quarta-feira, abril 10, 2013

AS "INMENTIRAS" JOSÉ MÁRIO COSTA DO CIBERDÚVIDAS

UM DEPOIMENTO QUE MERECE RECTIFICAÇÃO:


As "inmentiras" de José Mário Costa. 

No seu depoimento deixado em "audição" no GT para Acompanhamento da Aplicação do Acordo Ortográfico, José Mário Costa, coordenador editorial do Ciberdúvidas (texto que publica neste portal, no endereço ), elenca o que ele chama "inverdades" do desacordismo. 

1. Entre eles a questão do adiamento no Brasil, que se deveria a uma harmonização com o prazo português. Cita para tanto uma das proponentes do Decreto Legislativo ao Senado, Senadora Ana Amélia Lemos.
A declaração da Senadora vem igualmente citada aqui. O próprio Secretário da Educação Básica do Brasil se exprime em termos análogos — ajudo eu o José Mário Costa.
Entretanto, porém (cf. a mesma notícia da Globo), consultas com Ministros do Governo de Dilma Rous­sef conduziram ao parecer de que "a melhor abordagem seria por meio de um decreto". Isto porque, tra­tando-se de um tratado internacional, um projecto legislativo «criaria alguns problemas de ordem legal».
A bota não bate com a perdigota, no Brasil ou no entusiasmo iconoclasta do ciberdúbio José Mário Costa. Em que ficamos quanto às razões do prolongamento Brasileiro do prazo de transição? É uma questão de alinhamento cronológico com Portugal ou de atalhar caminho relativamente à tramitação e poder legal de um decreto senatorial? É o quê, afinal? Qual é a "inmentira" no meio de tudo isto? Ou é tudo isto e mais outras coisas? Ou a Senadora não diz coisa com coisa ou faltam dados... 
Mas vejamos: essa Proposta de Decreto Legislativo Senatorial n.º 498 (PDL), de que a Senador Ana Amélia é co-autora juntamente com o Senador Cyro Miranda, diz o seguinte, EXPLICITAMENTE:

"O presente projeto de decreto legislativo objetiva solucionar controvérsias suscitadas por determinados gramáticos e paí­ses no tocante à implementação do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, que dizem respeito a:

1. Divergências existentes entre os textos do Acordo e do Vocabulário Ortográfico da Lingua Portuguesa, que prejudi­cam a padronização gráfica pretendida, como foi demonstrado em duas audiências públicas realizadas nesta casa
2. Inadequação do Acordo aos padrões didáticos atuais, desvalorizando o raciocínio e o entendimento do aluno. O Acordo, pensado em 1975 e assinado em 1990, reflete a visão pedagógica daquela época, baseada principalmente no deco­rar, e não no entender. A existência de confusas regras, listas de exceções, incoerências e contradições não seriam questi­onadas no passado, mas hoje fortalecem o irrebatível argumento de que “nem os professores de Português apren­dem tais regras”, como justificam Angola e Moçambique, pela sua não homologação;
3. O acordo amplia seus efeitos para pontos não discutidos, exemplo: a supressão do trema foge ao escopo do acordo, pois o trema não é um sinal apenas ortográfico, mas ortofônico, indicador de pronúncia, e sua eliminação dificulta o en­sino da prolação correta;
4. O não estabelecimento, até hoje, por meio das instituições e órgãos competentes dos Estados signatários, de um vocabulá­rio ortográfico comum da língua portuguesa, necessário à maior união dos povos e de sua ortografia. Com efeito, referido vocabulário deve ser tão completo quanto desejável e tão normatizador quanto possível, no que se re­fere às terminologias científicas e técnicas. É o que dispõe o Artigo 2° do Acordo."


É claro? Explico: não há, como é bom de ver, entusiasmo especial no Brasil com este AO. A proposta di-lo!!


