sábado, abril 23, 2011

RECOLHER-SE

Mensagem / Estudo Bíblico dirigido à Comunidade Cristã Restauração (Steinsel, Luxemburgo) a 23 de Abril de 2011

DEVS EX MACHINA


“Jesus exclamou: «Mas que gente esta sem fé e desorientada! Até quando terei que estar convosco? Até quando terei de vos suportar? Tragam-me cá o rapaz.»”
Evangelho segundo Mateus 17:17

Senhor, sabemos que és maior
do que o vento, que voas aonde
as águias não sonham
e que a tua voz deslaça os corações
dos demónios

corta, Senhor, à espada
a cabeça destes malditos
que te desprezam
os corruptos os ricos
vorazes das carnes do pobre
faz justiça aos desvalidos

não te demores Senhor socorro
há aqui hemorragia
estanca a este a lepra
clareia a voz àquele
antes que também
os ouvidos se lhe esqueçam de ouvir

pois a tua mão é poderosa
e a nossa é mão
no fim dela há apenas dedos

vem Senhor e levanta-nos daqui
do vale deste sacrifício para o teu Reino

23/04/11

segunda-feira, abril 18, 2011

CINZAS

não há cinzas que bastem
para lá da chuva
para obscurecer sobre os oceanos
a respiração dos peixes
não há montanhas ainda
que as nuvens
parem, o vento sempre passa
e se move e toca com plumas
a terra e descansa-nos os pés

as cinzas existem
só na penumbra dos olhos
não têm mãos
para nos diluírem nos ares

nas há cinzas na tua Face
de brancura nem na tua Palavra
só esta nos basta
para lá da chuva
por dentro do mundo

17/04/11

domingo, abril 10, 2011

OS RIOS

Passam-nos por sob as bocas
os rios passam incólumes
e lá pousam as águas
onde deixámos os olhos
presos nas curvas dos cabelos 
e das coxas da amada

neles buscamos a paz 
que os vales cavaram
buscamos a paz 
que se entregou ao enlace
dos pensamentos trementes
nas centelhas de luz à superfície 
dando à luz o sol 

cavalos de pele lisa 
são as águas dos rios
afago nas bocas que queriam dizê-los
e ampliá-los em verbos e nomes

mas o que há neles são águas
quando os nossos olhos as tocam
e os lábios delas são magoados
é o corpo e a alma todos que nelas
nadam e passam e permanecem
inocentes

9/04/11

segunda-feira, março 28, 2011

NEM SÓ

“Não se vive só de pão, mas também de toda a palavra que vem de Deus”
Evangelho segundo Mateus 4:4


nem só de pão
do que os dentes arrebatam
à fome vivemos
há também as palavras

nem só de fandangos da noite
de vigílias quebradas nas mãos cheias
mas também dos silêncios
dos olhos que se perdem e rendem

nem só de paixão se faz a canção
faz-se de flores de pedra
e risos de dor faz-se enfim
sempre de palavras antigas
que nos vêm inteiras da boca de Deus
reditas em sempre
novas sílabas

28/03/11

sábado, março 19, 2011

AO CAIR DO PANO

Seremos felizes, meu amor,
ao cair do pano
quando as gotas da chuva
ocultarem os olhos
às máscaras do mundo

ao despirmos o colo
da morte das palavras
que nos restam, que nos ficam
para além do acto, para além da dança

por trás da cena, onde o pássaro,
já desnudo de cordas,
principia o voo
seremos felizes, meu amor,
especialmente felizes

onde deixar de haver o cá e o lá
e se extinguirem bastidores
plateia e palco

ao cair do pano
ao tombar dos véus

19/03/11

sábado, fevereiro 05, 2011

PARA O FIM

“Mas tu guardaste o melhor até agora!”
Evangelho segundo João 2:10


o mistério foi deixado para o fim
para a hora em que a atenção
lhe flui para uma estrela

para o fim deixou o aceno da vida
o abandono exacto de todo o cansaço
e a revelação nas mãos abertas
de um presente perfeito
para o seu amor

