quinta-feira, novembro 19, 2009

NO HELESPONTO, XERXES




“Assim que viu o Helesponto inteiro recoberto de navios, todas as suas margens e as planícies de Abidos cheias dos seus homens, Xerxes considerou-se a si próprio afortunado, mas em seguida chorou.”
Heródoto, Histórias VII, 45


Do alto do meu trono
o meu olhar voa de mim
e entrelaça as duas margens
desta passagem
do Helesponto para a Hélade,
pequena janela que se abre imensa
para a promessa de glória

O meu olhar plana então
sobre estas plagas e campinas
atapetadas de milhões de navios cavalos e homens
que, pintados de todas as nações da Ásia e do Egipto
e estampados do brilho do aço das armas,
eriçam os estandartes em saudação à minha glória
à glória do Divino Príncipe da Pérsia

De dentro da voz de júbilo
decreto que eu, Xerxes, sou mais do que abençoado

Mas para além de até aonde pode o olhar adejar
não descortino toda a terra, nem possuo todo o mar
Há um aviso um arrepio um pio de pássaro

O meu olhar foi finalmente visto
regressar à sua morada e decantar em lágrimas
este estreito tão estreito que me aperta a traqueia

Pois não há reis
que ocasionalmente se não prostrem
à enfermidade e à dor
também eles contam a terra e as pedras
com que têm coberto os seus amados
Rompendo a janela da minha glória
o meu olhar abre a porta da vertigem
mais funestamente desejada do que todo o ouro
a vertigem altaneira
da morte

No meu espírito fala
uma voz dalém das orlas do tempo
Lê um epitáfio inscrito num mausoléu:
“Aqui jaz Xerxes da Pérsia Rei dos reis
no Olimpo anelou o Hades
foi a primeira flor nascida da Primavera
por mão ceifada em pleno Verão
conquistador da terra
hoje servo debaixo dela.”

E prossegue:
“Cem anos e destes milhões
só se contarão as areias das praias
serão meros pontilhados numa tela
tinta fresca na pena de um contador de histórias.”

12/11/09

Publicado ineditamente em Poeta Salutor, por gentileza do poeta J. T. Parreira

domingo, novembro 15, 2009

EXISTIR

Existir, segundo o significado etimológico da palavra, é estar fora de nós próprios, ex-sistere.

Há pessoas que são como planetas que só conhecem movimentos de rotação: entra dia e sai dia e o mundo delas revolve-se num entediante movimento centrípeto, sempre e somente em torno de si próprias. Pessoas egoístas, possessivas, excessivamente centradas em si próprias e nos seus interesses, não existem realmente. Não conseguem sair delas próprias. São como rosas que nunca abrem, fontes que nunca nascem, estrelas que nunca brilham. Não participam das mil e uma vidas que existem fora delas – mais, para elas não existem outras vidas, só a sua.

Existir, ex-sistere, implica sair de si próprio! E o maior êxodo é aquele que é feito para fora de si mesmo.

Sair de si próprio provoca um descentramento. O centro geométrico muda à medida que o outro começa a ocupar a sua atenção: começa a dar-se, a repartir-se, a semear-se nos outros. O grão de trigo, se não morrer fica só; mas se morrer, se sair de si próprio, passa a existir como pão que alimenta

Sair de si próprio implica arriscar – arriscar-se a sair para um mundo-outro onde nada é costumeiro, habitual, familiar. Enquanto permanecer no útero em que foi concebido – esse seu habitat natural em que a vida se foi desenrolando – nunca conhecerá outros desafios e novas dimensões de vida. As novas harmonias já foram dissonâncias; as novas descobertas já foram impossibilidades; as novas ideias já foram silêncios; o romance e a poesia já foram páginas em branco. Há que arriscar!

Sair de si próprio faz aumentar o horizonte de esperança. A vida deixa de estar limitada aos nossos poucos recursos e à nossa pequena dimensão. O nosso horizonte de esperança aumenta ao percebermos que existem outras ideias, outros dons, outros contributos, outros sonhos que fazem o mundo avançar e pular.

O maior desafio da vida é existir.


sexta-feira, novembro 13, 2009

ROBERT ENKE (1977-2009)


O Outono vestia-se de chuva e alguma neblina
era o cenário indicado para dar
ao silêncio o devido descanso

Pendura literalmente as chuteiras lavadas
deixa a carta à mulher com um beijo
sobre a mesinha baixa da sala,
essa em que dispuseram tantas angústias

Dedilha os cabelos da pequenina Leila
e o pêlo de um dos seus cães

Conduz o carro o derradeiro quilómetro
até onde a via férrea era recta
pois assim o comboio passaria
à velocidade máxima
sem haver como errar
a colhida

Alinha-se na baliza das linhas
oferece ao silêncio um segundo
de domínio, um só
De braços abertos
na postura do guarda-redes
para receber a bola de luzes e aço
o último penalti que não defenderia

13/11/09

quinta-feira, novembro 12, 2009

O CHORO DO REI


Assim que viu o Helesponto inteiro recoberto de navios, todas as suas margens e as planícies de Abidos cheias dos seus homens, Xerxes considerou-se a si próprio afortunado, mas em seguida chorou. Ao aperceber-se disso, Artábano, seu tio paterno, aquele que anteriormente exprimira livremente a opinião de que não era recomendável marchar contra a Grécia, esse homem, ao notar que Xerxes chorava, disse-lhe: «Ó Rei, quão díspar é a tua atitude de agora e a de há muito pouco! Primeiro, declaras-te a ti próprio afortunado, agora choras!» «É que me veio à mente – disse ele – lamentar a brevidade de toda a vida humana, pois, dentre toda esta grande multidão de homens que aqui estão, dentro de cem anos, nem um único sobreviverá.»

Heródoto, Histórias VII, 45-46

Xerxes, rei da Pérsia (entre 485 e 465 a.C.). É o Assuero do livro bíblico de Ester. Como todos os monarcas do imenso império persa, era designado "Rei dos Reis" (Shāhanshāh).

Dario o Grande, seu pai, falhara a invasão da Grécia (derrota em Maratona em 490), mas Xerxes decidiu continuar. Heródoto relata como esse rei orgulhoso, para passar o estreito do Helesponto (actual Dardanelos), manda construir pontes. Uma tempestade destrói-as, e o Rei, irado, manda executar os responsáveis pelas obras e, pior ainda, castigar o próprio mar. O castigo consistiu em repreendê-lo, dar-lhe trezentas chicotadas, lançar às suas águas duas penas e marcá-lo com ferros em brasa.

