Nova vida, abundante vida, tudo quanto pode proporcionar um encontro pessoal e radical com uma pessoa especial. A contracultura da nova criação, em Jesus Cristo. N.B.: Este blog está em desacordo com o chamado novo acordo ortográfico de 1990.
sexta-feira, janeiro 28, 2011
Europa anti-cristã
quarta-feira, janeiro 12, 2011
DISCURSO XENÓFOBO
O discurso xenófobo tem incongruências, cretinices e desactualizações irresolúveis.
Um luxemburguês de extrema-direita, de sua graça Pierre Peters, publicou uns panfletos inflamados com o título "Auslänner eraus" (Estrangeiros, rua!). Entre os visados, pois claro, os Portugueses. E evidentemente: os estrangeiros são os responsáveis das maleitas do país.
Pois bem, que todos os estrangeiros deixem este país, e da posição de pódio de ranking mundial de PIB e de bem-estar passará para meio da tabela. Quem faria a "menage" a esse senhor, quem lhe lavaria a roupa, quem o serviria à mesa no restaurante, quem lhe lavaria o traseiro se de repente tivesse de ser internado no hospital e ficasse impossibilitado de o fazer por si próprio? Uhm… E já agora, os investidores financeiros internacionais saiam do Luxemburgo. E lá voltará esse país à condição de um Haiti da Europa e cliente privilegiado do FMI.
Não é tese defendida pela maioria os cidadãos e naturais deste país. Mas espanta-me como este discurso, no Luxemburgo ou em qualquer outro país (também o há em Portugal) ainda exista. Espanta-me tamanha falta de uso dos neurónios — para não falar do carácter racista, que é por si só motivo de vómito. Mesmo que nas franjas da sociedade, por vezes este discurso ressurge e a comunicação social dá-lhe destaque — e eis outra coisa que me espanta.
À SOMBRA DA FIGUEIRA
“«Antes de Filipe te chamar, quando estavas debaixo da figueira, já eu te tinha visto», respondeu-lhe Jesus.”
Evangelho de João, 1:48
À sombra da figueira busca
a raiz do Livro da Lei
à sombra da lei da árvore de Israel
medita no lume aceso pelos cordeiros
no Templo na menorah que arde
à sombra da figueira
come a trama dos dias
e conhece de cor o aroma dos frutos
pastoreia os pensamentos tange-os
das letras para longe deste campo
passeia pelo Mar que o Senhor
fez os pais atravessarem
sem que uma gota de água
lhes molhasse os pés
e põe a mão sobre a cabeça
do último egípcio que ainda respira à tona
à sombra da figueira
faz morada no salão do palácio
onde crepita a voz e o ceptro
do Rei, o Messias que o povo espera
constrói um reino e desfaz impérios
Rui Miguel Duarte
11/01/11
domingo, janeiro 02, 2011
CONTAGEM
“Abraão lança os olhos
ao lume longínquo”
J. T. Parreira, “Contagem de estrelas”
Dissera Deus a Abraão
o pai de miríades de nações,
que contasse as estrelas
e contaria os pés
dos filhos
e dos filhos dos filhos
essas seriam as contas
amplíssimas das areias
mais do que as águas do mar
ao retirarem-se
diante das marés
dos filhos, das nações amplíssimas
do seu pai, avançando
sobre a palma da terra
e as costas dos oceanos
conquistadores dos continentes e ilhas
Abraão que contasse
que lançasse os olhos
na demora dos lumes
do céu
E Abraão contou
Abraão contou
os intervalos entre elas
Abraão contou os pêlos
da barba branca
e os intervalos
entre os cabelos
que lhe faltavam
24/12/10
sábado, dezembro 18, 2010
TERMÓPILAS

aqui, por obedecermos às suas normas” Simónides de Céos, Epitáfio das Termópilas frg. 92 Diehl“Estrangeiros, vai contar aos Lacedemónios que jazemos
Das longínquas Termópilas, estrangeiro
à passagem, Lacedemónios, vos escreve
ao ler à beira do caminho
da pedra fria esta inscrição breve
o silêncio pede um reconto,
que a salve da memória:
deste estreito onde só os heróis ousam
surge a lenda onde tombou a história