Há problemas de interpretação dos dados existentes. Quanto a mim, penso que duas duas uma: ou que a Senadora está tate-bitate, ou que as suas palavras parecem bem mais cortesia cheia de omissões, muito própria da linguagem política; parece impossível explicar que se fale de um alinhamento puro e simples com os prazos de Portugal. E só por ingenuidade se pensará, em Portugal, que foi isso e só isso que o Brasil fez. Está tudo acima. É que não acredito que de manhã a Senadora pensasse que o AO90 está datado, e à tarde que afinal é excelente e afinal só não está plenamente em vigor por especial cortesia com os prazos lusos!… Não acredito que a Sra. Senadora sofra de mal bipolar. Mas sabe-se lá, pois aqui a Senadora dizia há um ano outra coisa diferente da da notícia indicada por José Mário Costa, todavia mais conforme à PDL. Terá ela mudado de ideias? Em princípio, uma lei, ou proposta de lei, tem prevalência sobre ditos à comunicação social, pelo que é de crer que a citada PDL constitua o mais efectivo repositório do pensamento da Senadora.


O Sr. José Mário Costa não deve ter lido a PDL — ou, se o fez, fê-lo obliquamente. E só citou as fontes que lhe interessavam para corroborar a sua tese de que a maravilhosa aplicação do AO90 no Brasil está bem e se recomenda. Também se desconhece se viu o vídeo para o qual acima se remete. Note-se que a Senadora cita o Prof. Ernani Pimentel. É de crer que a Senadora, para a elaboração da PDS, se tenha baseado, pelo menos parcialmente, nas opiniões deste professor. Aliás, a tal prorrogação do prazo de aplicação por parte do Brasil ter-se-á a pressões da sociedade civil, e foi apoiado sem reservas por membros do governo e outros partidos da oposição, e a recomendação final veio do Ministério de Relações Exteriores, secundado pelo Ministério da Educa­ção. Entre os que pressionaram, e que foram inspiradores do processo que conduziu ao Decreto Presidencial, conta-se precisamente Ernani Pimentel e o seu Movimento Acordar Me­lhor, do Prof. Ernani Pimentel). 
Será bom lembrar o que pretendem: o prolongamento da fase transitória entre ortografias, e mais, a revisão do texto do tratado de acordo ortográfico, ou até mesmo a elaboração de «um outro acordo, com maior participação da sociedade, e que só passasse a valer a partir de 2018», como propôs o Senador Cyro Miranda. Tal revisão seria no sentido de que «Simplificar a ortografia é promover a inclusão social». Assim, este movimento defende uma radical simplificação ortográfica, conside­rando que as regras ortográficas são ainda muito complicadas e obrigam à memorização, tornando-se factor de exclusão social

Fará bem o Sr. José Mário Costa consultar estas fontes para ter uma ideia mais clara da complexidade do processo que conduziu à tal prorrogação. Não é matéria linear.

Voltando à PDS, que consubstancia em princípio o pensamento dos seus proponentes (Senadores Ana Amélia Lemos e Cyro Miranda), atente-se em uma coisa mais: essa proposta AINDA ESTÁ EM TRAMITAÇÃO nelas salas e secretárias das Comissões do Senado. Isto quer dizer que poderá vir a ser aprovada e que poderá nesse circunstância vir a ter força de lei o seguinte (da proposta):

"2° A implementação do Acordo coincidirá com o fim do período
de transição, que será de 1° de janeiro de 2009 a 31 de dezembro de 2019,
durante o qual coexistirão a norma ortográfica atualmente em vigor e a
nova norma estabelecida, em todos os Estados que o tenham ratificado."

em todos os Estados que o tenham ratificado

Com ou sem a emenda oriunda da Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania, que elimina." Por outras palavras, poderá vir a haver um novo adiamento no Brasil, desta feita parlamentar, e não presidencial, para 2019!! Há esse risco. Porventura, será para alinhar com os prazos portugueses, não é?

O Sr. José Mário, na busca de "inverdades", esquece ou desconhece outras "inmentiras", numa matéria que é tudo, repito, menos linear do que pretende.

