Até sempre, Cesária!
Nova vida, abundante vida, tudo quanto pode proporcionar um encontro pessoal e radical com uma pessoa especial. A contracultura da nova criação, em Jesus Cristo. N.B.: Este blog está em desacordo com o chamado novo acordo ortográfico de 1990.
sábado, dezembro 17, 2011
quarta-feira, dezembro 14, 2011
ORFEU'N BLUES
pela galeria do metro vai
Orfeu
em busca da sua Eurídice
tê-la-á deixado cair
para ser tragada pelo torvelinho
do ar frio que se instiga
lá de cima da rua?
procura-a na galeria
na luz mole
dos olhos que reviram
desdém
procura perceber nos magotes
de vozes um silêncio
que soe à voz de Eurídice
por isso Orfeu toca o saxofone
como um bailarino em busca do seu par
Orfeu estende o som
na busca lança-o da galeria
para a escadaria e desta para o túnel
estende-a e recolhe-a
no chegar e no partir
de mais uma composição
tão paciente e tão flexível
a busca e tanto lhe dói e queima a boca
que cada sopro no saxofone
é a pronúncia do nome
Eurídice
Eurídice
Eurí-dice
Eu-rí-di-ce
Orfeu toca para Eurídice ouvir
toca uma marcha lenta
uma modinha cega
13/12/11
sexta-feira, novembro 25, 2011
SIDERAUX
je cherche l'espace indistinct
entre deux couleurs de l'arc-en-ciel
je cherche le doigt
qui cloue les étoiles
24/11/11
sábado, novembro 19, 2011
À SOMBRA
“O SENHOR Deus fez crescer uma planta, mais alta do que Jonas, para lhe dar sombra e o confortar do seu desgosto.”
Livro de Jonas, 4:6
O Senhor fez crescer uma planta
o Senhor fez a planta cresceu
para calar os gritos da minha alma
para soprar sobre o fogo
mais selvagem do que eu
a planta cresceu com ramos
que amaciam o meio-dia
deslizando pelos meus sonhos
devolvendo-me as lágrimas
que me abandonaram
no ventre cheio de muitos cuidados
a planta cresceu
amante
dos meus cabelos, o amor perfeito
do tom grisalho do meu coração
com ela me posso cobrir
na sua sombra de água
19/11/11
quarta-feira, novembro 16, 2011
SANSÃO
os cabelos, os cabelos
como noites varridas
à ilharga dos cometas
que passam em repentinos lumes
pela boca de Dalila
os cabelos, os cabelos
como noites fendidas
pelas asas dos pássaros
que fazem ninhos habituais
nos seios de Dalila
os cabelos, os cabelos
têm o volume de toda a força
das marés, reduzem
a escória bruta a pedra polida
do rosto de Dagon
16/11/11
como noites varridas
à ilharga dos cometas
que passam em repentinos lumes
pela boca de Dalila
os cabelos, os cabelos
como noites fendidas
pelas asas dos pássaros
que fazem ninhos habituais
nos seios de Dalila
os cabelos, os cabelos
têm o volume de toda a força
das marés, reduzem
a escória bruta a pedra polida
do rosto de Dagon
16/11/11
sábado, novembro 12, 2011
LIÇÃO DE VOO
"trouxemos as nuvens
para as nossas sandálias
e voamos "
João Tomaz Parreira, in "Lei do retorno"
trouxemos as nuvens
para as nossas sandálias
de andorinha
para nos fazerem sombra
no voo
mas as nuvens são fragmentos
no céu recortadas por facas
desconhecidas
é que só uma coisa conhecemos:
ser aves incessantes
umbilicalmente incessantes
para nós não há nuvens nem céu aberto
de volta ao nosso ninho
lá onde se erigem as nossas janelas
tudo o que somos
é voo
12/11/11
segunda-feira, outubro 31, 2011
RUTE
“Rute foi então para os campos e pôs-se a apanhar as espigas que os ceifeiros deixavam ficar”
Rute 2:3
colhe
com os olhos que tem nas mãos
o que outros deixam ficar
ou não vêem colhe espigas soltas
como pontas de novelos
é o cuidado dos bicos longos
do flamingo posto nos dedos
Rute sabe que colhe
onde não semeou
nos campos de Booz
sabe que colhe o pão que
lhe disseminará na mesa de cada dia
mas não sabe que nesse gesto
de ceifeira pobre semeia
brasas de sol
