domingo, novembro 08, 2009

CAIM E ABEL

E aconteceu ao cabo de dias que Caim trouxe do fruto da terra uma oferta ao SENHOR.
E Abel também trouxe dos primogénitos das suas ovelhas, e da sua gordura; e atentou o SENHOR para Abel e para a sua oferta. Mas para Caim e para a sua oferta não atentou. E irou-se Caim fortemente, e descaiu-lhe o semblante. E o SENHOR disse a Caim: Por que te iraste? E por que descaiu o teu semblante? Se bem fizeres, não é certo que serás aceito? E se não fizeres bem, o pecado jaz à porta, e sobre ti será o seu desejo, mas sobre ele deves dominar. E falou Caim com o seu irmão Abel; e sucedeu que, estando eles no campo, se levantou Caim contra o seu irmão Abel, e o matou.
(
Génesis 4:3-8).


Disse José Saramago que já desde há longa data achava a história bíblica da rejeição divina do sacrifício de Caim uma história mal contada. Finalmente, a concepção ganhou substância, deixou a mente e passou para o papel. E assim veio à luz o romance-tese Caim.

Suspeitei que algo houvesse nesse relato, sobretudo pelo não-dito, susceptível de fazer germinar a dúvida, o questionamento. Que fizesse suspeitar que esse Deus seria de facto arbitrário e governados pelos humores hepáticos, e que seria imparcial. Não que de facto eu cresse que esse fosse o carácter deste Deus – bem pelo contrário –, mas coloquei a questão prévia de saber se o texto permitiria essa leitura.

E reli o episódio.


*****


Lembrei-me dos meus tempos em que era professor em exercício. E o meu espírito viajou para uma sala de aula, onde uma turma de alunos trabalhava. Nessa turma, havia dois irmãos, Caíque e Alberto. Embora gémeos, eram diferentes como a noite e o dia. Nesse dia, o Dr. Elias de Deus, o professor, trazia os trabalhos classificados para entregar aos alunos. Chamou-os um por um, e entregou-os, com um pequeno comentário (remetendo embora para a apreciação escrita). O menino Alberto entregara um trabalho impecável: cuidado na apresentação, caligrafia bem desenhada, sem uma rasura; as margens respeitadas, sem que uma haste de letra ou um hífen a transpusesse; linhas de intervalo entre os títulos e corpo de texto; abertura de parágrafos avançada ao milímetro; fontes consultadas e referidas com os devidos créditos; texto redigido com esmero. Notava-se que o aluno levara a sério a tarefa, a disciplina, o trabalho e o próprio professor. Tendo em conta não apenas as capacidades e o grau de domínio das competências programáticas por parte do aluno demonstrado neste trabalho, e com especial menção o empenho e dedicação postos na sua elaboração, o trabalho colheu a aprovação do professor e mereceu-lhe um 18.

Já o irmão não era menos destituído de inteligência, talentos e capacidades de aprendizagem, ainda que em áreas distintas das do irmão. Caíque desejava seguir veterinária, ao passo que Alberto sonhava ser engenheiro agrónomo, ou enólogo. Tinha Caíque, porém, grandes diferenças em relação ao irmão. Não levava muita coisa a sério na vida. Sabia que para conseguir o queria da vida tinha de estudar, mas isso mais não era do que uma maçada e uma obrigação para ele, ter nota e o diploma ao fim eram tudo quanto lhe bastava. Tinha de estudar e tirar o curso, mas o caminho tinha de ser sem escolhos e com o mínimo de esforço. Cabular não era motivo de vergonha ética para ele, apenas um expediente técnico, um atalho, um meio perfeitamente justificado pelo fim. E apresentou um trabalho que era o espelho perfeito da sua postura e carácter: redigida à pressa, descuidado na apresentação, caligrafia com rasuras. Dir-se-ia que o tinha feito de véspera, a correr, pois tinha de estar pronto antes do jogo do Porto na televisão, imperdível. A despeito das capacidades do aluno, o Dr. Elias de Deus não podia deixar de ser justo e dar a nota adequada de acordo com o mérito: deu-lhe 8.

O negligente Caíque, cuja vida se regia pela máxima de que o caminho mais curto entre dois pontos é a recta, que em tudo se comparava com os outros, ressentiu-se da apreciação do professor. Queria o sucesso dos outros mas sem pagar o necessário preço. Considerava que o professor tinha sido injusto. Que professor difícil de agradar! Como nada podia fazer contra ele, teve inveja do irmão. E rosnou um outro queixume contra ele (“Que era sempre o Alberto, que se calhar ele nem era tão dotado quanto o Alberto, mas ao menos fizera o seu melhor – ou pelo menos o que pensava ser o seu melhor – e se isso não fora ). O Dr. Elias de Deus tratou logo de pôr água na fervura nas emoções que avassaladoramente perturbavam o rapaz, e de fazer um pôr em acção um pouco da necessária psicologia educacional:

– Caíque, para singrares na vida o caminho é esforçares-te. Terás novas oportunidades, no próximo semestre, com novo trabalho, e no exame. Faz assim e serás aprovado. Ficares furioso com o teu irmão não te fará aumentar a nota e nada te trará de bom. Essa oportunidade também a tens: dominar a tua ira. Também nisso está o crescer e ser aprovado.

O professor apresentou, como era regulamentar, relatório escrito circunstanciado de justificação dos casos de níveis inferiores a 10 (vulgo “negas”).

Os olhos e o coração de Caíque estavam vermelhos de raiva, e as palavras do professor, longe de os aplacarem, funcionaram mais como gasolina derramada no fogo. O seu senso de justiça própria não conhecia alternativa. No regresso a casa no fim de mais um dia de escola, pretexto de convidar o irmão a irem ter com umas miúdas com quem tinha marcado encontro, desvia-o para um lugar isolado. Joga-o ao chão, à traição.

Soube-se depois que o corpo de Alberto foi achado sem vida.

Dr. José Saratogo, o director executivo da escola, chamou o Dr. Elias de Deus ao seu gabinete. Fazia-lhe espécie a avaliação do docente aos dois alunos. Não compreendia nem aceitava o que entendia como descriminação do aluno Caíque em relação ao Alberto. Nem o fratricídio mudou alguma coisa ao juízo do Dr. Saratogo, homem que se prezava de pensamento heterodoxo e independente, e que se pautava por padrões muito próprios e pouco subsidiários do senso comum. A recepção ao docente foi pouco amigável, mas lacónica e esclarecedora:

– A senhora mãe do colega, a despeito do seu modo de vida que muito deve à virtude, ainda assim não desmerece do carácter ainda mais torpe do seu filho, o caro colega. O colega é o único culpado do acto desesperado do pobre Caíque. Como pode o senhor cometer tão grosseira descriminação? O colega, como professor, não é de fiar. O relatório que apresentou não passa de um manual de maus costumes pedagógicos. Aliás, professores como o senhor não existem. São produto inventado de mentalidades reaccionárias. E fique a saber que vou instituir o devido processo disciplinar ao colega!


*****


Regressei à Bíblia e às afirmações de José Saramago. Na li nem em abono da verdade tenho especial vontade de ler o romance Caim. Restrinjo-me pois ao que disse na ocasião e que o vincula, enquanto homem e pensador, a uma determinada tese a respeito da Bíblia, de Deus e do Deus da Bíblia.

A releitura do episódio bíblico de Caim e Abel não podia ter sido mais clara e cristalina. Lê-se que Caim ofereceu uma oferta e Abel outra. Da de Caim nada nos é dito sobre a sua qualidade: se foi excelente, boa, sofrível, medíocre, suficiente ou má. Simplesmente uma oferta. Da de Abel, todavia, lê-se que consistiu numa oferta das primícias e da gordura.

Entre os povos pagãos que praticavam a oferta de sacrifícios animais, a gordura tinha de pingar. Recentemente, no almoço convivial após culto de baptismos das igrejas filiadas na Aliança Evangélica do Luxemburgo, em Remerschen (no rio Mosela), assavam-se carnes várias na brasa. Um irmão brasileiro levara picanha. Servi-me de uma bela fatia e pus-me a separar cuidadosamente a gordura da carne – como é meu habito, pois sempre me repugnaram gordura e nervo. O irmão brasileiro sentenciou:

– A gordura é o melhor da picanha.

A qualidade da oferta de Abel era pois a melhor: não só deu a Deus o melhor da carne (a gordura), como deu das primeiras crias nascidas. Pôs o seu cuidado em honrar a Deus com o melhor que tinha e antes de pensar no sustento próprio. Assim se compreende que a sua oferta tenha honrado e agradado a Deus.