a lápide sepulcral não desprende gemidos
as letras nela gravadas são de memória brilhante
não as carcome o bolor nem o verdete
nem o tempo sobre ela é lume de um instante
dos trezentos de Leónidas que não hesitaram
lutar ou morrer para obedecer às vossas leis
recebei o testemunho, Lacedemónios, silente
e que admiração perpetuamente viva lhes celebreis
18/12/10
sexta-feira, dezembro 17, 2010
CRISTOLOGIA, CRISTOLOGIAS
A CRISTOLOGIA
A doutrina central do Cristianismo, e aquela que está no fulcro da sua constituição enquanto artigo de fé e sistema de pensamento retoricamente elaborado, é a doutrina de Cristo, ou Cristologia. Esta centralidade radica na própria fundamentação etimológica do Cristianismo, que é Cristo, só se entendendo esta porque ontologicamente esta pessoa, Cristo, é a “pedra basilar” do Cristianismo. Assim, Cristianismo e a definição do que é ser cristão não se definem pela profissão e admissão como revelados e verdadeiros de um conjunto de artigos, preceitos, princípios, teorias e costumes, mas pela resposta a uma pergunta fundamental, que tem precisamente no seu núcleo o Cristo: “Quem é Cristo para cada um?”
Desde os primórdios que a questão da natureza de Cristo animou acesos debates doutrinários, movimentações diplomáticas, jogos de poder e concílios. Nas suas diversas e subtis cambiantes, suscitou divisões, perseguições e excomunhões, esteve na base da fixação de ortodoxias e da delimitação de heresias.
Serão apresentadas em síntese as várias doutrinas cristológicas da antiguidade cristã. O propósito é o de situar os debates e abrir portas para a compreensão de como que fixou uma doutrina e da multiplicação dos seus avatares até aos dias de hoje.
CRISTOLOGIA NAS SAGRADAS ESCRITURAS
Não será exagerado dizer que o principal texto definidor de uma cristologia puramente bíblica é o prólogo do Evangelho de João. Dir-se-ia a condensação de uma cristologia completa: aí o logos é identificado com a pessoa de Jesus Cristo, sem ser explicitamente designado, com Deus; por outro lado, é proclamada a sua humanidade. Esta cristologia é comum a outros textos e autores do neotestamentários, como se verá.
Assim, a afirmação da natureza divina surge claramente afirmada: este logos é Deus (1:1 θεὸς ἦν ὁ λόγος). É o logos incriado, mas entidade criadora, responsável única pela integralidade da criação (vv. 3) e que o evangelista teria por certo concebido à luz de Provérbios 8:22-26: a sabedoria, primeira obra de Deus, e arquitecta e engenheira da Sua criação.
Com a concepção do Cristo como o logos, João introduziu a questão da natureza de Cristo num contexto mais lato de debates teológico-filosóficos, vivos no seu tempo, que precederam a Encarnação e não se extinguiriam com o Pentecostes, situando a manifestação e revelação de Cristo como aquela que esclareceria de uma vez por todas a verdade acerca de Deus. As referências seriam provavelmente o estoicismo, o gnosticismo e as exegeses do tipo da do rabino judeu helenista Fílon de Alexandria (ca. 20 a.C. — 50 d.C.).
Precisamente Fílon, partindo da distinção dicotómica platónica entre os dois mundos, o perfeito (das Ideias e de Deus), e o material, imperfeito, reconhece a existência de um hiato intransponível entre os dois mundos, que impossibilita toda a comunicação entre os mesmos, e postula a necessidade de um nível de seres intermediários que servissem de ponte. O logos seria o grau mais supino destes seres, e Fílon chama-se “o primogénito de Deus”. Este logos seria um demiurgo, um ente criador. A figura do “anjo do Senhor” do Antigo Testamento seria para Fílon o logos de Deus. A este título, o que o prólogo de João pretende é estabelecer a perfeita divindade de Jesus Cristo.