No auge do orgulho e da glória, ao contemplar as multidões dos seus exércitos e hostes de mercenários múlti-étnicos, deixa-se tocar por um sentimento de trágico próprio do pensamento grego. Lembra-se de que é um mero ser humano e chora, pensando que ele e os seus homens, enquanto humanos, têm uma curta vida. Artábano, seu tio paterno, que o aconselhara a não marchar contra a Grécia, vê-o chorar, e tem com o rei um diálogo sobre a vida humana, as calamidades que a atingem e o desejo que a todos num ou noutro momento toca de preferir a morte à dor de viver.

Morreria assassinado às mãos deste mesmo tio materno.

Não discuto aqui até que ponto há no episódio e no diálogo história, lenda, retoque literário dado por um espírito em várias ocasiões preocupado em transmitir testemunhos. A meditação sobre o humano, o tema e natureza do diálogo, no entanto, são muito próprios da sensibilidade helénica (já notórios na épica homérica, bem como em outros géneros poéticos e no trágico). Phthoneron theion: a divindade invejosa, que cerceia ao ser humano a delícia da vida, e a abate, por vezes cruelmente, pois só a ela, a divindade, está reservado ser makar, bem-aventurado.

E não só, são sentimentos transculturais, pois podem ser lidos em confronto com passos de livros bíblicos, como os de Job ou Eclesiastes.

domingo, novembro 08, 2009

CAIM E ABEL

E aconteceu ao cabo de dias que Caim trouxe do fruto da terra uma oferta ao SENHOR.
E Abel também trouxe dos primogénitos das suas ovelhas, e da sua gordura; e atentou o SENHOR para Abel e para a sua oferta. Mas para Caim e para a sua oferta não atentou. E irou-se Caim fortemente, e descaiu-lhe o semblante. E o SENHOR disse a Caim: Por que te iraste? E por que descaiu o teu semblante? Se bem fizeres, não é certo que serás aceito? E se não fizeres bem, o pecado jaz à porta, e sobre ti será o seu desejo, mas sobre ele deves dominar. E falou Caim com o seu irmão Abel; e sucedeu que, estando eles no campo, se levantou Caim contra o seu irmão Abel, e o matou.
(
Génesis 4:3-8).


Disse José Saramago que já desde há longa data achava a história bíblica da rejeição divina do sacrifício de Caim uma história mal contada. Finalmente, a concepção ganhou substância, deixou a mente e passou para o papel. E assim veio à luz o romance-tese Caim.

Suspeitei que algo houvesse nesse relato, sobretudo pelo não-dito, susceptível de fazer germinar a dúvida, o questionamento. Que fizesse suspeitar que esse Deus seria de facto arbitrário e governados pelos humores hepáticos, e que seria imparcial. Não que de facto eu cresse que esse fosse o carácter deste Deus – bem pelo contrário –, mas coloquei a questão prévia de saber se o texto permitiria essa leitura.

E reli o episódio.


*****


Lembrei-me dos meus tempos em que era professor em exercício. E o meu espírito viajou para uma sala de aula, onde uma turma de alunos trabalhava. Nessa turma, havia dois irmãos, Caíque e Alberto. Embora gémeos, eram diferentes como a noite e o dia. Nesse dia, o Dr. Elias de Deus, o professor, trazia os trabalhos classificados para entregar aos alunos. Chamou-os um por um, e entregou-os, com um pequeno comentário (remetendo embora para a apreciação escrita). O menino Alberto entregara um trabalho impecável: cuidado na apresentação, caligrafia bem desenhada, sem uma rasura; as margens respeitadas, sem que uma haste de letra ou um hífen a transpusesse; linhas de intervalo entre os títulos e corpo de texto; abertura de parágrafos avançada ao milímetro; fontes consultadas e referidas com os devidos créditos; texto redigido com esmero. Notava-se que o aluno levara a sério a tarefa, a disciplina, o trabalho e o próprio professor. Tendo em conta não apenas as capacidades e o grau de domínio das competências programáticas por parte do aluno demonstrado neste trabalho, e com especial menção o empenho e dedicação postos na sua elaboração, o trabalho colheu a aprovação do professor e mereceu-lhe um 18.

Já o irmão não era menos destituído de inteligência, talentos e capacidades de aprendizagem, ainda que em áreas distintas das do irmão. Caíque desejava seguir veterinária, ao passo que Alberto sonhava ser engenheiro agrónomo, ou enólogo. Tinha Caíque, porém, grandes diferenças em relação ao irmão. Não levava muita coisa a sério na vida. Sabia que para conseguir o queria da vida tinha de estudar, mas isso mais não era do que uma maçada e uma obrigação para ele, ter nota e o diploma ao fim eram tudo quanto lhe bastava. Tinha de estudar e tirar o curso, mas o caminho tinha de ser sem escolhos e com o mínimo de esforço. Cabular não era motivo de vergonha ética para ele, apenas um expediente técnico, um atalho, um meio perfeitamente justificado pelo fim. E apresentou um trabalho que era o espelho perfeito da sua postura e carácter: redigida à pressa, descuidado na apresentação, caligrafia com rasuras. Dir-se-ia que o tinha feito de véspera, a correr, pois tinha de estar pronto antes do jogo do Porto na televisão, imperdível. A despeito das capacidades do aluno, o Dr. Elias de Deus não podia deixar de ser justo e dar a nota adequada de acordo com o mérito: deu-lhe 8.

O negligente Caíque, cuja vida se regia pela máxima de que o caminho mais curto entre dois pontos é a recta, que em tudo se comparava com os outros, ressentiu-se da apreciação do professor. Queria o sucesso dos outros mas sem pagar o necessário preço. Considerava que o professor tinha sido injusto. Que professor difícil de agradar! Como nada podia fazer contra ele, teve inveja do irmão. E rosnou um outro queixume contra ele (“Que era sempre o Alberto, que se calhar ele nem era tão dotado quanto o Alberto, mas ao menos fizera o seu melhor – ou pelo menos o que pensava ser o seu melhor – e se isso não fora ). O Dr. Elias de Deus tratou logo de pôr água na fervura nas emoções que avassaladoramente perturbavam o rapaz, e de fazer um pôr em acção um pouco da necessária psicologia educacional:

– Caíque, para singrares na vida o caminho é esforçares-te. Terás novas oportunidades, no próximo semestre, com novo trabalho, e no exame. Faz assim e serás aprovado. Ficares furioso com o teu irmão não te fará aumentar a nota e nada te trará de bom. Essa oportunidade também a tens: dominar a tua ira. Também nisso está o crescer e ser aprovado.