2. O VOP e o Lince estão bem e recomendam-se. Pois. Discordam entre si, dão informações erróneas (por exemplo, que no Brasil se escreve baptismo), violam o AO90. O VOP então manda escrever sotavento, à antiga, quando o AO90 manda que o prefixo sota- seja seguido de hífen (base XVI, 1.º, e) Isto está em quadro de lemas) que demonstra as incongruências entre diversos instrumentos lexicográficos, e mais ainda: que violam o próprio AO90. E é com base nisto que se defende algo que não passa de um dogma.
O Sr. José Mário Costa faria bem em ler o depoimento do Eng. Vasco Teixeira, acordista, que verbera o VOP. Já que não acredita nas "inverdades" dos oponentes, talvez dê mais atenção às "inmentiras" de um defensor do AO90, de alguém que, até há pouco, se sentia bem com as promessas de negócio que o AO90 lhe proporcionava. 

3. Cita a resposta do Chefe de Gabinete do Ministro da Educação a perguntas de Deputados do PSD-Açores, dando-lhe o crédito que se dá a dogmas e axiomas, que dispensam análise, explanação e prova, para provar que está tudo bem e se recomenda. Isto menos de um mês depois de o Ministro ter concordado, em Luanda, que havia "constrangimentos e estrangulamentos". Ministério da Educação dixit, é verdade.
E que é uma "inverdade" que se escreva fato em vez de facto. É "inverdade" no plano teórico, pois na prática o Sr. José Mário Costa ignora, ou faz que ignora, que muito boa gente escreve e fala assim, como o Dr. Pedro Santana Lopes, o treinador da equipa de futebol do FCP, para não falar do que se lê no Diário da República, e passim. A isto acrescem os inúmeros tropeços diários. Não há dia em que não entre pelos olhos ou pelos ouvidos dentro mais um fato, um contato, um impato, um intato, um pato, um compato, uma oção, uma invita, uma recessão, assim mesmo (transcrição do Sol de notícia da Lusa sobre receção a caloiros). E não há influência da escrita na pronúncia?? 
Dir-se-á que o AO90 não sanciona fato e contato em Portugal, quanto mais impato! É "inmentira". Mas também o é que a prudência e o bom senso mandam retirar da circulação medicamentos que comprovadamente provocam efeitos secundários. Que não eram inesperados. António Emiliano, Ivo de Castro, Jorge Morais Barbosa, entre outros, chamaram previamente a atenção para tal possibilidade. E eis que as piores previsões são ultrapassadas pela realidade. Abram-se os olhos.

Mas está tudo bem e recomenda-se: José Mário Costa e outros defensores do dogma do AO90 são o Dr. Pangloss da Nação. 

4. Não há três ortografias em curso. Não, há mais, muitas mais: o tugo-acordês, o brasuco-acordês, a brasileira de 1943, a portuguesa de 1945 em África e outros países africanos, além de na pena de muitos hereges em Portugal; e há as ortografias à la carte: a do VOP, a do Lince, as dos dicionários da Porto Editora, da Texto Editora, da Priberam, do VOLP de Malaca Casteleiro, do VOALP; a do Correio da manhã e a do Jornal do Barlavento Algarvio, que resolveram obedecer a umas normas do AO90 e desobedecer a outras. Há tantas quantas as diversidades de opinião, parecer e sentir. 


