Nova vida, abundante vida, tudo quanto pode proporcionar um encontro pessoal e radical com uma pessoa especial. A contracultura da nova criação, em Jesus Cristo. N.B.: Este blog está em desacordo com o chamado novo acordo ortográfico de 1990.
segunda-feira, março 15, 2010
VIOLÊNCIA EM CONTEXTO ESCOLAR: TESTEMUNHO PESSOAL
Urge fornecer boas estatísticas, não manchar a reputação de Portugal como país de brandos costumes. Inculpar os culpados é impensável, pois não há culpa, porque castigar e falar de culpa é traumatizante. Há somente disfunções e problemas lá em casa, e isso explicaria tudo. No entanto, é o país que sofre de disfunção, e a única disfunção de que sofre – perdoem-me a grosseria – é a eréctil. Um país que não tem erecções de coragem para atacar os problemas masculamente e de frente e os resolver, como eles são, suicida-se a prazo. Vive-se ainda sem se conseguir superar o dogma sacrossanto do “bom selvagem”. Não é preciso ser cristão e crer na Bíblia para o saber e perceber: a psicologia secular, se ainda o não aprendeu, é arrogante e burra.
Sou aqui o narrador autodiegético de uma situação de violência no contexto escolar da qual fui vítima. Entre os anos lectivos de 2003-2005 acompanhei como professor de História e Geografia de Portugal e director de turma uma turma nos seus 5.º e 6.º ano, numa escola EB 2,3 do concelho de Oliveira de Azeméis, distrito de Aveiro. Sempre activo, sempre interventivo e atento, e sempre procurando resolver, e na hora, os problemas que se apresentavam, sempre comunicando com os encarregados de educação. De um ano para o outro, o comportamento geral, dentro e fora da sala de aula. Em certa ocasião, ao chegar à escola, funcionários comunicam-me que cinco meninos e uma menina da turma teriam estado a atirar pinhas fechadas uns aos outros. Não se feriram, felizmente, embora houvesse tal risco: pinhas fechadas são duras como peras. Mas feriram um vidro: 30 € de despesa. No inquérito que realizei os meninos sacudiram a água do capote uns para outros. Mas a maioria dos testemunhos, incluindo de outros colegas da turma e de outra turma que se encontrava junto da sala ao lado, apontava na direcção de um menino, a que chamarei Zé Maria. Um dos envolvidos disse que não assumia a denúncia porque o Zé Maria tinha “amigos”.
Na verdade, o Zé Maria era um rufia, preguiçoso, com um pai um tanto arrogante. Faltava frequentemente às aulas, sendo que no 6.º ano o problema apenas se tinha aligeirado. A mãe (encarregada de educação) justificava na caderneta, invariavelmente, com doença do seu rebento. Sem atestado médico. Ou com outros motivos mais peregrinos. Por exemplo, no 5.º ano, tinham à sexta-feira aulas de tarde. Certa sexta-feira, tinham teste de Matemática ao último bloco de 90 m do dia. Faltou todo o dia. Motivo: fora acompanhar o pai ao Porto e com isso atrasou-se. Assim certos pais justificam faltas dos filhos. E pior, em dia de teste. Havia, pois, um problema de “disfunção” nas funções parentais. O menino — ouvia eu de quando em vez da parte de outros colegas e de pais — ameaçava que um dia o pai viria à escola para bater no Director. Isto podia não passar de bravata entre pares, não rara em pré-adolescentes e adolescentes, sem maiores consequências do que as de uma boca insensata debitando estupidez. E nunca liguei nem me atemorizei com isso.
Como, porém, seis pré-adolescentes tivessem estado envolvidos e qualquer um podia ter atirado a pinha causadora do estrago no vidro (ou, o que teria sido pior, num olho dum colega), decidi, com a concordância da Vide-Presidente do Conselho Executivo, aplicar a justiça salomónica: seriam todos solidária e equitativamente responsabilizados pelo pagamento do dano e sofreriam todos a pena de serviço à escola, sob a direcção de um funcionário, em qualquer tarefa tal como a de limpeza do espaço escolar, com calendário e em horário estipulado. Os encarregados de educação compareceram todos e aceitaram, excepto os do Zé Maria. Como eu esperava, nem puseram os pés na escola. Limitei-me a informá-los por carta.