O professor apresentou, como era regulamentar, relatório escrito circunstanciado de justificação dos casos de níveis inferiores a 10 (vulgo “negas”).

Os olhos e o coração de Caíque estavam vermelhos de raiva, e as palavras do professor, longe de os aplacarem, funcionaram mais como gasolina derramada no fogo. O seu senso de justiça própria não conhecia alternativa. No regresso a casa no fim de mais um dia de escola, pretexto de convidar o irmão a irem ter com umas miúdas com quem tinha marcado encontro, desvia-o para um lugar isolado. Joga-o ao chão, à traição.

Soube-se depois que o corpo de Alberto foi achado sem vida.

Dr. José Saratogo, o director executivo da escola, chamou o Dr. Elias de Deus ao seu gabinete. Fazia-lhe espécie a avaliação do docente aos dois alunos. Não compreendia nem aceitava o que entendia como descriminação do aluno Caíque em relação ao Alberto. Nem o fratricídio mudou alguma coisa ao juízo do Dr. Saratogo, homem que se prezava de pensamento heterodoxo e independente, e que se pautava por padrões muito próprios e pouco subsidiários do senso comum. A recepção ao docente foi pouco amigável, mas lacónica e esclarecedora:

– A senhora mãe do colega, a despeito do seu modo de vida que muito deve à virtude, ainda assim não desmerece do carácter ainda mais torpe do seu filho, o caro colega. O colega é o único culpado do acto desesperado do pobre Caíque. Como pode o senhor cometer tão grosseira descriminação? O colega, como professor, não é de fiar. O relatório que apresentou não passa de um manual de maus costumes pedagógicos. Aliás, professores como o senhor não existem. São produto inventado de mentalidades reaccionárias. E fique a saber que vou instituir o devido processo disciplinar ao colega!


*****


Regressei à Bíblia e às afirmações de José Saramago. Na li nem em abono da verdade tenho especial vontade de ler o romance Caim. Restrinjo-me pois ao que disse na ocasião e que o vincula, enquanto homem e pensador, a uma determinada tese a respeito da Bíblia, de Deus e do Deus da Bíblia.

A releitura do episódio bíblico de Caim e Abel não podia ter sido mais clara e cristalina. Lê-se que Caim ofereceu uma oferta e Abel outra. Da de Caim nada nos é dito sobre a sua qualidade: se foi excelente, boa, sofrível, medíocre, suficiente ou má. Simplesmente uma oferta. Da de Abel, todavia, lê-se que consistiu numa oferta das primícias e da gordura.

Entre os povos pagãos que praticavam a oferta de sacrifícios animais, a gordura tinha de pingar. Recentemente, no almoço convivial após culto de baptismos das igrejas filiadas na Aliança Evangélica do Luxemburgo, em Remerschen (no rio Mosela), assavam-se carnes várias na brasa. Um irmão brasileiro levara picanha. Servi-me de uma bela fatia e pus-me a separar cuidadosamente a gordura da carne – como é meu habito, pois sempre me repugnaram gordura e nervo. O irmão brasileiro sentenciou:

– A gordura é o melhor da picanha.

A qualidade da oferta de Abel era pois a melhor: não só deu a Deus o melhor da carne (a gordura), como deu das primeiras crias nascidas. Pôs o seu cuidado em honrar a Deus com o melhor que tinha e antes de pensar no sustento próprio. Assim se compreende que a sua oferta tenha honrado e agradado a Deus.

Em contraste, a omissão quanto à qualidade da oferta de Caim permite intuir que o zelo esteve ausente, que se tratou de uma simples oferta. Feita segundo a mentalidade medíocre segunda a qual “o que conta é a intenção”. Como se não houvesse solidariedade entre a intenção e a oferta consumada. Com efeito, para Deus, o Senhor, tudo quanto não é o melhor não passa de resto. Não há o segundo nem o terceiro melhor, apenas o melhor e o resto. Não partilho, de modo algum, numa exegese corrente, segundo a qual a oferta exigida por Deus era de sangue. Com efeito, na Lei levítica, admitiam-se ofertas de outro tipo que não apenas o de animais. Estas fariam sentido se se tratasse de ofertas de expiação pelo pecado. No caso de Caim e Abel, nada nos é dito sobre o tipo de ofertas em questão. Parece pois que o que esteve em causa foi a intenção, a atitude dos ofertantes, e como esta se traduziu em termos práticos, tão-só isso. A oferta de Abel representa a consagração a Deus do melhor dos seus fiéis, a expressão visível do amor e temor que Ele lhes inspira.

Esta é a evidente leitura que pode e deve ser feita do episódio bíblico. O texto não suscita equívocos. Qualquer outra leitura não tem respaldo no texto, mas tão-somente em pressupostos oblíquos. E foi em pressupostos que se baseou Saramago. Os seus pressupostos e preconceitos, de uma leitura oblíqua. Tinha uma ideia do que o texto dizia, um preconceito contra o Deus da Bíblia, mas não o conferiu, o fê-lo, mas sem o entender, logo obliquamente. E viu no texto o que nele não está, não vendo o que nele está. Trata-se de pura e simplesmente ler e interpretar o texto, mesmo como literatura, algo que se ensina aos alunos desde o 1.º ciclo do ensino básico. Tal leitura feita mereceria uma rotunda negativa se fosse feita por um aluno num contexto de exame. Feita por um prémio Nobel é grave, mas tem honras de destaque nos jornais, na televisão e nos blogs. Tem todo o direito de não crer em Deus, mas não de ler mal.

Esta é a razão por que o considero intelectualmente fanático e desonesto.

sábado, novembro 07, 2009

No Éden


"Para aqueles que frequentam o jardim
o mundo está sempre a florescer
Longe de mim diminuir o louvor"

José Tolentino Mendonça, in "Sintra, antiga Estalagem da Raposa"


Aqueles que frequentam o jardim
fazem de cada pétala a sua casa
em cada cor reflectem as luzes da cidade
em cada olor se lavam da poeira das estradas.

A sombra das árvores é o seu deleite.
Se se sentam nos bancos, é para que
os ouvidos fiquem atentos
ao salmo dos pássaros
e do rumor das folhas.

No jardim o tempo não tem fronteiras,
não há sebes,
nele deixa o infinito o seu lastro.

Longe de mim romper
a fina membrana do silêncio
longe de mim permitir que
a perene florescência
do mundo, que para eles é o jardim,
deixe de entoar o devido salmo do louvor.