é no fim do rio
que mais o peito se lhe dilata
ao seu sopro nítido
e que os olhos mais se lhe abrem
para as bocas sagradas
da madrugada

para a última vindima
para os cachos do fim
guardou o acorde unânime
de todas as castas
no último cálice

no fim do banquete
à hora de fechar as canções
disse dum só fôlego
o melhor poema
aquele que só nessa hora
os ouvidos estão aptos
para entender


5/02/11

sexta-feira, janeiro 28, 2011

Europa anti-cristã

Petição


Diário da Europa da Comissão Europeia
Todos os anos a Comissão Europeia publica um Diário Escolar Europeu destinado aos estudantes de toda a Europa.
Foram publicados 3 milhões de copias do Diário de 2010/11 para serem distribuídos gratuitamente conforme requisição dos professores.
A versão actual deste diário não menciona nenhuma festa cristã, mas incluías datas festivas islâmicas, sikes, hindus e chinesas
Não refere por exemplo o Natal recentemente te celebrado por toda a Europa.
Porque é que esta omissão não é aceitável
O papel dos cristãos na construção europeia é um facto histórico inegável.
Como é que este Diário pretende informar os jovens sobre a Europa, removendo todas as referências ao cristianismo, negando a religião que contribui e muito para a unidade.
O cristianismo é a primeira religião na Europa. Este lapso é ofensivo para muita gente. A omissão de algo tão importante para as pessoas, a omissão de valores e crenças que as pessoas partilham é intolerável.
O Cristianismo não é só um factor religioso, mas também um factor cultural e fundamental da história e identidade de muitas nações europeias. Os feriados cristãos em particular o Natal e a Pascoa, são celerados na Europa por muitas pessoas e até por não cristãos.
Sejam quais forem as razões para esta omissão dos feriados cristãos no Diário Europeu 2010/2011, com esta petição exigimos
- Que a corrente versão deste Diário Escolar não seja distribuída.
- Que no futuro o diário mencione explicitamente os feriados cristãos.

Assinar aqui

quarta-feira, janeiro 12, 2011

DISCURSO XENÓFOBO

O discurso xenófobo tem incongruências, cretinices e desactualizações irresolúveis.

Um luxemburguês de extrema-direita, de sua graça Pierre Peters, publicou uns panfletos inflamados com o título "Auslänner eraus" (Estrangeiros, rua!). Entre os visados, pois claro, os Portugueses. E evidentemente: os estrangeiros são os responsáveis das maleitas do país.

Pois bem, que todos os estrangeiros deixem este país, e da posição de pódio de ranking mundial de PIB e de bem-estar passará para meio da tabela. Quem faria a "menage" a esse senhor, quem lhe lavaria a roupa, quem o serviria à mesa no restaurante, quem lhe lavaria o traseiro se de repente tivesse de ser internado no hospital e ficasse impossibilitado de o fazer por si próprio? Uhm… E já agora, os investidores financeiros internacionais saiam do Luxemburgo. E lá voltará esse país à condição de um Haiti da Europa e cliente privilegiado do FMI.

Não é tese defendida pela maioria os cidadãos e naturais deste país. Mas espanta-me como este discurso, no Luxemburgo ou em qualquer outro país (também o há em Portugal) ainda exista. Espanta-me tamanha falta de uso dos neurónios — para não falar do carácter racista, que é por si só motivo de vómito. Mesmo que nas franjas da sociedade, por vezes este discurso ressurge e a comunicação social dá-lhe destaque — e eis outra coisa que me espanta.


À SOMBRA DA FIGUEIRA

“«Antes de Filipe te chamar, quando estavas debaixo da figueira, já eu te tinha visto», respondeu-lhe Jesus.

