segunda-feira, fevereiro 15, 2010

AS ORIGENS DO AMOR E DO CIÚME EXPLICADAS AOS PEQUENINOS


Há dias, numas das rubricas do programa "Magasin de sainté au quotidien" do canal France 5, um dos especialistas residentes falou nas origens do ciúme e nas incidências de formas de ciúme nos dois sexos. Assim, as estatísticas revelam que os homens têm ciúme da traição sexual, enquanto as mulheres vão aos arames com a traição sentimental. Àqueles encoleriza que as parceiras prefiram o "truca-truca" com outros, a estas que os companheiros estejam é a na verdade com outras no pensamento.
Ora, que explicação há para isto? O especialista – e com ele a ciência – não têm dúvidas. A causa de tudo isto acha-se na evolução da espécies, e no motor desta, a sobrevivência dos mais aptos e a perpetuação do património genético destes.
O instinto do macho leva-o a procurar garantir a transmissão dos seus genes através da sua fêmea, e se possível de outras, daí que seja para ele inadmissível a intromissão de qualquer concorrente. A fêmea, por sua vez, sendo o elemento que cuida da prole, espera do seu macho que a fidelidade, para assim garantir para ela e para as ninhada a protecção e a sobrevivência.
Pronto, está explicado. Amor, paixão, flores, luares, rosas vermelhas, coração palpitante, suores frios, garganta seca, Deus é Amor, o Salomão do Cântico dos Cânticos? Os poetas, os amantes, Deus não sabem nada disso. Tudo se explica pela biologia. Com Camões, é preciso que "Cesse o que antiga musa canta / que outro valor mais alto se alevanta". Darwin, o supremo sábio, e seus discípulos, descobriram o segredo por tantos buscado!

É de esperar que os amantes homossexuais se ergam contra tal conclusão, pois no seu caso não estão implicadas nem a transmissão de genes nem a protecção da prole. Dirão certamente que o amor e o ciúme nada tem a ver com isso. E Safo, a lésbia e lésbica, que cantou soberbamente os sintomas físicos e emocionais do ciúme, a propósito de uma discípula sua, quando esta conversava com um pretendente?

E nisto até lhes dou razão. Querem tirar-me Amor, paixão, flores, luares, rosas vermelhas, coração palpitante, suores frios, garganta seca, Deus é Amor, o Salomão do Cântico dos Cânticos? E dão-me o quê em troca? Mera tirania dos cromossomas? Simples ditadura do ácido desoxirribonucleico? Não há pachorra!

quinta-feira, janeiro 28, 2010

AS RAZÕES DAS RAÍZES


"As raízes é claro não se vêem
mas tu sabes
nelas se sustenta a árvore.
Para seres justo
pensa nas raízes"
Giannis Ritsos


Ao olhares para a árvore
não te detenhas na textura da casca
o tacteado das folhas
nada te revelará

Não o pouso das aves,
como se ele, por se acostumar
ao entrelaçado dos ramos,
lhe conhecesse os segredos
nem os seus bicos,
por muito que lhe amem os frutos

Não inquiras o vento
que a conduz na valsa
nem a chuva
que a veste de cristal
nem o sol que a salpica
de setas de reflexos de lume

Se queres fazer justiça à arvore

pergunta à sua alma oculta
pergunta ao que dela
os teus olhos
não vêem
às raízes escondidas
nas entranhas do solo

pergunta-lhes em que
profundas águas
tem bebido
e que terra
tem desvendado e sorvido

se é que queres
ser justo com a árvore
conhecer que razões dizem os seus anos
e saber que seiva a percorre
e entender o sabor dos seus frutos

Rui Miguel Duarte
28/01/10

domingo, janeiro 24, 2010

BATALHA NAVAL


“Mas, quando viu que o vento era muito forte teve medo, começou a afundar-se e gritou”
Evangelho de Mateus 14,30 (versão A Bíblia para todos p. 1974)

Nessa madrugada
as águas tinham arestas
como gumes frios de vidro
cortando os pés

o vento era uma matilha de molossos
cravando as mandíbulas sobre os teus membros
e perfurando-te o ouvido
até à espinha
com um silvo de cobra

Em baixo abre-se um alçapão
sob o teu pé, que se perde
e se combina com a matéria do abismo

Nada mais podes fazer
só a agitação da mão e o grito do náufrago
para tudo o mais o teu corpo
é já um com a água e o lodo

– Porque duvidas?
as arestas e as matilhas
o lugar da luta e do medo
estão na tua alma

20/01/10

sexta-feira, janeiro 15, 2010

QUEM SEGURA A MÃO?