1/11/09

Publicado como inédito em Poeta Salutor

crepúsculo sobre Atacama


rasgo com mãos de sonho

convertido em visão

visão quente

do rés da planura

a espraiar-se para o azul


deixar de sonhar

os olhos de ver

jóias no céu

cumprem-se o bastante no contemplar


2/10/09


quinta-feira, novembro 05, 2009

La nuite tombe sur Atacama


L’eau n’érode pas ces pierres
ni le vent ici a donné rendez-vous

à moins éventuellement que sur la toile du ciel
où il a tracé les premiers brouillons
de nuages
que tout au long de la nuit parcourront
le regard
sur l’ignoré sphère du ciel
d’où l’eau peut-être
ne tombera pas
ni le vent ne quittera son
absence

deux seuls sentinelles
légèrement courbées
en révérence au crépuscule
racontent l’histoire sans trame
du désert

Cai a noite em Atacama


A água não erode estes pedregais
nem o vento aqui marcou presença

a não ser talvez na tela do céu
onde riscou os primeiros esboços
de nuvens
que ao longo da noite percorrerão
o olhar
na incógnita esfera do céu
donde a água quiçá
não caia
nem o vento deixe a sua
ausência

duas sós sentinelas
ligeiramente curvadas
em reverência ao crepúsculo
relatam a história sem enredo
do deserto

23/10/09

segunda-feira, novembro 02, 2009

CONTRA O ABSENTISMO ESCOLAR… A POLÍCIA

Na Bélgica, a escolaridade é obrigatória até aos 18 anos, como se pretende que seja, aliás, em Portugal. Mas a diferença está em que, na Bélgica, a escolaridade É MESMO OBRIGATÓRIA. Contra o absentismo escolar, há já anos que enviam agentes de polícias por centros comerciais e outros lugares à caça de imberbes e absentistas. Quando apanham um outro dois, identificam-nos e escoltam-nos à escolinha, deixando-os no gabinete do respectivo director.
Qualquer que seja a desculpa dos acnosos adolescentes para andarem por aí em vez de na sala de aula: seja porque tenham perdido o autocarro ou porque estejam doentes.
Em caso de reincidência, são os pais dos prevaricadores quem paga uma pesada multa.
Uuhhmmm… Uma sugestão para a nova equipa do Ministério da Educação de Portugal.

NOS CANAIS DE VENEZA


Queria em todas as horas
prender num só abraço
os canais e as pontes
e cingir num laço as ilhas
encerrar num só olhar
os palácios e as igrejas
reter na concha da mão
as gôndolas
desfiar o labirinto de cada calle e fondamenta,
como só o faço aos cabelos do meu amor.

Esperava encontrar nos campi
de Veneza
os portos da minha armada
em cada sottoportego as pistas de tesouros
de piratas
soterrados detrás de cada porta
na praça de S. Marcos restauraria
a serenidade
dos veneráveis Doges de antanho
reconverteria
um sonho de grandeza
na grandeza de um sonho.

Conter-te em mim
era como a descoberta da dracma perdida
eras a cidade há muito demandada pelos meus exércitos imperiais.

Mas ao ter as tuas pedras a meus pés
percebi
que não te podia conquistar
que a grande Torre do Relógio
não é o fundo do recife
onde pudesse
a minha âncora pousar.

És tu, a Sereníssima,
quem me conduz
em cortejo pelo Grande Canal
e quem, à flor das negras quilhas das gôndolas,
cobrindo o meu rosto
com uma das tuas muitas máscaras,
me faz jogar à apanhada e às escondidas
atrás da penumbra perdida
das tuas vielas e pontes

furtivamente propícias ao amor e à conspiração.

31/10/09

domingo, novembro 01, 2009

pés de sol


Descalça
e de alma nua,
a criança
penetra o limiar hermético
do nosso olhar

mergulha os pés sem mácula
para a inauguração da areia
por baixo há brasas quentes
passo a passo pé ante pé
titubeia
sobre o manto do sol

como sobre a erva hesitante
um tenro gamo
conquista o espaço prudente
deixa marcos
na superfície de poalha amarela

afinal a praia é agora dela
e são os seus pés agora firmes
quem pela areia difunde a claridade
e no nosso olhar
deixa um raio de sol
indelével

27/10/09

segunda-feira, outubro 26, 2009

FERIDA


“Espera-O uma coroa de espinhos
Para secar o sangue sobre a fronte, espera-o
a fome de um chicote
que as costas lhe há-de devorar”
J. T. Parreira, “No Jardim do Gêtsemani”

A fome batia uma litania
vai e vem sobre o dorso como tambor

O látego batia em sintonia
com a contagem ritmada
da voz do decurião
uma, duas, três, até quarenta
e com os gritos
de dor do condenado

E latejava as nossas cabeças
dentro de cada dentada das fauces
do chicote estampido vai e vem

Acirrámos os dentes
em aprovação do castigo
e dos gritos do condenado
as costas devoradas
as gotas de sangue salientes
eram o nosso prazer e satírico canto

Mas não deixávamos de pensar
que a obra do carrasco
devia ficar na discrição
recôndita duma caserna romana
longe da vista e do coração
e ensaiámos apartar o olhar
desviá-lo do esbatimento do seu rosto
em busca da geometria da dança
de um bando de pássaros que por ali voasse
ou admirar as coríntias colunatas do pátio
onde decorria o evento

Mais tarde esperava-o uma coroa
sobre a cabeça de espinhos
para o sangue na fronte lhe secar

E escorria das nossas cabeças

E depois ainda
esperava-o ser fixado na cruz
poucos de nós ficaram para ver
preferimos meter-nos pelas cruzes das ruas
pés apressados para o recolhimento e a piedade
pois esperava-nos a Peschah em casa
ao lume do assado do cordeiro,
o único a quem hoje se devia secar o sangue

Mas o vai e vem do flagelo batia em nós
e a voz de comando do decurião e os gritos de dor
o sangue porfiava em correr de nós
como mulheres nos dias da impureza
os panos não o estancavam
banhámo-nos mas a água
solidária tingia-se de escarlate

O chicote a coroa a voz do decurião e o sangue éramos nós
o que tínhamos nós com esse contumaz blasfemo
de rosto deformado condenado?