Os alunos cumpriram todos a pena e os respectivos encarregados de educação pagaram todos os 5 € por cabeça do novo vidro. O Zé Maria não só não pagava como ostensivamente se escusou a cumprir a pena. Por várias vezes o confrontei com o facto, em privado e diante da turma, nas aulas de Formação Cívica. Justificação da criaturinha: o pai não queria! Não é preciso dizer como eu ia aos arames com isso: um aluno e os pais quererem fazer as leis na escola! Tristemente, nem os outros cinco colegas tiveram a erecção de dignidade de se revoltarem, de se encolerizarem contra o colega que eles sabiam ser o culpado e que não sofria o castigo que eles estavam a sofrer. Por não se rir apenas da cara do Director de Turma e da autoridade escolar, mas igualmente deles. A única evolução na atitude do aluno e dos pais (ou da mãe) foi o facto de um dia ele ter trazido os 5 € de indemnização pelo vidro, dados pela mãe às ocultas do pai. Quanto ao cumprimento do castigo, népia neribi!
Por diversas vezes apelei aos mais altos responsáveis da hierarquia escolar, o Conselho Executivo, pedindo a sua intervenção, que chamassem o aluno e os pais. Como é habitual nestes casos, e inércia, a procrastinação é a praxis. Era-me dada razão moral, mas nada era feito. O Conselho Executivo agiria, mas tinha tantos processos e assuntos pendentes em cima da mesa… Eu não queria tomar a iniciativa de levar o menino pela força a cumprir o castigo. Ter-me-ei acobardado, temia a tal reacção do pai? Ou queria simplesmente que o assunto fosse tratado como deveria, institucionalmente? Querendo ao mesmo tempo evitar o tratamento emocional do mesmo, o recurso às paixões (ódio, fúria, cólera, raiva) e ao argumento da força física? Ou tudo ao mesmo tempo? Hoje não sei dizê-lo com clareza, nem dissecar as emoções. Talvez um pouco de tudo. Se a autoridade do Director de Turma era posta em causa, então a autoridade superior estava obrigada a intervir. Para mim isso era claro e assim deveria ser feito. Era-me impossível não sentir náuseas daquela situação de injustiça.
Certo dia (21 ou 22 de Abril de 2005), ao fim de uma tarde de aulas, estava eu na escola a tratar de assuntos da Direcção de Turma, após a aula de Educação Física. Nisto, encontro-me no pátio de entrada com a colega docente da disciplina. Aparecem alguns alunos da turma, entre os quais o Zé Maria. Um dos colegas ia precisamente cumprir mais uma sessão da pena de serviço. De novo questionei o Zé Maria porque não o cumpria ele também a pena, pois estava igualmente na sua hora. Respondeu que tinha treino de futebol a seguir. Irado, fiz-lhe saber que, por minha vontade e como era justo, estaria a cumprir a sua pena e em treino nenhum. E continuei a conversar com a professora de educação física uns dois ou três minutos, após o que me retirei. A reacção do mal educado rapazinho à minha repreensão foi jogar a mochila ao chão e pegar no telemóvel para ligar ao papá queixando-se de que o “Director não o deixava sair”.
Como tivesse o carro na oficina, pus-me a caminho de casa a pé, uns 10 a 15 m. Entre o episódio com o menino e a partida da escola não se haviam passado talvez mais de 5 m. Numa rua uma carrinha comercial pára ao meu lado: eram o pai e a mãe do Zé Maria. Houve discussão. Procurei chamar à razão o casal, observando que os assuntos de escola se resolvem na escola e não na rua, e que na escola as regras são as do Regulamento Interno da mesma e as autoridades são o Conselho Executivo e o Director de Turma. A mãe recomendava-me que olhasse para o meu passado e assegurava que no ano seguinte eu não estaria naquela escola. Respondi que ela não me conhecia para invocar o meu passado nem tinha poder para eu sair ou continuar naquela e que se não continuasse seria por efeitos do concurso. E queria seguir o meu caminho. A senhora desferiu uma bofetada numa das minhas faces. Não com um muita força, sem deixar marca, mas valeu pela atitude. Numa coisa me enganara: a violência veio da mãe e não do pai. O pai logo se fez grande perante mim (por acaso até era mais alto, mas fez-se maior): que eu não bateria à mulher dele! A minha resposta foi que não reagiria ao mal com igual gesto, mas que apresentaria queixa deles. Cheios de arrogância, desafiaram-me a fazê-lo, seguros de não haverem provas nem testemunhas do ocorrido e ameaçando-me que sabiam onde eu vivia.