Os antigos Gregos
diriam que
a mão de Posídon
abalara a terra
porque da ofensa de Ulisses
ainda não lhe foi
aplacada a cólera

Outros
dizem
ter sido a mão
de outro Deus
porque o povo
deu a face e o coração
a outro, ao Adversário
e assim
os dedos tocaram
nas raízes da terra
simplesmente
como se soltasse
uma folha ao vento
pois há uma cólera
por aplacar

Nem lhe sobra a pele

Os escombros
em carne viva
lançam ao espaço
uma mão
requerendo
outra mão

Quem a segura?

15/01/10
0:10 TMG+1

sábado, janeiro 09, 2010

Nesse dia…


Nesse dia as nuvens
encheram o saco
e este rasgou-se
tanto que já não havia fissuras
mas a bocarra toda aberta
do céu
na indiferença do sol

Nesse dia um Zeus furioso
desatou as cordas
que continham o bojo das nuvens
e delas fez chicotes
para escalavrar a terra

Nesse dia a chuva
foi visita intempestiva
e veio grosseiramente
brindar-nos
com uma bebedeira
de lama e morte

4/01/10

segunda-feira, janeiro 04, 2010

NA ESTRADA





"Foi nessa altura que se lhes abriu o entendimento e o reconheceram…"
Evangelho de Lucas 24,31 (versão A Bíblia para todos, p. 2100)

Não foi nos ramos de palavras
que distribuía vibrantes
de enigmas ilógicos

Não foi no gesto ténue de pássaro
no tremor do dedilhar dos fólios
da Lei Profetas e Escritos

Não foi no bronze liso
da pele do rosto
nem no negrume límpido
da barba

Não foi no timbre da voz
barítono na hora nocturna
divagante aos nossos cuidados
nem no incêndio ateado
nos nossos corações
ao seguirmos o fio diáfano
do seu discurso
de sonhos

Não foi no andar
preso da distância
no frenesim de esmagar
hectómetros
sob os calcanhares
sempre mais para diante

Foi no partir do pão
que nos abriu os olhos
e no-los lavou do sono

2/01/10

domingo, janeiro 03, 2010

A TUA PRESENÇA


« Les fleurs/ et les arbres/ crient/ après ta présence // C’est leur beauté / que je pleure / à travers l’absence de tes yeux ». Nic Klecker (poeta luxemburguês, 1928-2009)

A tua presença
é um grito
inscrito com lâmina
na casca das árvores
e nas pétalas das flores

A tua presença
é um vento sibilado
no marulhar
das palmas das folhas

A tua presença
induz ao canto
e à exuberância
os prados
transmite-se no voo
ordenado
dos pássaros

A tua presença
tinge as flores
de múltiplas cores
ao meu olhar

Mas quando não estás
o teu próprio olhar se ausentou
ficam as folhas ruivas
de Outono
as vacas pastando no prado
a serenidade dos vinhedos
no vale do rio subindo
ao céu

Quando não estás
sem o teu olhar
resta o meu imperfeito
e este chora

Quando não estás
as flores e as árvores
exibem a sua beleza
mas só isso
a neve é branca
só branca

não sei é se choro
as flores as árvores e a neve
de terem beleza própria
ou se de uns certos olhos
lá terem deixado a sua ausência

31/12/09

sábado, janeiro 02, 2010


"La mort sait bien
qu'elle va gagner le duel
en attendant

la vie
a des parades habiles
et l'amour
guide son fleuret"

Nic Klecker (poeta luxemburguês, 1928-2009 )


A morte e a vida têm um encontro marcado
um duelo à espada
de vida ou morte

a vida, com a fragilidade das pombas,
tem de ser conduzida

a sua testemunha é o amor
é este quem lhe adestra a mão
e quem a mantém denodadamente
no combate
mesmo que a vacilação
lhe desça pesada aos pés

a morte não traz padrinho
porque precisaria de ajuda?
o seu braço tem uma estocada irresistível

assomando ao campo aberto
o poeta assiste a tudo
a uma escassa distância
e diz a dor dos golpes
da morte
o dizê-lo é uma hábil parada
com que os vai sustendo

de um pouco mais ao longe
ouve-se a voz
espessa e férrea de um Profeta
declarar mudado o desfecho
para o duelo:
“O Amor
não falha
e o ferrão da morte
está quebrado”

