quarta-feira, dezembro 14, 2011

ORFEU'N BLUES



pela galeria do metro vai
Orfeu
em busca da sua Eurídice
tê-la-á deixado cair
para ser tragada pelo torvelinho
do ar frio que se instiga
lá de cima da rua?

procura-a na galeria
na luz mole
dos olhos que reviram
desdém
procura perceber nos magotes
de vozes um silêncio
que soe à voz de Eurídice

por isso Orfeu toca o saxofone
como um bailarino em busca do seu par

Orfeu estende o som
na busca lança-o da galeria
para a escadaria e desta para o túnel
estende-a e recolhe-a
no chegar e no partir
de mais uma composição
tão paciente e tão flexível
a busca e tanto lhe dói e queima a boca
que cada sopro no saxofone
é a pronúncia do nome

Eurídice
Eurídice
Eurí-dice
Eu-rí-di-ce

Orfeu toca para Eurídice ouvir
toca uma marcha lenta
uma modinha cega

13/12/11




sexta-feira, novembro 25, 2011

SIDERAUX



je cherche l'espace indistinct 
entre deux couleurs de l'arc-en-ciel
je cherche le doigt
qui cloue les étoiles

24/11/11

sábado, novembro 19, 2011

À SOMBRA

O SENHOR Deus fez crescer uma planta, mais alta do que Jonas, para lhe dar sombra e o confortar do seu desgosto.
Livro de Jonas, 4:6

O Senhor fez crescer uma planta
o Senhor fez a planta cresceu
para calar os gritos da minha alma
para soprar sobre o fogo
mais selvagem do que eu

a planta cresceu com ramos
que amaciam o meio-dia
deslizando pelos meus sonhos
devolvendo-me as lágrimas
que me abandonaram
no ventre cheio de muitos cuidados

a planta cresceu
amante
dos meus cabelos, o amor perfeito
do tom grisalho do meu coração
com ela me posso cobrir
na sua sombra de água

19/11/11

quarta-feira, novembro 16, 2011

SANSÃO

os cabelos, os cabelos 
como noites varridas 
à ilharga dos cometas
que passam em repentinos lumes
pela boca de Dalila

os cabelos, os cabelos
como noites fendidas 
pelas asas dos pássaros 
que fazem ninhos habituais 
nos seios de Dalila

os cabelos, os cabelos
têm o volume de toda a força 
das marés, reduzem 
a escória bruta a pedra polida
do rosto de Dagon

16/11/11

sábado, novembro 12, 2011

LIÇÃO DE VOO

‎"trouxemos as nuvens 

para as nossas sandálias
e voamos "

João Tomaz Parreira, in "Lei do retorno"

trouxemos as nuvens
para as nossas sandálias
de andorinha
para nos fazerem sombra
no voo

mas as nuvens são fragmentos
no céu recortadas por facas
desconhecidas
é que só uma coisa conhecemos:
ser aves incessantes
umbilicalmente incessantes
para nós não há nuvens nem céu aberto
de volta ao nosso ninho

lá onde se erigem as nossas janelas
tudo o que somos
é voo

12/11/11

segunda-feira, outubro 31, 2011

RUTE

“Rute foi então para os campos e pôs-se a apanhar as espigas que os ceifeiros deixavam ficar”
Rute 2:3

colhe
com os olhos que tem nas mãos 
o que outros deixam ficar
ou não vêem colhe espigas soltas
como pontas de novelos

é o cuidado dos bicos longos 
do flamingo posto nos dedos
Rute sabe que colhe 
onde não semeou
nos campos de Booz
sabe que colhe o pão que
lhe disseminará na mesa de cada dia

mas não sabe que nesse gesto
de ceifeira pobre semeia
brasas de sol 
em outros olhos que têm mãos 

29/10/11

quinta-feira, outubro 27, 2011

MADRUGADA


“O que precisa nascer
aparece no sonho buscando
frinchas no teto”
Adélia Prado, “Alvará de demolição”

O que precisa nascer
faz no tecto o soalho
e abre frinchas onde colocámos
os pensamentos

pois sobre as nossas cabeças
jaz um chão
de pedra ou magma
onde busca a água
e possui os minerais

desse chão nocturno de folhas
fissuradas do sonho
se levantam os ramos
do inalcançável
é lá que flutuam
as aves