Em contraste, a omissão quanto à qualidade da oferta de Caim permite intuir que o zelo esteve ausente, que se tratou de uma simples oferta. Feita segundo a mentalidade medíocre segunda a qual “o que conta é a intenção”. Como se não houvesse solidariedade entre a intenção e a oferta consumada. Com efeito, para Deus, o Senhor, tudo quanto não é o melhor não passa de resto. Não há o segundo nem o terceiro melhor, apenas o melhor e o resto. Não partilho, de modo algum, numa exegese corrente, segundo a qual a oferta exigida por Deus era de sangue. Com efeito, na Lei levítica, admitiam-se ofertas de outro tipo que não apenas o de animais. Estas fariam sentido se se tratasse de ofertas de expiação pelo pecado. No caso de Caim e Abel, nada nos é dito sobre o tipo de ofertas em questão. Parece pois que o que esteve em causa foi a intenção, a atitude dos ofertantes, e como esta se traduziu em termos práticos, tão-só isso. A oferta de Abel representa a consagração a Deus do melhor dos seus fiéis, a expressão visível do amor e temor que Ele lhes inspira.

Esta é a evidente leitura que pode e deve ser feita do episódio bíblico. O texto não suscita equívocos. Qualquer outra leitura não tem respaldo no texto, mas tão-somente em pressupostos oblíquos. E foi em pressupostos que se baseou Saramago. Os seus pressupostos e preconceitos, de uma leitura oblíqua. Tinha uma ideia do que o texto dizia, um preconceito contra o Deus da Bíblia, mas não o conferiu, o fê-lo, mas sem o entender, logo obliquamente. E viu no texto o que nele não está, não vendo o que nele está. Trata-se de pura e simplesmente ler e interpretar o texto, mesmo como literatura, algo que se ensina aos alunos desde o 1.º ciclo do ensino básico. Tal leitura feita mereceria uma rotunda negativa se fosse feita por um aluno num contexto de exame. Feita por um prémio Nobel é grave, mas tem honras de destaque nos jornais, na televisão e nos blogs. Tem todo o direito de não crer em Deus, mas não de ler mal.

Esta é a razão por que o considero intelectualmente fanático e desonesto.

sábado, novembro 07, 2009

No Éden


"Para aqueles que frequentam o jardim
o mundo está sempre a florescer
Longe de mim diminuir o louvor"

José Tolentino Mendonça, in "Sintra, antiga Estalagem da Raposa"


Aqueles que frequentam o jardim
fazem de cada pétala a sua casa
em cada cor reflectem as luzes da cidade
em cada olor se lavam da poeira das estradas.

A sombra das árvores é o seu deleite.
Se se sentam nos bancos, é para que
os ouvidos fiquem atentos
ao salmo dos pássaros
e do rumor das folhas.

No jardim o tempo não tem fronteiras,
não há sebes,
nele deixa o infinito o seu lastro.

Longe de mim romper
a fina membrana do silêncio
longe de mim permitir que
a perene florescência
do mundo, que para eles é o jardim,
deixe de entoar o devido salmo do louvor.

1/11/09

Publicado como inédito em Poeta Salutor

crepúsculo sobre Atacama


rasgo com mãos de sonho

convertido em visão

visão quente

do rés da planura

a espraiar-se para o azul


deixar de sonhar

os olhos de ver

jóias no céu

cumprem-se o bastante no contemplar


2/10/09


quinta-feira, novembro 05, 2009

La nuite tombe sur Atacama


L’eau n’érode pas ces pierres
ni le vent ici a donné rendez-vous

à moins éventuellement que sur la toile du ciel
où il a tracé les premiers brouillons
de nuages
que tout au long de la nuit parcourront
le regard
sur l’ignoré sphère du ciel
d’où l’eau peut-être
ne tombera pas
ni le vent ne quittera son
absence

deux seuls sentinelles
légèrement courbées
en révérence au crépuscule
racontent l’histoire sans trame
du désert

Cai a noite em Atacama


A água não erode estes pedregais
nem o vento aqui marcou presença

a não ser talvez na tela do céu
onde riscou os primeiros esboços
de nuvens
que ao longo da noite percorrerão
o olhar
na incógnita esfera do céu
donde a água quiçá
não caia
nem o vento deixe a sua
ausência

duas sós sentinelas
ligeiramente curvadas
em reverência ao crepúsculo
relatam a história sem enredo
do deserto

23/10/09

segunda-feira, novembro 02, 2009

CONTRA O ABSENTISMO ESCOLAR… A POLÍCIA

Na Bélgica, a escolaridade é obrigatória até aos 18 anos, como se pretende que seja, aliás, em Portugal. Mas a diferença está em que, na Bélgica, a escolaridade É MESMO OBRIGATÓRIA. Contra o absentismo escolar, há já anos que enviam agentes de polícias por centros comerciais e outros lugares à caça de imberbes e absentistas. Quando apanham um outro dois, identificam-nos e escoltam-nos à escolinha, deixando-os no gabinete do respectivo director.
Qualquer que seja a desculpa dos acnosos adolescentes para andarem por aí em vez de na sala de aula: seja porque tenham perdido o autocarro ou porque estejam doentes.
Em caso de reincidência, são os pais dos prevaricadores quem paga uma pesada multa.
Uuhhmmm… Uma sugestão para a nova equipa do Ministério da Educação de Portugal.

NOS CANAIS DE VENEZA


Queria em todas as horas
prender num só abraço
os canais e as pontes
e cingir num laço as ilhas
encerrar num só olhar
os palácios e as igrejas
reter na concha da mão
as gôndolas
desfiar o labirinto de cada calle e fondamenta,
como só o faço aos cabelos do meu amor.

Esperava encontrar nos campi
de Veneza
os portos da minha armada
em cada sottoportego as pistas de tesouros
de piratas
soterrados detrás de cada porta
na praça de S. Marcos restauraria
a serenidade
dos veneráveis Doges de antanho
reconverteria
um sonho de grandeza
na grandeza de um sonho.

Conter-te em mim
era como a descoberta da dracma perdida
eras a cidade há muito demandada pelos meus exércitos imperiais.

Mas ao ter as tuas pedras a meus pés
percebi
que não te podia conquistar
que a grande Torre do Relógio
não é o fundo do recife
onde pudesse
a minha âncora pousar.

És tu, a Sereníssima,
quem me conduz
em cortejo pelo Grande Canal
e quem, à flor das negras quilhas das gôndolas,
cobrindo o meu rosto
com uma das tuas muitas máscaras,
me faz jogar à apanhada e às escondidas
atrás da penumbra perdida
das tuas vielas e pontes

furtivamente propícias ao amor e à conspiração.

31/10/09

domingo, novembro 01, 2009

pés de sol


Descalça
e de alma nua,
a criança
penetra o limiar hermético
do nosso olhar

mergulha os pés sem mácula
para a inauguração da areia
por baixo há brasas quentes
passo a passo pé ante pé
titubeia
sobre o manto do sol

como sobre a erva hesitante
um tenro gamo
conquista o espaço prudente
deixa marcos
na superfície de poalha amarela

afinal a praia é agora dela
e são os seus pés agora firmes
quem pela areia difunde a claridade
e no nosso olhar
deixa um raio de sol
indelével

27/10/09

segunda-feira, outubro 26, 2009

FERIDA


“Espera-O uma coroa de espinhos
Para secar o sangue sobre a fronte, espera-o
a fome de um chicote
que as costas lhe há-de devorar”
J. T. Parreira, “No Jardim do Gêtsemani”

A fome batia uma litania
vai e vem sobre o dorso como tambor

O látego batia em sintonia
com a contagem ritmada
da voz do decurião
uma, duas, três, até quarenta
e com os gritos
de dor do condenado

E latejava as nossas cabeças
dentro de cada dentada das fauces
do chicote estampido vai e vem

Acirrámos os dentes
em aprovação do castigo
e dos gritos do condenado
as costas devoradas
as gotas de sangue salientes
eram o nosso prazer e satírico canto

Mas não deixávamos de pensar
que a obra do carrasco
devia ficar na discrição
recôndita duma caserna romana
longe da vista e do coração
e ensaiámos apartar o olhar
desviá-lo do esbatimento do seu rosto
em busca da geometria da dança
de um bando de pássaros que por ali voasse
ou admirar as coríntias colunatas do pátio
onde decorria o evento

Mais tarde esperava-o uma coroa
sobre a cabeça de espinhos
para o sangue na fronte lhe secar

E escorria das nossas cabeças

E depois ainda
esperava-o ser fixado na cruz
poucos de nós ficaram para ver
preferimos meter-nos pelas cruzes das ruas
pés apressados para o recolhimento e a piedade
pois esperava-nos a Peschah em casa
ao lume do assado do cordeiro,
o único a quem hoje se devia secar o sangue

Mas o vai e vem do flagelo batia em nós
e a voz de comando do decurião e os gritos de dor
o sangue porfiava em correr de nós
como mulheres nos dias da impureza
os panos não o estancavam
banhámo-nos mas a água
solidária tingia-se de escarlate

O chicote a coroa a voz do decurião e o sangue éramos nós
o que tínhamos nós com esse contumaz blasfemo
de rosto deformado condenado?