Rui Miguel Duarte
26/12/09
Publicado também em Liricoletivo

sábado, dezembro 26, 2009

PALAVRA PROFÉTICA

Mas diante da igreja, antes quero dizer cinco palavras tiradas da minha cabeça, mas que os outros possam aproveitar, do que milhares de palavras em línguas desconhecidas.” 1 Cor 14,19 (versão A Bíblia para todos p. 2246)

Há um baú de tesouro
repleto e palpitante de mistérios
inefáveis depositados por Deus,
como a terra úbere de minérios,

os próprios anjos dele se surpreendem
reclinados na indagação
de novo vento que lhes enfune as asas
e nos lábios lhes cante nova canção

não é de madeira preciosa
nem engastado de diamante
é dotado de riso e choro
de canto doce e troante

esse tesouro é a mente
incendiada e tenra do profeta
apurada para a interpretação de Deus
trasladada em voz de pastor, rei ou poeta

desse tesouro não retira o profeta
um gemido em estado bruto inexprimível
em língua celeste inaudita
mas palavra de homem inteligível

ao tempo e ao entendimento da assembleia
conforto coragem leme e lema para o povo
assim dita e pronunciada é como na árvore
nascente a pujança de um renovo

20/12/09

Publicado ineditamente em Papéis na Gaveta

quarta-feira, dezembro 23, 2009

NEVE


Passa na rua

um leopardo malhado

as patas macias marcam a cadência do silêncio


o sol arrefeceu

quando as nuvens irromperam

em beijos

à terra


Passa na rua

um leopardo das neves

o bafo frio gelando o ar


a cauda semeia o branco

na rua sobre as árvores e às portas


o olho perde a íris

e todo é esclera


21/12/09

segunda-feira, dezembro 21, 2009

MANJEDOURA


“Nasceu-lhe então o menino, que era o seu primeiro filho. Envolveu-o em panos e deitou-o numa manjedoura, porque não conseguirem arranjar lugar na casa.” (Lucas 2,10 versão A Bíblia para todos, p. 2047)

Não havia uma bacia de água
onde a jovem parturiente
amaciasse os pés
crespos da caminhada

Não havia leito
onde alongasse as pernas
das horas moldadas
ao dorso do jumento

Não havia travesseiro
em que desatasse a dor
jugulada do parto

Não havia linho fino
para cingir os membros tenros
do primeiro filho
Não havia o anteparo
de um berço de ouro

Apenas havia umas faixas
uma tiras de pano de saco rasgadas
apenas sobrava uma manjedoura
para hospedar a noite de feno
do pequeno corpo amarantino

Num estábulo
na ponta mais longe da estrada
aí onde os animais
consolam as bocas
foi disposto o pão vivo do céu


Rui Miguel Duarte
15/12/09

quarta-feira, dezembro 16, 2009

O TROTE

O tenro corpo
firmado na sela
Uma pequena mão adestrando pela rédea
o minúsculo grão de ar
da apreensão e do espanto

A outra mão não se retém
de pousar uma festinha
no enriçado da crina

E a menina trota
trota o pónei
gentil

A vozinha canta uma ordem
e o pachorrento bojo da montada
desliza sobre os cascos
num chão de seda

E a menina trota
trota o pónei
suave

Nesse trote que podia
tornar-se galope
embrenhar florestas e rasar planícies
contornar vales e transpor penhascos
ou riscar uma nuvem no espaço
mas que trota e risca apenas
a abóbada do nosso olhar

11/12/09

segunda-feira, dezembro 07, 2009

Joanyr de Oliveira

Faleceu o poeta e pastor Joanyr de Oliveira.
Fica o mundo mais pobre de um servo de Deus e a cultura lusófona de um celebrado poeta e escritor. Ver aqui.

domingo, dezembro 06, 2009

Poética rósea

"Poesia é também olhar uma rosa até que nossos olhos pulverizem os espinhos." (João Tomaz Parreira)

Até pulverizar os espinhos
da rosa
à força de olhar
até que só reste deles
a raíz cortada
até ao branco
até à nua
altivez do caule

até deixar marcas
nas folhas
com a ponta da faca
dos dedos

aninhar-se na carne ígnea
das pétalas
imbricar-se nas suas volutas
até descer
ao fundo da campânula
tacteante nas patas das abelhas
até esmiuçar os estames
e até à nervura
beber o pólen

até a boca cheia
de açúcar
estar pronta
a conquistar o ar

29/11/09

Poética zoológica

O poema é um animal

Feroz como um urso faminto
de beleza matizada e elegante
como um leopardo
por vezes ouve-se-lhe o rugido de leão
a grande distância, impondo respeito

