“Construam casas para nelas habitarem; plantem hortas e comam do seu fruto.”
Jeremias 29:5
disseram-nos
que construíssemos casas
e as adornássemos de pomares
a toda a volta da nossa vista
aí, dia a dia, faríamos amor
até bisnetos nos nascerem
disseram-nos
que nessa terra ao plantarmos hortas
colheríamos paz, que muros
não haveria que estancassem
os nossos sonhos
nem o flagelo da fome nos puniria
e assim fizemos:
mesmo embutidos entre os rios
toda a terra
é outra Jerusalém
26/03/12
Nova vida, abundante vida, tudo quanto pode proporcionar um encontro pessoal e radical com uma pessoa especial. A contracultura da nova criação, em Jesus Cristo. N.B.: Este blog está em desacordo com o chamado novo acordo ortográfico de 1990.
quarta-feira, março 28, 2012
terça-feira, março 27, 2012
BABILÓNIA
fora do mundo
descobrimos que há mundo
que há jardins e palácios
para lá do deserto
e também rios de águas vítreas
que para lá do choro e do riso
também há riso e choro
e que as lágrimas não são as últimas coisas
que derramamos
e que também aí a alegria se purifica
nunca imaginámos
que os caminhos do Senhor fossem
tão vastos e que o vento
levasse tão longe o aroma
do figo maduro
26/03/12
descobrimos que há mundo
que há jardins e palácios
para lá do deserto
e também rios de águas vítreas
que para lá do choro e do riso
também há riso e choro
e que as lágrimas não são as últimas coisas
que derramamos
e que também aí a alegria se purifica
nunca imaginámos
que os caminhos do Senhor fossem
tão vastos e que o vento
levasse tão longe o aroma
do figo maduro
26/03/12
sábado, março 24, 2012
MEDITAÇÃO SOBRE O SALMO 137
recostamos os joelhos à beira dos rios
da Babilónia, os rios onde nem
os pés lavamos da marcha desde Sião,
mas os pensamentos vão lavados
e perambulam como corças
pela nudez acre da nossa terra
esfolada
perguntando aos rios se
haverá ainda por lá salgueiros em pé
é que nos arrancaram dos olhos
os contornos de Sião
e despojaram os nossos ombros
do linho de Jerusalém,
e nus nos deixaram
sem a túnica santa e branca que vestíamos
ao sábado
se de ti, Sião, a memória se escoar
nestas águas estranhas
que os dedos da minha mão direita
percam o tacto sejam como fantasmas
nas cordas da harpa
19/03/12
segunda-feira, março 19, 2012
MEDITAÇÃO SOBRE O SALMO 137
recostamos os joelhos à beira dos rios
da Babilónia, os rios onde nem
os pés lavamos da marcha desde Sião,
mas os pensamentos vão lavados
e perambulam como corças
pela nudez acre da nossa terra
esfolada
perguntando aos rios se
haverá ainda por lá salgueiros em pé
é que nos arrancaram dos olhos
os contornos de Sião
e despojaram os nossos ombros
do linho de Jerusalém,
e nus nos deixaram
sem a túnica santa e branca que vestíamos
ao sábado
se de ti, Sião, a memória se escoar
nestas águas estranhas
que os dedos da minha mão direita
percam o tacto sejam fantasmas
nas cordas da harpa
19/03/12
domingo, março 11, 2012
POR ONDE ANDA UM POEMA
Por onde anda um poema
um só esgaçado nas orlas da tarde?
um poema que não vá em modas
novas como uma brisa que não sacode
os nossos ombros
por onde anda um poema
um só capaz de rescender maresia?
dai-nos um desses à língua
sem lhe retirardes o sal
dai-nos esse pão nosso quotidiano
que perdoa todas as ofensas
e nos eleva às alturas do canto
a rasar as asas dos pássaros
buscamos esse poema
limpo da textura de água
em que a infância
encontre a sua casa
11/03/12
terça-feira, março 06, 2012
SEGREDO
“Uma árvore tem sempre esperança; mesmo que a cortem, brota de novo e não pára de produzir rebentos.”
Job 14:7
deixa-me contar-te,
criança velha,
o segredo da árvore
sempre de pé, mesmo quando
lhe deitam o tronco
e os ramos são separados do sol
mesmo quando suspendem
o abraço com o qual te consolavam
vegetal, e por isso
tão rente à terra
criança velha,
da árvore eis o segredo:
a raiz sempre permanece de pé,
apegada à fertilidade
do silêncio
6/03/12
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Rui Miguel Duarte
NEVA EM VARSÓVIA
(a propósito de uma cena do filme O Pianista de Roman Polanski)
neva em Varsóvia
enquanto o fugitivo passa
com pés de pluma sobre as teclas
do piano dedo a dedo
sobre a cabeça enegrecida
que o chapéu esconde,
o fugitivo ao de leve entre os bicos
dos corvos e o piano é
à cautela uma labareda
sobre a cabeça enegrecida
mas mais negra ainda é a neve
1/03/12
domingo, março 04, 2012
NEVA EM VARSÓVIA
(a propósito de uma cena do filme O Pianista de Roman Polanski)
neva em Varsóvia
enquanto o fugitivo passa
com pés de pluma sobre as teclas
do piano dedo a dedo
sobre a cabeça enegrecida
que o chapéu esconde,
o fugitivo ao de leve entre os bicos
dos corvos e o piano é
à cautela uma labareda
sobre a cabeça enegrecida
mas mais negra ainda é a neve
1/03/12
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sábado, fevereiro 25, 2012
PAROXISMO
μείζω γε μέντοι τῆς ἐμῆς σωτηρίας
εἴληφας ἢ δέδωκας“
mais recebeste para minha salvação
Eurípides, Medeia v. 534-535
mais recebeste do que deste
o próprio nome te pus
na fronte o nome pelo qual foste retirada
dentre as bestas selvagens pois não sabes
mas os dentes que exibem são teus inimigos
e tu insistes, Medeia, e mordes nas crianças?
