sábado, maio 12, 2012

FIAPOS DE PRIMAVERA

temperatura amena
nas pontas da brisa
com ameaças de frescura
sobre o rosto das árvores

a cada passo que dermos
talvez as nuvens abdiquem
um pouco o caminho
à passagem lesta
do sol

pelo menos assim podemos pedir
ao Deus do céu
que nos dê esse manto de luz
e o passeio no parque
com as crianças
de cada dia

12/05/12


terça-feira, maio 08, 2012

LUZ DO MUNDO

“… em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante”
Jorge de Sena

Uma pequena luz igual
a todas as outras
e desigual de todas as outras
uma pequena luz que incendeia
todos os sóis
uma luz que apenas brilha
tal a vida que é extraída da chama

que insiste em brilhar
sobre o sopro azedo
dos que a não percebem
porque se vestiram de negritude fosca
da indiferença do mundo
e não sabem que língua
fala a luz a luz
em todas as línguas clara
e brilhantemente vertida
eng kléng Liicht schéint
lux parua lucet
luz que se não extingue
que se não dobra ante qualquer
vento

em todo o mundo luz é 
o foco firme do mundo

7/05/12


segunda-feira, maio 07, 2012

Maravilhosa nova Europa

O governo alemão teima, e entende que não se devem encorajar na Europa políticas de relançamento, mais promover via das reformes no mercado de trabalho implementadas pelo antigo chanceler Gerhard Schröder. Anuncia-se um braço de ferro com o novo Presidente francês, ou então a cedência pragmática deste, como Sarkoky o fez.

sábado, maio 05, 2012

Enviar sms ao volante…

Como evitar que os condutores enviem sms enquanto conduzem? Eis os melhor método.

quinta-feira, maio 03, 2012

SOBRE A MURALHA



“… em casa da prostituta, chamada Raab…”
Josué, 2:1

cada olho da minha casa
dá para um dos lados da muralha

do lado de fora
corre um vento raso
aos murmúrios que ameaça
aplicar-se às trompetes da declaração
de guerra um vento que sobe
e penetra na minha casa até falar
às paredes com a promessa
que ela será para os projécteis
uma pedra firme no invisível

do lado de dentro chega-me
o pão e o valor do comércio
da minha vida
no chão do meu corpo
é o lado em que sou
por umas poucas horas
a estrela mais ascendente
e nas seguintes a mais cadente

de um lado chega vê-se
uma miragem no deserto
do outro conheço quanto deserto
há dentro da miragem

entre dentro e fora
da muralha de Jericó
oscila a minha casa
oscila dentro de mim

Rui Miguel Duarte
3/05/12

quarta-feira, maio 02, 2012

AQUELE DE CUJA MÃO FUGIU O ANJO

Do e-book "Aquele de cuja mão fugiu o anjo" (http://pt.scribd.com/doc/90401321/Aquele-de-Cuja-Mao-Fugiu-o-Anjo-Poemas-J-T-Parreira), o melhor livro (para o autor destas palavras), de jamais escrito por João Tomaz Parreira, o mais elaborado, o mais requintado em trabalho poético. A exigir, cada poema, uma degustação lenta, repetida, para acompanhar, detectar as múltiplas voltas, imagens, descrições, metáforas, efabulações que cada composição contém. Como um vinho. Uma homenagem não encomendada, mas com apreço poético. Um exemplo (p. 33):




DISCURSO AOS JOVENS

Não deixeis para amanhã
a vossa humilde tarefa de olhar
pela honra dos mais velhos
de pequeno
é que um rio faz o destino
das suas águas poderosas
nenhum pássaro
é novo em demasia
para se lançar no alto
imóvel céu

Escrevo-vos
porque cada dia
vos trará um surpresa
é preciso decantá-la até à gota
mais simples do sangue

Uma névoa que se levante
e se envolva nas coisas
como um rio de cinza – Vos escrevo
porque sois fortes – dissipai-a

todavia
que os dias de sol
não vos enganem
Bem e Mal já não são as fronteiras
que jamais deveriam tocar-se
por isto vos escrevo
para que o vosso coração se mova
na verdade.