Ora é um gato, de provada agilidade
caindo sempre de pé
e revivendo sete vezes
no ouvido,
ora é um pássaro
que não comanda as próprias asas
não resistindo a abri-las
e a demandar os ares

Outras vezes, mais circunspecto,
apetecem-lhe
as profundidades,
as cores e formas
e tesouros perdidos
de afundados galeões
que só o mar oferece
e é um peixe,
outras é uma cobra
arrastando-se pela terra
demorada e silenciosa,
ou um coiote no deserto,
de nariz ao rés do chão
em busca de alimento

Um coelho,
que em qualquer vão de rocha faz a toca,
um pequeno lagarto,
que penetra nos palácio do rei

Como a baleia cruza todos os oceanos
como o albatroz sobrevoa todos os meridianos
como a andorinha sempre retorna ao seu ninho

O poema,
mesmo quando os demais
animais dormem,
abre os olhos
é então a plácida coruja
a vigia dos sonhos

27/11/09

No sonho


Queria ver-te os olhos, minha filha,
mas escondeste-os de mim

Entraste num navio
ou numa nave espacial
bateste as asas
para onde
só tu podes ir

sonhas, minha filha?
com que sonhas tu?

não se vê sobressalto em ti
a placidez da pela da tua fronte
é um rio de trigo maduro
o teu respirar
os dedos do vento que tangem velas
os teus cabelos
os canais e afluentes de navegação de alto mar

não me queres levar
na cabina de pilotagem
ou no cesto da gávea?
levar-me a montar um cometa em pleno voo?
a encalhar num atol de coral?
se te fizeres amiga de um duende de jardim
pedes-lhe dois malmequeres,
um para mim e outro para a mamã?

é melhor que eu me cale
e te deixe só com o teu soninho
tens todo o teu sonho para percorrer
ao acordares terás para cantar
altissonantes epopeias
e maviosos poemas

5/12/09

sábado, novembro 21, 2009

NEGAÇÃO

James Tissot (pintor francês 1836-1902)
Brooklyn Museum Robert E. Blum Gallery


“«Olha, Pedro», avisou-o Jesus, «não cantará hoje o galo sem que me tenhas negado três vezes»” Lucas 22:34 A Bíblia para todos, p. 2094

Antes de o galo acordar o sol
antes mesmo de a aurora multiplicar rosas
ouvir-se-á o murmúrio das vozes
no pátio
e ao vento uma palavra não soprada

O coração esconderá a vergonha
lançá-la-á ao crepitar da fogueira
acesa para aquecer corpos
consumir fadigas e tristezas
mas o ardor de um coração culpado
fogo nenhum extingue
antes mais o inflama

O seu rosto será familiar
cuspido e escarrado
alguém o terá visto
o braço direito desse Rei

E ao vento uma palavra não balbuciada

Sentados na roda dos coscuvilheiros,
os olhos mirarão o homem
de fronte suada de desassossego e fuga
As vozes certificarão o que ele preferirá ignorar
terá sido um desses que terão partilhado a mesa com o Galileu
e que tentará então com a aba do manto
manter o anonimato

As vozes darão carne à sombra que ele ansiará
por abandonar numa esquina

Mas fugirá o descanso desse coração incerto
pois ao vento uma palavra NÃO será protestada

E será este protesto quem acordará o galo,
que então se lembrará que será a hora

Outros olhos então pousarão nos seus
os olhos condoídos do Mestre
que lhe atravessarão a couraça da alma

E na esquina onde se quis esquecer
será aquela em que se reencontrará
no espelho das lágrimas: ainda que a voz minta
estas só sabem dizer a verdade
e desconhecem a palavra
NÃO

20/11/09

quinta-feira, novembro 19, 2009

NO HELESPONTO, XERXES




“Assim que viu o Helesponto inteiro recoberto de navios, todas as suas margens e as planícies de Abidos cheias dos seus homens, Xerxes considerou-se a si próprio afortunado, mas em seguida chorou.”
Heródoto, Histórias VII, 45


Do alto do meu trono
o meu olhar voa de mim
e entrelaça as duas margens
desta passagem
do Helesponto para a Hélade,
pequena janela que se abre imensa
para a promessa de glória