como desejei mudar o teu hálito de canibal,
ó mulher traidora da tua própria terra,
mulher de cabelos de vapor,
tu tão pouco me deste
e eu que tanto te dei, o nome de Hélade apenas
e com ele te dei tudo
23/02/12
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quarta-feira, fevereiro 22, 2012
OS BÁRBAROS
OS BÁRBAROS
Γιατί οι βάρβαροι θα φθάσουν σήμερα
“Os bárbaros chegam hoje”
Konstantinos Kavafis
chegam hoje, vêm para ficar
com barbas pintadas de sol
chegam ao amanhecer
quando os risos esperam o galope
dos seus cavalos de pompa
os bárbaros de barba que impõe silêncio
aos medos que no gume ferem o grito
da injustiça chegam hoje
eles sabem quem somos que temos poetas
dissimulados na facunda beleza dos frisos
e trazem uma nova alma nas barbas
finas como fios de sangue
a nova alma de que carecemos
a nova liberdade, liberdade das palavras
que são enganos
vêm, estão para chegar, arranquemos
de nós todas as dúvidas que nas espadas
das barbas trazem a solução, pois
mais não precisamos que da claridade
do ferro nos nossos rostos
22/02/12
Γιατί οι βάρβαροι θα φθάσουν σήμερα
“Os bárbaros chegam hoje”
Konstantinos Kavafis
chegam hoje, vêm para ficar
com barbas pintadas de sol
chegam ao amanhecer
quando os risos esperam o galope
dos seus cavalos de pompa
os bárbaros de barba que impõe silêncio
aos medos que no gume ferem o grito
da injustiça chegam hoje
eles sabem quem somos que temos poetas
dissimulados na facunda beleza dos frisos
e trazem uma nova alma nas barbas
finas como fios de sangue
a nova alma de que carecemos
a nova liberdade, liberdade das palavras
que são enganos
vêm, estão para chegar, arranquemos
de nós todas as dúvidas que nas espadas
das barbas trazem a solução, pois
mais não precisamos que da claridade
do ferro nos nossos rostos
22/02/12
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sábado, fevereiro 18, 2012
QUEM OS DEUSES AMAM
Ὃν οἱ θεοὶ φιλοῦσιν ἀποθνῄσκει νέος
Quem os deuses amam morre novo
Menandro
os deuses amam
as tuas gargalhadas
e riem-se
encontram nos teus olhos
pérolas incandescentes
que anelam possuir
e para isso retorcem
os dedos
os deuses na tua boca
a voz amam
clamam pelo que tens
e eles não conhecem
e por isso no teu corpo jovem
acordam o sonho
e na mesma pressa de amar
to reclamam
quem os deuses amam?
que deuses amam?
18/02/12
terça-feira, fevereiro 07, 2012
ECLAIR
tes yeux de colombe
s’épanouissant en pétales d’ombre
tes yeux encastrés en arbre
dans un volcan de marbre
tes yeux de poussin
éclairant les premiers rideaux du matin
7/02/12
PIEGUICE
Não sejais piegas
— diz o governante ao povo
a excelência não anda às cegas
mas vive e trabalha com energia ele é novo
e aos gestos dá voz à voz largo espaço
com isto ensina uma imortal
lição à indolência nacional
— fazei o que eu digo não o que eu faço
7/02/12
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Primeiro-Ministro
sexta-feira, fevereiro 03, 2012
BOA NOTÍCIA
Vasco de Graça Moura, ao tomar posse posse como novo presidente do Centro Cultural de Belém, em coerência com o que sempre tem defendido (e eu próprio defendo), decide abolir o Novo Acordo Ortográfico da documentação da instituição.
quarta-feira, fevereiro 01, 2012
LÍNGUA
“sempre que tenho de falar, trava-se-me a língua na boca”
Livro de Êxodo 4,10
Não falo, Senhor,
porque não sei
não há arcadas
que sustentem a minha voz
trava-se-me a língua é coxa
sempre que tenho
de discorrer sobre geada
o que me pedes, Senhor,
é como se cortasse
com lâmina mal afiada
a cabeça dum condenado,
não
me constranjas, Senhor,
a rasgar o silêncio
dentro do peito
fazê-lo falar mais o faz calar
como penedos corroídos
ao vento
1/02/12
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Rui Miguel Duarte
quinta-feira, janeiro 26, 2012
FÁTUOS
“Abria-se a noite como uma romã”
José Eduardo Agualusa, in Milagrário Pessoal, p. 108.