Caímos no chão

Éramos nós os condenados
de costas devoradas e frontes sangradas
à beira do vale onde a morte se dissimula de sombra

Por fim acordámos

Esse sangue
penetrava-nos até aos corações
e corria agora neles
lavados

17/10/09
Originalmente publicado em Papéis na gaveta, por gentileza do poeta J. T. Parreira

ECCE POIEMA

Anunciação do anjo a Zacarias (ícone russo)


"Mas como não acreditaste no que te disse, vais ficar mudo, sem poder falar, até ao dia em que isso acontecer, pois tudo se realizará no tempo devido.”
Evangelho de Lucas 1:20 (versão A Bíblia para todos, p. 2044)



Para mãos que trabalham
sem uma língua treinada
o silêncio pode ser de ouro
ou de chumbo maciço

Porém, esse silêncio ainda fala
ainda está cheio de poemas, cânticos
confessa apreensões ou revela sonhos
da dentro da linfa, das cavidades do osso

Voz que duvida, que fala do que não sabe
que com as mãos se queda a queimar incenso
a vigiar que a chama da menorah perene arda
a oferecer os pães

que escreve febril o que o silêncio apenas sussurr
ao que a voz na laringe emudece

Que te diz e conta, Zacarias, a voz que te secou?
Voz que guarda e
burila a sabedoria
que decanta os segredos
confiados pelo anjo do Senhor
esculpidos no ventre da tua mulher
afinados em outra voz, a que clamará no deserto

Mas quanto melhor
não é,
como numa salva de prata uma maçã de ouro servida
é a voz irrompendo
finalmente instruída e madura
que fala
e canta os altos louvores do Senhor!

22/10/09

Originalmente publicado em Papéis na gaveta, por gentileza do poeta J. T. Parreira

quinta-feira, outubro 15, 2009

PASSOS


Provérbios 20:24 “os passos do homem são dirigidos pelo Senhor; o homem, pois, como entenderá o seu caminho?”

nem sempre sou confortado pela vara e pelo cajado
olho em redor
em vão
não estás.

o pastor toca com a vara e empurra a ovelha
gentilmente
na direcção que ele requer
assim me guias ou guiavas,
ou pensava que me guiavas
mas deixei de ver
a brilhar nas sombras
ou descansando sob uma árvore
enquanto eu me regalava no verde

mas o pastor nem sempre está
as nuvens negras cobrem-no
com o aguaceiro e a trovoada
certamente não virá
a buscar a ovelha perdida
e só

a apreensão engole-me
com dentes e uivo de lobo

até que me lembrei de algo que li:
entenderá o homem o seu caminho?
é o Senhor quem dirige os seus passos
mesmo na ignorância do homem

eis que o pastor
contra a mente turvada da ovelha
dispôs no chão uns marcos umas pedrinhas

regularmente
numa certa direcção
como as contas do colar de Ariadne
ensinam os passos à ovelha
para a liberdade do labirinto
e do vale da sombra do Minotauro

Rui Miguel Duarte
Herserange 13/10/09
publicado igualmente em A Ovelha Perdida e Liricoletivo

terça-feira, outubro 13, 2009

ESCUDO DA FÉ (AOS EFÉSIOS 6:16)


Conta o poeta Arquíloco que em certo dia de áspera peleja
largou o escudo em terra
e correu e correu
e ficou a vê-lo nas mãos de uns brutos
que o miravam e remiravam e giravam nas mãos grotescas
essa bela peça de topo de gama
de tecnologia de ponta
do armamento táctico-defensivo
e os ombros encolhidos da vergonha logo se expandiram
em risos de desprezo:
– Quero lá saber! Posso comprar outro pelo mesmo preço.
A cobardia vestiu-se de prosápia!

O poeta Horácio ao que parece
repetiu o gesto do seu mestre
em outro dia de rude luta.

Com quem queres aprender, soldado?
Porque soldado és
Vais ficar sentado no simpósio do sofá
e mergulhar
os olhos
e o nariz
em copos de cerveja
mordiscar tremoços
e ver a bola?
Ou como certo dia o poeta e rei David
debruçado do despreparo da varanda
a contemplar e contornar as famosas e formosas
curvas da mulher do vizinho?

É-te pesado o escudo? Não és digno de portar o estandarte
nem de calçar
as botas cardadas de soldado
que possuem o território inimigo com a palavra da paz.

Deixas o escudo no chão sobre os estilhaços e sangue dos teus camaradas?
Ou em casa, num canto secreto
do sótão escuro da infância
e do medo?

Viras o dorso às goelas rugidoras do leão?

Enquanto lá fora ferve o furacão?

A guerra, soldado, está aí
bate-te à porta com manápula de ferro.

Qual incêndio florestal
mais voraz
do que o abismo chega à tua tenda.
Não sabes que a seta do inimigo te perfurará
a cota de malha
e a tua carne à lâmina
será manteiga?
Julgas que fugirás?

Como ao dia claro se sucede
o arcano da noite
a guerra obrigatória vem.

O teu peito nu
inchado de prosápia ou tolhido de cobardia
estalará
e pela fenda o coração ser-te-á
roubado, soldado,
e com ele as saídas da vida.

Não há fronteira
nem rio outra margem
para onde mires o salto.

A guerra vem.

Que general e que exemplo seguirás?

Mira as mães da Lacedemónia
que ao retirarem cuidadosamente
os escudos do prego na parede
onde se cansavam de estar pendurados
os entregavam aos maridos e filhos
na despedida para a guerra
com alma de leoas
sem um beijo nem uma carícia
nem com voz de lã
severíssimas:
– Volta com ele ou sobre ele!

Toma, soldado, na mão
o escudo da fé
pés no chão
corrida contra o inimigo
vai e volta
não sem ele nem sobre ele
mas com ele.


Herserange (França) 11/10/09
publicado igualmente em A Ovelha Perdida e Liricoletivo

domingo, outubro 11, 2009

POEMA DE DEUS

POEMA DE DEUS

αὐτοῦ γάρ ἐσμεν ποίημα, κτισθέντες ἐν Χριστῷ Ἰησοῦ ἐπὶ ἔργοις ἀγαθοῖς οἷς προητοίμασεν ὁ θεὸς ἵνα ἐν αὐτοῖς περιπατήσωμεν.
“É que somos obra de arte, poema de Deus. Ele criou-nos em Cristo Jesus para produzirmos boas obras, as quais Ele de antemão preparara para nelas vivermos e nos movermos.”
Paulo, Carta aos Efésios 2:10


Sou um poema de Deus
manufacturado de palavra e terra
coroado de sol
de resplendor de aurora

No chão a tua mão pouso não achou
do vermelho barro que colheste
moldaste os meus rins
os meus ossos enrijeceste
vaso que
de água e sangue encheste

Do rude filão apartaste a ganga
e no lume
de milhares de sóis purificaste
o ouro da minha carne