Caímos no chão

Éramos nós os condenados
de costas devoradas e frontes sangradas
à beira do vale onde a morte se dissimula de sombra

Por fim acordámos

Esse sangue
penetrava-nos até aos corações
e corria agora neles
lavados

17/10/09
Originalmente publicado em Papéis na gaveta, por gentileza do poeta J. T. Parreira

ECCE POIEMA

Anunciação do anjo a Zacarias (ícone russo)


"Mas como não acreditaste no que te disse, vais ficar mudo, sem poder falar, até ao dia em que isso acontecer, pois tudo se realizará no tempo devido.”
Evangelho de Lucas 1:20 (versão A Bíblia para todos, p. 2044)



Para mãos que trabalham
sem uma língua treinada
o silêncio pode ser de ouro
ou de chumbo maciço

Porém, esse silêncio ainda fala
ainda está cheio de poemas, cânticos
confessa apreensões ou revela sonhos
da dentro da linfa, das cavidades do osso

Voz que duvida, que fala do que não sabe
que com as mãos se queda a queimar incenso
a vigiar que a chama da menorah perene arda
a oferecer os pães

que escreve febril o que o silêncio apenas sussurr
ao que a voz na laringe emudece

Que te diz e conta, Zacarias, a voz que te secou?
Voz que guarda e
burila a sabedoria
que decanta os segredos
confiados pelo anjo do Senhor
esculpidos no ventre da tua mulher
afinados em outra voz, a que clamará no deserto

Mas quanto melhor
não é,
como numa salva de prata uma maçã de ouro servida
é a voz irrompendo
finalmente instruída e madura
que fala
e canta os altos louvores do Senhor!

22/10/09

Originalmente publicado em Papéis na gaveta, por gentileza do poeta J. T. Parreira

quinta-feira, outubro 15, 2009

PASSOS


Provérbios 20:24 “os passos do homem são dirigidos pelo Senhor; o homem, pois, como entenderá o seu caminho?”

nem sempre sou confortado pela vara e pelo cajado
olho em redor
em vão
não estás.

o pastor toca com a vara e empurra a ovelha
gentilmente
na direcção que ele requer
assim me guias ou guiavas,
ou pensava que me guiavas
mas deixei de ver
a brilhar nas sombras
ou descansando sob uma árvore
enquanto eu me regalava no verde

mas o pastor nem sempre está
as nuvens negras cobrem-no
com o aguaceiro e a trovoada
certamente não virá
a buscar a ovelha perdida
e só

a apreensão engole-me
com dentes e uivo de lobo

até que me lembrei de algo que li:
entenderá o homem o seu caminho?
é o Senhor quem dirige os seus passos
mesmo na ignorância do homem

eis que o pastor
contra a mente turvada da ovelha
dispôs no chão uns marcos umas pedrinhas

regularmente
numa certa direcção
como as contas do colar de Ariadne
ensinam os passos à ovelha
para a liberdade do labirinto
e do vale da sombra do Minotauro

Rui Miguel Duarte
Herserange 13/10/09
publicado igualmente em A Ovelha Perdida e Liricoletivo

terça-feira, outubro 13, 2009

ESCUDO DA FÉ (AOS EFÉSIOS 6:16)


Conta o poeta Arquíloco que em certo dia de áspera peleja
largou o escudo em terra
e correu e correu
e ficou a vê-lo nas mãos de uns brutos
que o miravam e remiravam e giravam nas mãos grotescas
essa bela peça de topo de gama
de tecnologia de ponta
do armamento táctico-defensivo
e os ombros encolhidos da vergonha logo se expandiram
em risos de desprezo:
– Quero lá saber! Posso comprar outro pelo mesmo preço.
A cobardia vestiu-se de prosápia!

O poeta Horácio ao que parece
repetiu o gesto do seu mestre
em outro dia de rude luta.

Com quem queres aprender, soldado?
Porque soldado és
Vais ficar sentado no simpósio do sofá
e mergulhar
os olhos
e o nariz
em copos de cerveja
mordiscar tremoços
e ver a bola?
Ou como certo dia o poeta e rei David
debruçado do despreparo da varanda
a contemplar e contornar as famosas e formosas
curvas da mulher do vizinho?

É-te pesado o escudo? Não és digno de portar o estandarte
nem de calçar
as botas cardadas de soldado
que possuem o território inimigo com a palavra da paz.

Deixas o escudo no chão sobre os estilhaços e sangue dos teus camaradas?
Ou em casa, num canto secreto
do sótão escuro da infância
e do medo?

Viras o dorso às goelas rugidoras do leão?

Enquanto lá fora ferve o furacão?

A guerra, soldado, está aí
bate-te à porta com manápula de ferro.

Qual incêndio florestal
mais voraz
do que o abismo chega à tua tenda.
Não sabes que a seta do inimigo te perfurará
a cota de malha
e a tua carne à lâmina
será manteiga?
Julgas que fugirás?

Como ao dia claro se sucede
o arcano da noite
a guerra obrigatória vem.

O teu peito nu
inchado de prosápia ou tolhido de cobardia
estalará
e pela fenda o coração ser-te-á
roubado, soldado,
e com ele as saídas da vida.

Não há fronteira
nem rio outra margem
para onde mires o salto.

A guerra vem.

Que general e que exemplo seguirás?

Mira as mães da Lacedemónia
que ao retirarem cuidadosamente
os escudos do prego na parede
onde se cansavam de estar pendurados
os entregavam aos maridos e filhos
na despedida para a guerra
com alma de leoas
sem um beijo nem uma carícia
nem com voz de lã
severíssimas:
– Volta com ele ou sobre ele!

Toma, soldado, na mão
o escudo da fé
pés no chão
corrida contra o inimigo
vai e volta
não sem ele nem sobre ele
mas com ele.


Herserange (França) 11/10/09
publicado igualmente em A Ovelha Perdida e Liricoletivo

domingo, outubro 11, 2009

POEMA DE DEUS

POEMA DE DEUS

αὐτοῦ γάρ ἐσμεν ποίημα, κτισθέντες ἐν Χριστῷ Ἰησοῦ ἐπὶ ἔργοις ἀγαθοῖς οἷς προητοίμασεν ὁ θεὸς ἵνα ἐν αὐτοῖς περιπατήσωμεν.
“É que somos obra de arte, poema de Deus. Ele criou-nos em Cristo Jesus para produzirmos boas obras, as quais Ele de antemão preparara para nelas vivermos e nos movermos.”
Paulo, Carta aos Efésios 2:10


Sou um poema de Deus
manufacturado de palavra e terra
coroado de sol
de resplendor de aurora

No chão a tua mão pouso não achou
do vermelho barro que colheste
moldaste os meus rins
os meus ossos enrijeceste
vaso que
de água e sangue encheste

Do rude filão apartaste a ganga
e no lume
de milhares de sóis purificaste
o ouro da minha carne

À minha pele
não são ignotas a plaina
nem aos meus braços
a talha a martelo e escopro
o meu rosto
marchetado
de finas e várias peças de escultura
mais preciosas que mármore

no fundo da caverna da gestação
à massa bruta entreteceste
textura
partes órgãos funções
um coração que estremece e chora
olhos que vêem nariz que cheira mãos que apalpam
boca que fala
não um pedaço de madeira esculpida por um Gepeto
a quem uma fada deu vida

mais muito mais

em minhas narinas sopraste
e os meus pulmões respiraste
o sopro que é agora
a minha voz
que respira fala e profetiza e diz o poema

precisamente como tu

sou criação tua
poema teu
deste-me a tua palavra
e a tua arte
fizeste-me mundo e criação
filigrana de galáxias
nas raias do infinito
estertor de supernovas
expansão de nebulosas
sóis e planetas
asteróides e cometas
sistemas estelares e satélites
quasares e pulsares

fizeste-me mundo terra azul
crespidão de montes
explosão de vulcões
separação de terra e águas
rios de vales fendentes
árvores elevadas contra o vento
flores que ateiam cores e perfumes
do mar pleno o rugido
luares e canções
florestas e falésias
concerto de violino e risos de criança
semente caule e fruto

fizeste-me como tu
poeta

e assim mundo
com outros mundos universos paralelos
com outros poemas
transformados em poetas
e pintores e arquitectos
de mãos dadas
e vozes geminadas
faremos de toda a terra a obra que quiseste

a obra que preparaste
– eis aí a seara pronta para a ceifa

terça-feira, outubro 06, 2009

O dedo em riste




O dedo em riste da criança

os olhos
escrevem
se a voz
ainda é infante

nas margens do rio
recessos
de pequeninas colmeias
multímodas
ondulantes de cor
o rio
um longo sobressalto

o sorriso da criança no rio
pinta
a carvão e aguarela
de assombro
e novidade
a sua canção

– Papá, qu'é aquilo?