um fogo sem artifícios
estrelas pálidas e ululantes
no céus como só olhos de aves
as poderiam espalhar
estendidos na frescura dos beirais
escorre dos lábios o oiro
a que habituaste a rosa,
o que tens para nos dar
agora ó noite ardente,
rubra nas velas
que se acendem remotas
no rufar das cigarras
senão a explosão dos teus dedos
como grãos de romã?
segunda-feira, janeiro 23, 2012
PASSEIO DOMINICAL
No domingo chega-se tarde ao trabalho
as mães atrasam-se nos beijos que dão
aos filhos, de rostos luminosos de maçã
os passos atrasam-se
numa meticulosa triangulação de ar
uma perna que sucede ao chão
e este a outra perna
no domingo entra o jardim
pela crianças dentro
— que bom que hoje está soalheiro,
mas mesmo que neve
as ruas dançam em perfeita comunhão
no coração que guardam no olhar
no domingo suja-se louça de porcelana
chora a pele no choque contra a outra pele
como o amor do mar com a rocha
primacial, portentoso
no domingo é o vento que envolve
os braços e todos levanta em uníssono
num cântico raro
nos corações ao alto
a Deus nas alturas
23/01/12
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Rui Miguel Duarte
domingo, janeiro 22, 2012
CARTA AO PRESIDENTE DA REPÚBLICA*
Exmo. Sr. Presidente da República,
Sempre os Portugueses se habituaram a ver nos chefes de Estado, tanto em monarquia como na República, não apenas a figura paternal, daquele que está com eles nos bons e maus momentos. Uma figura que pudessem identificar como protector, que combatesse com eles, e fosse à sua frente, nas guerras contra inimigos externos e internos. Que os amasse. Mas também a quem amassem, em quem vissem um exemplo de conduta e ética, de casamento feliz entre valores e conduta.
O Sr. Presidente pretendeu inserir-se nessa linha de mito, procurando transmitir de si a imagem de pessoa honesta, e última reserva moral da Nação. O Sr., porém, tem-nos grandemente decepcionado. Foi obrigado a renunciar ao seu vencimento de Presidente, em virtude uma lei que, justamente, impedia os detentores de cargos públicos de acumular vencimento com pensões. Fê-lo por isso, claramente, porque a tal foi obrigado. E escolheu o valor que maior rendimento lhe dá: a acumulação de pensões. Esperava-se do detentor da mais alta magistratura nacional o exemplo pró-activo, que o tivesse feito antes da implementação da tal lei, voluntariamente. Isto, sim, constituiria um exemplo. Isto, sim, daria um sinal aos seus concidadãos de que se identificaria com eles, e que se poderiam identificar com o senhor. Mostrou, afinal, que é um cidadão como os outros: nem melhor nem pior, que até se pauta pela conveniência pessoal, e segundo este padrão usa a lei. Tivesse-o feito, teria dado prova de sensibilidade, de generosidade, de sabedoria, de virtude cristã, de que é Presidente para servir, não para ser servido. Todavia, o cidadão, que é Presidente, que dá lições aos outros era um dos tais que acumulava, e só deixou de o fazer porque, infelizmente para ele, a tal foi legalmente obrigado.
Mais recentemente, antes da aprovação do Orçamento de Estado, manifestou apreensões quanto aos sacrifícios impostos aos cidadãos a que obriga a aplicação do mesmo. Porém, tendo tido a oportunidade de agir em consciência e em concordância com as suas declarações e apreensões, vetando-o, suscitando a fiscalização preventiva da respectiva constitucionalidade, não o fez, tendo-o promulgado liminarmente. Donde, a sensação que fica para os Portugueses é de o seu Presidente ser uma figura que custa muito dinheiro ao erário público, que fala, por vezes bem, mas que não age quando se impõe. Uma magistratura inútil, inepta, e pior, inconsequente, pois, ao falar, espera-se que aja em conformidade. E abstém-se de o fazer. As suas últimas declarações, contudo, excederam as expectativas. O senhor disse, e cito o que vem transcrito pelos órgãos de comunicação social: "tudo somado, o que irei receber do Fundo de Pensões do Banco de Portugal e da Caixa Geral de Aposentações, quase de certeza, não vai chegar para pagar as minhas despesas, porque como sabe eu também não recebo vencimento como Presidente da República." O que o senhor recebe de pensões, acumulado, são, ao que consta, 10 042 €. A este montante acrescem outros rendimentos seus, publicamente divulgados. Não há memória de tal honestidade nas palavras de um político em Portugal, que assim mostra o íntimo da sua alma. E de tão grande afronta e insulto aos milhares e milhões de concidadãos, que vivem com 5 % mensais ou menos do que isso, e com isso têm de sustentar famílias, pagar rendas, comer, tratar da sua saúde. Ou aos que nem isso têm, pois se vêem no desemprego de longa duração. Aos que, mesmo trabalhando, têm mais despesas do que receitas, e por isso passam fome. Como podem esses Portugueses fazer face às suas despesas, se o senhor, com os seus rendimentos mensais, não consegue? Permita que lhe diga, Sr. Presidente: não será caso para pensar que, quiçá, o senhor não tem vivido acima das suas possibilidades? Não será caso para, como cidadão, fazer o mesmo que os seus concidadãos: reduzi-las?