Apresentei queixa no posto local da GNR. Contei o ocorrido ao Conselho Executivo, cujo Presidente, finalmente, passada cerca de uma semana, finalmente chamou o pai à escola e decidiu aplicar uma pena de serviço à escola ao heróico menino. A professora de EF foi minha testemunha de que não retive nem torturei o menino, da má educação deste e que rapidamente eu deixei o espaço escolar. O Presidente do Conselho Executivo também aceitou a meu pedido testemunhar do problema disciplinar e de falta de respeito de aluno e pais pela autoridade da escola, que conduziram ao episódio de violência. Chamei alguns pais e outros alunos da turma. Duas mães concordaram que as suas filhas testemunhassem que ouviram o Zé Maria ameaçar que um dia bater no Director. Uma dessas mães conhecia o pai desde crianças. Eram vizinhos. Esse pai era um rufia, como o seu filho. E os pais desse menino futuro pai tratavam as bravatas desse aprendiz de “hooligan” como personalidade forte. Por várias vezes essa mãe me advertira contra a linguagem arrogante desse pai. Eu nunca dera importância às tricas entre pais, antigos ou actuais vizinhos e ex-colegas de escola. Os professores são amiúde chamados para o interior de brigas, coscuvilhice e rivalidades entre pais, que lhes não dizem respeito. Como às bravatas dos alunos no recreio. Nessa circunstância, porém, tudo isso se tornava pertinente, e era legítimo eu capitalizá-lo para meu proveito e defesa. Até ao fim do ano lectivo o pai foi à escola uma vez, pedindo para me apertar a mão, justificando-se com o “stress” e preocupado se eu discriminava o filho pelo ocorrido entre os pais e eu. Que o previsível chumbo dele teria a ver com esse facto, e com as faltas dele. Respondi que não discriminava ninguém, que exigia de todos o mesmo e que o previsível chumbo (“retenção” na nomenclatura oficial) se deveria à não aquisição de competências escolares e comportamentais. Apenas. Como viria a acontecer.
A advogada do meu sindicato deixou-me desencorajado, uma vez que, segundo a sua experiência, não havendo testemunhas, o procedimento mais habitual do tribunal era o arquivamento do caso. E que este caso não deveria escapar ao que era habitual.
Como cristão, deixei com Deus o caso. Se os tribunais se demorassem ou nunca fizessem justiça, Ele o faria. Só queria que aqueles pais e aquele filho aprendessem uma valente lição. Continuei a minha vida, e no ano lectivo seguinte fui colocado em Chaves. Em Janeiro (se me não falha a memória) do ano seguinte foi enviada para a minha anterior morada carta do tribunal convocando-me como testemunha para julgamento de processo que o Ministério Público movera contra aquele casal. Já não era eu o autor, mas o Estado. Contrariamente às expectativas que me foram dadas, a juíza encarregada do caso deduzira acusação. E menos de um ano depois! A advogada oficiosa nomeada para defender o casal, tendo obtido o meu número de telefone, contacta-me propondo-me a eventualidade de desistir da acusação caso o casal me pedisse desculpas públicas diante da juíza. Não me repugnou a hipótese. Não pedia indemnização, e interessava-me mais que essa gente crescesse.
Nas vésperas do julgamento, em oração, vieram-me de Deus ao espírito palavras do livro de Provérbios nas quais se lê que o tolo se enreda com as palavras da própria boca.
No dia do mesmo (princípios de Fevereiro de 2006), a advogada de defesa procura-me, juntamente com o pai do Zé Maria, para reiterar a proposta de acordo. Nisto, intrometeu-se a procuradora (ou promotora, não sou especialista em direito) pública na conversa: eu não teria de ceder a proposta nenhuma de acordo se não quisesse. Até porque, tratando-se de crime contra funcionário público, era mais grave do que contra um cidadão particular e a lei não permitia outra coisa a não ser o respectivo julgamento.