Outros passos do Evangelho de João poderiam ser aduzidos em suporte da cristologia divina. Por exemplo, as declarações teonímicas aplicadas a Si próprio: Ἐγὼ εἰμι (ego eimi) — estas são as palavras registadas pelo autor do Evangelho dos ditos de Jesus, tradução grega do tetragrama IHWH, e que expressam em grego o mesmo que em português “sou eu” (simples declaração de identidade) ou “eu sou”, a declaração teonímica dada pelo próprio como Seu nome identificador exclusivo (cf. Êxodo 3:14–15). A expressão ocorre seis vezes neste evangelho: 8:24, 28, 58; 13:19; 18:6–7 (bis). Os três primeiros versículos citados situam-se numa contenda verbal com religiosos judeus. Jesus afirma aí a Sua identidade divina, tenda as reacções dos ouvintes sido de dois sentidos contrários: uns creram nele, outros rejeitaram-no e tentaram apedrejá-lo. Em 8:58, Jesus, à declaração de identidade, acrescenta que a ela era anterior à de Abraão. Em 18:6-8, o momento da anagnórise de Jesus, ao identificar-se perante os soldados que o que o procuravam no Getsêmani para o prenderem. Ao ouvirem a resposta de Jesus, os soldados caíram por terra, como se atingidos por vendaval.
Esta declaração de Jesus acerca de Si mesmo não se acha apenas, porém, no Evangelho de João. No de Lucas, 22:70, perante o tribunal judaico, a uma pergunta sobre a Sua identidade como Filho de Deus, transferiu o ónus da resposta para os próprios interrogadores, reiterando deste modo indirectamente a sua identidade: ὑμεῖς λέγετε ὅτι ἐγὼ εἰμι (hymeis légete hóti ego eimí) “Sois vós que dizeis que eu o sou!” No relato do mesmo episódio em outro sinóptico, Marcos 14:62, a declaração aparece também. Tratando-se do nome divino, o nome que nenhum ser humano poderia ter o atrevimento de pronunciar, muito menos aplicando-o a si mesmo, não será difícil de compreender, em virtude da mentalidade judaica comum, seria impossível outra reacção da parte dos sacerdotes e líderes religiosos que não a de indignação, escândalo e feroz cólera perante aquilo que, face aos seus princípios, seria a pior das blasfémias: que um homem se equiparasse ao Deus Eterno e Todo-Poderoso.
Merece também menção a este propósito a exaltação cristológica do hino transcrito por Paulo, na Carta aos Filipenses (2:6-11). Nele, Jesus Cristo é proclamado Κύριος Kyrios, “Senhor”, título que expressava a noção contida no hebraico Adonai, ou no tetragrama. Designar Jesus Cristo como tal implicava atribuir-Lhe natureza e dignidade divina. A visão de todas a criaturas ajoelhadas em sujeição a Jesus Cristo é uma paráfrase exegética de Isaías 45:23-24. Nesse passo, é IHWH (tradicionalmente traduzido em plenas maiúsculas como “SENHOR”) quem fala, anunciando que perante Si mesmo será essa sujeição. A exegese é inequívoca: IHWH é Jesus Cristo.
As declarações da identidade divina de Jesus, registadas pelos autores neotestamentários, serviriam pois para afirmar que a divindade de Jesus Cristo era a do próprio IHWH e que Jesus Cristo é o próprio IHWH, não uma segunda divindade e de inferior categoria.
A figura do demiurgo, como criador deste mundo e personagem distinta do Deus supremo, teria fortuna no gnosticismo, corrente cristológica mística e iniciática, fortemente influenciada pelas escolas filosófica platónica e pitagórica. Também estes estabeleciam a separação inconciliável entre os dois mundos. Se Cristo é divino, não pode ser humano, porquanto o perfeito não se pode manifestar nem tão pouco se misturar com o imperfeito e corrupto. Seria um ser puramente espiritual, sem nada de humano. E aqui surge o ponto a clarificar: o logos divino, porém, adquiriu natureza humana (v. 14). Tornou-se homem, “carne” (σάρξ sarx), e viveu no meio de homens. Precisamente este passo do livro de Provérbios, admitindo-se que se refira a Cristo, tem sido invocado em suporte de concepções diversas acerca da natureza deste. Os debates com os religiosos judaicos (e os Evangelhos em geral) transcritos pelos evangelistas têm a evidente virtude de circunscrever Jesus à humanidade, na sua vida e interacção com os outros seres humanos. A rejeição da encarnação, da humanidade de Cristo é, para João (cf. 1 João 4:2), marca distintiva do espírito do Anticristo. Assim, tanto o prólogo do seu Evangelho como a sua primeira epístola teriam como propósito estabelecer inequivocamente advertir a Igreja contra as doutrinas gnósticas, que desde cedo iam minando por dentro a saúde e unidade espiritual. Tanto quanto declara a divindade de Cristo, o hino da carta aos Filipenses afirma igualmente a sua humanidade, uma humanidade assumida na plenitude, em detrimento do uso de todas as prerrogativas da Sua divindade (vv. 6-8).