27/10/11

quinta-feira, outubro 20, 2011

EXTENSÃO

“…para amar queria a terra toda, para morrer bastam-me os flancos do silêncio”
Eugénio de Andrade, “Seja isto dito assim” (Memória doutro rio)

para navegar 
toda a água é oceano 
e o astrolábio é navio
para cantar todo o corpo 
é peito e fornalha na voz

se quero rir tiro a máscara antiga
se quero sonhar estendo o coração
para lá das ruínas 

para morrer tão pouco me basta
que os olhos se calem sobre o teu flanco

para te amar uma ilha é ainda pouco
só me chega a terra toda

09/10/11

QUANDO SAÍRES DE ÍTACA

Quando saíres de Ítaca, Ulisses,
os cavalos deixarão Ítaca
vão todos contigo para um único galope
na ágora de Ílion
vão todos, as suas crinas cinza
ondulam na vibração da cabeleira 
de Posídon 

ficará Ítaca despovoada 
de cavalos 
e cavaleiros, nem os navios
desfilarão nas avenidas 
marítimas da cidade
ao partires de Ítaca, 
restará apenas 
o fio tenso 
do arco e do tear
o fio denso 
do horizonte
que a tua mão traçará
estendida de um extremo 
ao outro do mar

sem cavalos, ficarão em Ítaca 
apenas homens a pé
soldados de infantaria
sem general 

15/10/11

sábado, outubro 01, 2011

DA MATÉRIA DO POEMA

“Subi ao alto, à minha Torre esguia, 
Feita de fumo, névoas e luar”
Florbela Espanca, “Torre de névoa”

o meu poema não habita 
em torres de névoa não há espera matinal
por D. Sebastião 
morreram todos eles para sempre 
e os seus corpos secaram 
nos dentes dos chacais 
em Alcácer-Quibir
no meu poema não ardem baixo os luares 
sobre as águas

no meu poema há só o sol a prumo

não há Ítacas, Társis nem Índias
de fuga ou nostalgia
há a amplidão nítida dos rios
que duma mão nascem e na outra desaguam

no meu poema há a outra margem
uma terra toda inteira
ainda sem nome nem padrão 
de descoberta

30/09/11

FUTURO PERFEITO

“Cantar
é empurrar o tempo ao encontro das cidades futuras”
Carlos de Oliveira

se cantamos
cortamos a vida
deixamos para trás
o rasto de nós
perdemos ao longo da terra
as lágrimas
o que perdido estava
deixámo-lo ir na corrente
para onde escorriam os nossos olhos

tínhamos um encontro ali
marcado com as cidades futuras
para isso empurrámos o tempo
e arrancámos o espaço
no coração em sangue
nos lábios ainda tenros
cantar
é percorrer ruas
ainda por abrir

25/09/11

quarta-feira, setembro 21, 2011

CONFISSÃO

passei sobre as árvores
fiz-me familiar 
da nudez áspera dos picos
transpus os ares de ilharga fria
mordi nos lábios 
o sangue turvado
estendi os braços e até estes
quase me abandonaram

passei pelas entranhas do pesadelo
deixando uma rasto de vento
que teimava 
em se incrustar nos pés
passei, febril, ferido 
por salteadores da noite

para ao cabo de tudo ao cabo do mar
no orvalho da espuma
te encontrar

17/09/11

sábado, setembro 10, 2011

TRATADO DA LEVEZA

κοῦφον γὰρ χρῆμα ποιητής ἐστιν καὶ πτηνόν καὶ ἱερόν
“leve, alada e sagrada coisa é o poeta”
Sócrates, em Platão, Íon 534b

o poeta pousa
sobre a face do mundo
penas são no jogo do voo
mas isentos de sossego 
a leveza logo pousa no vento

pensando bem, a essência do poeta 
é alada o seu coração está nos espaços siderais
a voz na nomeação das estrelas
como um homem santo
cujas mãos habitam na contemplação das sarças
a que elas próprias lançaram o fogo do monte
à escuta em cada grão que se solta rubro
do crepitar de Deus 

o poeta toca com as asas 
na face do mundo 
deus longínquo que se chega 
e nos aproxima 
de nós


5/09/11

GROUND MINUS ZERO


“O conselho dos anciãos já não se reúne às portas da cidade nem os jovens tocam os seus instrumentos de música.”
Lamentações de Jeremias 5:14

tudo cessou naquela manhã
quando os pássaros se desviaram da rota
em que as andorinhas se tornaram
abutres de sangue dragões de fogo
de cor negra manchando o azul

tudo cessou nas bocas, o canto
mesmo o espanto, os murmúrios
dos velhos nas portas, nos jardins
as flores foram as primeiras a beber
a morte, quando uma mão
as pintou de cinza, tão cinza como ela

tudo cessou, a música
que a cidade se habituou
a ouvir enchendo as ruas vibrando
nos arranha-céus foi na saudade
tudo se precipitou nos buracos da terra,

mas ei-los de novo no rés-do-chão
eis de novo as árvores com alma de Fénix
ei-las de novo com porte e copas de vida