Testemunhei eu: a atitude irresponsável desses encarregados de educação que permitem que o seu educando falte justificam faltas por motivos estapafúrdios; a sua arrogância, em especial do pai; que esperava agressão deste, e muito menos a mãe; que sempre desvalorizei as bravatas e ameaças do menino, pois nunca esperava que se concretizassem; que eu não pedira indemnização, apenas queria que eles aprendessem uma lição; face à tentativa de descredibilizar o meu testemunho parte de advogada que, concentrado na situação que vivia, dificilmente pensei em procurar testemunhas da agressão (havia uma esplanada nas redondezas, tentei que o condutor de um carro, que passara, parasse, embora sem sucesso).
testemunharam as minhas testemunhas e as do casal. Estas testemunhas eram chamadas uma por uma, depunham e retiravam-se. As duas meninas confirmaram o que haviam dito. O Presidente do Conselho Executivo de nada se lembrava… Tanta coisa, tantos assuntos e ocorrências, já antes tinha ido a tribunal por causa de outro caso. Como se lembraria de mais um? Nem se lembrava do que me dissera meses antes, que esse pai fora grosseiramente mal educado com uma educadora de um jardim de infância pertencente ao agrupamento de escolas a que ele presidia, a propósito de uma outra filha, mais novinha. Ele fora o professor de Matemática desta turma no 5.º ano. Parecia-me mais rígido no domínio da autoridade da escola e dos professores do que o anterior presidente (mais brando, por assim dizer). Afinal, enganei-me: os erros de “casting” muitas vezes não mudam com os actores… Parecia estar ali contrariado, num outro planeta… Temi pela decisão da juíza por causa desta testemunha. A professora de EF, porém, manteve que o menino foi mal educado, e que eu continuei a conversar com ela, após o que saí da escola. As testemunhas do casal eram duas vizinhas, que obviamente confirmaram o que toda a gente sabia, que aquele casal era gente do melhor.
A juíza, antes de dar por encerrada a sessão, perguntou ao casal se queria declarar alguma coisa, permitindo-lhe apenas que respondessem às perguntas que ela lhes colocasse. Negaram que me tivessem agredido ou ameaçado. Que a mãe ficara no carro a falar ao telefone. Que apenas queriam falar comigo. Que não sabiam por que eu os acusara, porque perseguia o filho. Inclusive, depois do episódio, que o pai fora à escola certa vez, ainda no 5.º ano, e pedira ao Presidente do CE para chumbarem o filho de modo que eu não continuasse a ser Director de Turma dele no 6.º. E que eu retivera o menino na escola pelo menos um quarto de hora. Nisto, não só me contradisseram, como também contradisseram o testemunho da professora de EF, ao qual eles assistiram. Imprudência.
Indignado, comentávamos, eu e a mãe dumas das meninas testemunhas, o desplante daquele casal em mentir e fazer-se passar por pessoas de bem. E questionei a razão de quererem um acordo, se afinal negavam ter prevaricado. No fim, apresentei estas apreensões à promotora (ou procuradora?). Respondeu-me com uma pergunta: o que esperava eu que eles fizessem? E tranquilizou-me: o meu testemunho fora sincero e convincente. Ficou com o meu endereço para me enviar cópia da sentença, que seria lida uma semana depois.
Recebi cópia. O casal foi considerado culpado e condenado a pena suspensa comutada em muitos dias de multa: ela por agressão e ameaça, ele por ameaça. No cúmulo, ascendia a quase 2 000 € (falo de memória). O testemunho do casal foi considerado contraditório. Efectivamente, cumpriu-se a palavra que Deus me dera: meteram os pés pelas mãos ao abrir a boca. Soube por essa mãe que o pai de um outro aluno da turma assistira à leitura da sentença, e que a juíza dissera, pedagogicamente, entre outras coisas, que assuntos de escola são para ser resolvidos internamente.
Ainda fiquei a perder com isto: deslocação, combustível, almoço, uma multa de estacionamento por não ter achado lugar decente para deixar o carro enquanto decorria o julgamento. O meu caso nunca foi comunicado ao Ministério da Educação para constar das estatísticas. Mas foi-me feita justiça. Graças a Deus. Infelizmente, quantos casos há em que isso não sucede? Com o silêncio ou, no mínimo, a inércia daqueles que deveriam ser mais expeditos a defender a justiça, a legalidade, a autoridade e a ordem nas escolas, em defender os profissionais que nelas trabalham seriamente (professores e funcionários) e em punir os alunos culpados, quando o são: os Conselhos Executivos.