O logos do prólogo do Evangelho joanino, o criador de tudo sem o qual não do existe foi criado, está em harmonia com as restantes declarações cristológicas deste Evangelho e de outros livros do Novo Testamento. Este logos criador não é pois um mero demiurgo inferior e intermédio, mas o próprio Deus.
Em terceiro lugar, logos era a razão activa do universo e que o anima. Material, era frequentemente identificado com Deus e a Natureza. O logos seria assim como que a anima mundi, o princípio activo e sustentador do universo. O ideal de vida estóico era a conformidade com esse princípio. Esse logos estaria disseminado em todas os seres, incluindo nos humanos. Todos conteriam em si uma parte, uma “semente” de desse logos. Neste sentido se falava λόγος σπερματικός (logos spermatikós) “logos seminal”. Esta doutrina do logos influenciaria Fílon de Alexandria e a Literatura Patrística. Justino Mártir (m. 165 d.C.), por exemplo, colocou-a na ligação entre a velha filosofia helenística e o Cristianismo, que retoma a tese do λόγος σπερματικός. Também com os estóicos e o seu logos parece, pois, debater o prólogo joanino: o logos, esse princípio animador do universo, seria efectivamente Deus, o próprio, o criador e sustentador de todas as coisas.
quinta-feira, dezembro 16, 2010
ANTI-NARCISO
“Donec eris felix multos numerabis amicos”
Ovídio, Tristia 1.9.5
Enquanto fores
algo mais do que uma nuvem
e te não contentares
com a chuva no rosto
mas tiveres nas mãos a chave do sol
e fores o deus dos espaços largos
não te contarão entre os que
cavam a terra com os dentes
enquanto fores
nos teus lábios
o espectro do arco-íris
porém, quando fores poeta
deixarás de ser rico
para ser só poeta
livra-te
de te encantares com o canto
e o allegro em plena orquestra
não te assombres do aplauso
dos teus amigos, muitos
ainda terás
as pedrinhas lançadas ao rio
contadas uma a uma
e por céu as águas
baste-te isso
reconhece-te nelas
como o teu reflexo
15/12/10
quarta-feira, dezembro 15, 2010
OS LÍRIOS
“Reparem como crescem os lírios do campo! E eles não trabalham nem fiam. Contudo digo-vos que nem o rei Salomão, com toda a sua riqueza, se vestiu como qualquer deles.”
Evangelho de Mateus 5,28-29 (versão A Bíblia para todos)
Falo-vos da corola
dos lírios
como as fímbrias do manto
do rei
assim foram vestidos
que rei alguma vez
fia o seu próprio manto
ou precisa de apressar o olhar
para o interior de todas as montras
nos centros comerciais
em busca de trajo
em busca de um vestido de noite?
os reis vestem constante
trajo de gala
todos os seus gestos são
liturgia de fausto e cerimónia
e os lírios,
alguma vez soubestes
que precisem de estugar o passo
de se precipitar na descida
para o metro não vão os pés diferir-lhes
as horas, ou sejam devorados nos magotes
das gentes?
alguma vez ouvistes
que tecem a malha das pétalas abertas
ou a trama do seu destino
os lírios?
não elaboram o tempo
a procurar terra bastante
para as raízes
diante deles
empalidece o ouro
do manto de Salomão
mostro-vos os lírios,
que vos tocam com cores limpas
as mãos
são um pequeno sol
na largura dos campos
que vos pudesse amanhecer
o coração
Rui Miguel Duarte
9/12/10
sábado, novembro 27, 2010
TRATADO DA SABEDORIA E DA IGNORÂNCIA

O apologeta cristão Clemente de Alexandria (circa 150-215 d.C.), um dos escritores da mas alta intelectualidade dentre os Pais da Igreja (procurou harmonizr a verdade da fé cristã com o pensamento filosófico) escreveu que o pecado deriva da ignorância e resolve-se pelo conhecimento de Deus e pela bondade. Assim com Adão, que pecou ao ter fugido da educação divina. O primordial problema humano seria pois um problema de ignorância.