11/07/09 passeio no Douro entre Porto e Gaia

sexta-feira, setembro 25, 2009

Ataque ao prato

A Caroline já sabe comer sozinha, aos 20 meses. A delícia de vê-la crescer, adquirir em conquista aquilo que se tornará trivial. Belas experiências deste pai mais do que babado.

quinta-feira, setembro 24, 2009

MEDITAÇÃO SOBRE O SALMO 133

Ah querido irmão
Nada é mais doce
Do que as tépidas manhãs
Que amaciam as gotas do orvalho
Sim do orvalho de Hermon

Nada mais delicioso
Do que o nacarado óleo
Que desliza pela barba
O óleo da constrição do fruto da oliveira

Nos nossos conclaves, irmão
Há o mel dos abraços
E o sal dos risos
O veludo dos cantos
Entoados em conjunto
E o sol pleno das nossas danças

Ah somos Aarão de barba luzente
E irmãos do orvalho

Eia! Que nestes conclaves
Está o Irmão mais velho
Ele próprio do seu frasco
Derrama sobre nós o perfume
O mesmo que lhe ungiu os pés

CONTRADIÇÕES DO CORRUPTO

Por trinta moedas
E um beijo
Vendi o meu irmão
O meu coração de prata

O preço de um terreno

Ambição?
Não
O preço da minha decepção
Simplesmente
A possibilidade de um pouco de lucro
E de comprar um outro Messias

domingo, setembro 13, 2009

Quem é o inferno? C'est qui l'enfer?

"L'enfer c'est les autres" Jean-Paul Sartre
Antes de conhecer Cristo pensava eu ser uma vítima. Os outros não me compreendiam, rejeitavam-me, nauseavam-me.
Ao conhecer Cristo aprendi que sou carrasco. Que não compreendo os outros, rejeito-os, causo-lhes náuseas. Porque eu sou um outro para os outros.
Assim com propriedade concluo o silogismo: "L'enfer c'est moi".

"L'enfer c'est les autres" Jean-Paul Sartre
Avant de connaître le Christ je pensais que j’étais une victime. Mal compris des autres, ils me rejetaient, me provoquaient des nausées.
Je l’ai connu et j’ai appris que je suis un bourreau. Que je ne comprends pas les autres, je les rejette et leur provoque des nausées. Car je suis un autre pour les autres.
Alors je conclus avec propriété le syllogisme : "L'enfer c'est moi".

sexta-feira, setembro 11, 2009

OFICINA



Os reis vêm a ti
Trazem as suas espadas e os ceptros e as coroas
As espadas estão embotadas
Os ceptros quebrados
E as coroas de aço pesam nas cabeças
Ouro em vez de bronze
E muitas perguntas

Os sábios trazem ouro incenso e mirra
Cadernos em vez de livros

As mãos e bocas são de barro
Os corações e entendimento de pedra
Sobre a tua mesa as depositam

Ó mais nobre dos artesãos
Quem se atreve a questionar a tua arte?

sábado, setembro 05, 2009

Vinicius de Moraes, Soneto de fidelidade

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa lhe dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure

Estoril - Portugal, 10.1939

terça-feira, setembro 01, 2009

Códice Sinaítico

Para os que, como eu, alguma vez trabalharam com códices (o livro manuscrito antigo no formato que conhecemos hoje), estudiosos de codicologia ou paleografia, ou simples curiosos por antiguidades e interessados na transmissão do texto bíblico, aqui fica ligação para o Projecto do Códice Sinaítico.
Este códice (sigla א [Aleph]), o século IV, é um dos mais antigos e importantes testemunhos do texto bíblico em língua grega e escrita uncial. A British Library, a cuja fundo o códice pertence, é a responsável do projecto. O mesmo pode ser visto aí visto em imagens digitalizadas de excelente nitidez e qualidade, percorrido com cursor, exploradoonline. O texto de cada fólio é transcrito em caracteres gregos minúsculos para mais fácil confronto, e é identificado pela referência bíblica respectiva em menus de cortina onde se podem seleccionar outras referências e assim visualizar a imagem do correspondente fólio.
"Um dos mais importantes livros do mundo", como se lê no texto de apresentação em inglês, sai dos ultra-reservados e posto à disposição do universo.

segunda-feira, agosto 10, 2009

LA PIERRE

Sur une courbe de la route
Là où le soleil s’est couché
Appuyé sur un rocher
J’ai pris une pierre
Dardée du ciel
Et sur elle je me suis dépouillé du tourbant

Au-dessus de ma tête les étoiles sont pendues
Mon âme fixe les pieds sur les marches
Et prend la route
Par où les anges montent
Avec le sueur de ma voix
Et descendent amenant la parole de ta bouche
Le rêve transpose le seuil des mes yeux endormants

Et tout ce que j’ai c’est cette pierre
Que mes cheveux et ma barbe ont polis
Venue et visite du ciel
Envers lui je la dresse
Je la lève de la terre
Sur elle je verse la libation d’huile
Et elle est la colonne et corniche da la Maison du ciel et de Dieu
La fondation de la maison

Où toi et moi habiterons

La pierre où je me suis reposé
Était la pierre dont j’ai célébré
Au-deçà des nuages la rencontre avec la présence
De celui qui au-delà d’elles a établi son trône
Immanent

Maintenant je sais qui tu es
Je reconnais que tu es ici
Que où que j’aille
Pour tous les points cardinaux
Ton aile est ma tente
Et celle-ci s’élargira au-delà de ma vue
De la terre et des générations de mes lombes
De l’immensité de poussière

Voici mon Dieu de toutes les lignes courbes et droites de la route
De toutes routes

O ALTAR DA ALMOFADA 4 – A ALMOFADA

Com autorização do pastor, dirigi-me à frente e transmiti a lição que o Espírito de Deus me dera a respeito da almofada de Jacob.
– Irmãos, enquanto o pastor ministrava, recebi no meu espírito uma mensagem de Deus. Foi ao lermos o trecho que nos relata como Jacob dormiu com a cabeça pousada numa almofada de pedra, e após um encontro com Deus num sonho ergueu, com essa pedra, um memorial ao acontecimento e declarou ser aquele sítio “Casa de Deus”.
Ora, para Jacob chegara a hora de descansar. Deteve-se, fez uma pausa na sua jornada. Não insistiu em prosseguir. Anoitecera, tudo em redor escurecera, cessara o tempo de caminhar, era o tempo de dormir. Nesses épocas, vivia-se de sol a sol: acordava-se com o nascer do astro e ia-se para a cama no seu pôr. Não havia estradas nem grandes postes de iluminação pública. Dependia-se dos luminares do céu nos caminhos, e de archotes e lucernas a azeite ou petróleo, no interior como no exterior de casa.
Jacob deitou-se e descansou, pura e simplesmente.
A experiência pessoal ensina-me que é quando mais invocamos tarefas urgentes e inadiáveis, no trabalho ou em casa, compromissos familiares ou de outros tipos, e que é quando mais nos embrenhamos neles que menos conseguimos realizá-los. Que mais nos perdemos em atalhos, que mais vagamos de um lado para o outro, quais barcos à deriva. Ou, como se diz em linguagem comum, quais baratas tontas. O activismo faz perder o foco e arruína a estratégia previamente definida. O resultado disso consiste em quebra de produtividade, canseira e mais tensão, vulgarmente designada por stress.
Quem poderá não perceber que esta descrição é uma boa descrição da sua própria experiência?
Ora, Jacob descansou, e a pedra de descanso foi o fundamento da edificação da Casa de Deus. Descansar, quando tentados a nos escusarmos precisamente com o cansaço, é vir e estar na Casa de Deus.
Esta foi o teor da meditação que partilhei com os irmãos. O pastor levantou-se, agradeceu e comentou, em conclusão:
– É bom saber que a Casa de Deus é lugar de descanso.