em outros olhos que têm mãos
29/10/11
Rute 2:3
colhe
com os olhos que tem nas mãos
o que outros deixam ficar
ou não vêem colhe espigas soltas
como pontas de novelos
é o cuidado dos bicos longos
do flamingo posto nos dedos
Rute sabe que colhe
onde não semeou
nos campos de Booz
sabe que colhe o pão que
lhe disseminará na mesa de cada dia
mas não sabe que nesse gesto
de ceifeira pobre semeia
brasas de sol
em outros olhos que têm mãos
29/10/11
quinta-feira, outubro 27, 2011
MADRUGADA
“O que precisa nascer
aparece no sonho buscando
frinchas no teto”
Adélia Prado, “Alvará de demolição”
O que precisa nascer
faz no tecto o soalho
e abre frinchas onde colocámos
os pensamentos
pois sobre as nossas cabeças
jaz um chão
de pedra ou magma
onde busca a água
e possui os minerais
desse chão nocturno de folhas
fissuradas do sonho
se levantam os ramos
do inalcançável
é lá que flutuam
as aves
27/10/11
quinta-feira, outubro 20, 2011
EXTENSÃO
“…para amar queria a terra toda, para morrer bastam-me os flancos do silêncio”
Eugénio de Andrade, “Seja isto dito assim” (Memória doutro rio)
para navegar
toda a água é oceano
e o astrolábio é navio
para cantar todo o corpo
é peito e fornalha na voz
se quero rir tiro a máscara antiga
se quero sonhar estendo o coração
para lá das ruínas
para morrer tão pouco me basta
que os olhos se calem sobre o teu flanco
para te amar uma ilha é ainda pouco
só me chega a terra toda
09/10/11
Eugénio de Andrade, “Seja isto dito assim” (Memória doutro rio)
para navegar
toda a água é oceano
e o astrolábio é navio
para cantar todo o corpo
é peito e fornalha na voz
se quero rir tiro a máscara antiga
se quero sonhar estendo o coração
para lá das ruínas
para morrer tão pouco me basta
que os olhos se calem sobre o teu flanco
para te amar uma ilha é ainda pouco
só me chega a terra toda
09/10/11
QUANDO SAÍRES DE ÍTACA
Quando saíres de Ítaca, Ulisses,
os cavalos deixarão Ítaca
vão todos contigo para um único galope
na ágora de Ílion
vão todos, as suas crinas cinza
ondulam na vibração da cabeleira
de Posídon
ficará Ítaca despovoada
de cavalos
e cavaleiros, nem os navios
desfilarão nas avenidas
marítimas da cidade
ao partires de Ítaca,
restará apenas
o fio tenso
do arco e do tear
o fio denso
do horizonte
que a tua mão traçará
estendida de um extremo
ao outro do mar
sem cavalos, ficarão em Ítaca
apenas homens a pé
soldados de infantaria
sem general
15/10/11
os cavalos deixarão Ítaca
vão todos contigo para um único galope
na ágora de Ílion
vão todos, as suas crinas cinza
ondulam na vibração da cabeleira
de Posídon
ficará Ítaca despovoada
de cavalos
e cavaleiros, nem os navios
desfilarão nas avenidas
marítimas da cidade
ao partires de Ítaca,
restará apenas
o fio tenso
do arco e do tear
o fio denso
do horizonte
que a tua mão traçará
estendida de um extremo
ao outro do mar
sem cavalos, ficarão em Ítaca
apenas homens a pé
soldados de infantaria
sem general
15/10/11
sábado, outubro 01, 2011
DA MATÉRIA DO POEMA
“Subi ao alto, à minha Torre esguia,
Feita de fumo, névoas e luar”
Florbela Espanca, “Torre de névoa”
o meu poema não habita
em torres de névoa não há espera matinal
por D. Sebastião
morreram todos eles para sempre
e os seus corpos secaram
nos dentes dos chacais
em Alcácer-Quibir
no meu poema não ardem baixo os luares
sobre as águas
no meu poema há só o sol a prumo
não há Ítacas, Társis nem Índias
de fuga ou nostalgia
há a amplidão nítida dos rios
que duma mão nascem e na outra desaguam
no meu poema há a outra margem
uma terra toda inteira
ainda sem nome nem padrão
de descoberta
30/09/11
Feita de fumo, névoas e luar”
Florbela Espanca, “Torre de névoa”
o meu poema não habita
