resultou é claro e nunca é demais repeti-lo (retomando o que foi exposto em escrito anterior, como balanço da audiência aos Professores brasileiros): o ACORDO ORTOGRÁFICO DE 1990 MORREU. MORREU NO BRASIL.
Na nossa resposta ficou cabalmente provado que estes dois Professores são representantes do senado. Ora, o Presidente da Comissão de Educação, Cultura e Esporte, Senador Cyro Miranda, enviara, a 19 de Novembro, uma carta ao Presidente da 8.ª Comissão, Deputado Abel Baptista (CDS), recomendando os Professores brasileiros.
Esta carta (cuja cópia nos foi gentilmente fornecida pela Secretaria da Presidência da referida Comissão do Senado brasileiro da República, por correio electrónico, e que anexámos à documentação enviada, pela mesma via, aos Srs. Deputados) é a prova acabada da autoridade com que foram recebidos na Assembleia da República.
Citamos os parágrafos 6 a 8, suficientemente eloquentes a este título.
"6. Com o intuito de colaborarmos com o aperfeiçoamento e simplificação do complexo acordo, o plenário da Comissão aprovou a criação de um grupo de trabalho técnico (GTT) destinado a colaborar subsídios e contribuições assim como consultar e auscultar os segmentos envolvidos no Brasil e nos demais países. Ao fim de um ano a intenção é propor um documento com sugestões ao texto já conhecido.
7. Em virtude do exposto, solicito ao eminente Presidente da Comissão Co-irmã, o apoio necessário aos ilustres professores, Ernâni Pimentel e Pasquale Cipro Neto (Coordenadores do Grupo Técnico) para as conversações a serem desenvolvidas por ambos os especialistas, entidades e outros interessados em contribuir com o Acordo Ortográfico.
8. Aproveito para submeter a vossa análise a sugestão de reunir nossas Comissões conjuntamente, ou representantes designados, no Brasil e em Portugal, para avaliarmos o andamento do Acordo Ortográfico.”
Fica manifesto que estes Professores brasileiros foram recebidos na Assembleia da República no exercício do cargo de Coordenadores do GTT de uma Comissão senatorial, com uma missão oficial bem definida. Diversamente do que o Doutor Gilvan de Oliveira assevera, não se trata de informação errónea “de alguma imprensa”, nem os “Ilustres professores” seus compatriotas foram a Lisboa enquanto “cidadãos individuais”. É possível ser mais claro?
É urgente, aquando da discussão da Petição em Plenário, que os Deputados apresentem um Projecto de Resolução que suspenda a aplicação do AO90 no nosso País; ou que, no mínimo, recomende que se retire de circulação o conversor “Lince”, produzido pelo ILTEC, por, como já foi demonstrado, violar o AO90.
Doutorado em Literatura, Investigador do Centro de Estudos Clássicos da Universidade de Lisboa, poeta

sábado, janeiro 04, 2014

Nos jardins da Babilónia

aprendi a língua da Babilónia
a língua que falam 
as árvores 
                   da glória 
aprendi como os jardins se levantam
                   e abraçam o zigurate
aprendi a moldar a lama 
                   e dar-lhe a candura do rio

aprendi a língua da Babilónia
a língua que cantam 
sonhos estátuas duras
                   de profecia

aprendi que o vinho existe
e que se degusta antes de o dia 
                   ter espessura
que se bebe de janela aberta
                   só

aprendi 
onde as ruas
                   se cruzam
com masmorras as vozes que denunciam
que o banquete dos aromas
                   vai começar

aprendi e depressa desaprendi
o que tem a Babilónia para eu lhe ensinar?


