domingo, julho 31, 2011

O MISTERIOSO JESUS: NOTA DE LEITURA

O MISTERIOSO JESUS

Mas vós, quem dizeis que eu sou?” Marcos 8:29

Estas palavras deram o mote e título ao livro primeiro livro de Manuel Rainho, embrião do presente O misterioso Jesus. E através delas aquele mesmo que as pronunciou deixava já entrever os questionamentos, apreensões, adesões e recusas que o seu nome, a sua pessoa e a sua mera existência suscitariam ao longo de séculos, e ainda hoje, não deixaram de suscitar.
Jesus histórico versus Jesus da fé, Jesus mentiroso ou louco, o Jesus humano e divino, o judeu, o pagão e o místico, as lendas dos milagres, os mitos do nascimento e da ressurreição, a conspiração cristã de divinização de Jesus como o Cristo — variações em torno do questionamento, que começaram a tomar forma e substância com o Iluminismo e Racionalismo, e com a reivindicação que estes fizeram de arautos da liberdade de pensamento em relação ao dogma religioso, até hoje. Mas que nada — ou pouco — trouxeram para a tribuna dos debates, antes reavivaram e rem reavivado vetustos questionamentos.
Com efeito, gerou-se a ideia de que os cristãos eram/são acríticos e crédulos. O seu discurso e pensamento feridos de religiosidade e dogmatismo. Um novo paradigma de pensamento, livre, crítico, inquiridor, racionalista e científico impôs-se. Todavia, ao dogma substituiu-se outro dogma — mais acrítico do que aquele que combatia. À religião e crença cristã substituiu-se outra, mais religiosa ainda — com mais liturgias e credos do que aquele que combatia, em nome do ateísmo. Ao factor Deus substituiu-se o não-Deus. E este paradigma tem dominado a intelectualidade de tal modo que ser intelectual se tornou sinónimo de agnóstico, ateu e anti-cristão. Estes são os factos.
Manuel Rainho permitiu-se que o questionamento se fizesse na sua alma e na sua mente. E sorveu até ao fim todos os cálices de teorias, hipóteses e teses. E cuidadosamente as lê, procura compreender, analisar e, como intelectual livre e responsável, submeter a escrutínio. Sim, porque não há teses que se não possam sujeitar a escrutínio. Se as teses cristãs o foram, não poderiam jamais os proponentes das histórico-críticas, e outras, escapar a essa necessidade e condição. Erigiram um monumento tautológico, cujas proposições se sustentam em premissas que são as próprias conclusões. E essas conclusões, tomadas pois antes mesmo da investigação da sustentabilidade das hipóteses propostas, partem as mais das vezes de preconceitos, pré-juízos anti-cristãos, naturalistas, de pressupostos filosóficos ateus, do “não-Deus” e, pior ainda, de puras especulações e exercícios de imaginação. Tudo é possível e crível, menos o testemunho acerca de Jesus Cristo transmitido pelo Novo Testamento. Este era necessariamente um constructo, congeminado por uma teia de conspiradores, os seus autores, que ainda para mais se contradizem entre si, dando dessa misteriosa personagem visões incompatíveis, díspares (v.g. os “Cristianismos” de Paulo, Pedro e João). Tudo para elevar a uma categoria de maravilhoso e divino um homem que fora apenas isto, um homem. Estas hipóteses, que constituem, como dissemos, o cerne do discurso académico dominante hoje e que se pretenderam frescas e novas, tornaram-se afinal velhas, pois não são inéditas (algumas já se faziam ouvir nos primeiros séculos de Cristianismo) e ganharam as cãs brancas da senilidade. Estes são os factos: especulação, falta de rigor, seriedade, preconceito (cf. Vittorio Mezori, um dos autores que cita por Manuel Rainho), parcialidade e abuso de grelhas exegéticas modernas para a leitura dos textos, da História, dos eventos. Acrítica e credulamente.
O livro de Manuel Rainho entra no coração dos debates. Lê muito do que havia para ler, mesmo contra a sua própria fé. E do esforço resulta este trabalho, que produziu como intelectual e cristão: se como cristão soube manter a sua fé alicerçada na rocha que é o seu autor e consumador, Jesus Cristo, como intelectual provou que crer e pensar são duas operações distintas da mente e espíritos humanos, mas que se complementam muito bem. Que próprio do ser cristão pode ser a seriedade de pensamento e investigação. Que os dados, os elementos disponíveis e a aplicação séria de metodologias de investigação e análise podem, afinal, dar sustento àquilo em que se crê. Entre os autores que cita (a bibliografia é vasta), um deles admite isso mesmo, a despeito do resto, do