Assim ele se posicionou na sua polémica com o Gnosticismo de Valentim. O Gnosticimo era uma corrente doutrinária e de conduta surgida nos meios cristãos e cuja actividade as cartas neo-testamentárias, especialmente as de João, já denunciam. Eivada de filosofia helenística, influenciada sobretudo pelas radicais dicotomias "espiritual versus físico", de extracção platónica e pitagórica, advogavam que o conhecimento (gnosis) era o veículo que conduzia à plenitude, não a salvação nem o arrependimento, nem o novo nascimento. A gnose consistia na aquisição de conhecimentos secretos, misteriosos, iniciáticos, profundos, os verdadeiros conhecimentos, que se encontravam para aquém e para aquém das doutrinas correntes comuns. Estava pois apenas acessível a alguns, os que aderissem ao grupo, seus preceitos e fundamentos, e seguissem as suas normas de conduta.
A oposição que Clemente de Alexandria desenvolve ao Gnosticismo retoma os meus termos do antagonista: fala em conhecimento, e no cristão gnóstico, mas com distinções e inflexões de sentido: há um verdadeiro Gnosticismo e um falso. O falso é o dos Gnósticos. O verdadeiro é o cristão. Aqueles opunham fé e conhecimento e privilegiavam este; Clemente harmonizou-os: fé constitui a base de todo o conhecimento. O conhecimento, a filosofia por sua vez dá instrumentos de fundamentação racional ao Cristianismo, que lhe permitem posicionar-se em superioridade face os adversários intelectuais. O conhecimento ajuda a compreender as razões daquilo em que se crê. A fé confere salvação, mas o conhecimento torna o homem perfeito e torna-o um “cristão gnóstico”.
Sempre pensei, desde que me abracei a fé cristã, que o problema “homem” era o próprio homem e a sua índole. Antes mesmo já o pensava. A história humana estava lá, para o atestar. O “pecado”, como a Bíblia o qualifica. A perversidade, a maldade, a corrupção, o egocentrismo, variante mais estrita do antropocentrismo. Portanto, um problema de natureza, da physis, do ser, da ousia,. Conhecimento? Não seria mera cosmética, que embeleza a casca, quando a organismo padecia severamente na sua saúde (lembro-me aqui das dicotomias socrático-platónicas)? Mera transferência de responsabilidades? A equação de Clemente de Alexandria fez-me contudo pensar que de outra perspectiva, e voltar à fonte bíblica. Essa ideia não seria de todo descabida. É verdade que em seu entender o pecado não se perpetua pela hereditariedade, mas pelo exemplo. E que a sua concepção de gnose e a ênfase nesta são em não pequena medida subsidiárias das dos Gnósticos. Cristo é o bom médico, que comunica uma medicina que é a gnose salvadora, através da qual conduz os homens do paganismo à fé e desta ao conhecimento mais perfeito. Todavia, parece possível achar alguma relevância na inflexão de Clemente, designadamente se se fizer o essencial, que é a definição exacta dos termos, em geral e em particular, no todo e nas partes. De que se fala, de que fala ele quando fala de “conhecimento”?