em torres de névoa não há espera matinal
por D. Sebastião
morreram todos eles para sempre
e os seus corpos secaram
nos dentes dos chacais
em Alcácer-Quibir
no meu poema não ardem baixo os luares
sobre as águas
no meu poema há só o sol a prumo
não há Ítacas, Társis nem Índias
de fuga ou nostalgia
há a amplidão nítida dos rios
que duma mão nascem e na outra desaguam
no meu poema há a outra margem
uma terra toda inteira
ainda sem nome nem padrão
de descoberta
30/09/11
FUTURO PERFEITO
“Cantar
é empurrar o tempo ao encontro das cidades futuras”
Carlos de Oliveira
se cantamos
cortamos a vida
deixamos para trás
o rasto de nós
perdemos ao longo da terra
as lágrimas
o que perdido estava
deixámo-lo ir na corrente
para onde escorriam os nossos olhos
tínhamos um encontro ali
marcado com as cidades futuras
para isso empurrámos o tempo
e arrancámos o espaço
no coração em sangue
nos lábios ainda tenros
cantar
é percorrer ruas
ainda por abrir
25/09/11
é empurrar o tempo ao encontro das cidades futuras”
Carlos de Oliveira
se cantamos
cortamos a vida
deixamos para trás
o rasto de nós
perdemos ao longo da terra
as lágrimas
o que perdido estava
deixámo-lo ir na corrente
para onde escorriam os nossos olhos
tínhamos um encontro ali
marcado com as cidades futuras
para isso empurrámos o tempo
e arrancámos o espaço
no coração em sangue
nos lábios ainda tenros
cantar
é percorrer ruas
ainda por abrir
25/09/11
quarta-feira, setembro 21, 2011
CONFISSÃO
passei sobre as árvores
fiz-me familiar
da nudez áspera dos picos
transpus os ares de ilharga fria
mordi nos lábios
o sangue turvado
estendi os braços e até estes
quase me abandonaram
passei pelas entranhas do pesadelo
deixando uma rasto de vento
que teimava
em se incrustar nos pés
passei, febril, ferido
por salteadores da noite
para ao cabo de tudo ao cabo do mar
no orvalho da espuma
te encontrar
17/09/11
fiz-me familiar
da nudez áspera dos picos
transpus os ares de ilharga fria
mordi nos lábios
o sangue turvado
estendi os braços e até estes
quase me abandonaram
passei pelas entranhas do pesadelo
deixando uma rasto de vento
que teimava
em se incrustar nos pés
passei, febril, ferido
por salteadores da noite
para ao cabo de tudo ao cabo do mar
no orvalho da espuma
te encontrar
17/09/11
sábado, setembro 10, 2011
TRATADO DA LEVEZA
κοῦφον γὰρ χρῆμα ποιητής ἐστιν καὶ πτηνόν καὶ ἱερόν
“leve, alada e sagrada coisa é o poeta”
Sócrates, em Platão, Íon 534b
o poeta pousa
sobre a face do mundo
penas são no jogo do voo
mas isentos de sossego
a leveza logo pousa no vento
pensando bem, a essência do poeta
é alada o seu coração está nos espaços siderais
a voz na nomeação das estrelas
como um homem santo
cujas mãos habitam na contemplação das sarças
a que elas próprias lançaram o fogo do monte
à escuta em cada grão que se solta rubro
do crepitar de Deus
o poeta toca com as asas
na face do mundo
deus longínquo que se chega
e nos aproxima
de nós
5/09/11
“leve, alada e sagrada coisa é o poeta”
Sócrates, em Platão, Íon 534b
o poeta pousa
sobre a face do mundo
penas são no jogo do voo
mas isentos de sossego
a leveza logo pousa no vento
pensando bem, a essência do poeta
é alada o seu coração está nos espaços siderais
a voz na nomeação das estrelas
como um homem santo
cujas mãos habitam na contemplação das sarças
a que elas próprias lançaram o fogo do monte
à escuta em cada grão que se solta rubro
do crepitar de Deus
o poeta toca com as asas
na face do mundo
deus longínquo que se chega
e nos aproxima
de nós
5/09/11
GROUND MINUS ZERO
“O conselho dos anciãos já não se reúne às portas da cidade nem os jovens tocam os seus instrumentos de música.”