À minha pele
não são ignotas a plaina
nem aos meus braços
a talha a martelo e escopro
o meu rosto
marchetado
de finas e várias peças de escultura
mais preciosas que mármore

no fundo da caverna da gestação
à massa bruta entreteceste
textura
partes órgãos funções
um coração que estremece e chora
olhos que vêem nariz que cheira mãos que apalpam
boca que fala
não um pedaço de madeira esculpida por um Gepeto
a quem uma fada deu vida

mais muito mais

em minhas narinas sopraste
e os meus pulmões respiraste
o sopro que é agora
a minha voz
que respira fala e profetiza e diz o poema

precisamente como tu

sou criação tua
poema teu
deste-me a tua palavra
e a tua arte
fizeste-me mundo e criação
filigrana de galáxias
nas raias do infinito
estertor de supernovas
expansão de nebulosas
sóis e planetas
asteróides e cometas
sistemas estelares e satélites
quasares e pulsares

fizeste-me mundo terra azul
crespidão de montes
explosão de vulcões
separação de terra e águas
rios de vales fendentes
árvores elevadas contra o vento
flores que ateiam cores e perfumes
do mar pleno o rugido
luares e canções
florestas e falésias
concerto de violino e risos de criança
semente caule e fruto

fizeste-me como tu
poeta

e assim mundo
com outros mundos universos paralelos
com outros poemas
transformados em poetas
e pintores e arquitectos
de mãos dadas
e vozes geminadas
faremos de toda a terra a obra que quiseste

a obra que preparaste
– eis aí a seara pronta para a ceifa

terça-feira, outubro 06, 2009

O dedo em riste




O dedo em riste da criança

os olhos
escrevem
se a voz
ainda é infante

nas margens do rio
recessos
de pequeninas colmeias
multímodas
ondulantes de cor
o rio
um longo sobressalto

o sorriso da criança no rio
pinta
a carvão e aguarela
de assombro
e novidade
a sua canção

– Papá, qu'é aquilo?

11/07/09 passeio no Douro entre Porto e Gaia

sexta-feira, setembro 25, 2009

Ataque ao prato

A Caroline já sabe comer sozinha, aos 20 meses. A delícia de vê-la crescer, adquirir em conquista aquilo que se tornará trivial. Belas experiências deste pai mais do que babado.

quinta-feira, setembro 24, 2009

MEDITAÇÃO SOBRE O SALMO 133

Ah querido irmão
Nada é mais doce
Do que as tépidas manhãs
Que amaciam as gotas do orvalho
Sim do orvalho de Hermon

Nada mais delicioso
Do que o nacarado óleo
Que desliza pela barba
O óleo da constrição do fruto da oliveira

Nos nossos conclaves, irmão
Há o mel dos abraços
E o sal dos risos
O veludo dos cantos
Entoados em conjunto
E o sol pleno das nossas danças

Ah somos Aarão de barba luzente
E irmãos do orvalho

Eia! Que nestes conclaves
Está o Irmão mais velho
Ele próprio do seu frasco
Derrama sobre nós o perfume
O mesmo que lhe ungiu os pés

CONTRADIÇÕES DO CORRUPTO

Por trinta moedas
E um beijo
Vendi o meu irmão
O meu coração de prata

O preço de um terreno

Ambição?
Não
O preço da minha decepção
Simplesmente
A possibilidade de um pouco de lucro
E de comprar um outro Messias

domingo, setembro 13, 2009

Quem é o inferno? C'est qui l'enfer?

"L'enfer c'est les autres" Jean-Paul Sartre
Antes de conhecer Cristo pensava eu ser uma vítima. Os outros não me compreendiam, rejeitavam-me, nauseavam-me.
Ao conhecer Cristo aprendi que sou carrasco. Que não compreendo os outros, rejeito-os, causo-lhes náuseas. Porque eu sou um outro para os outros.
Assim com propriedade concluo o silogismo: "L'enfer c'est moi".

"L'enfer c'est les autres" Jean-Paul Sartre
Avant de connaître le Christ je pensais que j’étais une victime. Mal compris des autres, ils me rejetaient, me provoquaient des nausées.
Je l’ai connu et j’ai appris que je suis un bourreau. Que je ne comprends pas les autres, je les rejette et leur provoque des nausées. Car je suis un autre pour les autres.
Alors je conclus avec propriété le syllogisme : "L'enfer c'est moi".

sexta-feira, setembro 11, 2009

OFICINA



Os reis vêm a ti
Trazem as suas espadas e os ceptros e as coroas
As espadas estão embotadas
Os ceptros quebrados
E as coroas de aço pesam nas cabeças
Ouro em vez de bronze
E muitas perguntas

Os sábios trazem ouro incenso e mirra
Cadernos em vez de livros

As mãos e bocas são de barro
Os corações e entendimento de pedra
Sobre a tua mesa as depositam

Ó mais nobre dos artesãos
Quem se atreve a questionar a tua arte?

sábado, setembro 05, 2009

Vinicius de Moraes, Soneto de fidelidade

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa lhe dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure

Estoril - Portugal, 10.1939

terça-feira, setembro 01, 2009

Códice Sinaítico

Para os que, como eu, alguma vez trabalharam com códices (o livro manuscrito antigo no formato que conhecemos hoje), estudiosos de codicologia ou paleografia, ou simples curiosos por antiguidades e interessados na transmissão do texto bíblico, aqui fica ligação para o Projecto do Códice Sinaítico.
Este códice (sigla א [Aleph]), o século IV, é um dos mais antigos e importantes testemunhos do texto bíblico em língua grega e escrita uncial. A British Library, a cuja fundo o códice pertence, é a responsável do projecto. O mesmo pode ser visto aí visto em imagens digitalizadas de excelente nitidez e qualidade, percorrido com cursor, exploradoonline. O texto de cada fólio é transcrito em caracteres gregos minúsculos para mais fácil confronto, e é identificado pela referência bíblica respectiva em menus de cortina onde se podem seleccionar outras referências e assim visualizar a imagem do correspondente fólio.
"Um dos mais importantes livros do mundo", como se lê no texto de apresentação em inglês, sai dos ultra-reservados e posto à disposição do universo.

segunda-feira, agosto 10, 2009

LA PIERRE

Sur une courbe de la route
Là où le soleil s’est couché
Appuyé sur un rocher
J’ai pris une pierre
Dardée du ciel
Et sur elle je me suis dépouillé du tourbant