A gnose clementina não consiste no conhecimento puramente intelectual (embora este seja necessário), nem esotérico, mas na busca de perfeição moral. Se o pecado se resolve pelo conhecimento de Deus, o seu império depende da ignorância e da alienação em relação a Deus. Este é o entendimento inferível de vários passos das Escrituras. No NT, em Actos os Apóstolos 17,30, I Coríntios 15,34 e Efésios 4,18 o pecado é assimilado à ignorância de Deus, constituindo consequência desta, e ao mesmo tempo causa dela, num ciclo vicioso. É bem célebre a declaração de Deus no livro do profeta Oseias (4,6): “O meu povo está destruído, porque não me reconhece” (versão BPT). Tão célebre quanto a que o próprio Jesus pronuncia, e que vai no mesmo sentido (Evangelho de João 8,32): “Conhecerão a verdade e ela vos tornará livres”. Relacionando esta última com outra declaração, muito arrojada, de Jesus (ib. 14,6), em que Se afirma como a “verdade”, facilmente se entende que a estrada da plenitude, da liberdade está no conhecimento do próprio Jesus, e de Deus, que é Jesus.
Estando prestes a expirar, Jesus dirigiu ao Pai uma súplica em favor daqueles que o haviam condenado à morte e que sobre esta festejavam (Evangelho de Lucas 23,34): “Pai, perdoa-lhes, que não sabem o que fazem”. No estertor da morte, a não dirigiu a atenção para o pecado dos carrascos, não se irou nem se deprimiu por cause dele. Viu no pecado o problema mais remoto da ignorância. Isto não dirime a culpa dos carrascos, mas coloca-a numa outra perspectiva: a culpa existe, e por consequência o pecado, e consiste em se ignorar. Sim, aquelas gentes ignoravam Deus, pois se O conhecessem teriam reconhecido Jesus. E se ignorava Deus ignorava tudo quanto Deus é e Jesus mostrou com a sua vida: amor, graça, dádiva gratuita. Não sabiam quem era Deus, não o conheciam, e de si mesmas eras desconhecidas. Um viciado na droga, no álcool ou no jogo precisa de cair em si e se reconhecer como é, a sua imagem fielmente reflectida num espelho. Ao renunciar a alimentar o seu coração com uma imagem de si mesmo criada na sua mente para consumo próprio, como estratégia de auto-desculpabilização, reconhecer-se-á como aquilo que é, viciado, pobre de espírito, necessitado, carente, prisioneiro no fundo de um poço, limitado, inepto, humano. Ao confrontar-se com o próprio “eu”, levantará as mãos em clamor pela ajuda de uma terceira mão, que o arrancará da prisão em que o seu ser se acha. Essas gentes não eram capazes de enxergar um palmo diante dos olhos, para além da neblina mental, teológica e emocional que criaram, e recusavam-se a mirar-se noutros espelhos à excepção desses de feira, que distorcia a imagem reflectida, representando a sua obesidade como uma elegância de top model, que esbatia as rugas exibidas pelos seus rostos, que os fazia parecer mais altos do que eram.
O versículo 10 do Salmo 111 resume-o lapidarmente, constituído a fundação do livro dos Provérbios: “O princípio da sabedoria é o temor do Senhor; todos os que assim fazem têm entendimento.” Temer a Deus, crer n’Ele, honrá-Lo o suficiente para fazer d’Ele e da Sua Palavra o guia da vida, com renúncia ao próprio entendimento, ao próprio conhecimento, às glórias próprias e considerá-las como vaidade e escória (cf. Filipenses 3,8) em comparação com o conhecimento de Cristo — aí está o começo da sabedoria. O conhecimento de Deus não teórico, mas o Deus manifesto em amor, o coração e não no intelecto (Efésios 3,19). “Conhecer”, no sentido hebraico, que implica contacto íntimo, mesmo sexual, como entre os esposos. O Logos que se fez carne, e se faz carne, em nós. O desprezo destas coisas, pelo contrário, é causa de ruína.
quinta-feira, novembro 25, 2010
PAULO DE TARSO NA PRISÃO
“… A golpes de paixão, tento passar…”
Miguel Torga, “Emparademento” (in Orfeu Rebelde)
Emparedado tentei
já desfazer as cadeias
que me puseram no degredo
as mãos e os pés
estão unidos com os ferros
e transmitem à boca o pedido
de um grito
que a noite eleve
para lá das grades
ao terceiro céu, e que
me traga a frescura do consolo
pois sei que as cadeias não são negociáveis
para os que seguem Cristo,
nem tão pouco feitas perpétuas
ou elas cedem, ou o muro cede
doem afinal ainda menos
do que o desespero
de se terem incrustado
nas mãos e nos pés,
do que um destino tumular
das cadeias do meu avesso,
que me esmurra
como um doido varrido e que
a golpes de paixão, tento passar
é aí, no recesso
que mais emparedado estou
por durante um minuto
ter desaprendido
de cantar
16/11/10
domingo, novembro 07, 2010
PLATONISMO NO CRISTIANISMO
domingo, outubro 10, 2010
QUE DIREIS AOS POBRES?