Evangelho de João, 1:48


À sombra da figueira busca

a raiz do Livro da Lei

à sombra da lei da árvore de Israel

medita no lume aceso pelos cordeiros

no Templo na menorah que arde


à sombra da figueira

come a trama dos dias

e conhece de cor o aroma dos frutos


pastoreia os pensamentos tange-os

das letras para longe deste campo

passeia pelo Mar que o Senhor

fez os pais atravessarem

sem que uma gota de água

lhes molhasse os pés

e põe a mão sobre a cabeça

do último egípcio que ainda respira à tona


à sombra da figueira

faz morada no salão do palácio

onde crepita a voz e o ceptro

do Rei, o Messias que o povo espera

constrói um reino e desfaz impérios


Rui Miguel Duarte

11/01/11

domingo, janeiro 02, 2011

CONTAGEM

“Abraão lança os olhos

ao lume longínquo”

J. T. Parreira, “Contagem de estrelas”


Dissera Deus a Abraão

o pai de miríades de nações,

que contasse as estrelas

e contaria os pés

dos filhos

e dos filhos dos filhos


essas seriam as contas

amplíssimas das areias

mais do que as águas do mar

ao retirarem-se

diante das marés

dos filhos, das nações amplíssimas

do seu pai, avançando

sobre a palma da terra

e as costas dos oceanos

conquistadores dos continentes e ilhas


Abraão que contasse

que lançasse os olhos

na demora dos lumes

do céu


E Abraão contou


Abraão contou

os intervalos entre elas

Abraão contou os pêlos

da barba branca

e os intervalos

entre os cabelos

que lhe faltavam


24/12/10

sábado, dezembro 18, 2010

TERMÓPILAS


“Estrangeiros, vai contar aos Lacedemónios que jazemos

aqui, por obedecermos às suas normas”

Simónides de Céos, Epitáfio das Termópilas frg. 92 Diehl


Das longínquas Termópilas, estrangeiro

à passagem, Lacedemónios, vos escreve

ao ler à beira do caminho

da pedra fria esta inscrição breve


o silêncio pede um reconto,

que a salve da memória:

deste estreito onde só os heróis ousam

surge a lenda onde tombou a história


a lápide sepulcral não desprende gemidos

as letras nela gravadas são de memória brilhante

não as carcome o bolor nem o verdete

nem o tempo sobre ela é lume de um instante


dos trezentos de Leónidas que não hesitaram

lutar ou morrer para obedecer às vossas leis

recebei o testemunho, Lacedemónios, silente

e que admiração perpetuamente viva lhes celebreis


18/12/10

sexta-feira, dezembro 17, 2010

CRISTOLOGIA, CRISTOLOGIAS

A CRISTOLOGIA


A doutrina central do Cristianismo, e aquela que está no fulcro da sua constituição enquanto artigo de fé e sistema de pensamento retoricamente elaborado, é a doutrina de Cristo, ou Cristologia. Esta centralidade radica na própria fundamentação etimológica do Cristianismo, que é Cristo, só se entendendo esta porque ontologicamente esta pessoa, Cristo, é a “pedra basilar” do Cristianismo. Assim, Cristianismo e a definição do que é ser cristão não se definem pela profissão e admissão como revelados e verdadeiros de um conjunto de artigos, preceitos, princípios, teorias e costumes, mas pela resposta a uma pergunta fundamental, que tem precisamente no seu núcleo o Cristo: “Quem é Cristo para cada um?”

Desde os primórdios que a questão da natureza de Cristo animou acesos debates doutrinários, movimentações diplomáticas, jogos de poder e concílios. Nas suas diversas e subtis cambiantes, suscitou divisões, perseguições e excomunhões, esteve na base da fixação de ortodoxias e da delimitação de heresias.

Serão apresentadas em síntese as várias doutrinas cristológicas da antiguidade cristã. O propósito é o de situar os debates e abrir portas para a compreensão de como que fixou uma doutrina e da multiplicação dos seus avatares até aos dias de hoje.


CRISTOLOGIA NAS SAGRADAS ESCRITURAS


Não será exagerado dizer que o principal texto definidor de uma cristologia puramente bíblica é o prólogo do Evangelho de João. Dir-se-ia a condensação de uma cristologia completa: aí o logos é identificado com a pessoa de Jesus Cristo, sem ser explicitamente designado, com Deus; por outro lado, é proclamada a sua humanidade. Esta cristologia é comum a outros textos e autores do neotestamentários, como se verá.