Rui Miguel Duarte
31/12/13

quinta-feira, dezembro 19, 2013

Sermão do desacordo aos Deputados

Transcrição do meu artigo no Público:

Filipe […] perguntou-lhe: "Tu entendes o que estás a ler?"
Actos dos Apóstolos 8:30
Está agendada para o próximo dia 20, a partir das 10 horas, a apreciação da Petição N.º 259/XII/2, pela Desvinculação de Portugal em relação ao Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 (AO90). A petição (disponível aqui http://www.peticaopublica.com/?pi=DPAO2013), que conta já com mais de 15.000 subscrições, mereceu da parte do relator, o deputado Michael Seufert (CDS), um parecer exemplar, que merece ser lido e entendido (http://www.parlamento.pt/ActividadeParlamentar/Paginas/DetalhePeticao.aspx?BID=12378).
No passado dia 27/11, representantes de um Grupo de Trabalho do Senado do Brasil, os professores Ernâni Pimentel e Pasquale Cipro Neto, foram recebidos na Assembleia da República, em audiência conjunta das 2.ª e 8.ª Comissões (http://www.parlamento.pt/ActividadeParlamentar/Paginas/DetalheAudiencia.aspx?BID=96404). Debruçar-me-ei sobre a matéria da 2.ª parte da audiência, de ordem “técnica”, com os deputados que haviam integrado o Grupo de Trabalho para Acompanhamento da Aplicação do Acordo Ortográfico (GTAAAO), cujos trabalhos decorreram entre Janeiro e Julho do corrente.
Na audiência (gravação aqui:https://dl.dropboxusercontent.com/u/25444665/audio-audiencia.zip), os dois professores fizeram críticas contundentes ao AO90. De seguida, coube aos deputados anfitriões colocarem questões e comentários, às quais os visitantes responderam. Ora, importa comentar as intervenções dos deputados.
A pergunta da deputada Rosa Arezes (PSD) sobre declarações do embaixador do Brasil em Portugal, segundo as quais o AO90 seria para cumprir, os representantes do Senado deixaram explícito que foi graças a pressões suas (pontificando nestas o movimento Acordar Melhor (verhttp://simplificandoaortografia.com), do qual Ernâni Pimentel é fundador) se tornou possível congregar apoios entre senadores, conduziram à prorrogação do prazo de transição para a vigência plena do AO90 no Brasil (Decreto Presidencial n.º 7875/2012, de 27/12), até 31/12/2015. Essa teria sido a forma expedita de levar a repensar o processo, como era sentimento do Senado, de modo a “melhorar as regras”. Haveria “uma fala do Senado” e “uma fala oficial do Itamaraty” (sede da Presidência da República). Ou seja, há o discurso do poder executivo, diplomaticamente correcto, que alega que o decreto presidencial pretendia tão-só harmonizar os prazos brasileiros com os portugueses, e o discurso do Senado. Esse é, precisamente, o entendimento há muito existente entre os subscritores da petição. As fontes brasileiras confirmam-no.
Ficam na memória, penosamente, intervenções de dois deputados. A primeira, de Gabriela Canavilhas (PS). Entendendo que o processo político está fechado e que o AO90 estaria em vigor, delega para o Instituto Internacional de Língua Portuguesa (IILP) a criação do Vocabulário Ortográfico comum. Em relação à oposição ao AO90, afirma ser de índole ideológica (“ideológico da essência da problemática”, frase enigmática e que não se sabe o que significa). E é aqui que se torna penoso ouvir e tomar conhecimento da insciência da sra. deputada. De tudo quanto foi dito nas inúmeras audiências e audições e exarado por escrito nos abundantes contributos apensos ao trabalho do GTAAAO, e posteriormente no âmbito da apreciação da petição supra, é penoso só ter lido e ouvido o que lhe interessou. Ou, dando-se de barato que leu e ouviu tudo, não deixa de ser penoso que demonstre ter uma cognição condicionada. Assim, não deu atenção, mais uma vez, senão apenas àquilo que lhe interessa. É penoso ouvir invocar a autoridade do sr. embaixador do Brasil, depois de os professores brasileiros terem declarado haver dois tipos de discurso: um falacioso e o outro que corresponde às intenções e aspirações do Senado. A posição de Gabriela Canavilhas só se pode perceber pela dificuldade em assumir o erro da Resolução do Conselho de Ministros n.º 8/2011, de 25/01, à qual está intrinsecamente ligada, enquanto ministra da Cultura à época.