que falta — crer, coisa impensável. Não raro o problema está aí: esse salto para o crer é inadmissível para o crítico, o pensador, o homem e mulher de ciência. Mais uma vez, o preconceito, como se a adesão a uma hipótese não fosse em si mesma uma questão de crença (em grego, persuasão e crença têm o mesmo radical etimológico, e a crença é a adesão àquilo de que somos intelectual, emocional e espiritualmente persuadidos). E Manuel Rainho faz verdadeira apologética: não apenas uma defesa da fé, daquilo em que crê, mas um exercício de investigação e de raciocínio. E o resultado é de uma maior frescura do que a generalidade dos exercícios de apologética dos críticos — porque o são. Investiga a história e tem o cuidado de entrar em testemunhos exteriores aos bíblicos. E somos surpreendidos com a razoabilidade, a credibilidade dos testemunhos evangélicos, a vários níveis: geográfico, onomástico, histórico. Os próprios cristãos (evangélicos, designadamente), se em grande medida — é certo — não pensam nem investigam e temem o questionamento, vêem-se numa estrada de redescoberta de Jesus Cristo, de um novo entendimento do fenómeno, no seu contexto. Temos aqui uma Via media, de uma fé que pensa e de um pensamento que se atreve a crer. Honestamente.
A teoria da conspiração cristã (como lhe chamo) não subsiste. Não só porque, como a vejo, é tautológica, pois parece ter surgido ad hoc, sendo postulada para justificar uma determinada posição de fé e filosófica, e sem maiores bases de sustentação do que a própria crença na mesma. E por isso mesmo assente mais na fantasia dos seus proponentes. E tão insensata ela é que deixa por explicar a falta de coerência e harmonia absoluta em relatos de certos eventos das biografias de Jesus dos Evangelhos (sobretudo nos Sinópticos), pois toda a conspiração, para ser bem sucedida, terá de ser alicerçar numa concertação perfeita entre os conjurados. Além de deixar outras coisas por explicar. O Jesus judeu, que irrompeu na História num contexto histórico, étnico, espiritual e cultural judaico, foi divinizado desde muito cedo — os indícios apontam para aí. Porque ele próprio se identificou com a divindade desse povo, o IHWH. E não porque houve uma paganização (através da versão helenística do paganismo) das honras dadas à sua pessoa, mas porque a primeira geração de “cristãos” se compunha maioritariamente de judeus de origem, intrinsecamente Judeus, para quem as honras divinas a ser humano eram coisa impossível. Mesmo o Messias, essa personagem desejada, não passaria de mero homem, rei ou profeta excepcional representante de Deus, mas homem. Homens e mulheres marcados pelas palavras e por factos inéditos, de um tipo de novo. E como essas teses falham aqui, por muitas e mais díspares sejam as hipóteses explicativas alternativas, como as ondas contra rochas! Toda a experiência com Jesus marcou essa gente de tal modo (e ainda marca), um modo tão sem igual se comparado com o que se conhece da experiência com outros Messias (em particular Simão Bar Kochba, um século posterior a Jesus, aclamado pela generalidade dos Judeus da sua época como o verdadeiro Messias), a ponto de assumirem denodadamente a missão de pregar a palavra, a morte e ressurreição desse Jesus e aceitarem cruéis martírios em nome da veracidade do testemunho dessa experiência, que não havia forma de negar ou alterar, que outra explicação não é possível, senão a impensável: esse testemunho é digno de crédito, ou pelo menos esses homens e mulheres, no posse usufruto das suas faculdades, acreditavam no que diziam e viviam. Muitos homens e mulheres que ainda hoje sofrem martírio por um nada?
Se defeitos houver no livro, será talvez falta de profundidade em alguns pontos (u.g. a questão histórico-crítica). Mas isso terá como atenuante o facto de o livro abordar genericamente Jesus e as hipóteses sobre Jesus. Mas talvez seja defeito meu como leitor, pois gostaria de ver desenvolvidas outras questões pertinentes às hipóteses da História das origens do Cristianismo, cada uma das quais é subsidiária de uma ou outra das concepções existentes acerca da pessoa de Jesus. Como escreveu o Evangelista João (21:25): “Há ainda muitas outras coisas que Jesus fez. Se elas fossem escritas, uma por uma, parece-me que nem no mundo inteiro caberiam os livros que seria preciso escrever”. E muito haverá com efeito ainda por escrever sobre tantos destes assuntos, e cada merecia não poucos livros.