segunda-feira, março 01, 2010
FUNCHAL 2010

Enquanto
estavas deitado no leito do vulcão
crente que os astros
te velariam
Enquanto
pérola escolhida do oceano
aconchegada no leito dos montes
cuidavas que dos céus
o diáfano manto
a nudez térrea
te vestiria
Enquanto
deitados os astros dormitavam
o aviso te não deram:
não do vulcão
foste traído
o céu, foi o céu que abriu
as comportas
e te fez rebentar dos olhos
desmedidas torrentes
de lágrimas
21/02/10
PALAVRA PROFÉTICA II
on the subway walls and tenement halls
And whispered in the sound of silence”
Simon and Garfunkel, “The sound of silence”
As luzes da cidade não contam
a história dos risos que pararam
do tráfego das pessoas no vaivém
das avenidas espessas
de neblina imanente
Os néones não cantam
a solidão do cimento
não tocam os gritos das sombras chinesas
recortadas pelo Anjo da Morte
nas diminutas janelas
Os sons desse mar de gente
não se consomem com o tempo
cada mão deixou de se anichar no conforto de outra
Aí, nos túneis do metro só as cervicais
são agitadas para um e outro lado
por duas ondas de vácuo
aí, nas galerias dos centros comerciais
atravessadas por sombras árvores andantes
aí, onde ninguém se detém a ouvir
e todos preferem o som do silêncio,
aí, nas paredes vestidas de graffiti
e de cartazes publicitários
e de propaganda aos candidatos
alguém escreveu sem desenhos nem cores
as palavras da profecia
aí, os olvidados profetas deixaram
o seu verbo, para não ser olvidado
aí, na cal ficou a visão
para que alguém ao passar a correr
não deixe de a ver
e a conte e a cante e a grite
16/02/10
quinta-feira, fevereiro 25, 2010
terça-feira, fevereiro 23, 2010
FUNCHAL 2010

Enquanto
estavas deitado no leito do vulcão
crente que os astros
te velariam
Enquanto
pérola escolhida do oceano
aconchegada no leito dos montes
cuidavas que dos céus
o diáfano manto
a nudez térrea
te vestiria
Enquanto
deitados os astros dormitavam
o aviso te não deram:
não do vulcão
foste traído
o céu, foi o céu que abriu
as comportas
e te fez rebentar dos olhos
desmedidas torrentes
de lágrimas
21/02/10
segunda-feira, fevereiro 15, 2010
AS ORIGENS DO AMOR E DO CIÚME EXPLICADAS AOS PEQUENINOS

Há dias, numas das rubricas do programa "Magasin de sainté au quotidien" do canal France 5, um dos especialistas residentes falou nas origens do ciúme e nas incidências de formas de ciúme nos dois sexos. Assim, as estatísticas revelam que os homens têm ciúme da traição sexual, enquanto as mulheres vão aos arames com a traição sentimental. Àqueles encoleriza que as parceiras prefiram o "truca-truca" com outros, a estas que os companheiros estejam é a na verdade com outras no pensamento.
Ora, que explicação há para isto? O especialista – e com ele a ciência – não têm dúvidas. A causa de tudo isto acha-se na evolução da espécies, e no motor desta, a sobrevivência dos mais aptos e a perpetuação do património genético destes.
O instinto do macho leva-o a procurar garantir a transmissão dos seus genes através da sua fêmea, e se possível de outras, daí que seja para ele inadmissível a intromissão de qualquer concorrente. A fêmea, por sua vez, sendo o elemento que cuida da prole, espera do seu macho que a fidelidade, para assim garantir para ela e para as ninhada a protecção e a sobrevivência.
Pronto, está explicado. Amor, paixão, flores, luares, rosas vermelhas, coração palpitante, suores frios, garganta seca, Deus é Amor, o Salomão do Cântico dos Cânticos? Os poetas, os amantes, Deus não sabem nada disso. Tudo se explica pela biologia. Com Camões, é preciso que "Cesse o que antiga musa canta / que outro valor mais alto se alevanta". Darwin, o supremo sábio, e seus discípulos, descobriram o segredo por tantos buscado!
É de esperar que os amantes homossexuais se ergam contra tal conclusão, pois no seu caso não estão implicadas nem a transmissão de genes nem a protecção da prole. Dirão certamente que o amor e o ciúme nada tem a ver com isso. E Safo, a lésbia e lésbica, que cantou soberbamente os sintomas físicos e emocionais do ciúme, a propósito de uma discípula sua, quando esta conversava com um pretendente?