Assim, a afirmação da natureza divina surge claramente afirmada: este logos é Deus (1:1 θεὸς ἦν ὁ λόγος). É o logos incriado, mas entidade criadora, responsável única pela integralidade da criação (vv. 3) e que o evangelista teria por certo concebido à luz de Provérbios 8:22-26: a sabedoria, primeira obra de Deus, e arquitecta e engenheira da Sua criação.

Com a concepção do Cristo como o logos, João introduziu a questão da natureza de Cristo num contexto mais lato de debates teológico-filosóficos, vivos no seu tempo, que precederam a Encarnação e não se extinguiriam com o Pentecostes, situando a manifestação e revelação de Cristo como aquela que esclareceria de uma vez por todas a verdade acerca de Deus. As referências seriam provavelmente o estoicismo, o gnosticismo e as exegeses do tipo da do rabino judeu helenista Fílon de Alexandria (ca. 20 a.C. — 50 d.C.).

Precisamente Fílon, partindo da distinção dicotómica platónica entre os dois mundos, o perfeito (das Ideias e de Deus), e o material, imperfeito, reconhece a existência de um hiato intransponível entre os dois mundos, que impossibilita toda a comunicação entre os mesmos, e postula a necessidade de um nível de seres intermediários que servissem de ponte. O logos seria o grau mais supino destes seres, e Fílon chama-se “o primogénito de Deus”. Este logos seria um demiurgo, um ente criador. A figura do “anjo do Senhor” do Antigo Testamento seria para Fílon o logos de Deus. A este título, o que o prólogo de João pretende é estabelecer a perfeita divindade de Jesus Cristo.


Outros passos do Evangelho de João poderiam ser aduzidos em suporte da cristologia divina. Por exemplo, as declarações teonímicas aplicadas a Si próprio: Ἐγὼ εἰμι (ego eimi) — estas são as palavras registadas pelo autor do Evangelho dos ditos de Jesus, tradução grega do tetragrama IHWH, e que expressam em grego o mesmo que em português “sou eu” (simples declaração de identidade) ou “eu sou”, a declaração teonímica dada pelo próprio como Seu nome identificador exclusivo (cf. Êxodo 3:14–15). A expressão ocorre seis vezes neste evangelho: 8:24, 28, 58; 13:19; 18:6–7 (bis). Os três primeiros versículos citados situam-se numa contenda verbal com religiosos judeus. Jesus afirma aí a Sua identidade divina, tenda as reacções dos ouvintes sido de dois sentidos contrários: uns creram nele, outros rejeitaram-no e tentaram apedrejá-lo. Em 8:58, Jesus, à declaração de identidade, acrescenta que a ela era anterior à de Abraão. Em 18:6-8, o momento da anagnórise de Jesus, ao identificar-se perante os soldados que o que o procuravam no Getsêmani para o prenderem. Ao ouvirem a resposta de Jesus, os soldados caíram por terra, como se atingidos por vendaval.

Esta declaração de Jesus acerca de Si mesmo não se acha apenas, porém, no Evangelho de João. No de Lucas, 22:70, perante o tribunal judaico, a uma pergunta sobre a Sua identidade como Filho de Deus, transferiu o ónus da resposta para os próprios interrogadores, reiterando deste modo indirectamente a sua identidade: ὑμεῖς λέγετε ὅτι ἐγὼ εἰμι (hymeis légete hóti ego eimí) “Sois vós que dizeis que eu o sou!” No relato do mesmo episódio em outro sinóptico, Marcos 14:62, a declaração aparece também. Tratando-se do nome divino, o nome que nenhum ser humano poderia ter o atrevimento de pronunciar, muito menos aplicando-o a si mesmo, não será difícil de compreender, em virtude da mentalidade judaica comum, seria impossível outra reacção da parte dos sacerdotes e líderes religiosos que não a de indignação, escândalo e feroz cólera perante aquilo que, face aos seus princípios, seria a pior das blasfémias: que um homem se equiparasse ao Deus Eterno e Todo-Poderoso.