sábado, julho 23, 2011

CRUCIFICAÇÃO



leaning forward against the thrust of the blades in the water, he began to row
Ernest Hemingway, The old man and the sea
“debruçando-se contra a resistência das pás na água, começou a remar”
(tradução de Jorge de Sena)

debruçado contra o impulso
em que a cabeça flui
separando-se do peito
aberto em demanda do ar

ainda o pássaro se prevê
no arco dos braços
ainda a lâmina não perfurou
a última resistência
da água no flanco

e já as mãos se debruçam
da coroa dos cravos
nesse recontro universal
que convoca o rosto húmido
e olvida os membros
lançados contra todo o corpo

o corpo que tudo desaprendeu
apenas sabe que o cortou o sangue
como os remos a água

23/07/11

segunda-feira, junho 27, 2011

ÊXODO

“E um silêncio talhado
para o voo de um moscardo”
Eugénio de Andrade, “Paisagem”

vimos tudo o que se passou
como talhou
o silêncio à lâmina precisa
de voos de moscardos
empalideceu o céu picou-o
em milhões de pedras
que choveram sobre a areia
vagas de assalto de gafanhotos
a mastigarem a terra
vimos como deu às águas
a essência do sangue
vimo-lo na face de todas as pragas

até que encheu de vazio
a herança do Faraó
então vimos como talhou
o fundo do mar para a marcha

e nós passámos
inteiros

26/06/11

quinta-feira, junho 16, 2011

ADORMECI

ADORMECI




adormeci com os lábios encostados
à noite nela procurei entender
o tamanho do encanto dos teus seios
as tuas glórias, orgulhos de mulher
se o tomou da noite ou se esta
recebeu deles a cor e o mistério 


adormeci na certeza de que 
os lábios os teus também se encostam
e procuram o meu peito
a minha glória, orgulho de homem


adormecemos com os lábios incrustados
no que no outro há de orgulho e de glória
de homem e de mulher
à procura da palavra que os consuma
da língua treinada 
nos gestos vigorosos
do silêncio 


15/06/11

quinta-feira, junho 02, 2011

DONDE ME CHEGAM OS VERSOS?



donde me chegam os versos?
dum peso que tritura os ombros
a pluma e cai na língua toda
e se imiscui nos dentes?
não, chegam com côdea
embora de miolo isenta
como pão inacabado às mãos

dizem que o coração os dá
mas que o poeta não os sente
como um feto crescido fora do útero
é no parto que nele entra
e lhe enche os ossos e lhe navega
nas naus do sangue?

os versos de corpo inteiro
quando nascem é para dentro

2/06/11

A CRIANÇA

A criança acabada de nascer 
tem a vida toda pela frente
como um oceano sem mesura

tem todas as estrelas por tecto
e por céu ainda outras estrelas
de que ninguém suspeita
nem os profetas nem as sibilas 
as revelaram pois não as conhecem

ela tem já mundos de sonhos 
por trás dos olhos embora
ainda durmam
pois deixai-os dormir
até que a palavra de Deus 
lhes desperte a face

30/05/11

domingo, maio 22, 2011

INSTRUÇÃO DO JEJUM

“Mas tu, quando jejuares, lava a cara e penteia-te bem.”
Evangelho segundo Mateus 6:17

quando jejuares jejua
como se estivesses farto
quando fizeres tudo
faz tudo como se cantasses
sofre como se festivo fosse o dia
sem espaço para o ar que as janelas
abertas te oferecerem
jejua como se tivesses a casa cheia de pão
e o coração pleno de pássaros
soltos em pleno voo

de rosto lavado
do sangue da véspera
e da água morta da noite
Deus conhece a fome esconsa
do teu rosto que não seca a flor
mesmo que assim o pareça
é a mão de Deus quem lhe apura
os perfumes

22/05/11

quarta-feira, maio 18, 2011

MOSELA

 Vnde iter ingrediens nemorosa per auia solum
Beginning my lonely journey from there through trackless woodlands
et nulla humani spectans uestigia cultus
“Daí empreendi uma viagem solitária por matas sem carreiro
sem ver o mínimo sinal de cultura humana”
Décimo Magno Ausónio (c. 310-395 d.C.) de Burdígala (Bordéus), Mosella vv. 5-6 (1)

No teu tempo só havia o rio
e as margens de árvores rentes 
ao corpo hoje há pontes 
que fundaram cidades

no teu tempo havia povos 
em multidões vivendo nas ondas 
e barcaças de pescadores 
que os pescavam à linha, quase até à morte
hoje há outros barcos maiores 
com mais gentes dentro 
são viajantes e sentam-se 
à mesa sobre o rio
como tu na tua barcaça

no teu tempo só havia o rio 
buscavas as transparências 
os reflexos nas folhas, 
não havia escolhos que estancassem
as ondas nem ilhas ao meio 
que cortassem as correntes

havia o azul retido nos teus olhos 
e as viagens soltas na tua voz 
para outros rios e deuses e ninfas 
passeando pelos rios 
e deles partindo — para onde?