Não há comentários possíveis à inenarrável declaração de V. Exa.. É bom que saiba, Sr. Presidente, que o sr. acabou por dar o golpe de misericórdia na já pouca confiança e ligação que os cidadãos tinham com os políticos que os têm governado. E é em nome da liberdade de consciência e de expressão, e do sobressalto cívico que V. Exa. invocou aquando da tomada de posse para o seu segundo mandato, que, como cidadão livre, e por acaso que se identifica com a área político-ideológica da qual V. Exa. é oriunda, que apelo a que resigne ao cargo. V. Exa. deixou de ser o Presidente de todos os Portugueses. As relações entre Presidente e os seus concidadãos fica manchada pela vergonha, pelo sentimento da traição daquele para com estes. Deixou moral e politicamente de ter condições para tal. A menos, evidentemente, que V. Exa. tenha uma explicação para dar aos Portugueses. A menos que se tenha expressado mal, por omissão, e não se estivesse a referir às suas despesas pessoais e familiares, mas às inerentes com o cargo e o sustento dos serviços agregados à sua Casa Civil e das instalações que, por inerência de cargo, ocupa. Dou-lhe este benefício da dúvida, e honestamente tenho, como têm os meus e seus concidadãos, de considerar a hipótese do contraditório. Mas, se nada for dito da sua parte, se se mantiver o silêncio, se nada tiver a nos dizer, é minha opinião (e estou certo de que da generalidade dos Portugueses) que V. Exa. faria bem a si próprio, e a todos os Portugueses, em poupá-los a quatro longos e penosos anos deste sentimento de vergonha, até ao fim do seu mandato, resignando de imediato ao cargo de Presidente da República Portuguesa. Com os melhores cumprimentos,
Rui Duarte
*Texto enviado por correio electrónico para a Presidência da República: belem@presidencia.pt. Coloquei no assunto "exemplo".
Sempre os Portugueses se habituaram a ver nos chefes de Estado, tanto em monarquia como na República, não apenas a figura paternal, daquele que está com eles nos bons e maus momentos. Uma figura que pudessem identificar como protector, que combatesse com eles, e fosse à sua frente, nas guerras contra inimigos externos e internos. Que os amasse. Mas também a quem amassem, em quem vissem um exemplo de conduta e ética, de casamento feliz entre valores e conduta.
O Sr. Presidente pretendeu inserir-se nessa linha de mito, procurando transmitir de si a imagem de pessoa honesta, e última reserva moral da Nação. O Sr., porém, tem-nos grandemente decepcionado. Foi obrigado a renunciar ao seu vencimento de Presidente, em virtude uma lei que, justamente, impedia os detentores de cargos públicos de acumular vencimento com pensões. Fê-lo por isso, claramente, porque a tal foi obrigado. E escolheu o valor que maior rendimento lhe dá: a acumulação de pensões. Esperava-se do detentor da mais alta magistratura nacional o exemplo pró-activo, que o tivesse feito antes da implementação da tal lei, voluntariamente. Isto, sim, constituiria um exemplo. Isto, sim, daria um sinal aos seus concidadãos de que se identificaria com eles, e que se poderiam identificar com o senhor. Mostrou, afinal, que é um cidadão como os outros: nem melhor nem pior, que até se pauta pela conveniência pessoal, e segundo este padrão usa a lei. Tivesse-o feito, teria dado prova de sensibilidade, de generosidade, de sabedoria, de virtude cristã, de que é Presidente para servir, não para ser servido. Todavia, o cidadão, que é Presidente, que dá lições aos outros era um dos tais que acumulava, e só deixou de o fazer porque, infelizmente para ele, a tal foi legalmente obrigado.