Merece também menção a este propósito a exaltação cristológica do hino transcrito por Paulo, na Carta aos Filipenses (2:6-11). Nele, Jesus Cristo é proclamado Κύριος Kyrios, “Senhor”, título que expressava a noção contida no hebraico Adonai, ou no tetragrama. Designar Jesus Cristo como tal implicava atribuir-Lhe natureza e dignidade divina. A visão de todas a criaturas ajoelhadas em sujeição a Jesus Cristo é uma paráfrase exegética de Isaías 45:23-24. Nesse passo, é IHWH (tradicionalmente traduzido em plenas maiúsculas como “SENHOR”) quem fala, anunciando que perante Si mesmo será essa sujeição. A exegese é inequívoca: IHWH é Jesus Cristo.

As declarações da identidade divina de Jesus, registadas pelos autores neotestamentários, serviriam pois para afirmar que a divindade de Jesus Cristo era a do próprio IHWH e que Jesus Cristo é o próprio IHWH, não uma segunda divindade e de inferior categoria.


A figura do demiurgo, como criador deste mundo e personagem distinta do Deus supremo, teria fortuna no gnosticismo, corrente cristológica mística e iniciática, fortemente influenciada pelas escolas filosófica platónica e pitagórica. Também estes estabeleciam a separação inconciliável entre os dois mundos. Se Cristo é divino, não pode ser humano, porquanto o perfeito não se pode manifestar nem tão pouco se misturar com o imperfeito e corrupto. Seria um ser puramente espiritual, sem nada de humano. E aqui surge o ponto a clarificar: o logos divino, porém, adquiriu natureza humana (v. 14). Tornou-se homem, “carne” (σάρξ sarx), e viveu no meio de homens. Precisamente este passo do livro de Provérbios, admitindo-se que se refira a Cristo, tem sido invocado em suporte de concepções diversas acerca da natureza deste. Os debates com os religiosos judaicos (e os Evangelhos em geral) transcritos pelos evangelistas têm a evidente virtude de circunscrever Jesus à humanidade, na sua vida e interacção com os outros seres humanos. A rejeição da encarnação, da humanidade de Cristo é, para João (cf. 1 João 4:2), marca distintiva do espírito do Anticristo. Assim, tanto o prólogo do seu Evangelho como a sua primeira epístola teriam como propósito estabelecer inequivocamente advertir a Igreja contra as doutrinas gnósticas, que desde cedo iam minando por dentro a saúde e unidade espiritual. Tanto quanto declara a divindade de Cristo, o hino da carta aos Filipenses afirma igualmente a sua humanidade, uma humanidade assumida na plenitude, em detrimento do uso de todas as prerrogativas da Sua divindade (vv. 6-8).

O logos do prólogo do Evangelho joanino, o criador de tudo sem o qual não do existe foi criado, está em harmonia com as restantes declarações cristológicas deste Evangelho e de outros livros do Novo Testamento. Este logos criador não é pois um mero demiurgo inferior e intermédio, mas o próprio Deus.


Em terceiro lugar, logos era a razão activa do universo e que o anima. Material, era frequentemente identificado com Deus e a Natureza. O logos seria assim como que a anima mundi, o princípio activo e sustentador do universo. O ideal de vida estóico era a conformidade com esse princípio. Esse logos estaria disseminado em todas os seres, incluindo nos humanos. Todos conteriam em si uma parte, uma “semente” de desse logos. Neste sentido se falava λόγος σπερματικός (logos spermatikós) “logos seminal”. Esta doutrina do logos influenciaria Fílon de Alexandria e a Literatura Patrística. Justino Mártir (m. 165 d.C.), por exemplo, colocou-a na ligação entre a velha filosofia helenística e o Cristianismo, que retoma a tese do λόγος σπερματικός. Também com os estóicos e o seu logos parece, pois, debater o prólogo joanino: o logos, esse princípio animador do universo, seria efectivamente Deus, o próprio, o criador e sustentador de todas as coisas.