Rui Miguel Duarte

segunda-feira, abril 01, 2013

CELEBRAÇÃO


“Quando eu morrer batam em latas,

Rompam aos saltos e aos pinotes”

Mário de Sá-Carneiro, “Fim”

Quando morri batestes em latas
fizestes do meu corpo o tambor das vossas festas
rompestes em pinotes na seda de acrobatas

ocultastes-me nas costas de uma pedra
ajaezado numa câmara escura 
na ausência de um fandango
descurado na concha de um frio chão 

Quando nasci de novo bebestes
um brinde de celebração

Quando nasci de novo foi só
uma nova manhã para palpitar 
o encontro dos cálices do coração

no sol o rosto lavastes, ao céu quente
aprendestes a nova canção que os astros 
de há muito sussurravam
as estrelas cadentes 
eram os alegros esparsos

dessa composição por tecer 

Rui Miguel Duarte
31/03/2013

quinta-feira, março 28, 2013

LENDA DO ÉDEN


Não procures: é aqui
que as folhas caem
ao fim da tarde 
da primeira tarde
aquela em que o corpo de Adão
foi levantado do chão em que
foi mais do que um sonho
a véspera do novo dia

aqui é Adão
o corpo de Eva
caídas as folhas da tarde
soltas de papel timbrado
dos rios, os quatro rios
do Éden

não procures: é aqui
que o vento grava nas árvores
para sempre o esboço preciso
da primeira tarde
grava-o nos dedos de Deus

Rui Miguel Duarte
25/03/13

sexta-feira, março 15, 2013

O QUE SE DIZ DO SANGUE

“Aqui, do sangue, nasceu o encontro
o esplendor”
António Ramos Rosa

Do sangue nasceu o que foi dado
do céu e da terra, e nisto ambos se abriram
no enlace fatal

em que o poder foi quebrado nas mãos
molhado o rosto da penitência

foi aqui, na boca da manhã
que a justiça
reclamou o seu sangue desde a raiz
do tempo quando muitos cálices
eram derramados
mas um só havia a beber

no sangue que as mãos
rebentaram e deram ao oiro
o seu esplendor

Rui Miguel Duarte
15/03/14

quarta-feira, fevereiro 27, 2013

ARMA

Carrega o teu coração 
por dentro mas carrega-o
de espingardas

verifica todos os meandros
de que cores os pintas
nas pontas dos canos 
onde as balas
se declaram ao silêncio
coloca a carne viva das flores

carrega o teu coração
por dentro, onde as balas
explodem fazendo fluir o sangue
carrega-o de amor

Rui Miguel Duarte
23/02/13

domingo, fevereiro 24, 2013

THE MYTH THAT CAME TRUE

A C. S. Lewis

desde a primeira tarde do primeiro dia
da primeira hora irrompeu o som cavo
de histórias antigas, já antigas
quando foram contadas

pela voz do pregoeiro o raio de sol
trazia cores de um novo dia o rasto
de um novo século, o altar falava
em nome de um Cordeiro de carne e sangue

o papel em que o mito foi inscrito
era a folha que declarava
que depois da pedra o ramo daria o fruto

Rui Miguel Duarte
24/02/13

sábado, fevereiro 23, 2013

Da historicidade de Jesus


Joseph Ratzinger, "Jesus da Nazaré" vol. 1, cap. 8, da historicidade de Jesus (a partir da versão francesa):

"… o grande escritor inglês Clive Staples Lewis, após ler uma obra em doze volumes sobre os mitos em questão [da morte e ressurreição dos deuses das colheitas e do pão], chegara à conclusão que este Jesus, que tomara o pão nas mãos com as palavras «este é o meu corpo», não era mais do que um destes reis do trigo que davam a sua vida em prol da vida do mundo. Certo dia, porém, no decurso de uma conversa, ouviu de um ateu inveterado que as provas que atestavam a
historicidade dos Evangelhos eram surpreendentemente boas.
E ocorreu-lhe à mente a seguinte ideia: «Estranho. Toda esta cena do Deus que morre, dir-se-ai que ocorreu uma vez.»
Sim, ocorreu verdadeiramente. Jesus não é um mito, é um homem de carne e sangue, uma presença real na história. Podemos seguir os caminhos que ele empreendeu. Podemos ouvir as suas palavras graças às testemunhas. Ele morreu e ressuscitou. O mistério da paixão do pão, por assim dizer, esperou por ele, virou-se para ele, e os mitos esperaram por ele, ele, em quem a esperança se tornou realidade."