Que direis aos pobres
ao vo-los anunciarem às vossas portas?
vêm incógnitos batidos das marés
das gentes, e se incrustaram
na crista do vosso olhar
serão somente poeira acumulada
à passagem de milhões de pés?
que direis aos que a própria terra
sorve de fome lentamente
a quem o céu sonegou as chuvas
aos traídos do vento,
aos que bebem no fundo
da misericórdia a sopa às gotas
que direis àqueles a quem oprimis
para vos engrandecerdes vos elevardes
acima dos bicos dos vosso pés?
que lhes direis, a esses
a quem vos foi ordenado que lhes désseis
de comer e a quem o prato
cheio de nada lhes retirais?
Que direis aos pobres?
9/10/10
domingo, setembro 26, 2010
O BOM PASTOR

O Bom Pastor é aquele
que conhece as quatro estações
das ovelhas
conhece a espessura da sua lã
e sabe que esta se no Verão lhes sobra
no Inverno não lhes calafeta
todas as portas e janelas da pele
ao frio
O Bom Pastor
conhece os azimutes todos
dos caminhos bravios das montanhas
onde habitam todos os caules
que lhes servem
de alimento
no cajado do tempo
na vara das estações
cada uma com o seu açoite
cada uma com o seu consolo
conhece-lhes os esgares do céu
de que boca de floresta
de que toca da noite
espreitam quentes os focinhos dos lobos
O Bom Pastor
é aquele que canta um canção
de amor à lânguida flauta
para as suas ovelhas
que lhes oferece no flanco
moribundo
um redil para seu abrigo
no cajado do tempo
na vara das estações
cada uma com a sua morte
cada uma com a sua vida
19/09/10
terça-feira, setembro 21, 2010
ELIAS

Quem está na montanha vê as coisas de cima
e a roupa do corpo parece-lhe durar
para sempre imune aos temporais
e ao alvoroço vacilante da multidão
quem está na montanha
toca com a ponta dos dedos
nos lumes do céu
e maneja mais destramente
o trovão, a majestosa imponência
dos dedos de Deus
quem está na montanha
de um gesto
incendeia o altar do sacrifício
e jorra o rio
na água límpida das pedras
quem está na montanha
domina as artes do discurso
é mestre de ilusionismo bobo de feira
tratador de ventos terramotos fogos
doutor da mais cristalina sabedoria
quem está na montanha
é paladino e chanceler da justiça
da nação
quem está na montanha
da montanha pode cair
e só numa gruta abscôndita na alma
pode escutar o sussurro
o harmonioso murmúrio
da voz de Deus
12/09/10
quarta-feira, setembro 08, 2010
PROCURAMOS UM DEUS

"O reino dos antigos deuses não resgatou a morte / E buscamos um deus que vença connosco a nossa morte"
Sophia de Mello Breyner Andresen, in "Senhora da Rocha"
Há manhãs que acordam nos rostos
opacos e escuros das tempestades
para nosso afrontamento, e que assim
nos conduzem a quebrar a aliança
que nos liga às coisas
à realidade
a estilhaçar o fio de prata
que nos liga ao corpo, ao chão fremente
mas tudo se pode afundar no mar
é então que sacerdotes de um culto estranho
nos aproximam do peito as facas
igualmente escuras e opacas
e no-las apontam com rigor ao coração
e nós derivamos o olhar, o clamor
para os recintos rasgados na terra
para os círculos dilacerados no céu
em demanda no voo das aves
de um olhar fresco dos deuses antigos
de uma voz que se fizesse ouvir
na vibração dos ares
nas paredes poliédricas de templos de seda
procurámos o reino, o lugar de repouso
a casa à beira-mar
mas nada nos resgatou da morte
nada desviou a sombra da faca
da aorta, para longe da boca do medo
o reino dos antigos deuses
não chegou ao nosso meio
porque era vazio e frio de granito
e quanto se exaltou o vento
assim se foi
e sem saber sabíamo-lo: buscávamos um deus
que transpusesse as paredes e o espaço
que morresse connosco a nossa morte
nos secasse o rio que dos rostos
nos colos das manhãs ainda caem
e nos desdobrasse as asas
da sua vida
Rui Miguel Duarte
04/09/10
SIMÃO DE CIRENE

“Quando o levavam, obrigaram um homem de Cirene chamado Simão, que vinha do campo, a carregar a cruz de Jesus às costas e a seguir atrás dele.”