talvez para outras terras? 
na tua barcaça 
de regresso ao Mosela
para destas águas 
beberem eternamente

Ausónio, há hoje ainda
o que sempre houve, o rio
e as margens escavadas 
por pequenos pés de cepa 
para tua restauração
na frescura dum Riesling
e na brasa dum salmão 
insinuado num prato 
que engana o teu garfo
e que até suporta, Ausónio,
sem empalidecer a tua demora 

vias e escrevias tantas coisas 
no rio, Ausónio, muito mais do que o rio 
vem, Ausónio, como um velho poeta epicurista 
ou como Cristo e seus discípulos 
amar a branda mesa de amigos 
no campo à beira do repouso do rio 
que amamos 

7/05/11

DOURO

o teu nome não fala de ti
das areias de ouro da Foz
o teu nome é de duro sangue

houve pontes que fizeram
de barcas para dar aos pés voo
sobre as águas que as agitavam
os rapaces Franceses
depois outra ponte
caiu e veículos de gentes
pelo remoinho
as águas fecharam-se
não se prestaram ao prodígio

que deus ou serpente cruel
se esconde no fundo da corrente
e nos fecha a vista
e nos perde as lágrimas?

ao vinho porém te dás
mas da terra é o sabor
e o céu e os vales
as testemunhas
dessa união
nos meus lábios

ao abeirar-me de ti
no bulício da Ribeira
degusto o silêncio
ao passar-te sobre a ponte
reconquisto então o sangue
serenamente

11/05/11

sábado, abril 23, 2011

RECOLHER-SE

Mensagem / Estudo Bíblico dirigido à Comunidade Cristã Restauração (Steinsel, Luxemburgo) a 23 de Abril de 2011

DEVS EX MACHINA


“Jesus exclamou: «Mas que gente esta sem fé e desorientada! Até quando terei que estar convosco? Até quando terei de vos suportar? Tragam-me cá o rapaz.»”
Evangelho segundo Mateus 17:17

Senhor, sabemos que és maior
do que o vento, que voas aonde
as águias não sonham
e que a tua voz deslaça os corações
dos demónios

corta, Senhor, à espada
a cabeça destes malditos
que te desprezam
os corruptos os ricos
vorazes das carnes do pobre
faz justiça aos desvalidos

não te demores Senhor socorro
há aqui hemorragia
estanca a este a lepra
clareia a voz àquele
antes que também
os ouvidos se lhe esqueçam de ouvir

pois a tua mão é poderosa
e a nossa é mão
no fim dela há apenas dedos

vem Senhor e levanta-nos daqui
do vale deste sacrifício para o teu Reino

23/04/11

segunda-feira, abril 18, 2011

CINZAS

não há cinzas que bastem
para lá da chuva
para obscurecer sobre os oceanos
a respiração dos peixes
não há montanhas ainda
que as nuvens
parem, o vento sempre passa
e se move e toca com plumas
a terra e descansa-nos os pés

as cinzas existem
só na penumbra dos olhos
não têm mãos
para nos diluírem nos ares

nas há cinzas na tua Face
de brancura nem na tua Palavra
só esta nos basta
para lá da chuva
por dentro do mundo

17/04/11

domingo, abril 10, 2011

OS RIOS

Passam-nos por sob as bocas
os rios passam incólumes
e lá pousam as águas
onde deixámos os olhos
presos nas curvas dos cabelos 
e das coxas da amada

neles buscamos a paz 
que os vales cavaram
buscamos a paz 
que se entregou ao enlace
dos pensamentos trementes
nas centelhas de luz à superfície 
dando à luz o sol 

cavalos de pele lisa 
são as águas dos rios
afago nas bocas que queriam dizê-los
e ampliá-los em verbos e nomes

mas o que há neles são águas
quando os nossos olhos as tocam
e os lábios delas são magoados
é o corpo e a alma todos que nelas
nadam e passam e permanecem
inocentes

9/04/11

segunda-feira, março 28, 2011

NEM SÓ

“Não se vive só de pão, mas também de toda a palavra que vem de Deus”
Evangelho segundo Mateus 4:4


nem só de pão
do que os dentes arrebatam
à fome vivemos
há também as palavras

nem só de fandangos da noite
de vigílias quebradas nas mãos cheias
mas também dos silêncios
dos olhos que se perdem e rendem

nem só de paixão se faz a canção
faz-se de flores de pedra
e risos de dor faz-se enfim
sempre de palavras antigas
que nos vêm inteiras da boca de Deus
reditas em sempre
novas sílabas