Mais recentemente, antes da aprovação do Orçamento de Estado, manifestou apreensões quanto aos sacrifícios impostos aos cidadãos a que obriga a aplicação do mesmo. Porém, tendo tido a oportunidade de agir em consciência e em concordância com as suas declarações e apreensões, vetando-o, suscitando a fiscalização preventiva da respectiva constitucionalidade, não o fez, tendo-o promulgado liminarmente. Donde, a sensação que fica para os Portugueses é de o seu Presidente ser uma figura que custa muito dinheiro ao erário público, que fala, por vezes bem, mas que não age quando se impõe. Uma magistratura inútil, inepta, e pior, inconsequente, pois, ao falar, espera-se que aja em conformidade. E abstém-se de o fazer. As suas últimas declarações, contudo, excederam as expectativas. O senhor disse, e cito o que vem transcrito pelos órgãos de comunicação social: "tudo somado, o que irei receber do Fundo de Pensões do Banco de Portugal e da Caixa Geral de Aposentações, quase de certeza, não vai chegar para pagar as minhas despesas, porque como sabe eu também não recebo vencimento como Presidente da República." O que o senhor recebe de pensões, acumulado, são, ao que consta, 10 042 €. A este montante acrescem outros rendimentos seus, publicamente divulgados. Não há memória de tal honestidade nas palavras de um político em Portugal, que assim mostra o íntimo da sua alma. E de tão grande afronta e insulto aos milhares e milhões de concidadãos, que vivem com 5 % mensais ou menos do que isso, e com isso têm de sustentar famílias, pagar rendas, comer, tratar da sua saúde. Ou aos que nem isso têm, pois se vêem no desemprego de longa duração. Aos que, mesmo trabalhando, têm mais despesas do que receitas, e por isso passam fome. Como podem esses Portugueses fazer face às suas despesas, se o senhor, com os seus rendimentos mensais, não consegue? Permita que lhe diga, Sr. Presidente: não será caso para pensar que, quiçá, o senhor não tem vivido acima das suas possibilidades? Não será caso para, como cidadão, fazer o mesmo que os seus concidadãos: reduzi-las?
Não há comentários possíveis à inenarrável declaração de V. Exa.. É bom que saiba, Sr. Presidente, que o sr. acabou por dar o golpe de misericórdia na já pouca confiança e ligação que os cidadãos tinham com os políticos que os têm governado. E é em nome da liberdade de consciência e de expressão, e do sobressalto cívico que V. Exa. invocou aquando da tomada de posse para o seu segundo mandato, que, como cidadão livre, e por acaso que se identifica com a área político-ideológica da qual V. Exa. é oriunda, que apelo a que resigne ao cargo. V. Exa. deixou de ser o Presidente de todos os Portugueses. As relações entre Presidente e os seus concidadãos fica manchada pela vergonha, pelo sentimento da traição daquele para com estes. Deixou moral e politicamente de ter condições para tal. A menos, evidentemente, que V. Exa. tenha uma explicação para dar aos Portugueses. A menos que se tenha expressado mal, por omissão, e não se estivesse a referir às suas despesas pessoais e familiares, mas às inerentes com o cargo e o sustento dos serviços agregados à sua Casa Civil e das instalações que, por inerência de cargo, ocupa. Dou-lhe este benefício da dúvida, e honestamente tenho, como têm os meus e seus concidadãos, de considerar a hipótese do contraditório. Mas, se nada for dito da sua parte, se se mantiver o silêncio, se nada tiver a nos dizer, é minha opinião (e estou certo de que da generalidade dos Portugueses) que V. Exa. faria bem a si próprio, e a todos os Portugueses, em poupá-los a quatro longos e penosos anos deste sentimento de vergonha, até ao fim do seu mandato, resignando de imediato ao cargo de Presidente da República Portuguesa. Com os melhores cumprimentos,
Rui Duarte
*Texto enviado por correio electrónico para a Presidência da República: belem@presidencia.pt. Coloquei no assunto "exemplo".
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Aníbal Cavaco Silva,
Presidente da República
quinta-feira, janeiro 19, 2012
Atravessar a crise: notas para uma prática crente
«Vivemos numa época de trânsito, como sempre»
O mundo mudou. Este é um dado de facto, mas não é um dado novo, porque muda sempre. É próprio do tempo fluir e mudar, assim como o é de todos os corpos sujeitos às suas leis. Neste mundo que, hoje, está tão mudado, o cristianismo também é forçado a redesenhar o seu lugar, precisamente porque aquele que ocupara nos últimos séculos deixou de lhe ser reconhecido. Do centro passou para as margens. Mas o facto do cristianismo dever confrontar-se com o tempo em mudança e que o desinstala, também não é novo. Dois mil anos de história é um tempo muito longo e rico de muitas mudanças e de aquisição de novas qualidades. O que somos hoje é o resultado de uma já longa história, bela e dramática, mas, ainda, inacabada de encarnação do Evangelho de Jesus na vida de pessoas e de grupos. Quanta diferença há entre os três primeiros séculos e a Igreja de Trento; quanta diferença entre a Igreja do início do segundo milénio e a que saiu do Vaticano II. E, porém, continua a ser a mesma Igreja de Jesus Cristo, realizada no fluir do tempo e na mudança dos lugares, em tantas formas de vida e de culto, de pensamento e de arte. Também por isto, os discursos de regresso e de recuperação do passado, como se de um paraíso perfeito se tratasse, sem tempo nem crises, não é sem ambiguidade. A primeira pergunta que ocorreria colocar seria esta: a que momento do passado e a que forma eclesial deveríamos regressar, já que o nosso longo património testemunha tantas?; porquê regressar à Igreja pré-Vaticano II e não à Igreja pré-Trento, por exemplo?
A memória (arriscada, disse o teólogo J. B. Metz) da qual o cristianismo vive é a boa notícia da salvação que os evangelhos atestam poder realizar-se no presente de cada homem e mulher, de todos os tempos e lugares, tal como se realizou na experiência de fé dos primeiros discípulos. A memória cristã vive da promessa de que o dom de vida que Deus nos oferece em Jesus é capaz de se realizar na biografia de cada pessoa e na configuração de cada grupo. Por isso, tal como no passado (em cada momento do nosso passado comum), a promessa do início assumirá uma forma concreta no momento histórico que é o nosso.