Outra intervenção, que dói ouvir, é a de Luís Fazenda (BE). Também este deputado denota nada ter apreendido do que ouviu e leu. Ainda acredita no mito, amplamente desacreditado, da vantagem da grafia única na era da globalização. Diz que a oposição anti-AO é de ordem identitária. Noutros termos, por nacionalismo. É-o, em parte: quem de bom senso crê numa globalização assente na diluição das fronteiras do que é próprio e típico a cada cultura e nação? Mas tudo o mais o sr. deputado ignorou. Porém, reconhece haver aspectos a “melhorar” e “rever”; opondo-se a Gabriela Canavilhas, discorda que o processo político esteja encerrado, não aceitando que o IILP seja o único santuário da língua. É uma posição de lamentar, embora mais matizada. A redenção está a um curto passo.
Michael Seufert (CDS) e Miguel Tiago (PCP) mostraram ter lido e ouvido e ter o pensamento de ambos sido transformados pelo que leram e ouviram. Merecem o nosso aplauso. Caros concidadãos, há deputados que honram o seu mister, que lêem, ouvem, estudam e pensam com a devida honestidade intelectual. Que actuam como representantes dos eleitores e a estes ouvindo e prestando contas, mais do que a interesses partidários ou extrínsecos ao seu mister.
E porque a esperança no movimento desacordista em Portugal existe que me dirijo aos demais deputados, os que não têm acompanhado esta matéria. Hão-de todos pronunciar-se no debate do dia 20. Não façais, por má-fé, o que fizestes em 2008 por desconhecimento, ao ignorardes olimpicamente uma petição de 110.000 pessoas e todos os pareceres de especialistas, à excepção de um, do prof. Malaca Casteleiro, parte interessada na matéria. Informai-vos junto dos colegas que a têm acompanhado. Dai-vos à pena de ouvir as gravações (sobretudo a da audiência aos professores brasileiros) e lede os documentos. Testemunhai os efeitos perversos da abertura dessa caixa de Pandora que que foi a ratificação do 2.º Protocolo Modificativo do AO90 e da RCM 8/2011. Verificai que, batendo leve levemente, entraram nas nossas vidas os contatos e os fatos, além dos patos (por pactos), impatos(por pactos), compatos (por compactos), adetos (por adeptos), recessões (dereceções, por recepções), etc.. Até no Diário da República, na escrita de professores que exigem correção aos alunos não sendo eles próprioscorretos nem correctos. Conferi que entre os efeitos perversos se contam a influência no domínio de outras línguas, em formas como diretion, excetion, ation (em lugar das palavras inglesas direction, exception, action). Tudo isto está amplamente documentado e tem livre curso. Confrontai os vários dicionários, vocabulários, correctores e conversores ortográficos; estes, embora alegadamente obedientes ao AO90, não raro discrepam entre si e o violam, deixando o mais sincero e dogmático adepto do dito no incerto fado de não saber escrever em “acordês” sem o violar. Percebei de vez que, com o recuo pré-anunciado do Brasil, com a rejeição de Angola e Moçambique e a indiferença entre os demais países, Portugal está “orgulhosamente só” com o seu “acordês”.
Lede, ouvi e entendei. Tomai a decisão óbvia: a desvinculação de Portugal do penoso 2.º Protocolo Modificativo ao AO90 ou, no mínimo, a suspensão imediata do mesmo. Não vos deis às penas de fugir aos vossos deveres virando as costas à maioria dos cidadãos, que estes deixaram se de dar à pena da indulgência. Basta com a ignomínia de não-leituras, leituras parciais e tresleituras! É A HORA.