28/03/11

sábado, março 19, 2011

AO CAIR DO PANO

Seremos felizes, meu amor,
ao cair do pano
quando as gotas da chuva
ocultarem os olhos
às máscaras do mundo

ao despirmos o colo
da morte das palavras
que nos restam, que nos ficam
para além do acto, para além da dança

por trás da cena, onde o pássaro,
já desnudo de cordas,
principia o voo
seremos felizes, meu amor,
especialmente felizes

onde deixar de haver o cá e o lá
e se extinguirem bastidores
plateia e palco

ao cair do pano
ao tombar dos véus

19/03/11

sábado, fevereiro 05, 2011

PARA O FIM

“Mas tu guardaste o melhor até agora!”
Evangelho segundo João 2:10


o mistério foi deixado para o fim
para a hora em que a atenção
lhe flui para uma estrela

para o fim deixou o aceno da vida
o abandono exacto de todo o cansaço
e a revelação nas mãos abertas
de um presente perfeito
para o seu amor

é no fim do rio
que mais o peito se lhe dilata
ao seu sopro nítido
e que os olhos mais se lhe abrem
para as bocas sagradas
da madrugada

para a última vindima
para os cachos do fim
guardou o acorde unânime
de todas as castas
no último cálice

no fim do banquete
à hora de fechar as canções
disse dum só fôlego
o melhor poema
aquele que só nessa hora
os ouvidos estão aptos
para entender


5/02/11

sexta-feira, janeiro 28, 2011

Europa anti-cristã

Petição


Diário da Europa da Comissão Europeia
Todos os anos a Comissão Europeia publica um Diário Escolar Europeu destinado aos estudantes de toda a Europa.
Foram publicados 3 milhões de copias do Diário de 2010/11 para serem distribuídos gratuitamente conforme requisição dos professores.
A versão actual deste diário não menciona nenhuma festa cristã, mas incluías datas festivas islâmicas, sikes, hindus e chinesas
Não refere por exemplo o Natal recentemente te celebrado por toda a Europa.
Porque é que esta omissão não é aceitável
O papel dos cristãos na construção europeia é um facto histórico inegável.
Como é que este Diário pretende informar os jovens sobre a Europa, removendo todas as referências ao cristianismo, negando a religião que contribui e muito para a unidade.
O cristianismo é a primeira religião na Europa. Este lapso é ofensivo para muita gente. A omissão de algo tão importante para as pessoas, a omissão de valores e crenças que as pessoas partilham é intolerável.
O Cristianismo não é só um factor religioso, mas também um factor cultural e fundamental da história e identidade de muitas nações europeias. Os feriados cristãos em particular o Natal e a Pascoa, são celerados na Europa por muitas pessoas e até por não cristãos.
Sejam quais forem as razões para esta omissão dos feriados cristãos no Diário Europeu 2010/2011, com esta petição exigimos
- Que a corrente versão deste Diário Escolar não seja distribuída.
- Que no futuro o diário mencione explicitamente os feriados cristãos.

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quarta-feira, janeiro 12, 2011

DISCURSO XENÓFOBO

O discurso xenófobo tem incongruências, cretinices e desactualizações irresolúveis.

Um luxemburguês de extrema-direita, de sua graça Pierre Peters, publicou uns panfletos inflamados com o título "Auslänner eraus" (Estrangeiros, rua!). Entre os visados, pois claro, os Portugueses. E evidentemente: os estrangeiros são os responsáveis das maleitas do país.

Pois bem, que todos os estrangeiros deixem este país, e da posição de pódio de ranking mundial de PIB e de bem-estar passará para meio da tabela. Quem faria a "menage" a esse senhor, quem lhe lavaria a roupa, quem o serviria à mesa no restaurante, quem lhe lavaria o traseiro se de repente tivesse de ser internado no hospital e ficasse impossibilitado de o fazer por si próprio? Uhm… E já agora, os investidores financeiros internacionais saiam do Luxemburgo. E lá voltará esse país à condição de um Haiti da Europa e cliente privilegiado do FMI.

Não é tese defendida pela maioria os cidadãos e naturais deste país. Mas espanta-me como este discurso, no Luxemburgo ou em qualquer outro país (também o há em Portugal) ainda exista. Espanta-me tamanha falta de uso dos neurónios — para não falar do carácter racista, que é por si só motivo de vómito. Mesmo que nas franjas da sociedade, por vezes este discurso ressurge e a comunicação social dá-lhe destaque — e eis outra coisa que me espanta.