Nas palavras de C. S. Lewis, "the myth that came true".

segunda-feira, fevereiro 04, 2013

DEIXEM


“Jesus, no entanto, disse: «Deixem as crianças vir ter comigo! Não as estorvem, porque o reino dos céus é dos que são como elas.»
Ev. Mateus 19:14


Deixem as crianças vir
equilibradas num pé
periclitantes nas cordas da dança

deixem-nas vir com a voz
nos acordes de uma tocata e fuga
não lhes coloquem armaduras de frente
não lhes prendam as mãos com tenazes
que têm de tocar o vento

deixem-nas vir com as mãos
trazer o rio no abraço
elas conhecem o concerto
das ondas ao rastejarem
pelas pedras suaves
conhecem o burburinho
que a corrente traça
ao beijar o tronco
dos que nela se lavam

deixam-nas vir de rostos
abertos sem manchas
eles vêm com a macieza dos risos


Rui Miguel Duarte
4/02/13




segunda-feira, janeiro 14, 2013

SE ESPUMA

se espuma ainda te resta
dos dias 
sacode-a no oceano 
sacode-a no império da maré

o oceano tem o seu modo de contar 
a história tem o seu jeito
de levar e trazer a espuma 
a vaga retorta
o que ele tem desfaz
o que não tem dá

ora tu, tu deixa
que o sangue das anémonas
vá, vá no azul forte
que os teus dedos com ele
se desfaçam

deixa ao oceano
ao seu fundo de anénoma palpitante
a tua espuma

Rui Miguel Duarte

12/01/13



segunda-feira, janeiro 07, 2013

Carta aberta ao Ministro da Educação e Ciência sobre o Acordo Ortográfico de 1990 (AO90)


O Brasil adiou a prazo da vigência oficial da aplicação do AO90 para 1 de Janeiro de 2016, assumindo que não gosta nem se sente confortável com o dito. Países como Angola não querem nem ouvir falar do dito, preferindo manter a genuinidade da língua como a receberam. Se, como se prova, o AO90 é incongruente e os dicionários, vocabulários e "corretores" ortográficos  que putativamente seguem o seu preceituado o violam, em especial os ditos oficiais Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOP) e o Lince (ambos produzidos pelo Instituto de Linguística Teórica e Computacional) e discrepam entre si, como haverá certezas quanto à ortografia "correta", como as havia, mal ou bem, sobre as correctas? Apresenta-se um  quadro comparativo de lemas em vários desses instrumentos, e pasme-se com aquilo que ele permite perceber da babel reinante. Se os governantes de Portugal, país, a par das suas ex-colónias, que mais perde com o coiso, se remeteram à hibernação burocrática e são indiferentes a tudo isto, estado a que não poderá não ser alheio algum interesse inconfesso, poderão continuar a ser indiferentes face aos desenvolvimentos lá fora, adoptando a atitude orgulhosamente só de má memória?
Um grupo de cidadãos acha que não e subscreveu uma carta ao Ministro da Educação e Ciência, com cópia para o Ministro dos Negócios Estrangeiros e para o Secretário de Estado da Cultura. Esta carta é aberta: é para dar dela conhecimento público, é para passar palavra. E a sua subscrição continua disponível, de modo a poder convertê-la numa Petição a dirigir à Assembleia da República, aqui.

Peço pois a quem ler esta página e que concordar com o conteúdo e propósito da carta, que a subscreva. 
PARA A SUSPENSÃO IMEDIATA DO DESGRAÇADO AO90!