terça-feira, julho 28, 2009

A Pedra

Numa curva de caminho
Onde o sol se deitou
Encostado a uma rocha
Tomei uma pedra
Dardejada do céu
E sobre ela me desfiz do turbante

Sobre a cabeça pendem-me as estrelas
A alma firma os pés na escadaria
E empreende o caminho
Por onde os anjos sobem
Com o suor da minha voz
E descem com a palavra da tua boca
O sonho transpõe o limiar dos meus olhos dormentes

E o que tenho é esta pedra
Que os meus cabelos e barba poliram
Vinda e visita do céu
Para ele a erijo
A levanto da terra
Sobre ela libo o azeite
E é a coluna e cornija da Casa do céu e de Deus
A fundação da casa

Onde tu e eu viveremos

A pedra onde descansei
Foi a pedra com que celebrei
Aquém das nuvens o encontro com a presença
Daquele que além delas estabeleceu o seu trono
Imanente

Agora sei quem és
Reconheço que estás aqui
Que aonde quer que eu vá
Para todos os pontos cardeais
A tua asa é a minha tenda
E esta se alargará para além da vista
Da terra e das gerações dos meus lombos
De imensidão de pó

Eis o meu Deus de todas as curvas e rectas do caminho
De todos os caminhos

Férias: 1 a 17 de Julho





















Férias, férias, férias!

Desejadas e ansiadas como um Messias, amadas com a mais sedutora amante, devoradas como um cozido à portuguesa, saboreadas como um chocolate e sorvidas como um sorvete, curtas como a chama de um fósforo, perdidas como uma nota de 500 €!
Assim foram as férias: em Sintra, os travesseiros, as queijadas, cabo da Roca, Amadora, Costa da Caparica, um gelado na geladaria Emanha no Parque das Nações, em Aveiro, as primeiras experiências de praia da Caroline, no Porto, no Douro, em caves de Porto, reencontro com amigos e com família, o aniversário do meu irmão, visita a igrejas nas quais já nos congregámos, descansar, o prazer de comer fora, de "ter um livro para ler e não o fazer" (como escreveu o Pessoa).
E ala, que são horas de regressar – agora que estava a ser giro…

segunda-feira, junho 22, 2009

O ALTAR DE ALMOFADA 3 – A PEDRA

Era uma sexta-feira do início de Maio de 2009. O céu estava aberto sobre Steinsel, no Luxemburgo. O meu pastor, Paulo Cardoso, ensinava sobre a importância de frequentar a casa de Deus, a casa de culto onde a comunidade de cristãos local se reúne para em conjunto celebrar Deus. Com efeito, muitos cristãos deixam de se congregar, e surgem as mais variadas desculpas. Eis um problema tão velho quanto a existência da Igreja de Cristo. Já o autor da carta aos Hebreus advertia para ele. O cansaço, o muito trabalho, o stress: alguns dos nomes que essas desculpas recebem. São nomes como esses, que começam como desculpas para justificar um hábito ou a falta dele, e se convertem em ídolos, senhores dominadores que estiolam o sentido do amor, do zelo e do compromisso e ocupam o lugar que pertencem a estes.
Um dos versículos bíblicos citados a propósito foi o comentário de Jacob ao sonho da escada celeste que tivera (Génesis 28:16):
— Realmente o Senhor está neste lugar; e eu não o sabia.
E o lugar, esse lugar, foi chamado pelo próprio Jacob “Casa de Deus”. A congregação dos santos no culto é a Casa de Deus. A verificação de Jacob interpela quem quer estar com Deus a vir ao lugar onde os santos se reúnem. E ao vir e se reunir pode ser surpreendido como Jacob o foi, e verificar que Deus está de facto aí. E encontrar Deus muda o figurino dos dias e das emoções.
Ora, a Casa de Deus é a igreja – tanto no sentido tradicional de edifício, como no sentido mais primordial de comunidade. O étimo é grego: ekklesia. Nos regimes democráticos de tipo ateniense, era o nome dado ao principal órgão de poder, a assembleia dos cidadãos; adoptado pelos cristãos, passou a designar a congregação dos santos, para o convívio, a adoração e a oração a Deus em conjunto. O tema deste passo bíblico não é explicitamente a fundação e natureza da igreja enquanto corpo congregador dos filhos de Deus. Este passo bíblico é a história de uma revelação pessoal a Jacob por parte de Deus. Esta revelação pessoal teve como propósito abrir a Jacob os horizontes mentais para a promessa divina que consistia em multiplicá-la em revelações e alianças pessoais por toda a sua família e descendentes.
O princípio, porém, fica estabelecido. Posso entender a Casa de Deus como o lugar onde se abre o espaço para descer uma escada de comunicação entre o céu e a terra, onde Deus faz a sua habitação. Consiste numa aliança cuja iniciativa parte de Deus e subordinada a cláusulas. Estas constituem promessas cujo beneficiário é a parte humana. O destino da Casa viva de Deus é ser composta de congregação de inúmeras relevações e alianças pessoais.
E tem como fundamento uma pedra. O pastor leu e enfatizou a declaração de Jacob de que Deus estava ali. E prosseguiu a exposição da mensagem. Mas a pedra chamava-me. Convidava-me a deter-me. Li num relance de olhos todo o episódio, mas a minha mente já sabia onde queria meditar, e que questões a despertavam. A pedra que serviu de almofada foi ungida e erigida como memorial do encontro com na Casa deste. Porquê? Teria isto algum significado ou seria mero acaso: Jacob tomou aquela pedra simplesmente porque era a que tinha à mão?
Estas perguntas ficaram a martelar no meu espírito, e pediam uma resposta. Imediatamente soube que uma ideia me estava a ser dada, e que ideia era. E estava certo que me era exigido proclamá-la. Pedi ao pastor para partilhar com a congregação o que o Espírito de Deus me mostrara.

segunda-feira, junho 15, 2009

O ALTAR DE ALMOFADA 2 – A PEDRA E AS ESCADAS

Embora aterrado com a visão – tão cheia de luz e fogo, e a voz de Deus, mais forte do que o trovão, som de muitas águas, mas nítida – a palavra que Deus lhe dera era o bastante para o tranquilizar. Percebia que essa palavra merecia a confiança.
Sabia que o sonho lhe fora dado pelo Deus de seu pai e avô. Entendera que lhe falara, que tivera o privilégio de Ele se lhe revelar. E confirmava que a promessa da multiplicação das gerações da linhagem de Abraão lhe era agora transmitida, incontáveis como as estrelas do céu e o pó da terra. E que esse Deus estaria com Ele, e que havia comunicação entre o céu e a terra, que os anjos de Deus seriam com ele para o guardar e lhe trazer a bênção do céu, em obediência à voz do Senhor. Sim, a promessa era também para ele, não apenas por ser da linhagem de Abraão. Deus falara com Jacob, e não com o neto de Abraão. Havia umas escadas entre ele e Deus. Do alto das escadas Deus falava-lhe, como falara com Abraão. Ouvira e ouviria Deus, como Abraão. Com ele Deus fizera uma aliança, a mesma que fizera com Abraão. Conhecia agora Deus pessoalmente, e não apenas por ouvir o avô e o pai falarem dele. Abraão fora conhecido como o amigo de Deus. Também com ele tinha Deus firmado essa relação íntima.
Sabia que a promessa de Deus à linhagem de Abraão era para uma terra deleitosa, e essa terra fora claramente apontada. Mas uma coisa não sabia:
– Não sabia que também nesta terra Deus está.
Sim, a promessa era Canaã. Essa era a herança. Mas percebia que o Deus dos seus antepassados e seu Deus era Senhor também de outras terras. Daquela terra. Da terra que era por ora o seu destino, Haran. Também aí o seu Deus seria com ele, e dirigiria os seus passos, e seria o seu conselheiro, e o protegeria, e lhe daria uma jovem e linda mulher, a quem amasse, e que o amasse e lhe desse muitos filhos e filhas. Aí o abençoaria.

Era costume entre os povos tomar pedras e fazer delas um marco da consagração de um voto aos seus deuses. Às promessas do Deus e de seu pai e avô e agora igualmente seu Deus respondeu Jacob com votos: entregar-Lhe-ia o dízimo de todos os bens que lhe fossem dados segundo essas promessas. Tomou ele também a sua pedra e consagrou-a como memorial ao Deus da aliança acabada de concertar. E conforme o costume, chamou à pedra, e ao lugar em que a achara, Casa de Deus. Como sinal último da aliança, ungiu a pedra com um pouco de azeite, que representa a presença de Deus. Sempre que ele ou seus filhos por ali passassem lembrar-se-iam da aliança de Deus com Jacob e reafirmá-la-iam em seus corações, voltando-se de novo para ela.
O olhar não sondou em redor nem a mente se questionou. A pedra que a mão tomou foi a que lhe serviu de almofada. Essa era a sua Bethel, a sua Casa de Deus.