Evangelho de Lucas 23,26 (versão A Bíblia para todos)
Simples homem da terra,
tisnado e áspero como os bois
irmãos do arado
o teu braço,
que antes se habituara
a quebrar na enxada
outro braço agora, de soldado
amante de sangue
ignorante das tuas horas
nesta hora ignaro
de demente vingança
prende e esmaga
braço por braço
ombro por ombro
sobre as tuas costas
faz poisar o peso de pena
de um condenado
abate-se a canga do céu
despojado de estrelas
a cruz toda do mundo
RUI MIGUEL DUARTE
29/08/10
segunda-feira, agosto 23, 2010
ODE LUNAR
Que encolhes, Lua
— dizem —
que quanta eras cessaste
de o ser
vêem-te estiolar
muito te pediram e tiraram,
Lua,
sob o teu candelabro se enlaçaram
os namorados, e juraram
que a eternidade
seria o prolongamento do beijo,
ó Lua alcoviteira
com o teu beneplácito de deusa
enlouqueceram os uivos dos lobos
as noites das aldeias,
e viram-se dos túmulos
redespertarem os mortos,
mas só nessas horas do teu reinado
efémero na noite, efémero
mas que deixava
nos ouvidos e nos olhos
o rumor do terror
que a aurora não dissipava,
ó Lua pantomineira
também te derramaste cheia
dentro do caldeirão da rainha bruxa
na preparação do molho agridoce
para embeber o pomo
que jugularia a vida de Branca de Neve,
ó Lua feiticeira
em ti requestaram inspiração
os poetas
com os teus segredos mancharam a folha
e organizaram a tinta,
ó Lua paroleira
a tua pele violentou
de um pequeno salto Neil Armstrong
sem que em ti achasse
nem no teu ventre gerasse
selenitas
filhos que te adornassem a velhice,
ó Lua solteira
tanto te pediram e extorquiram
estes terráqueos, mas sei triste
que nada te deram
que te não acalentaram
o coração
talvez por isso
arrefecida
— como dizem —
talvez por isso assim
desnudada
murches
21/08/10
A propósito de uma notícia segundo a qual a Lua está a encolher.
domingo, agosto 15, 2010
RACIONALIDADE DO ATEÍSMO
sexta-feira, agosto 13, 2010
O NEGATIVO DO PENSAMENTO E CONFISSÃO POSITIVOS
sexta-feira, agosto 06, 2010
PROFECIA SOBRE PORTUGAL

“Eu vi a Cristo num país de assombro
onde rapazes proclamam alto o Teu nome”
Ruy Cinatti, “Fezada”
Eu vi a Cristo num país de assombro
onde rapazes proclamam alto o Teu nome,
num país longínquo de cor e escombro.
Um país em que os homens pasmam de fome.
Esse é um país em que os rapazes na rua
encostam as rodas das bicicletas às valas
e descalçam os pés na lua.
Uma terra de coxos sem bengalas.
É um país cujos velhos
carregam sobre o dorso a humilhação
sem relhos nem trabelhos
de poupar à crise os escaravelhos.
Vi a Cristo nos olhos claros de um amigo,
dando às bocas a água copo a copo
e aos ventres grão a grão o trigo.
País de povo delapidado a martelo e escopro.
Vi a Cristo nas mãos crespas dos Seus seguidores,
curando as feridas de viúvas e grávidas,
abertas por abutres vestidos de Senhores.
É um país de estrondo, reanimado nas praias impávidas.
5/08/2010