quinta-feira, dezembro 16, 2010

ANTI-NARCISO

“Donec eris felix multos numerabis amicos”

Ovídio, Tristia 1.9.5


Enquanto fores

algo mais do que uma nuvem

e te não contentares

com a chuva no rosto

mas tiveres nas mãos a chave do sol

e fores o deus dos espaços largos


não te contarão entre os que

cavam a terra com os dentes

enquanto fores

nos teus lábios

o espectro do arco-íris


porém, quando fores poeta

deixarás de ser rico

para ser só poeta


livra-te

de te encantares com o canto

e o allegro em plena orquestra

não te assombres do aplauso

dos teus amigos, muitos


ainda terás

as pedrinhas lançadas ao rio

contadas uma a uma

e por céu as águas


baste-te isso

reconhece-te nelas

como o teu reflexo


15/12/10

quarta-feira, dezembro 15, 2010

OS LÍRIOS


“Reparem como crescem os lírios do campo! E eles não trabalham nem fiam. Contudo digo-vos que nem o rei Salomão, com toda a sua riqueza, se vestiu como qualquer deles.”

Evangelho de Mateus 5,28-29 (versão A Bíblia para todos)


Falo-vos da corola

dos lírios

como as fímbrias do manto

do rei

assim foram vestidos


que rei alguma vez

fia o seu próprio manto

ou precisa de apressar o olhar

para o interior de todas as montras

nos centros comerciais

em busca de trajo

em busca de um vestido de noite?

os reis vestem constante

trajo de gala

todos os seus gestos são

liturgia de fausto e cerimónia


e os lírios,

alguma vez soubestes

que precisem de estugar o passo

de se precipitar na descida

para o metro não vão os pés diferir-lhes

as horas, ou sejam devorados nos magotes

das gentes?


alguma vez ouvistes

que tecem a malha das pétalas abertas

ou a trama do seu destino

os lírios?

não elaboram o tempo

a procurar terra bastante

para as raízes


diante deles

empalidece o ouro

do manto de Salomão


mostro-vos os lírios,

que vos tocam com cores limpas

as mãos

são um pequeno sol

na largura dos campos

que vos pudesse amanhecer

o coração



Rui Miguel Duarte

9/12/10


sábado, novembro 27, 2010

TRATADO DA SABEDORIA E DA IGNORÂNCIA




O apologeta cristão Clemente de Alexandria (circa 150-215 d.C.), um dos escritores da mas alta intelectualidade dentre os Pais da Igreja (procurou harmonizr a verdade da fé cristã com o pensamento filosófico) escreveu que o pecado deriva da ignorância e resolve-se pelo conhecimento de Deus e pela bondade. Assim com Adão, que pecou ao ter fugido da educação divina. O primordial problema humano seria pois um problema de ignorância.

Assim ele se posicionou na sua polémica com o Gnosticismo de Valentim. O Gnosticimo era uma corrente doutrinária e de conduta surgida nos meios cristãos e cuja actividade as cartas neo-testamentárias, especialmente as de João, já denunciam. Eivada de filosofia helenística, influenciada sobretudo pelas radicais dicotomias "espiritual versus físico", de extracção platónica e pitagórica, advogavam que o conhecimento (gnosis) era o veículo que conduzia à plenitude, não a salvação nem o arrependimento, nem o novo nascimento. A gnose consistia na aquisição de conhecimentos secretos, misteriosos, iniciáticos, profundos, os verdadeiros conhecimentos, que se encontravam para aquém e para aquém das doutrinas correntes comuns. Estava pois apenas acessível a alguns, os que aderissem ao grupo, seus preceitos e fundamentos, e seguissem as suas normas de conduta.