Lembrara-se: o seu avô Abraão sacrificara e selara aliança com o seu Deus por ali. Então o Senhor já chamara para si havia muito aquela terra. A Abraão e à sua linhagem prometera um território da ribeira do Egipto até ao rio Eufrates. Aquela terra fazia parte da promessa. E Deus disse-lhe que lha dava. Ali plantara erva para os seus gados, ali abrira caminhos para as suas caravanas e mercancias. Ali construiriam cidades e plantariam e cultivariam cereais e árvores de fruto. Que lhe dissera Deus? Os seus filhos e netos estender-se-iam para todos os pontos cardeais. A estrada para Haran era igualmente herança para os seus filhos e netos. E Haran. E toda a terra.
Como poderia ter-se esquecido disso: que Deus também estava ali?

terça-feira, junho 09, 2009

Camões: Em defesa da língua Portuguesa

E na língua, na qual quando imagina,
Com pouca corrupção crê que é a Latina
Os Lusíadas (Canto I estrofe 33)

Camões foi a seu tempo, juntamente com a sua geração, um grande renovador e fixador de novos padrões e formas na língua portuguesa, na sintaxe, no vocabulário, na expressividade retórica e estilística. Justamente amanhã se celebra o seu dia, e com ele o dia da alma lusa.
E como organismo vivo, a língua continua hoje a ser reinventada.

Vem isto a propósito precisamente de Camões, não o Luiz Vaz, mas o Instituto.
Há uns tempos, ao consultar a página da Direcção Geral dos Recursos Humanos da Educação, do Ministério da Educação, sobre concursos de recrutamento de pessoal docente, verifiquei que não havia nenhum concurso aberto, mas sim um tal "procedimento concursal".
Um pro quê?
Como a responsabilidade sobre os concursos de recrutamento de docentes para os cursos de língua e cultura portuguesa para os ensinos básico e secundário passou para a alçada do O o Instituto Camões, tutelado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros (que já tinha a responsabilidade sobre os concursos de recrutamento de leitores para as universidades estrangeiras), ontem mesmo, ao aceder ao portal de internet do Instituto, verifiquei que havia um "procedimento concursal" aberto para leitores.

Quando li isto na página do Ministério de Educação pensei que poderia ser uma de duas coisas: ou era da minha vista, ou era mais um neologismo da prolífera língua de quem escreveu essa enigmática expressão, o eduquês. Concluí que só podia ser de quem escreveu, e que a expressão viera de uma das cabecinhas pensadoras dos monstros Cila escondido num alto rochedo da Av. 5 de Outubro em Lisboa, e que mais monstruoso e temível ficou desde que se levantou a nova cabeça Prof. Doutora Maria de Lurdes Rodrigues.
Passado o susto, fui à minha vida. Até porque já não sou há três funcionário desse monstro, perdão, desse ministério. Olhos que não vêem, coração que não sente.

Eis senão quando depara-se-me no sítio internet do Camões a mesma medonha visão de palavras que antes me tinha traumatizado as tripas. Talvez as cabecinhas pensadoras da Cila que antes tinham trabalhado para o Ministério da Educação estivessem agora no Camões. O que estava recalcado veio à superfície. Nããããoooo!!!

Porém, uma rápida pesquisa na internet dirigiu-me a outras páginas de outros organismos da administração pública onde o monstro aparece, por exemplo, aqui, ou aqui.
No último link, o monstro é definido como "o conjunto de operações
que visa a ocupação de postos de trabalho necessários ao desenvolvimento das actividades e à prossecução dos
objectivos de órgãos ou serviços"…
Mas pergunto porque desenvolvimento não é "procedimento desenvolvimental". E aparece aí também o termo "recrutamento", e não "procedimento recrutamental".
Ai que do monstro Cila caí no monstro Caríbdis, pois os tentáculos aparecem por todo o lado! A expressão afinal não é da língua eduquês, mas de uma outra mais tentacular e omnipresente, o administrês, que subtilmente nos penetra em todos os poros e nos contamina o modo de pensar e de falar, e até eu já me deixei influenciar!

Ou então, visto de outra forma, não tão negativista, que plasticidade a da língua portuguesa!
Assim o Instituto Camõe, de mãos dadas com os demais órgãos da administração pública, faz a sua parte no fiel cumprimento da nobilíssima missão de defesa da lindíssima língua portuguesa, fiel dilecta da latina e tão semelhante à mãe. Perdão, da nobilíssima missão de procedimento defensal da lindíssima língua portuguesa – é assim que se deve dizer.
O Instituto fez jus ao nome do seu patrono.

Leitor, quando quiseres mandar outrem à fava, não o digas assim mesmo, com estas palavras mesmas, nem uses palavrões. E usar palavrões é banal e por isso deixou de ser dissuasor. Quão melhor não é usares uma outra estratégia que deixe o adversário de rastos, confuso, perdido, nauseado. Não entende que golpe baixo recebe, não tem anticorpos para ele e ei-lo a cair por terra, com uma dor de cabeça que lhe dá sensação de ter uma bomba-relógio lá dentro e com forte indigestão, sem conseguir conter o vómito.
Quando pois quiseres mandar alguém à fava, diz-lhe assim:
– Vai p'ró procedimento concursal!

sexta-feira, junho 05, 2009

O ALTAR DE ALMOFADA 1 – NO CAMINHO

Aquele era o dia da partida. No alforge, além de provisão para uns dias de viagem, levava a bênção e o conselho do pai e o beijo da mãe. Um era a certeza de que o propósito da viagem se cumpriria, pois o Deus de seu pai e avô haviam prometido para a sua família uma descendência numerosa, e se Ele fora com eles cumprindo a Sua aliança com eles, seria igualmente com ele. O outro alimentava-lhe a alma com a garantia da cumplicidade: da sua mãe querida, que o ajudara a ganhar o lugar da primazia destinado, segundo o costume, ao irmão, sabia que podia esperar o mais terno acolhimento e as mais calorosas boas-vindas, ao regressar com sua esposa.
– Escuta bem, meu filho: não deves casar com nenhuma mulher de Canaã. Vai à Mesopotâmia, a casa do teu tio materno Labão, escolhe uma das filhas dele. Estão em idade de casar, e são gente de bem. E que o Deus do teu avô Abraão e teu pai seja contigo.
Partiu. Estava só. A bênção e conselho do pai e a cumplicidade da mãe davam-lhe força aos pés na caminhada, mas estava só. Os quilómetros sucediam-se e essa percepção tornava-se progressivamente mais clara. Só. Ele teria apenas de escolher a noiva entre as primas, e suportar a desilusão caso nenhuma lhe agradasse verdadeiramente. Mas, segundo o costume, deveria procurá-la entre os parentes dos seus pais. O irmão já tinha várias esposas, ele nem uma. Talvez esta, para lhe dar os filhos prometidos e assim continuar a inumerável descendência de Abraão, e depois tomasse outras.
Mas talvez esse Deus de Abraão e de Isaac o guiasse e a prima que tinha para lhe dar por esposa fosse, afinal, lindíssima. Assim fizera com seus pais Isaac e Rebeca, e bem sabia quantos se amavam.
Deixara Bersheba ao nascer do sol em direcção a Haran, e ao cabo de muitas horas eis que o sol tombara. Aproveitou até ao último vestígio de escarlate no céu. O vindo de ocidente ficava-lhe pelas costas, e a sua sombra caminhava adiante de si. Por fim, o facho solar esgotava-se, e com ele a luz para lhe iluminar a estrada. Não adiantava continuar.
Estirou as pernas longamente, espreguiçou-se, respirou fundo e bocejou. Fechou os olhos e deixou-se ficar uns instantes, em silêncio, a captar a murmúrio do repouso na respiração. A textura doce da eternidade na chama de uns poucos segundos: abriu os olhos.
Novamente mãos à obra.
Com umas poucas ervas rasteiras por leito, recostou-se ao abrigo de uma rocha – um parco abrigo contra o fresco vento nocturno, mas ainda assim um abrigo. Tomou uma pedra suficientemente grande e suficientemente lisa para nela encostar a cabeça e fechou os olhos de vez. A única luz eram estrelas no céu, aquelas que se podiam deixar ver por entre as clareiras nas nuvens.