Assim, neste tempo de fratura e de incerteza, mais do que preocupados com o reconhecimento público e o número de fiéis que enchem ou esvaziam as igrejas, conviria começar por perguntar onde poderemos reencontrar um Deus que parece ter passado para o baú das memórias vagas e, finalmente, irrelevantes. Onde é que hoje habita o Deus cristão? Quais poderão ser os sinais da sua passagem, nos dias de hoje, talvez, mais discreta? Sabíamos que vivia no centro, que dirigia as consciências e os grupos, que garantia claramente uma estrutura de representantes e de ritos, que premiava bons e castigava maus. Mas, hoje, quando os centros, as consciências, as estruturas, os céus e os infernos se fragmentam e dissipam, onde habitará? Que lugar Lhe restará? Que direção deveríamos tomar para ir no seu encalço? Talvez O possamos pressentir mais humilde, mais como espaço de respiro e de encontro possível entre diferentes. Poderá ser até que não nos possa ajudar muito. Nesse caso, poderíamos ajudá-Lo nós, como diria Etty Hillesum em plena perseguição nazi, e compreender, assim, melhor, como o divino não está em deixar-se conter pelo maior mas em deixar-se identificar pelo mais pequeno. E poderíamos reconhecer que, de facto, não era digno, nem de nós nem de Deus, instrumentalizá-Lo como simples tapa buracos das nossas insuficiências e desilusões (D. Bonhoeffer).
Tal como Elias (l Re 19,9ss), à entrada da caverna da nossa fuga regressiva, poderemos ter que reconhecer a presença de Deus onde pareceria não poder estar. Talvez já não nos lugares centrais e esperados: nem no vento impetuoso, nem no terramoto demolidor, nem no fogo abrasador, mas na brisa ligeira de um outro lugar improvável, mas igualmente capaz de reconciliar com a missão de anunciar o Senhor. (...)
O momento presente é tempo favorável
Este é o tempo favorável para o cristianismo. Não se trata de uma afirmação psicologicamente otimista, mas da convicção teológica de que não há um momento ideal para o anúncio do Evangelho, precisamente, porque o Evangelho é dom de vida para cada tempo. Por isso, cada momento é momento propício para a realização da palavra e do gesto de Deus realizado em Jesus.
Hoje, como no passado, temos dois grandes dons que precisamos de conservar em conjunto: um, o dom de Deus, atestado nos evangelhos como dádiva para cada homem e para cada mulher de todos os tempos e lugares; o outro, o momento presente, com os seus contornos específicos, como o corpo real para a realização do dom de Deus. Se perdêssemos o primeiro, perderíamos o fermento que leveda a massa. Se perdêssemos o segundo, não teríamos massa para que, com o fermento, se possa fazer pão. O Evangelho é dom de vida para cada tempo; cada tempo específico tem a virtude de poder acolher e dar corpo - um corpo concreto - ao Evangelho. Assim, e como dizia acima, para atravessar o momento presente de fratura, parece pouco querer recuperar, simplesmente, um qualquer fragmento do passado e do seu património, considerado mais perfeito e, pretensamente, mais fiel, de modo a contrariar a degradação atual dos valores e das estruturas, como se toda a verdade e justiça na nossa fé estivessem às nossas costas e nada de nosso nos fosse dado oferecer. A cidade nova que há de vir e em cuja construção participaríamos (cf. Ap 21, 9ss) perde para o paraíso perfeito dos inícios que só nos caberia receber passivamente (cf. Gn 2,4ss). Mas também parece pouco absorver acriticamente a linguagem e o gosto do tempo, acabando por oferecer uma fé fácil e segura como resposta e solução para todos os problemas, como caminho garantido de felicidade e terapia de todos os desconfortos. Para atrair mais uns quantos, seria muito pouco promover uma fé simpática, à medida das expectativas: não custaria quase nada e garantiria quase tudo. Mas, claro, nem a fé nem a vida admitem este nivelamento. São imensamente mais complexas e dramáticas. A experiência da fé, como o ato de viver, é visceral. Se não for testemunhada como questão de vida e de morte - questão verdadeiramente vital -, não chegará a persuadir como dom, em cujo reconhecimento e adesão se decide uma existência: o corpo e o espírito, os afetos e a inteligência, a vontade e a liberdade, a identidade e as relações.
A fé atravessa os cumes e os abismos da existência humana
Recuperar o contacto com a densidade elementar e biográfica da existência humana, com todas as suas limitações, ambiguidades e tensões, deveria ser uma das preocupações centrais do testemunho cristão: das formas de vida e de celebração, de organização, de criação artística e de pensamento. Para tal, precisaríamos de abandonar chavões grandiloquentes, moralismos fáceis, paternalismos irrelevantes, falsos consensos, boas intenções que, no fundo, nem acolhem a força transformadora do Evangelho, nem recolhem a riqueza da Tradição eclesial, nem enfrentam o concreto da realidade, com as suas ambiguidades e promessas.