E nisto até lhes dou razão. Querem tirar-me Amor, paixão, flores, luares, rosas vermelhas, coração palpitante, suores frios, garganta seca, Deus é Amor, o Salomão do Cântico dos Cânticos? E dão-me o quê em troca? Mera tirania dos cromossomas? Simples ditadura do ácido desoxirribonucleico? Não há pachorra!
sábado, janeiro 30, 2010
quinta-feira, janeiro 28, 2010
AS RAZÕES DAS RAÍZES

"As raízes é claro não se vêem
mas tu sabes
nelas se sustenta a árvore.
Para seres justo
pensa nas raízes"
Giannis Ritsos
Ao olhares para a árvore
não te detenhas na textura da casca
o tacteado das folhas
nada te revelará
Não o pouso das aves,
como se ele, por se acostumar
ao entrelaçado dos ramos,
lhe conhecesse os segredos
nem os seus bicos,
por muito que lhe amem os frutos
Não inquiras o vento
que a conduz na valsa
nem a chuva
que a veste de cristal
nem o sol que a salpica
de setas de reflexos de lume
Se queres fazer justiça à arvore
pergunta à sua alma oculta
pergunta ao que dela
os teus olhos
não vêem
às raízes escondidas
nas entranhas do solo
pergunta-lhes em que
profundas águas
tem bebido
e que terra
tem desvendado e sorvido
se é que queres
ser justo com a árvore
conhecer que razões dizem os seus anos
e saber que seiva a percorre
e entender o sabor dos seus frutos
Rui Miguel Duarte
28/01/10
domingo, janeiro 24, 2010
BATALHA NAVAL

“Mas, quando viu que o vento era muito forte teve medo, começou a afundar-se e gritou”
Evangelho de Mateus 14,30 (versão A Bíblia para todos p. 1974)
Nessa madrugada
as águas tinham arestas
como gumes frios de vidro
cortando os pés
o vento era uma matilha de molossos
cravando as mandíbulas sobre os teus membros
e perfurando-te o ouvido
até à espinha
com um silvo de cobra
Em baixo abre-se um alçapão
sob o teu pé, que se perde
e se combina com a matéria do abismo
Nada mais podes fazer
só a agitação da mão e o grito do náufrago
para tudo o mais o teu corpo
é já um com a água e o lodo
– Porque duvidas?
as arestas e as matilhas
o lugar da luta e do medo
estão na tua alma
20/01/10
sexta-feira, janeiro 15, 2010
QUEM SEGURA A MÃO?

Os antigos Gregos
diriam que
a mão de Posídon
abalara a terra
porque da ofensa de Ulisses
ainda não lhe foi
aplacada a cólera
Outros
dizem
ter sido a mão
de outro Deus
porque o povo
deu a face e o coração
a outro, ao Adversário
e assim
os dedos tocaram
nas raízes da terra
simplesmente
como se soltasse
uma folha ao vento
pois há uma cólera
por aplacar
Nem lhe sobra a pele
Os escombros
em carne viva
lançam ao espaço
uma mão
requerendo
outra mão
Quem a segura?