O meu olhar plana então
sobre estas plagas e campinas
atapetadas de milhões de navios cavalos e homens
que, pintados de todas as nações da Ásia e do Egipto
e estampados do brilho do aço das armas,
eriçam os estandartes em saudação à minha glória
à glória do Divino Príncipe da Pérsia

De dentro da voz de júbilo
decreto que eu, Xerxes, sou mais do que abençoado

Mas para além de até aonde pode o olhar adejar
não descortino toda a terra, nem possuo todo o mar
Há um aviso um arrepio um pio de pássaro

O meu olhar foi finalmente visto
regressar à sua morada e decantar em lágrimas
este estreito tão estreito que me aperta a traqueia

Pois não há reis
que ocasionalmente se não prostrem
à enfermidade e à dor
também eles contam a terra e as pedras
com que têm coberto os seus amados
Rompendo a janela da minha glória
o meu olhar abre a porta da vertigem
mais funestamente desejada do que todo o ouro
a vertigem altaneira
da morte

No meu espírito fala
uma voz dalém das orlas do tempo
Lê um epitáfio inscrito num mausoléu:
“Aqui jaz Xerxes da Pérsia Rei dos reis
no Olimpo anelou o Hades
foi a primeira flor nascida da Primavera
por mão ceifada em pleno Verão
conquistador da terra
hoje servo debaixo dela.”

E prossegue:
“Cem anos e destes milhões
só se contarão as areias das praias
serão meros pontilhados numa tela
tinta fresca na pena de um contador de histórias.”

12/11/09

Publicado ineditamente em Poeta Salutor, por gentileza do poeta J. T. Parreira

domingo, novembro 15, 2009

EXISTIR

Existir, segundo o significado etimológico da palavra, é estar fora de nós próprios, ex-sistere.

Há pessoas que são como planetas que só conhecem movimentos de rotação: entra dia e sai dia e o mundo delas revolve-se num entediante movimento centrípeto, sempre e somente em torno de si próprias. Pessoas egoístas, possessivas, excessivamente centradas em si próprias e nos seus interesses, não existem realmente. Não conseguem sair delas próprias. São como rosas que nunca abrem, fontes que nunca nascem, estrelas que nunca brilham. Não participam das mil e uma vidas que existem fora delas – mais, para elas não existem outras vidas, só a sua.

Existir, ex-sistere, implica sair de si próprio! E o maior êxodo é aquele que é feito para fora de si mesmo.

Sair de si próprio provoca um descentramento. O centro geométrico muda à medida que o outro começa a ocupar a sua atenção: começa a dar-se, a repartir-se, a semear-se nos outros. O grão de trigo, se não morrer fica só; mas se morrer, se sair de si próprio, passa a existir como pão que alimenta

Sair de si próprio implica arriscar – arriscar-se a sair para um mundo-outro onde nada é costumeiro, habitual, familiar. Enquanto permanecer no útero em que foi concebido – esse seu habitat natural em que a vida se foi desenrolando – nunca conhecerá outros desafios e novas dimensões de vida. As novas harmonias já foram dissonâncias; as novas descobertas já foram impossibilidades; as novas ideias já foram silêncios; o romance e a poesia já foram páginas em branco. Há que arriscar!

Sair de si próprio faz aumentar o horizonte de esperança. A vida deixa de estar limitada aos nossos poucos recursos e à nossa pequena dimensão. O nosso horizonte de esperança aumenta ao percebermos que existem outras ideias, outros dons, outros contributos, outros sonhos que fazem o mundo avançar e pular.

O maior desafio da vida é existir.


sexta-feira, novembro 13, 2009

ROBERT ENKE (1977-2009)


O Outono vestia-se de chuva e alguma neblina
era o cenário indicado para dar
ao silêncio o devido descanso

Pendura literalmente as chuteiras lavadas
deixa a carta à mulher com um beijo
sobre a mesinha baixa da sala,
essa em que dispuseram tantas angústias

Dedilha os cabelos da pequenina Leila
e o pêlo de um dos seus cães

Conduz o carro o derradeiro quilómetro
até onde a via férrea era recta
pois assim o comboio passaria
à velocidade máxima
sem haver como errar
a colhida

Alinha-se na baliza das linhas
oferece ao silêncio um segundo
de domínio, um só
De braços abertos
na postura do guarda-redes
para receber a bola de luzes e aço
o último penalti que não defenderia

13/11/09