Ocorrerá recuperar a densidade dos grandes lugares e movimentos da vida humana (curiosamente, as artes e, entre elas, a literatura ou o cinema, parecem perceber isso melhor que muita catequese): nascimento e morte, sexo e trabalho, celebração e dor, educação e economia, as coisas primeiras e últimas da existência. Estes são os ritmos e os lugares onde a vida de cada um se decide e a carne, na qual o mistério de Deus incide, na qual se diz e age, se é que a verdade cristã se apresenta como manifestação real e não apenas como afirmação formal de uma verdade intemporal. Mas nós, nas nossas catequeses e iniciativas, no nosso estilo de vida comunitário, na nossa prática litúrgica, parece que perdemos o contacto com eles e a sabedoria para os viver como lugares de bênção e de graça. Porém, sem eles, o cristianismo tornar-se-á abstrato, banal, patético até. Portanto, sem densidade. Finalmente, irrelevante. Precisará, por isso, de reaprender a realizar-se entre Deus e os ritmos e lugares do viver quotidiano, entre a transcendência e o mundo, o absoluto e o particular, a origem e o destino.
O cristianismo estará à altura do seu tempo se for capaz de viver, de celebrar, de pensar e, assim, de realizar o Evangelho como palavra e gesto que saiba a vida e que faça viver. Não a vida ideal, mas a vida pequena, ferial, quotidiana. Para isso, precisa de usar formas de vida, de linguagem e de pensamento nas quais homens e mulheres, social e culturalmente situados, se revejam. No entanto, não poderá deixar de realizar a contestação profética de fixações, idolatrias, abstrações e não deixará de forçar os limites, de alargar o horizonte, de escavar novas profundidades. Mas fá-lo-á como bênção capaz de recolher, descrever e promover o que de melhor cada biografia e cada grupo tem para dar em contacto com a graça que salva.
O cristianismo será presença qualificadora se for presença qualificada
Quando o espaço do viver comum já não aceita ser plasmado pelo laço íntimo entre o cristianismo e o corpo social, resta à fé aquilo que, na realidade, lhe é essencial e que, talvez, pela segurança de um reconhecimento social garantido, tinha descurado: o testemunho. Este é a sua fragilidade e a sua força.
O cristianismo só poderá qualificar o viver individual e comum se se oferecer no testemunho de biografias e de grupos qualificados pelo Evangelho. Se Jesus é a entrega de Deus ao crédito que o ser humano lhe queira reconhecer (este é o modo que Deus escolheu para Se revelar), a Igreja não tem outro modo de manifestar o seu Senhor que não seja o de se expor ao crédito alheio, oferecendo-se à liberdade de cada um de O reconhecer como digno de confiança. Assim, reaprenderemos que a verdade de que vivemos não é de ordem lógico-gramatical ou de estatuto social, mas de ordem vital: é o reconhecimento e a adesão coerente Àquele - Jesus de Nazaré - que se apresenta historicamente na fragilidade de um corpo humano, exposto, por isso, à contingência de lugares, de tempos, de relações concretas.
É pedido ao cristianismo que esteja à altura do Evangelho que anuncia, não como ideologia, mas como graça que salva enquanto incide e transforma biografias e grupos, concretamente situados, assumindo, também ele, uma configuração histórica determinada (um corpo). Ao mesmo tempo, não poderá aceitar ficar abaixo das realizações do momento presente, nos mais variados campos: das artes às ciências, da filosofia à economia, do pensamento ético às políticas sociais.
A pobreza determina a qualidade da presença do cristianismo
A perceção da nudez e da confusão poderá dar lugar à consciência do dom. Quando parecia que estávamos a perder algo de essencial, afinal, estávamos a ser agraciados com a dádiva maior da pobreza, lugar propício para riquezas maiores. É verdade que no mundo ocidental nos estamos a tornar uma minoria sem esplendor particular, expostos a um tempo que muda vertiginosamente e que não nos pede opinião e, ainda menos, autorização. Por vezes, parece que deveríamos pedir desculpa por ainda existirmos, já que, do nosso passado, só chegariam, até hoje, malfeitorias. Mas, ad intra, também nos faltam formas de oração, de linguagem, de celebração e de representação da presença de Deus. Estamos, por isso, entregues a nós próprios. E isto parece muito pouco.
Ficamos expostos à nossa nudez que também passa, hoje, por acolher muitas diferenças, às vezes as mais bizarras, e a estranheza de tantas coisas e pessoas. Dar lugar ao outro -uma pessoa ou um momento histórico - é sempre dar lugar à morte. Na realidade, o que me chega com o outro é a minha morte, porque ele é radicalmente o não-eu. A experiência do outro, como a experiência de Deus, em muitas passagens da Escritura, é terrível, precisamente, porque não suporta ser tratada com o sentimentalismo ou a ideologia daquele diálogo que, na verdade, o nega, procurando seduzi-lo, neutralizá-lo, capturá-lo ou evitá-lo (M. de Certeau). Porém, no cristianismo, o encontro com o outro parte da confiança de que se receberá dele, não só a morte, mas a vida. Dar-lhe lugar é também receber a graça de participar numa vida que se supera a si própria para ir mais longe. Uma vida que não é feita para ser capitalizada para a eternidade, mas para ser dada e perdida no mesmo momento em que é servida (S. Morra). Não existe experiência cristã que não atravesse o combate de uma hospitalidade ferida e jubilante, de uma vida ligada a um desaparecimento. Estaremos à altura desta perda? Queremos atravessá-la e receber dela outras formas de visibilidade? Este é o risco real da dura prova da morte. O que seremos? A Deus nos confiamos, nossa força, nossa esperança.