11/09/11
para o 10.º aniversário do 11 de Setembro

quinta-feira, setembro 01, 2011

RICOS

Charles Aznavour, em entrevista ao noticiário das 20h da TF1, acabou de dizer que estaria disposto a contribuir pessoalmente com o aumento dos impostos sobre os rendimentos dos ricos. Mas que essa não era a sua missão; se o governo lho pedisse, não lhe caberia a ele forçar essa contribuição, mas estaria disposto a aderir. Mas isso é em França, pois em Portugal ricos não existem.

segunda-feira, agosto 22, 2011

ΤΕΤΕΛΕΣΤΑΙ (TETELESTAI)


“Tudo está cumprido.”
Evangelho segundo João 19:30

Para sempre se desfizeram
os equívocos dos espelhos
para sempre ficaram em branco
os velhos teares

cobriram-se de pó
as mãos que acendiam a chama
o ar mudou no coração
do eclipse

deixou de ser possível
continuar a percorrer
os extintos valados
já não são navegáveis
as águas de outrora
tornaram-se salobras
na pele

de espinhos cravados nas pupilas
sentimos escorrer pelos dedos
no suor e no sangue
o fim
o necessário fim

22/08/11


segunda-feira, agosto 15, 2011

PARÁBOLA DA SEMENTE





A semente saiu da mão
partiu para onde a levasse
a ausência de asas
pois não foi destinada
a ganhar raiz
nos bicos dos pássaros

rumou para uma terra qualquer
mas não foi destinada
a perder-se no anonimato
dos espinhos
nem a fundir-se com o sol
nas pedras

ao ser lançada, foram-lhe
dados pela mão ângulos no voo
e assim partiu ela incendiada
no vento por uma terra, essa terra
que a escolhesse,

a semente partiu da mão
e encontrou quem lhe desse
raiz um leito e água
onde ela morreu, sonhou
e a sua alma subiu
com carne de árvore

12/08/11

FÁBULA DA ESPIGA



A espiga tinha de se mostrar
ao sol de esquecer o passado
os dias da semente 
e as noites do caule

tinha de crescer de cortar 
rente o sono de abandonar
no chão a sua névoa 
e seguir com o vento
tinha de conhecer 
o segredo do céu

mostrar-se ao sol
e seguir com o vento
era-lhe necessário 
assim faz o ouro
e à espiga restava
aprender

tinha apenas
de rasgar o tegumento 
e para lá do restolho

ser

13/08/11

DE MANHÃ

“Un vague bonheur leur était élan et ménace” 
Nic Klecker, “Matin” (conto), in Jadis au village 

A manhã de Outono veio trazer prenúncios 
de Inverno e sombras de geada
veio montada nos raios oblíquos
e conduziu as rodas das bicicletas
uma em direcção à outra 
dele e dela

uma brisa fresca
juntou-se ao encontro
que seria a dois
estavam eles conscientes 
do mistério do dia? 
foi-lhes ele anunciado na noite já distante? 
tê-la-ia ele visitado, ter-lhe-ia ela
franqueado o ardor do umbral?
ter-se-iam amado no corpo 
do sonho? as mãos 
eram jovens e virgens
ainda seguravam 
os guiadores das bicicletas 
e os olhos de um faziam tangentes
nos do outro
decidiriam unir-se
para o receio e a ousadia do salto 
para a existência e a aventura?

os peitos respiravam ténues
o mesmo ar de sol e gelo
debruçados sobre as bicicletas
os sentimentos eram felizes
os corações abriam-se em ramos de flores 
para a beleza palpitante
um do outro

14/08/11

sábado, agosto 06, 2011

CEGO

o dia estava tão belo
e ele não o podia ver
os dedos estendidos 
levavam os olhos e procuravam
estrelas à vista desarmada

o mundo era tão belo
povoado de árvores,
rios e sombras
e ele não o podia ver
nos olhos que lhe restavam
projectava pessoas às cores
que podiam ver
os ouvidos teciam ventos
e seres voláteis que pousavam
na sombra do seu ombro

ele não podia ver
ele era uma dessas sombras
do dia e do mundo
que ele podia ver
mas que não o podiam ver

5/08/11





L’AVEUGLE

le jour était si beau
et il ne pouvait pas le voir
les doigts tendus
portaient les yeux et cherchaient
des étoiles à l’œil nu

le monde était si beau
peuplé d’arbres,
de fleuves et d’ombres
et il ne pouvait pas le voir
dans les yeux qui lui restaient
il projetait des gens en couleurs
qui pouvaient entendre
les oreilles tissaient des vents
et des êtres volatils qui atterrissaient
sur l’ombre de son épaule

il ne pouvait pas voir
il était une de ces ombres
du jour et du monde
qu’il pouvait voir
mais qui ne pouvaient le voir

06/08/11
(trad. par l'Auteur)