Au-dessus de ma tête les étoiles sont pendues
Mon âme fixe les pieds sur les marches
Et prend la route
Par où les anges montent
Avec le sueur de ma voix
Et descendent amenant la parole de ta bouche
Le rêve transpose le seuil des mes yeux endormants

Et tout ce que j’ai c’est cette pierre
Que mes cheveux et ma barbe ont polis
Venue et visite du ciel
Envers lui je la dresse
Je la lève de la terre
Sur elle je verse la libation d’huile
Et elle est la colonne et corniche da la Maison du ciel et de Dieu
La fondation de la maison

Où toi et moi habiterons

La pierre où je me suis reposé
Était la pierre dont j’ai célébré
Au-deçà des nuages la rencontre avec la présence
De celui qui au-delà d’elles a établi son trône
Immanent

Maintenant je sais qui tu es
Je reconnais que tu es ici
Que où que j’aille
Pour tous les points cardinaux
Ton aile est ma tente
Et celle-ci s’élargira au-delà de ma vue
De la terre et des générations de mes lombes
De l’immensité de poussière

Voici mon Dieu de toutes les lignes courbes et droites de la route
De toutes routes

O ALTAR DA ALMOFADA 4 – A ALMOFADA

Com autorização do pastor, dirigi-me à frente e transmiti a lição que o Espírito de Deus me dera a respeito da almofada de Jacob.
– Irmãos, enquanto o pastor ministrava, recebi no meu espírito uma mensagem de Deus. Foi ao lermos o trecho que nos relata como Jacob dormiu com a cabeça pousada numa almofada de pedra, e após um encontro com Deus num sonho ergueu, com essa pedra, um memorial ao acontecimento e declarou ser aquele sítio “Casa de Deus”.
Ora, para Jacob chegara a hora de descansar. Deteve-se, fez uma pausa na sua jornada. Não insistiu em prosseguir. Anoitecera, tudo em redor escurecera, cessara o tempo de caminhar, era o tempo de dormir. Nesses épocas, vivia-se de sol a sol: acordava-se com o nascer do astro e ia-se para a cama no seu pôr. Não havia estradas nem grandes postes de iluminação pública. Dependia-se dos luminares do céu nos caminhos, e de archotes e lucernas a azeite ou petróleo, no interior como no exterior de casa.
Jacob deitou-se e descansou, pura e simplesmente.
A experiência pessoal ensina-me que é quando mais invocamos tarefas urgentes e inadiáveis, no trabalho ou em casa, compromissos familiares ou de outros tipos, e que é quando mais nos embrenhamos neles que menos conseguimos realizá-los. Que mais nos perdemos em atalhos, que mais vagamos de um lado para o outro, quais barcos à deriva. Ou, como se diz em linguagem comum, quais baratas tontas. O activismo faz perder o foco e arruína a estratégia previamente definida. O resultado disso consiste em quebra de produtividade, canseira e mais tensão, vulgarmente designada por stress.
Quem poderá não perceber que esta descrição é uma boa descrição da sua própria experiência?
Ora, Jacob descansou, e a pedra de descanso foi o fundamento da edificação da Casa de Deus. Descansar, quando tentados a nos escusarmos precisamente com o cansaço, é vir e estar na Casa de Deus.
Esta foi o teor da meditação que partilhei com os irmãos. O pastor levantou-se, agradeceu e comentou, em conclusão:
– É bom saber que a Casa de Deus é lugar de descanso.

terça-feira, julho 28, 2009

A Pedra

Numa curva de caminho
Onde o sol se deitou
Encostado a uma rocha
Tomei uma pedra
Dardejada do céu
E sobre ela me desfiz do turbante

Sobre a cabeça pendem-me as estrelas
A alma firma os pés na escadaria
E empreende o caminho
Por onde os anjos sobem
Com o suor da minha voz
E descem com a palavra da tua boca
O sonho transpõe o limiar dos meus olhos dormentes

E o que tenho é esta pedra
Que os meus cabelos e barba poliram
Vinda e visita do céu
Para ele a erijo
A levanto da terra
Sobre ela libo o azeite
E é a coluna e cornija da Casa do céu e de Deus
A fundação da casa

Onde tu e eu viveremos

A pedra onde descansei
Foi a pedra com que celebrei
Aquém das nuvens o encontro com a presença
Daquele que além delas estabeleceu o seu trono
Imanente

Agora sei quem és
Reconheço que estás aqui
Que aonde quer que eu vá
Para todos os pontos cardeais
A tua asa é a minha tenda
E esta se alargará para além da vista
Da terra e das gerações dos meus lombos
De imensidão de pó

Eis o meu Deus de todas as curvas e rectas do caminho
De todos os caminhos

Férias: 1 a 17 de Julho





















Férias, férias, férias!

Desejadas e ansiadas como um Messias, amadas com a mais sedutora amante, devoradas como um cozido à portuguesa, saboreadas como um chocolate e sorvidas como um sorvete, curtas como a chama de um fósforo, perdidas como uma nota de 500 €!
Assim foram as férias: em Sintra, os travesseiros, as queijadas, cabo da Roca, Amadora, Costa da Caparica, um gelado na geladaria Emanha no Parque das Nações, em Aveiro, as primeiras experiências de praia da Caroline, no Porto, no Douro, em caves de Porto, reencontro com amigos e com família, o aniversário do meu irmão, visita a igrejas nas quais já nos congregámos, descansar, o prazer de comer fora, de "ter um livro para ler e não o fazer" (como escreveu o Pessoa).
E ala, que são horas de regressar – agora que estava a ser giro…