Lamentações de Jeremias 5:14
tudo cessou naquela manhã
quando os pássaros se desviaram da rota
em que as andorinhas se tornaram
abutres de sangue dragões de fogo
de cor negra manchando o azul
tudo cessou nas bocas, o canto
mesmo o espanto, os murmúrios
dos velhos nas portas, nos jardins
as flores foram as primeiras a beber
a morte, quando uma mão
as pintou de cinza, tão cinza como ela
tudo cessou, a música
que a cidade se habituou
a ouvir enchendo as ruas vibrando
nos arranha-céus foi na saudade
tudo se precipitou nos buracos da terra,
mas ei-los de novo no rés-do-chão
eis de novo as árvores com alma de Fénix
ei-las de novo com porte e copas de vida
11/09/11
para o 10.º aniversário do 11 de Setembro
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11 de Setembro,
Ground Zero,
Rui Miguel Duarte
quinta-feira, setembro 01, 2011
RICOS
Charles Aznavour, em entrevista ao noticiário das 20h da TF1, acabou de dizer que estaria disposto a contribuir pessoalmente com o aumento dos impostos sobre os rendimentos dos ricos. Mas que essa não era a sua missão; se o governo lho pedisse, não lhe caberia a ele forçar essa contribuição, mas estaria disposto a aderir. Mas isso é em França, pois em Portugal ricos não existem.
Etiquetas:
Charles Aznavour,
Impostos sobre os ricos,
Portugal
segunda-feira, agosto 22, 2011
ΤΕΤΕΛΕΣΤΑΙ (TETELESTAI)
“Tudo está cumprido.”
Evangelho segundo João 19:30
Para sempre se desfizeram
os equívocos dos espelhos
para sempre ficaram em branco
os velhos teares
cobriram-se de pó
as mãos que acendiam a chama
o ar mudou no coração
do eclipse
deixou de ser possível
continuar a percorrer
os extintos valados
já não são navegáveis
as águas de outrora
tornaram-se salobras
na pele
de espinhos cravados nas pupilas
sentimos escorrer pelos dedos
no suor e no sangue
o fim
o necessário fim
22/08/11
segunda-feira, agosto 15, 2011
PARÁBOLA DA SEMENTE
A semente saiu da mão
partiu para onde a levasse
a ausência de asas
pois não foi destinada
a ganhar raiz
nos bicos dos pássaros
rumou para uma terra qualquer
mas não foi destinada
a perder-se no anonimato
dos espinhos
nem a fundir-se com o sol
nas pedras
ao ser lançada, foram-lhe
dados pela mão ângulos no voo
e assim partiu ela incendiada
no vento por uma terra, essa terra
que a escolhesse,
a semente partiu da mão
e encontrou quem lhe desse
raiz um leito e água
onde ela morreu, sonhou
e a sua alma subiu
com carne de árvore
12/08/11
FÁBULA DA ESPIGA
A espiga tinha de se mostrar
ao sol de esquecer o passado
os dias da semente
e as noites do caule
tinha de crescer de cortar
rente o sono de abandonar
no chão a sua névoa
e seguir com o vento
tinha de conhecer
o segredo do céu
mostrar-se ao sol
e seguir com o vento
era-lhe necessário
assim faz o ouro
e à espiga restava
aprender
tinha apenas
de rasgar o tegumento
e para lá do restolho
ser
13/08/11
DE MANHÃ
“Un vague bonheur leur était élan et ménace”
Nic Klecker, “Matin” (conto), in Jadis au village
A manhã de Outono veio trazer prenúncios
de Inverno e sombras de geada
veio montada nos raios oblíquos
e conduziu as rodas das bicicletas
uma em direcção à outra
dele e dela
uma brisa fresca
juntou-se ao encontro
que seria a dois
estavam eles conscientes
do mistério do dia?
foi-lhes ele anunciado na noite já distante?
tê-la-ia ele visitado, ter-lhe-ia ela
franqueado o ardor do umbral?
ter-se-iam amado no corpo
do sonho? as mãos
eram jovens e virgens
ainda seguravam
os guiadores das bicicletas
e os olhos de um faziam tangentes
nos do outro
decidiriam unir-se
para o receio e a ousadia do salto
para a existência e a aventura?
os peitos respiravam ténues
o mesmo ar de sol e gelo
debruçados sobre as bicicletas
os sentimentos eram felizes
os corações abriam-se em ramos de flores
para a beleza palpitante
um do outro
14/08/11
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