15/01/10
0:10 TMG+1
sábado, janeiro 09, 2010
Nesse dia…

Nesse dia as nuvens
encheram o saco
e este rasgou-se
tanto que já não havia fissuras
mas a bocarra toda aberta
do céu
na indiferença do sol
Nesse dia um Zeus furioso
desatou as cordas
que continham o bojo das nuvens
e delas fez chicotes
para escalavrar a terra
Nesse dia a chuva
foi visita intempestiva
e veio grosseiramente
brindar-nos
com uma bebedeira
de lama e morte
4/01/10
segunda-feira, janeiro 04, 2010
NA ESTRADA

"Foi nessa altura que se lhes abriu o entendimento e o reconheceram…"
Evangelho de Lucas 24,31 (versão A Bíblia para todos, p. 2100)
Não foi nos ramos de palavras
que distribuía vibrantes
de enigmas ilógicos
Não foi no gesto ténue de pássaro
no tremor do dedilhar dos fólios
da Lei Profetas e Escritos
Não foi no bronze liso
da pele do rosto
nem no negrume límpido
da barba
Não foi no timbre da voz
barítono na hora nocturna
divagante aos nossos cuidados
nem no incêndio ateado
nos nossos corações
ao seguirmos o fio diáfano
do seu discurso
de sonhos
Não foi no andar
preso da distância
no frenesim de esmagar
hectómetros
sob os calcanhares
sempre mais para diante
Foi no partir do pão
que nos abriu os olhos
e no-los lavou do sono
2/01/10
domingo, janeiro 03, 2010
A TUA PRESENÇA

« Les fleurs/ et les arbres/ crient/ après ta présence // C’est leur beauté / que je pleure / à travers l’absence de tes yeux ». Nic Klecker (poeta luxemburguês, 1928-2009)
sábado, janeiro 02, 2010

"La mort sait bien
qu'elle va gagner le duel
en attendant
la vie
a des parades habiles
et l'amour
guide son fleuret"
Nic Klecker (poeta luxemburguês, 1928-2009 )
A morte e a vida têm um encontro marcado
um duelo à espada
de vida ou morte
a vida, com a fragilidade das pombas,
tem de ser conduzida
a sua testemunha é o amor
é este quem lhe adestra a mão
e quem a mantém denodadamente
no combate
mesmo que a vacilação
lhe desça pesada aos pés
a morte não traz padrinho
porque precisaria de ajuda?
o seu braço tem uma estocada irresistível
assomando ao campo aberto
o poeta assiste a tudo
a uma escassa distância
e diz a dor dos golpes
da morte
o dizê-lo é uma hábil parada
com que os vai sustendo
de um pouco mais ao longe
ouve-se a voz
espessa e férrea de um Profeta
declarar mudado o desfecho
para o duelo:
“O Amor
não falha
e o ferrão da morte
está quebrado”
Rui Miguel Duarte
26/12/09
Publicado também em Liricoletivo
sábado, dezembro 26, 2009
PALAVRA PROFÉTICA
Há um baú de tesouro
repleto e palpitante de mistérios
inefáveis depositados por Deus,
como a terra úbere de minérios,
os próprios anjos dele se surpreendem
reclinados na indagação
de novo vento que lhes enfune as asas
e nos lábios lhes cante nova canção
não é de madeira preciosa
nem engastado de diamante
é dotado de riso e choro
de canto doce e troante
esse tesouro é a mente
incendiada e tenra do profeta
apurada para a interpretação de Deus
trasladada em voz de pastor, rei ou poeta
desse tesouro não retira o profeta
um gemido em estado bruto inexprimível
em língua celeste inaudita
mas palavra de homem inteligível
ao tempo e ao entendimento da assembleia
conforto coragem leme e lema para o povo
assim dita e pronunciada é como na árvore
nascente a pujança de um renovo
20/12/09
quarta-feira, dezembro 23, 2009
NEVE

um leopardo malhado
as patas macias marcam a cadência do silêncio
o sol arrefeceu
quando as nuvens irromperam
em beijos
à terra
Passa na rua
um leopardo das neves
o bafo frio gelando o ar
a cauda semeia o branco
na rua sobre as árvores e às portas
o olho perde a íris
e todo é esclera
21/12/09
segunda-feira, dezembro 21, 2009
MANJEDOURA

quarta-feira, dezembro 16, 2009
O TROTE
segunda-feira, dezembro 07, 2009
Joanyr de Oliveira
domingo, dezembro 06, 2009
Poética rósea
Até pulverizar os espinhos
da rosa
à força de olhar
até que só reste deles
a raíz cortada
até ao branco
até à nua
altivez do caule
até deixar marcas
nas folhas
com a ponta da faca
dos dedos
aninhar-se na carne ígnea
das pétalas
imbricar-se nas suas volutas
até descer
ao fundo da campânula
tacteante nas patas das abelhas
até esmiuçar os estames
e até à nervura
beber o pólen
até a boca cheia
de açúcar
estar pronta
a conquistar o ar
Poética zoológica
O poema é um animal