sábado, maio 09, 2009

17'' que mudaram o curso da História


No 1.º de Maio deste ano, eu e as meninas (a Caroline e a Eunice) fomos passear ao centro termal e de lazer de Amnéville.
Entre outras pequenos passeios e aventuras (de comboiozinho, visita ao aquário, um lanche e uma partida de bowling), as meninas fizeram o seu primeiro passeio a cavalo (pónei).
Só da aventura da Caroline tenho registo vídeo. Magistral, tranquila, descontraída, dominadora da situação por parte da menina mais doce, esperta, enérgica, eléctrica, curiosa, comunicativa, bem disposta, faladora, aventureira, corajosa, destemida e fiteira, inventora da nova língua "gabum". Após uma reacção irada à colocação do capacete, já apaziguada, ei-la, com ele apenas meio posto, mas com destemor épico a assumir as rédeas do animal. A primeira vez, mas com a elegância e a segurança do cavaleiro experiente.
17'' magistrais que mudaram o curso da História. Aos 15 meses. Não tardará que se oiça falar de maiores proezas com influência ainda mais decisiva no curso da História.

segunda-feira, março 16, 2009

Dedicado ao mais celebrado mestre da eloquência de sempre




Demóstenes

Tu não sabes, mas os seixos moldaram-te
Nas praias da Ática
À beira do abandono lançaste o manto à areia
mas o vento elevou-o à altura das fragas
à tua voz e ao teu espírito

Daí o trovão fala às velas
o vento ecoa a elegância do pregão
aquele que faz o povo recobrar a força,
Demóstenes
e Atenas navega
para o porto da liberdade

Espírito e voz moldados
As gerações que se te seguirem
serão mais gagas do que tu
e contigo quererão aprender
na escola, não na vida
a voz e o espírito
o pulmão e o coração
a força e a elegância
a escolha do ritmo e do vocábulo
o relâmpago do raciocínio
e o trovão da paixão
imitarão a tua arte
honrar-te-ão como o mestre perfeito
da invenção, da ordem dos elementos, da beleza e da declamação
citarão os teus incisos, períodos e orações
decalcarão e jurarão sobre a tua eloquência
aspirarão à tua Coroa

Sem seixos, sem praia, sem fragas
sem o fogo e o vento a falarem às entranhas da cidade
sem a neblina propínqua da servidão
o espectro opaco da Macedónia

Quem tiver uma causa uma voz e um espírito e uma palavra
escutar-te-á
e de novo o teu espírito soprará e a tua voz de pedras rugirá

quinta-feira, março 05, 2009

CO2: não podemos exterminá-lo?


A ciência, como a conhecemos hoje (e como talvez desde sempre) tem os seus dogmas, os seus lugares comuns, declarações de fé, mitos. Quando chega ao domínio da divulgação, em revistas, jornais, programas de televisão, perde o rigor e ganha em ridículo, adopta uma retórica ideológica, dogmática, tautológica, religiosa, de verdade revelada, mais do que os próprios discursos dos religiosos que tanto zurze e critica. É assim com os darwinistas (ou neo-darwinistas) e com esses outros sacerdotes das altíssimas verdades da ecologia.
Desde que "descobriu" e "provou" o aquecimento global, que o homem é o grande responsável do fenómeno e que o principal agente gerador do efeito de estufa gerador do mesmo é o dióxido de carbono, sucede-se minuto a minuto a evangelização ecológica contra essa besta apocalíptica do século XXI. Há tempos, passou na televisão francesa um anúncio (não notei a quê, a minha atenção apenas foi chamada pelo que ouvi e vi de seguida) em que se sugeria qualquer coisa como se não se poderiam suspender as emissões de CO2. E a imagem, como se accionada por um comando à distância, parava, as pessoas paravam, tudo parava. Irónico ou não, a única solução para que as emissões de CO2, logo a poluição do planeta, cessem é que paremos, que não façamos nada, que paremos de respirar, que a vida. Ridículo.
Hoje, na rubrica de meteorologia do canal infanto-juvenil Gulli, ouvi algo que me deixou estarrecido: que o planeta não gosta do CO2.
Como?! Fervente de indignação, vociferei:
— Mentira!
A Eunice, com 8 anos, dizia que era verdade. E procurei explicar que não é bem assim. Que nós inspiramos oxigénio e expiramos dióxido de carbono, e que Deus criou o mundo de maneira que com as plantas verdes fosse ao contrário: elas inspiram dióxido de carbono e dão-nos o oxigénio.

Sim, se as árvores e todas as plantas verdes, que são a maioria dos seres vivos do planeta, pudessem falar, imagino que diriam, com maior indignação do que a minha:
— E nós? De que planeta somos?

quinta-feira, fevereiro 26, 2009

Grandes coisas o Senhor nos faz




Não seria justo escrever aqui sobre uma sessão de ministração de louvor e não falar da nossa igreja local, Comunidade Cristã Restauração e das coisas tremendas que o nosso grande e bom Deus tem feito connosco.
Não somos das maiores igrejas lusófonas do Luxemburgo (lusófonas, pois não é de portugueses nem de brasileiros, mas de quem se comunica primordialmente em português). Até há um mês, desde o tempo em que éramos CCVA, partilhávamos um espaço perto da gare central do Luxemburgo com outras comunidades: anglófona, chinesa, francófona africana e nigeriana. Os chineses encontraram espaço próprio há algum tempo. Quanto a nós, há muito que pedíamos a Deus mudança. Profetas vários de Deus, em momentos vários, falaram do que o pastor e nós cremos no nosso coração ser a visão de Deus para a nossa comunidade, e de que isso implicava um espaço. E era profetizado que em breve teríamos outro e melhor espaço. No lugarejo de Steinsel.
Este ano, finalmente, o Senhor providenciou. Uma prenda: dois salões grandes, sala de reuniões, de super igreja, duas casas de banho, espaço para arrumos e outro onde será feita cozinha. Com algum recheio: cadeiras, mesas, projectores de vídeo. Por uma renda mais alta do que a que se pagava no outro espaço, mas preço bom se se considerarem as condições.
Tempo de ousar crer que, nos momentos em que Deus decide, o passo de fé deve ser dado.
Já tivemos pregadores visitantes, ensinadores e profetas. Para mim, este espaço está desde já ligado a dois dos três ou quatro momentos em que Deus trouxe através de servos Seus as palavras de conhecimento e sabedoria mais específicas para a minha vida. Revelando coisas que os próprios não sabiam e eu e mais gente sabia, outras que confirmavam o que estava no meu coração. Numa das tardes, um profeta americano, antes de começar a orar por mim, diz:
– Então tu é que és o Doutor! Ah, Deus tinha-me dito. Se soubesses o que Deus me diz.
E continuou, falando do que está no meu coração. E ilustrando com imagens o que Ele quer realizar – pois muitas vezes o Espírito de Deus fala por imagens e parábolas, como o faz na Palavra que inspirou.
Cada irmão e irmã ouviu. Foi nítido o mover de Deus, revelando o que só nós sabíamos e trazendo conselho, encorajamento, restauração de auto-estima, reforço de convicções. Quantos dos meus leitores já passaram por esta situação: alguém sem conhecimento prévio, pelo Espírito de Deus, vos dizer coisas da vossa vida, do vosso coração, do vosso ministério, algo de vós mesmos, das vossas lutas, sonhos e desejos, que só vós sabeis? E não ficastes entusiasmados por Deus revelar coisas, porque se lembrou de vós, por ter falado pessoalmente convosco,
Deus foi e é bom. A prenda que nos deu só falta estar cheia. Mas também nisso cremos. Pois para isso existimos e para isso estamos convictos que Deus nos quer fazer prosperar.