Carta (com a lista dos primeiros signatários)

terça-feira, janeiro 01, 2013

SALMO 2(01)3

Há sempre palavras
rápidas pássaros rubros
no dorso da lã que nos dizem
nos intervalos da passagem de ano
no transbordo para águas
à beira do descanso

que o Senhor nosso pastor
baixa atrás de nós a vara
e diante de nós o seu cajado
palavras que rasgam
aquém do limiar prados verdejantes
que os nossos passos banham para além

palavras de duas caras, uma que se fecha
outra que se abre sempre fresca
e opulenta de vinho azeite e mel

1/01/13

quinta-feira, dezembro 27, 2012

OS PASTORES DE BELÉM

“…Vamos beijar os pés nus
do que semeia nos céus …
Gomes Leal, “Os Pastores”

traziam cajados e liras afiadas
nos fins de tarde
conheciam a música as rugas do campo
conheciam como o sol e as estrelas
se sucediam nas horas
e faziam sombra nos cajados
esta era a música que dedilhavam:
o som branco
tinindo na lã

na voz dos anjos uma canção nova,
um salmo ao que semeia nos céus
e cujos pés nus
acabaram de ser
colhidos da terra

Rui Miguel Duarte
27/12/12

quarta-feira, dezembro 12, 2012

UM CAFÉ À BEIRA-MAR

Marcámos encontro 
sobre um café paradoxal
trago comigo o teu olhar 
que empresto ao farol 
cuja torre tudo sobrepuja
com ela crescemos até atingir o mar 
mas nunca o céu
este está reservado ao olhar do farol
aonde o teu olhar, com a largura do mar,
é capaz de subir

marcámos a hora num riso de areia
e aí fizemos castelos
conquistados pelos dedos 
da criança,
a criança que bebemos na chávena 

no farol há um pouco de nós
há tudo de nós
somos aqueles que seccionam o horizonte
e o esparge no vapor
somos aqueles que se elevam
nessa respiração quente
quando a maresia tudo já de nós cativou

é na fina espuma que somos 
toda a praia e o vento
quanto decidimos ser
e o café à beira-mar não é
paradoxal 

Rui Miguel Duarte
9/12/12

sexta-feira, novembro 30, 2012

DOS POETAS

a arte dos poetas é marcada 
de plenos acentos:
esdrúxulo é o seu canto 
grave a alma
aguda a língua

o coração dos poetas é inundado
de todos os sangues: do fecundo
dos que tombam nas batalhas,
do turvo dos condenados,
do sem nome dos que foram
retirados por um golpe sem mão
e que ao resvalar pelas ruas
cria a penumbra,
do seu próprio sangue

a pele dos poetas é agitada
de eriçados ventos:
à voz projectada do voo da ave
do assobio que o jovem dirige
à bela menina quando ela passa
como nuvem que uma brisa,
ao moldar-lhe a anatomia, ela própria freme,
aos uivos da noite dançando
pelos espaços deslaçados pelos rios

a boca dos poetas esparge
no peito dos que os ouvem
o perfume e a lágrima,
abri-la e fechá-la
é a expansão do céu e da terra

Rui Miguel Duarte
27/11/12

domingo, outubro 28, 2012

UMA ROSA


À memória de Sophie Scholl
(1921-1943)


Nasceu uma rosa na Alemanha
nasceu branca, de um branco
que encandeou os olhos
dos que a colheram

nasceu íntegra numa madrugada
sábia, de uma sabedoria 
que perturbo os lábios 
dos que a segaram

não correu, como rosa que era voou
presa no caule, livre nas pétalas
com o vento por aliado, não há paredes
que retenham o aroma
Deus é o artista que lhe apura o perfume