A oposição que Clemente de Alexandria desenvolve ao Gnosticismo retoma os meus termos do antagonista: fala em conhecimento, e no cristão gnóstico, mas com distinções e inflexões de sentido: há um verdadeiro Gnosticismo e um falso. O falso é o dos Gnósticos. O verdadeiro é o cristão. Aqueles opunham fé e conhecimento e privilegiavam este; Clemente harmonizou-os: fé constitui a base de todo o conhecimento. O conhecimento, a filosofia por sua vez dá instrumentos de fundamentação racional ao Cristianismo, que lhe permitem posicionar-se em superioridade face os adversários intelectuais. O conhecimento ajuda a compreender as razões daquilo em que se crê. A fé confere salvação, mas o conhecimento torna o homem perfeito e torna-o um “cristão gnóstico”.

Sempre pensei, desde que me abracei a fé cristã, que o problema “homem” era o próprio homem e a sua índole. Antes mesmo já o pensava. A história humana estava lá, para o atestar. O “pecado”, como a Bíblia o qualifica. A perversidade, a maldade, a corrupção, o egocentrismo, variante mais estrita do antropocentrismo. Portanto, um problema de natureza, da physis, do ser, da ousia,. Conhecimento? Não seria mera cosmética, que embeleza a casca, quando a organismo padecia severamente na sua saúde (lembro-me aqui das dicotomias socrático-platónicas)? Mera transferência de responsabilidades? A equação de Clemente de Alexandria fez-me contudo pensar que de outra perspectiva, e voltar à fonte bíblica. Essa ideia não seria de todo descabida. É verdade que em seu entender o pecado não se perpetua pela hereditariedade, mas pelo exemplo. E que a sua concepção de gnose e a ênfase nesta são em não pequena medida subsidiárias das dos Gnósticos. Cristo é o bom médico, que comunica uma medicina que é a gnose salvadora, através da qual conduz os homens do paganismo à fé e desta ao conhecimento mais perfeito. Todavia, parece possível achar alguma relevância na inflexão de Clemente, designadamente se se fizer o essencial, que é a definição exacta dos termos, em geral e em particular, no todo e nas partes. De que se fala, de que fala ele quando fala de “conhecimento”?

A gnose clementina não consiste no conhecimento puramente intelectual (embora este seja necessário), nem esotérico, mas na busca de perfeição moral. Se o pecado se resolve pelo conhecimento de Deus, o seu império depende da ignorância e da alienação em relação a Deus. Este é o entendimento inferível de vários passos das Escrituras. No NT, em Actos os Apóstolos 17,30, I Coríntios 15,34 e Efésios 4,18 o pecado é assimilado à ignorância de Deus, constituindo consequência desta, e ao mesmo tempo causa dela, num ciclo vicioso. É bem célebre a declaração de Deus no livro do profeta Oseias (4,6): “O meu povo está destruído, porque não me reconhece” (versão BPT). Tão célebre quanto a que o próprio Jesus pronuncia, e que vai no mesmo sentido (Evangelho de João 8,32): “Conhecerão a verdade e ela vos tornará livres”. Relacionando esta última com outra declaração, muito arrojada, de Jesus (ib. 14,6), em que Se afirma como a “verdade”, facilmente se entende que a estrada da plenitude, da liberdade está no conhecimento do próprio Jesus, e de Deus, que é Jesus.

Estando prestes a expirar, Jesus dirigiu ao Pai uma súplica em favor daqueles que o haviam condenado à morte e que sobre esta festejavam (Evangelho de Lucas 23,34): “Pai, perdoa-lhes, que não sabem o que fazem”. No estertor da morte, a não dirigiu a atenção para o pecado dos carrascos, não se irou nem se deprimiu por cause dele. Viu no pecado o problema mais remoto da ignorância. Isto não dirime a culpa dos carrascos, mas coloca-a numa outra perspectiva: a culpa existe, e por consequência o pecado, e consiste em se ignorar. Sim, aquelas gentes ignoravam Deus, pois se O conhecessem teriam reconhecido Jesus. E se ignorava Deus ignorava tudo quanto Deus é e Jesus mostrou com a sua vida: amor, graça, dádiva gratuita. Não sabiam quem era Deus, não o conheciam, e de si mesmas eras desconhecidas. Um viciado na droga, no álcool ou no jogo precisa de cair em si e se reconhecer como é, a sua imagem fielmente reflectida num espelho. Ao renunciar a alimentar o seu coração com uma imagem de si mesmo criada na sua mente para consumo próprio, como estratégia de auto-desculpabilização, reconhecer-se-á como aquilo que é, viciado, pobre de espírito, necessitado, carente, prisioneiro no fundo de um poço, limitado, inepto, humano. Ao confrontar-se com o próprio “eu”, levantará as mãos em clamor pela ajuda de uma terceira mão, que o arrancará da prisão em que o seu ser se acha. Essas gentes não eram capazes de enxergar um palmo diante dos olhos, para além da neblina mental, teológica e emocional que criaram, e recusavam-se a mirar-se noutros espelhos à excepção desses de feira, que distorcia a imagem reflectida, representando a sua obesidade como uma elegância de top model, que esbatia as rugas exibidas pelos seus rostos, que os fazia parecer mais altos do que eram.