quinta-feira, dezembro 12, 2013

Ultra-Acordo Ortográfico

Já dei aulas na Universidade Lusófona (do Porto). E com a liberdade académica que prezo, repudio a dupla desastrosa posição da Lusófona face ao AO90: (1) aderiu há uns 3 anos; (2) adere agora ao projecto de simplificação (ou antes, "projeto de simplifikasão") conhecido como Acordar Melhor.

quarta-feira, dezembro 11, 2013

La neige qui tombe

La neige quand elle 
         tombe
tombe oblique sur le visage qui un fil
laisse à la peau, dévoile le manteau
creuse les toits, force le vent
à la danse sur le fil quand elle monte descendant
constant en une mélodie
         oblique

c’est pour cela, pour ce manteau
sans couture
qu’elle est un étonnement nocturne
en passant par les campanules
où les troncs se
         déclinent
à la danse
qu’elle est l’expression la plus sublime
du dessein céleste

Rui Miguel Duarte
5/12/13

NADIR AFONSO FALECEU

Depois de Ramos Rosa e Mandela, mais um passamento que custa noticiar: Nadir Afonso, um pintor que pessoalmente apreciava, e ao qual estou ligado por ser o patrono de uma escola do 2.º e 3.º ciclo em Chaves, onde trabalhei (e gostei de trabalhar).

segunda-feira, novembro 11, 2013

VIA SACRA

VIA SACRA

                      …… Só vou por onde

Me levam meus próprios passos
José Régio, “Cântico Negro”


Há um caminho por onde vou
e um caminho por onde não vou

pelos olhos doces da legião
pela inquietação segura dos amigos
que tentam dizer que vá por aí
não vou, por aí não vou

um rito sobre as pedras,
o meu caminho é aquele
em que os pés marcham descalços
e se sujam, bastante tendo por fardo
a penumbra dos homens
o caminho em que o pó é feito de arestas

por aqui me levam os meus passos,
quanto mais indecisos mais firmes,
pelo húmus lamacento é que se alevanta
o firmamento

Rui Miguel Duarte
11/11/2013


sábado, setembro 28, 2013

Mais uma do chamado "acordo" ortográfico


Não, isto não é campanha eleitoral nem comentário político, não venha a CNE incomodar-me, pois nem sou eleitor amanhã! 
Ouça-se, a partir de 1m36s, uma maravilhosa pérola do acordo ortográfico… 
E não venham os sacerdotes do dogma religioso do Açordo Ortopédico dizer que a escrita não influencia a pronúncia… :D

segunda-feira, setembro 23, 2013

ANTÓNIO RAMOS ROSA (17/10/1924 — 23/09/2013)

Deixou-nos um grande, enorme, dos maiores que a Língua e a Literatura Portuguesa, e mundial, já tiveram. Poesia muito tensa, de inesperadas associações, de encantação na pura viagem das palavras, umas com as outras. Lê-lo é aprender a amar, a descobrir a surpresa que é a poesia.
Até sempre, ARR.



Poema de um funcionário cansado

A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só
Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço
Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida
num quarto só.


António Ramos Rosa

quinta-feira, agosto 08, 2013

À TARDE


“La pena de la tarde estremece a mi pena”
Federico García Lorca, “Meditaciones bajo la lluvia”

à tarde mesmo ao fim
a voz procurava o alívio
da pena sobre o tremor da pena

as árvores em que a sombra nasce,
a voz, mesmo
no fim do jardim
da tarde que estremece
no gume, há a pena
à qual tudo foi destinado
estremecem os olhos os ouvidos
a pele da testa lavrada do peso do sangue
que levanta pérolas no cálice,
o cálice bebido na oração redita

nessa angústia
da impossibilidade do salmo
que afague como pena
a dor da angústia do mundo todo

no jardim do Getsémani
o Filho do Homem
é uma ave de penas soltas


Rui Miguel Duarte
08/08/13

sexta-feira, julho 26, 2013

DONDE VEM

os anjos bem anseiam perscrutar 
e os profetas nos indícios notificados 
pelo vento até mesmo os poetas ao rasgarem
na matéria pétrea o veio 
da extracção da palavra bruta

ninguém sabe, ninguém percebe 
donde vem de que ponto cardeal,
a não ser as almas simples
as que se encantam dos cantos dos pastores
dos olhos claros das crianças,
ninguém de que lado do monte desce
o orvalho

e é o orvalho que importa
e nos limpa a sede

Rui Miguel Duarte
22/07/13