segunda-feira, junho 22, 2009

O ALTAR DE ALMOFADA 3 – A PEDRA

Era uma sexta-feira do início de Maio de 2009. O céu estava aberto sobre Steinsel, no Luxemburgo. O meu pastor, Paulo Cardoso, ensinava sobre a importância de frequentar a casa de Deus, a casa de culto onde a comunidade de cristãos local se reúne para em conjunto celebrar Deus. Com efeito, muitos cristãos deixam de se congregar, e surgem as mais variadas desculpas. Eis um problema tão velho quanto a existência da Igreja de Cristo. Já o autor da carta aos Hebreus advertia para ele. O cansaço, o muito trabalho, o stress: alguns dos nomes que essas desculpas recebem. São nomes como esses, que começam como desculpas para justificar um hábito ou a falta dele, e se convertem em ídolos, senhores dominadores que estiolam o sentido do amor, do zelo e do compromisso e ocupam o lugar que pertencem a estes.
Um dos versículos bíblicos citados a propósito foi o comentário de Jacob ao sonho da escada celeste que tivera (Génesis 28:16):
— Realmente o Senhor está neste lugar; e eu não o sabia.
E o lugar, esse lugar, foi chamado pelo próprio Jacob “Casa de Deus”. A congregação dos santos no culto é a Casa de Deus. A verificação de Jacob interpela quem quer estar com Deus a vir ao lugar onde os santos se reúnem. E ao vir e se reunir pode ser surpreendido como Jacob o foi, e verificar que Deus está de facto aí. E encontrar Deus muda o figurino dos dias e das emoções.
Ora, a Casa de Deus é a igreja – tanto no sentido tradicional de edifício, como no sentido mais primordial de comunidade. O étimo é grego: ekklesia. Nos regimes democráticos de tipo ateniense, era o nome dado ao principal órgão de poder, a assembleia dos cidadãos; adoptado pelos cristãos, passou a designar a congregação dos santos, para o convívio, a adoração e a oração a Deus em conjunto. O tema deste passo bíblico não é explicitamente a fundação e natureza da igreja enquanto corpo congregador dos filhos de Deus. Este passo bíblico é a história de uma revelação pessoal a Jacob por parte de Deus. Esta revelação pessoal teve como propósito abrir a Jacob os horizontes mentais para a promessa divina que consistia em multiplicá-la em revelações e alianças pessoais por toda a sua família e descendentes.
O princípio, porém, fica estabelecido. Posso entender a Casa de Deus como o lugar onde se abre o espaço para descer uma escada de comunicação entre o céu e a terra, onde Deus faz a sua habitação. Consiste numa aliança cuja iniciativa parte de Deus e subordinada a cláusulas. Estas constituem promessas cujo beneficiário é a parte humana. O destino da Casa viva de Deus é ser composta de congregação de inúmeras relevações e alianças pessoais.
E tem como fundamento uma pedra. O pastor leu e enfatizou a declaração de Jacob de que Deus estava ali. E prosseguiu a exposição da mensagem. Mas a pedra chamava-me. Convidava-me a deter-me. Li num relance de olhos todo o episódio, mas a minha mente já sabia onde queria meditar, e que questões a despertavam. A pedra que serviu de almofada foi ungida e erigida como memorial do encontro com na Casa deste. Porquê? Teria isto algum significado ou seria mero acaso: Jacob tomou aquela pedra simplesmente porque era a que tinha à mão?
Estas perguntas ficaram a martelar no meu espírito, e pediam uma resposta. Imediatamente soube que uma ideia me estava a ser dada, e que ideia era. E estava certo que me era exigido proclamá-la. Pedi ao pastor para partilhar com a congregação o que o Espírito de Deus me mostrara.

segunda-feira, junho 15, 2009

O ALTAR DE ALMOFADA 2 – A PEDRA E AS ESCADAS

Embora aterrado com a visão – tão cheia de luz e fogo, e a voz de Deus, mais forte do que o trovão, som de muitas águas, mas nítida – a palavra que Deus lhe dera era o bastante para o tranquilizar. Percebia que essa palavra merecia a confiança.
Sabia que o sonho lhe fora dado pelo Deus de seu pai e avô. Entendera que lhe falara, que tivera o privilégio de Ele se lhe revelar. E confirmava que a promessa da multiplicação das gerações da linhagem de Abraão lhe era agora transmitida, incontáveis como as estrelas do céu e o pó da terra. E que esse Deus estaria com Ele, e que havia comunicação entre o céu e a terra, que os anjos de Deus seriam com ele para o guardar e lhe trazer a bênção do céu, em obediência à voz do Senhor. Sim, a promessa era também para ele, não apenas por ser da linhagem de Abraão. Deus falara com Jacob, e não com o neto de Abraão. Havia umas escadas entre ele e Deus. Do alto das escadas Deus falava-lhe, como falara com Abraão. Ouvira e ouviria Deus, como Abraão. Com ele Deus fizera uma aliança, a mesma que fizera com Abraão. Conhecia agora Deus pessoalmente, e não apenas por ouvir o avô e o pai falarem dele. Abraão fora conhecido como o amigo de Deus. Também com ele tinha Deus firmado essa relação íntima.
Sabia que a promessa de Deus à linhagem de Abraão era para uma terra deleitosa, e essa terra fora claramente apontada. Mas uma coisa não sabia:
– Não sabia que também nesta terra Deus está.
Sim, a promessa era Canaã. Essa era a herança. Mas percebia que o Deus dos seus antepassados e seu Deus era Senhor também de outras terras. Daquela terra. Da terra que era por ora o seu destino, Haran. Também aí o seu Deus seria com ele, e dirigiria os seus passos, e seria o seu conselheiro, e o protegeria, e lhe daria uma jovem e linda mulher, a quem amasse, e que o amasse e lhe desse muitos filhos e filhas. Aí o abençoaria.

Era costume entre os povos tomar pedras e fazer delas um marco da consagração de um voto aos seus deuses. Às promessas do Deus e de seu pai e avô e agora igualmente seu Deus respondeu Jacob com votos: entregar-Lhe-ia o dízimo de todos os bens que lhe fossem dados segundo essas promessas. Tomou ele também a sua pedra e consagrou-a como memorial ao Deus da aliança acabada de concertar. E conforme o costume, chamou à pedra, e ao lugar em que a achara, Casa de Deus. Como sinal último da aliança, ungiu a pedra com um pouco de azeite, que representa a presença de Deus. Sempre que ele ou seus filhos por ali passassem lembrar-se-iam da aliança de Deus com Jacob e reafirmá-la-iam em seus corações, voltando-se de novo para ela.
O olhar não sondou em redor nem a mente se questionou. A pedra que a mão tomou foi a que lhe serviu de almofada. Essa era a sua Bethel, a sua Casa de Deus.

Lembrara-se: o seu avô Abraão sacrificara e selara aliança com o seu Deus por ali. Então o Senhor já chamara para si havia muito aquela terra. A Abraão e à sua linhagem prometera um território da ribeira do Egipto até ao rio Eufrates. Aquela terra fazia parte da promessa. E Deus disse-lhe que lha dava. Ali plantara erva para os seus gados, ali abrira caminhos para as suas caravanas e mercancias. Ali construiriam cidades e plantariam e cultivariam cereais e árvores de fruto. Que lhe dissera Deus? Os seus filhos e netos estender-se-iam para todos os pontos cardeais. A estrada para Haran era igualmente herança para os seus filhos e netos. E Haran. E toda a terra.
Como poderia ter-se esquecido disso: que Deus também estava ali?