Feroz como um urso faminto
de beleza matizada e elegante
como um leopardo
por vezes ouve-se-lhe o rugido de leão
a grande distância, impondo respeito
Ora é um gato, de provada agilidade
caindo sempre de pé
e revivendo sete vezes
no ouvido,
ora é um pássaro
que não comanda as próprias asas
não resistindo a abri-las
e a demandar os ares
Outras vezes, mais circunspecto,
apetecem-lhe
as profundidades,
as cores e formas
e tesouros perdidos
de afundados galeões
que só o mar oferece
e é um peixe,
outras é uma cobra
arrastando-se pela terra
demorada e silenciosa,
ou um coiote no deserto,
de nariz ao rés do chão
em busca de alimento
Um coelho,
que em qualquer vão de rocha faz a toca,
um pequeno lagarto,
que penetra nos palácio do rei
Como a baleia cruza todos os oceanos
como o albatroz sobrevoa todos os meridianos
como a andorinha sempre retorna ao seu ninho
O poema,
mesmo quando os demais
animais dormem,
abre os olhos
é então a plácida coruja
a vigia dos sonhos
27/11/09
No sonho

sábado, novembro 21, 2009
NEGAÇÃO
James Tissot (pintor francês 1836-1902)Brooklyn Museum Robert E. Blum Gallery
antes mesmo de a aurora multiplicar rosas
ouvir-se-á o murmúrio das vozes
no pátio
e ao vento uma palavra não soprada
O coração esconderá a vergonha
lançá-la-á ao crepitar da fogueira
acesa para aquecer corpos
consumir fadigas e tristezas
mas o ardor de um coração culpado
fogo nenhum extingue
antes mais o inflama
O seu rosto será familiar
cuspido e escarrado
alguém o terá visto
o braço direito desse Rei
E ao vento uma palavra não balbuciada
Sentados na roda dos coscuvilheiros,
os olhos mirarão o homem
de fronte suada de desassossego e fuga
As vozes certificarão o que ele preferirá ignorar
terá sido um desses que terão partilhado a mesa com o Galileu
e que tentará então com a aba do manto
manter o anonimato
As vozes darão carne à sombra que ele ansiará
por abandonar numa esquina
Mas fugirá o descanso desse coração incerto
pois ao vento uma palavra NÃO será protestada
E será este protesto quem acordará o galo,
que então se lembrará que será a hora
Outros olhos então pousarão nos seus
os olhos condoídos do Mestre
que lhe atravessarão a couraça da alma
E na esquina onde se quis esquecer
será aquela em que se reencontrará
no espelho das lágrimas: ainda que a voz minta
estas só sabem dizer a verdade
e desconhecem a palavra
NÃO
20/11/09
quinta-feira, novembro 19, 2009
NO HELESPONTO, XERXES
domingo, novembro 15, 2009
EXISTIR
Há pessoas que são como planetas que só conhecem movimentos de rotação: entra dia e sai dia e o mundo delas revolve-se num entediante movimento centrípeto, sempre e somente em torno de si próprias. Pessoas egoístas, possessivas, excessivamente centradas em si próprias e nos seus interesses, não existem realmente. Não conseguem sair delas próprias. São como rosas que nunca abrem, fontes que nunca nascem, estrelas que nunca brilham. Não participam das mil e uma vidas que existem fora delas – mais, para elas não existem outras vidas, só a sua.
Existir, ex-sistere, implica sair de si próprio! E o maior êxodo é aquele que é feito para fora de si mesmo.
Sair de si próprio provoca um descentramento. O centro geométrico muda à medida que o outro começa a ocupar a sua atenção: começa a dar-se, a repartir-se, a semear-se nos outros. O grão de trigo, se não morrer fica só; mas se morrer, se sair de si próprio, passa a existir como pão que alimenta
Sair de si próprio implica arriscar – arriscar-se a sair para um mundo-outro onde nada é costumeiro, habitual, familiar. Enquanto permanecer no útero em que foi concebido – esse seu habitat natural em que a vida se foi desenrolando – nunca conhecerá outros desafios e novas dimensões de vida. As novas harmonias já foram dissonâncias; as novas descobertas já foram impossibilidades; as novas ideias já foram silêncios; o romance e a poesia já foram páginas em branco. Há que arriscar!
Sair de si próprio faz aumentar o horizonte de esperança. A vida deixa de estar limitada aos nossos poucos recursos e à nossa pequena dimensão. O nosso horizonte de esperança aumenta ao percebermos que existem outras ideias, outros dons, outros contributos, outros sonhos que fazem o mundo avançar e pular.
O maior desafio da vida é existir.