terça-feira, abril 24, 2012

NO CAMINHO

caminhámos sobre as águas
e nelas semeámos a noite
para o amor feito
para nós

confiámos a distância
ao rio depusemo-nos de tudo
na luta contra as margens
até as mãos se reconhecerem no silêncio

unimo-nos
no segredo das árvores
lá, onde os navios
rasgam o caminho

Ri Miguel Duarte

23/04/12

segunda-feira, abril 16, 2012

MUDA

como um cordeiro que é levado ao matadouro ou como uma ovelha emudecida nas mãos do tosquiador
Isaías 53:7

vi pelos olhos de Isaías
a ovelha levada
diante dos nossos olhos
em marcha lenta
sobre o gume da faca

os escombros do mundo
dissolviam as maçãs do rosto
a mão do carniceiro
não é menos áspera
mas quiçá será mais compassiva
e lhe aliviará todo esse peso
que lhe cerra a garganta

se o gume finda na ponta
vale mais apressar o golpe
para que de uma vez por todas
se solte e ecoe o grito emudecido
se solte a dor a derradeira
como feto retido no útero
o grito que pesa sobre a espinha

é urgente a declaração
de que a marcha do silêncio
terminou

lá, no lugar onde o céu
se rasga da terra
lá, onde vi a carne
posta perante Deus e os homens
a carne que cala a boca
do mundo


Rui Miguel Duarte
15/04/12

sábado, abril 14, 2012

CRIANÇA DORMINDO

dorme doce criança
dorme sem futuro
nem passado nem presente 
como quem está além da esperança
sem saber o que é não ser contente
ou perdida num túnel escuro
dorme a cabeça encostada suave
na coxa do papá faz o ninho a ave

14/04/12

segunda-feira, abril 09, 2012

HOJE, PÁSCOA

“Iam a correr…”
Evangelho segundo João 20:4

hoje preferimos
deixar o sono dormindo na cama
e correr, correr ao túmulo
porque nos disseram que a morte
havia de si própria fugido

deixámos tudo até o peixe
fazer a sua faina nas brasas
e a fome arder só ao lume
e correr, correr ao túmulo
porque nos disseram que a pedra
havia desertado

hoje preferimos
saltar obstáculos
e mesmo pisar urtigas com ambos os pés nus
porque nos disseram que a vida
conquistara o vento

preferimos ao linho
molhado em aloés
antes molhar as frontes
com a água corrente da vertiginosa pressa
de chegar ao túmulo
o lugar de descansar
do tumulto o coração

Rui Miguel Duarte
9/04/12


domingo, abril 08, 2012

O QUE SE MOSTRA

“Depois mostrou-lhes as mãos…”
Evangelho segundo João 20:20

mostro-te as minhas mãos
as mãos que reconheces
pelo toque vazio dos pregos

estas mãos que aspergiram
os rios imortais entre os montes
mãos que dispersaram
no firmamento as poeiras
do tempo
inaugurando o ciclo das estações
debaixo da pulsação do sol
que criaram as notas musicais
para tu cantares
mãos que esculpiram os rostos
dos homens em madeira rara

mãos cujos dedos são finos
como os das aves
e cujas palmas a morte
pouco a pouco amarrotou
até à extinção total

mostro-te estas mãos
que beijaram os espinhos
e deles extraíram latejante
a rosa

Rui Miguel Duarte
7/04/12

domingo, abril 01, 2012

TINTO

en tinta púrpura

da prensa escorre o poema da vida”

Ramón Blanco

esmaga a uva
até lhe retirar a tinta no palato
os dedos contam as gotas
que escorrem devagar
ao batimento de cada raio de sol

enquanto a aranha tece
a mortalha para a mosca
as pipas e tonéis abrem-se
de espanto para a nota rubra
de frutos silvestres
que sairá da obra de desespero das suas mãos

então, o que esmagou e matou
no lagar, lugar onde são as promessas geradas,
é o que dá a vida aos homens
é o sangue, pelo qual navega
tudo quanto resgata
ao adormecimento dos lábios
e tece na língua um poema tinto
de final longo