precisava de uma rosa a Alemanha
branca, para lavar os olhos

Rui Miguel Duarte
26/10/12


SOPHIE SCHOLL

Excerto do filme Sophie Scholl - Die Letzte Tage (Os últimos dias), baseado em entrevistas a intervenientes e testemunhos escritos da época. A descoberta da história de uma jovem, 21 anos, estudante universitária em Munique, cristã protestante, que resistiu ao regime nazi, juntamente com seu irmão Hans e outros estudantes. Mulher de ímpares coragem, de clarividência social, ética e políticas. No interrogatório com o inspector Mohr, da Gestapo, fala de dignidade, decência, direitos humanos, da iniquidade do ódio racial, da sua fé em Deus, de uma outra Europa, a da paz e das ideias. Não temeu a morte. Julgada e guilhotinada em quatro dias a 22 de Fevereiro de 1943. 
Tivesse sobrevivido e teria assistido ao nascimento da Comunidade Europeia, e teria subscrito sem reserva os princípios inspiradores da mesma. Ela e os membros do movimento Weiße Rose (Rosa Branca) de Resistência (que actuava pela distribuição na Universidade e pelo correio de panfletos anti-nazis) são heróis nacionais na Alemanha. 
Tivesse vivido mais uns anos, seria resistente à nova Alemanha e à nova União Europeia, da opressão económico-financeira de ricos sobre pobres, de países do Norte sobre países do Sul. Em nome do dinheiro para alguns.

quinta-feira, outubro 25, 2012

CAMÕES E A TENÇA


“Este país te mata lentamente.”
Sophia de Mello Breyner Andresen, “Camões e a tença”

Irás aos Paços, Camões, pedir a tença
— disseram-te e tu acreditaste
são tantas as palavras
que se dizem hoje que amanhã se desdizem
e depois há sempre quem diz tudo
e mais alguma coisa
sem saber o que dizer, simplesmente diz
pois quando te disseram, Camões,
irás aos Paços pedir a tença
deverias ter entendido de outra forma,
Camões,
ou não fosses poeta, os poetas
têm sempre múltiplo entendimento

eis o que deverias ter entendido:
irão os Paços a ti, Camões, hoje,
pedir-te a tença que te deram ontem
e amanhã voltarão os Paços a ti
pedir-te a tença que te dão hoje
para que queres mais? aos Paços não sobejam
as tenças, cada moeda de cuja carga te aliviarem
é uma asa mais que te dão, pois és poeta,
e os poetas só precisam de fogo
que arde e se não vê,
de mares nunca dantes navegados
e de buscar mais Taprobanas
e aos Paços não sobejam as tenças
pois enormes são os passos perdidos e achados
dos Paços, tantas as alcovas,
câmaras e antecâmaras dos Paços,
Camões

este país te mata lentamente, Camões,
és poeta
e os poetas morrem devagar
e o povo que oiça os poetas, devagar,
na passagem do vento
pelo ventre vazios, mas de corações
cheios dos teus poemas
Camões, e dos dos outros poetas
sim, Camões, lentamente,
tença alguma paga os teus poemas, Camões,
somente a lentidão da morte é preço suficiente
até à escansão do último verso,
aquele que ficou branco e em branco…

irão os Paços a ti, Camões, pedir-te a tença,
e se a tença já não tiveres,
se já a tiveres gastado
ou perdido na pena do voar,
pedir-te-ão a camisa, as calças,
e se camisa e calças já não tiveres
pedir-te-ão o pão, pois de pão não vive
um poeta, mas de todos os versos
que provêm da sua boca
este é o desconcerto do mundo,
mas o poeta
tem sempre o coração no alto, e a boca
nas longínquas Índias

e por fim se nada mais houver
até os teus versos
te levarão, Camões, porque te preocupas?
com eles farão uma bela edição póstuma
e um belo dia, num momento especial
citá-los-ão comovidos
e chorarão de saudades tuas, e dirão
que esses versos foram proféticos,
que falavam desses bravos e mostrengos
que os Paços e este país atravessam,
mas com os Paços ao leme, com os reis
no comando do batalhão
não haverá fome que não dê em fartura,
Camões

lentamente te mata, Camões, este país,
porque te preocupas?
entrega a tença, sê magnânimo,
em breve findará a tença
deixará também de haver país
que te mate, e sem país que te mate,
como morrerás, Camões?
porque te preocupas?
se Deus quiser, também se perderão
os Paços e as suas penas
e as suas tenças

Rui Miguel Duarte
24/10/12