Neste movimento de perda pelo caminho mais longo da diferença do momento histórico, poderemos redescobrir a pobreza como essência do cristianismo. Será o anonimatoa pobreza espiritual que hoje nos será pedida? Será, talvez, um tempo de deserto e de jejum para deixar respirar a fé; um ritmo de silêncio e de abrandamento do nosso dizer, das nossas afirmações demasiado seguras e englobantes; um compasso de espera e de acesso renovado ao tesouro ao qual procuramos dar corpo; uma oportunidade para recompor fórmulas breves de fé, histórias biográficas de Deus connosco que exponham o que nos é caro, o que nos toca a alma e alimenta o coração e o intelecto.
Sim, poderá tratar-se de uma pobreza profética que já não passará tanto pela posse de coisas e de propriedades, para ser pobreza de lugares e de identidade religiosa, psicológica ou social (S. Morra). Passará a ser a voz de um corpo em trânsito, exposto à instabilidade das muitas fronteiras que hoje cruzamos. Não contará com a segurança do sistema, a reserva da identidade garantida e reconhecida, a glória da tradição, o reconhecimento público da instituição e da sua autoridade, mas ganhará forma e articular-se-á, de modo mais modesto, na biografia de cada crente, no ritmo de cada grupo. Reaprenderemos, assim, a viver mais de Deus e da frescura do Evangelho que do reconhecimento público, dos benefícios sociais, da grandeza das realizações. A ausência far-nos-á agir, criar, gerar, escrever...de modo mais livre e fecundo. O que nos falta poderá tornar-se condição de possibilidade para o que ainda virá. (...)
O cristianismo realiza-se em práticas crentes
A indeterminação não é uma virtude cristã (M. de Certeau): a indeterminação dos bons sentimentos que consiste em avançar como se as mudanças, as diferenças e os conflitos não existissem (movemo-nos como se a realidade não fosse como é); a indeterminação da sedução que se rende acriticamente aos fluxos de gostos e de interesses dominantes; a indeterminação de um universalismo que supõe e se atribui a si mesmo uma totalidade que desconsidera as reais diferenças.
Ligada a esta indeterminação está o facto de, com a modernidade, o cristianismo se ter desequilibrado para o lado do conteúdo, do saber e dos enunciados, isto é, das crenças a manter ou a reformar, como se existisse uma essência, simplesmente intemporal, num determinado lugar sem lugar e bastasse encontrar-lhes expressões mais adequadas, uma linguagem nova. Hoje, parece importante recuperar a operatividade e fecundidade das práticas crentes que são bem mais do que a simples aplicação de uma doutrina. São, antes, um modo de proceder, um estilo de vida e de exercício de fé que realiza deslocações, por vezes silenciosas, outras vezes bruscas, no modo como nos compreendemos cristãos.
Passando dos enunciados de fé para as práticas crentes, a sua dimensão comunitária merecerá particular relevo. Parece pouco pôr todo o peso na consciência e na adesão individual, habitualmente para invetivar contra uma pretensa falta de boa vontade, de empenho e de preparação dos cristãos (habitualmente, dos leigos), quando em muito casos, essas mesmas atitudes são fruto de práticas eclesiais passadas (teremos coragem para reconhecer que muitos dos frutos que estamos a colher são, também, o resultado do modo como semeámos?). Precisaremos de reparar as práticas comuns. Por exemplo, como é que a liturgia realiza, de facto, a comunidade?; de que modo se organizam as dioceses e as paróquias e que tipo de Igreja, realmente, testemunham?; que vitalidade evangélica testemunham muitas das comunidades religiosas, na realidade?; a capacidade ou incapacidade de trabalhar, efetivamente, em conjunto, o que diz na nossa fé da fecundidade da presença do Espírito do Ressuscitado entre nós? Se o cristianismo tentasse enfrentar a crise presente reformulando, apenas, o discurso dirigido à mudança dos indivíduos, sem ser capaz de dar corpo a práticas comunitárias que testemunhem a vitalidade do Evangelho, possivelmente, estaria, ainda, a resistir a deixar-se atravessar pela crise como possibilidade instauradora de um corpo renovado. (...)
José Frazão Correia, SJ
Teólogo, professor da Universidade Católica Portuguesa
In Brotéria (outubro 2011)
© SNPC | 18.01.12
Teólogo, professor da Universidade Católica Portuguesa
In Brotéria (outubro 2011)
© SNPC | 18.01.12
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