1/04/12

quarta-feira, março 28, 2012

OUTRA JERUSALÉM

“Construam casas para nelas habitarem; plantem hortas e comam do seu fruto.”
Jeremias 29:5

disseram-nos 
que construíssemos casas 
e as adornássemos de pomares
a toda a volta da nossa vista 
aí, dia a dia, faríamos amor 
até bisnetos nos nascerem 

disseram-nos 
que nessa terra ao plantarmos hortas
colheríamos paz, que muros 
não haveria que estancassem 
os nossos sonhos
nem o flagelo da fome nos puniria

e assim fizemos:
mesmo embutidos entre os rios
toda a terra 
é outra Jerusalém

26/03/12

terça-feira, março 27, 2012

BABILÓNIA

fora do mundo
descobrimos que há mundo
que há jardins e palácios
para lá do deserto
e também rios de águas vítreas

que para lá do choro e do riso
também há riso e choro
e que as lágrimas não são as últimas coisas
que derramamos
e que também aí a alegria se purifica

nunca imaginámos
que os caminhos do Senhor fossem
tão vastos e que o vento
levasse tão longe o aroma
do figo maduro

26/03/12

sábado, março 24, 2012

MEDITAÇÃO SOBRE O SALMO 137

recostamos os joelhos à beira dos rios
da Babilónia, os rios onde nem
os pés lavamos da marcha desde Sião,

mas os pensamentos vão lavados
e perambulam como corças
pela nudez acre da nossa terra
esfolada
perguntando aos rios se
haverá ainda por lá salgueiros em pé

é que nos arrancaram dos olhos
os contornos de Sião
e despojaram os nossos ombros
do linho de Jerusalém,
e nus nos deixaram
sem a túnica santa e branca que vestíamos
ao sábado

se de ti, Sião, a memória se escoar
nestas águas estranhas
que os dedos da minha mão direita
percam o tacto sejam como fantasmas
nas cordas da harpa

19/03/12

segunda-feira, março 19, 2012

MEDITAÇÃO SOBRE O SALMO 137

recostamos os joelhos à beira dos rios
da Babilónia, os rios onde nem
os pés lavamos da marcha desde Sião,

mas os pensamentos vão lavados
e perambulam como corças
pela nudez acre da nossa terra
esfolada
perguntando aos rios se
haverá ainda por lá salgueiros em pé

é que nos arrancaram dos olhos
os contornos de Sião
e despojaram os nossos ombros
do linho de Jerusalém,
e nus nos deixaram
sem a túnica santa e branca que vestíamos
ao sábado

se de ti, Sião, a memória se escoar
nestas águas estranhas
que os dedos da minha mão direita
percam o tacto sejam fantasmas
nas cordas da harpa

19/03/12

domingo, março 11, 2012

POR ONDE ANDA UM POEMA


Por onde anda um poema
um só esgaçado nas orlas da tarde?
um poema que não vá em modas
novas como uma brisa que não sacode
os nossos ombros

por onde anda um poema
um só capaz de rescender maresia?
dai-nos um desses à língua
sem lhe retirardes o sal

dai-nos esse pão nosso quotidiano
que perdoa todas as ofensas
e nos eleva às alturas do canto
a rasar as asas dos pássaros

buscamos esse poema
limpo da textura de água
em que a infância
encontre a sua casa

11/03/12

terça-feira, março 06, 2012

SEGREDO


Uma árvore tem sempre esperança; mesmo que a cortem, brota de novo e não pára de produzir rebentos.
Job 14:7

deixa-me contar-te,
criança velha,
o segredo da árvore

sempre de pé, mesmo quando
lhe deitam o tronco
e os ramos são separados do sol
mesmo quando suspendem
o abraço com o qual te consolavam
vegetal, e por isso
tão rente à terra

criança velha,
da árvore eis o segredo:
a raiz sempre permanece de pé,
apegada à fertilidade
do silêncio

6/03/12

NEVA EM VARSÓVIA

(a propósito de uma cena do filme O Pianista de Roman Polanski)

neva em Varsóvia
enquanto o fugitivo passa
com pés de pluma sobre as teclas
do piano dedo a dedo
sobre a cabeça enegrecida
que o chapéu esconde,

o fugitivo ao de leve entre os bicos
dos corvos e o piano é
à cautela uma labareda
sobre a cabeça enegrecida
mas mais negra ainda é a neve

1/03/12

domingo, março 04, 2012

NEVA EM VARSÓVIA

(a propósito de uma cena do filme O Pianista de Roman Polanski)

neva em Varsóvia
enquanto o fugitivo passa
com pés de pluma sobre as teclas
do piano dedo a dedo
sobre a cabeça enegrecida
que o chapéu esconde,

o fugitivo ao de leve entre os bicos
dos corvos e o piano é
à cautela uma labareda
sobre a cabeça enegrecida
mas mais negra ainda é a neve

1/03/12