O versículo 10 do Salmo 111 resume-o lapidarmente, constituído a fundação do livro dos Provérbios: “O princípio da sabedoria é o temor do Senhor; todos os que assim fazem têm entendimento.” Temer a Deus, crer n’Ele, honrá-Lo o suficiente para fazer d’Ele e da Sua Palavra o guia da vida, com renúncia ao próprio entendimento, ao próprio conhecimento, às glórias próprias e considerá-las como vaidade e escória (cf. Filipenses 3,8) em comparação com o conhecimento de Cristo — aí está o começo da sabedoria. O conhecimento de Deus não teórico, mas o Deus manifesto em amor, o coração e não no intelecto (Efésios 3,19). “Conhecer”, no sentido hebraico, que implica contacto íntimo, mesmo sexual, como entre os esposos. O Logos que se fez carne, e se faz carne, em nós. O desprezo destas coisas, pelo contrário, é causa de ruína.

quinta-feira, novembro 25, 2010

PAULO DE TARSO NA PRISÃO

“… A golpes de paixão, tento passar…”

Miguel Torga, “Emparademento” (in Orfeu Rebelde)


Emparedado tentei

já desfazer as cadeias

que me puseram no degredo

as mãos e os pés

estão unidos com os ferros

e transmitem à boca o pedido

de um grito

que a noite eleve

para lá das grades

ao terceiro céu, e que

me traga a frescura do consolo


pois sei que as cadeias não são negociáveis

para os que seguem Cristo,

nem tão pouco feitas perpétuas

ou elas cedem, ou o muro cede

doem afinal ainda menos

do que o desespero

de se terem incrustado

nas mãos e nos pés,

do que um destino tumular


das cadeias do meu avesso,

que me esmurra

como um doido varrido e que

a golpes de paixão, tento passar


é aí, no recesso

que mais emparedado estou


por durante um minuto

ter desaprendido

de cantar


16/11/10

domingo, novembro 07, 2010

PLATONISMO NO CRISTIANISMO

Estou aprender muito com o ensino de História da Patrística na Universidade Lusófona do Porto. Inclusive, o quanto há de platonismo (ou na sua versão mais grave religiosa do neo-platonismo) e da sua constituição dualista no Cristianismo, católico, protestante e evangélico, ainda nos tempos hodiernos.

domingo, outubro 10, 2010

QUE DIREIS AOS POBRES?


Que direis aos pobres
ao vo-los anunciarem às vossas portas?
vêm incógnitos batidos das marés
das gentes, e se incrustaram
na crista do vosso olhar

serão somente poeira acumulada
à passagem de milhões de pés?

que direis aos que a própria terra
sorve de fome lentamente
a quem o céu sonegou as chuvas
aos traídos do vento,
aos que bebem no fundo
da misericórdia a sopa às gotas

que direis àqueles a quem oprimis
para vos engrandecerdes vos elevardes
acima dos bicos dos vosso pés?

que lhes direis, a esses
a quem vos foi ordenado que lhes désseis
de comer e a quem o prato
cheio de nada lhes retirais?

Que direis aos pobres?

9/10/10