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Louvor de guerra

Ontem, na igreja evangélica francófona de Esch-sur-Alzette (Luxemburgo), houve reunião especial de culto a Deus com o cantor e líder de louvor canadiano do Quebec Luc Dumont. Sendo reunião aberta, estiveram presentes representantes de outras igrejas irmãs – a italiana e a nossa, Comunidade Cristã Restauração.
Conduzidos pelo nosso irmão Luc, entrámos na presença de Deus. Depois, ele ministrou a Palavra de Deus. Sobre louvor. O mote foi "louvor de guerra". A Escritura, a narração da ameaça de invasão ao reino de Judá no reinado de Josafat (Segundo Livro de Crónicas 20).
No meio de uma comunicação bem humorada e com o relato de episódios de lutas na sua própria vida de homem e ministro de Deus em que o louvor abriu as portas para o mover de Deus e a vitória, várias lições e estratégias para vitória através do louvor foram por ele extraídas desse texto. Como não tirei apontamentos, compartilho algumas delas, aquelas que melhor retive. Uma é a da solidão na guerra, algo a evitar. Não estamos sós. A solidão abre o flanco para o medo e o inimigo. Os conselheiros de Josafat, ao lhe anunciarem a iminência da invasão, disseram que os inimigos marchavam contra ele. Erro. Não contra o rei, mas contra toda a nação. A antítese do que é a liderança eficaz, que vive da partilha e corresponsabilidade. Na crise, sacudiram a água do capote e entenderam que o problema era exclusivamente do rei.
Outra lição: a oração de Josafat é o exemplo de oração derrotista. Revelou medo do inimigo e dos seus propósitos, magnificou as fraquezas e insuficiências do reino – mostrando a distorção da visão a que pode levar o derrotismo, pois ele dispunha de um exército.
Pediu a ajuda divina e convocou o povo para jejum e oração colectivos. Até que finalmente Deus falou, através do levita Jaziel (v. 14 e seguintes). A lição é a de necessidade imperiosa do recurso à arma do louvor. Estamos em estado de guerra, uma guerra invisível. Para a vencer, teremos de escolher as melhores armas, e essas são as espirituais. A declaração profética de Jaziel mostra que o louvor é uma dessas armas de grande eficácia, e que deve ser usada com espírito de combate, e não de expectativa de derrota, nem em apatia. A garantia dada por Deus é que Ele próprio (v. 17) entra em combate e luta por nós, e que dá a vitória. Em tudo na vida.

Terminámos, como não podia deixar de ser, em louvor de guerra.

quinta-feira, fevereiro 05, 2009

Caroline Sophie, 1 ano





A Caroline fez um ano, no dia 26. Teve cá a visita dos vós paternos. Festejámos o aniversário a 27, porque no dia 26, à depois de jantarmos, adormeceu. Os bebés não se regem pelos mesmos ritmos que nós.
1 ano com uma presença nova. Um solzinho dado por Deus à casa. 1 ano de aprendizagem da paternidade, no privilégio do contacto quase 24 horas com a minha filha. A mudar-lhe a fralda, dar-lhe banho, de comer, despi-la, vesti-la, levá-la a passear, brincar com ela, fazer cabriolas com ela, irritar-me com ela, deleitar-me com ela. Vê-la rir, sentir cócegas, pedir colo, dançar, bater palmas, cantar, parlar. De a ver vir da cama dela para a nossa (a dela está perpendicularmente colada aos pés da nossa, passando pela abertura na grade de guarda da dela para a nossa) e pôr-se entre nós.
De vociferar-lhe "Não!" e afastá-la de alguma coisa em que não deve mexer, aguentar-lhe depois a birra. Que é tempo de ir conhecendo o "não".
1 ano de bichos carpinteiros, de dificuldades em dormir, de boa disposição, das escassas horas diárias de sono, de sozinha fazer a festas, lançar os foguetes e apanhar as canas. Das festas à noite na cama. De a ver querer mexer em tudo, cheia de curiosidade, nunca parar, a ponto de eu dizer que gostaria de conhecer um inventor que inventasse um aparelho que captasse a energia que ela contém, pois é uma nova fonte de energia renovável.

1 ano de a ver crescer fisicamente, nas habilidades, na inteligência, na descoberta do mundo, nas manhas. 1 ano de graça e alegria.

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

8 sonhos

A Catarina Queiroz endereçou-me o desafio de expor 8 sonhos. Uuhhmmm…

1. Aprofundar a relação pessoal com Deus.
2. Aprofundar e desenvolver o dom e vocação d'Ele em mim.
3. Retomar a aprendizagem de outras línguas (alemão e luxemburguês) e começar a aprender outras (hebraico bíblico).
4. Levar a cabo com sucesso (o melhor de mim) o trabalho de pós-doutoramento que tenho em mãos.
5. Fazer discípulos (a começar por gente de casa, da família).
6. Restauração de relacionamentos familiares.
7. Ver A Porta profissional aberta para depois da bolsa (a que melhor se adequa a mim pessoalmente e que seja canal para alcançar propósitos de Deus).
8. Dar, dar, e aumentar o dar: financeira, espiritual, emocionalmente.

A ordem é puramente arbitrária, não reflectindo uma hierarquia na ordem de prioridades, à excepção da primeira, condição da prosperidade e bom sucesso nas demais. Todas têm o mesmo grau de prioridade, situando-se em domínios diferentes.

Como se trata de uma cadeia, eu devo endereçá-lo a outros: Vítor Mota, Rute Joaquim, Tinoca Laroca.

domingo, janeiro 25, 2009

Respica te, Barack Obama


O meu amigo João Tomaz Parreira destas andanças publica um poema dedicado a Barack Obama. Nele, confirma o seu sentimento de esperança suscitado pela eleição histórica afro-americano para a Presidência dos Es.tados Unidos da América, expresso dias antes num texto em prosa publicado aqui . Obama é o seu novo "ídolo" depois de J. F. Kennedy

Essa esperança não é justificada pela etnia do homem — o que em si mesmo é circunstância é motivo de júbilo, por a América, a nação que se diz a mais livre e igualitária da Terra com isto na sua generalidade (à excepção das minorias supremacistas brancos saudosos da era antes de Lincoln, que se deseja se tornem mais e mais minoritários) ultrapassar tabus e preconceitos como o de a cor da pele ser factor indicativo do grau de humanidade. Mais ainda: de com isto abrir um feliz precedente: em futuras eleições, porque não sonhar com a eleição de um Presidente de origem hispânica, ou índia. As nações e tribos índias foram os primeiros americanos, e dos mais excluídos do sonho americano. Assim a América pode aspirar a cumprir a declaração de princípios da sua Constituição e leis, formulada pelos Pais fundadores (religiosamente deístas) e antes mesmo pelo grupo cristão dos peregrinos embarcados do porto inglês Southhampton no navio Mayflower e chegados ao porto americano de Plymouth, em 1620, auto-exilados de Inglaterra por motivos religiosos, em busca de um lugar em que pudesse livremente viver e servir Deus num espírito e ética biblicamente fundados, que deram o exemplo de convívio fraterno com outros povos. "Liberty and Justice for all!"
O que mais atrai em Obama não é tanto essa circunstância de ter uma cara mais morena. É a revelação do seu carácter, ornado por uma "belíssma retórica identificativa", que nos "implica a todos", como escreve João Tomaz Parreira. A gentileza, o espírito de paz, da convivência tranquila das diferenças entre pessoas de bem e bom senso, de defensor da igualdade de oportunidades e prosperidade para todos. E foi isto que cativou milhares de milhões em todo o planeta, e os encheu de esperança. Um discurso novo, um sorriso novo, um estilo novo, agastados que estávamos todos com George W. Bush, o tosco e bruto adolescente fazedor de problemas e semeador de ventos. Se a mudança poderia vir para a nação americana, essa mudança repercutir-se-ia em todo o mundo. Pois tudo o que se passa, diz e faz na e da América se propaga para o mundo todo (ver o exemplo da actual crise financeira mundial). Mesmo em remotas terras de Trás-os-Montes
A esperança em Obama tornou-se a esperança de todo o planeta e converteu-se em Obamamania. E esta elevou o homem à categoria de salvador. Uma reportagem nas ditas terras de Trás-os-Montes, que vi num serviço informativo da SIC-Internacional são paradigmáticos disso. Pessoas havia nessas terras que expressavam ter fé em Barack Obama. E a uma pergunta do (ou da, não me lembro) repórter, responderam que o viam como salvador. O seu discurso inclusivo, inspirado numa concepção holística do planeta como casa de todos, na qual todos devemos (independentemente da religião, opções políticas, etc.) viver em boa vizinhança e cooperando para o bem de todos, favorece a criação dessa imagem de salvador, de novo Messias.
Entre as reacções conhecidas dos líderes políticos internacionais, uma destoou, a do Primeiro-Ministro russo, Vladimir Putin. Disse ele: "as grandes desilusões provêm das grandes esperanças". Este é o tipo de ideia e de frase que ninguém, na esperança colectiva, quer ouvir nem pensar. Cristãos evangélicos como João Tomaz Parreira, assim como certamente muitos na América, olham Obama com esperança, mas outros há que, com o faro sempre pronto e apurado para detectar os odores do Anticristo em todo o novo líder religioso, político e empresarial mundial que surja, o vêem nada mais nada menos como essa personagem sinistra e misteriosa cuja manifestação a Bíblia anunciara (por exemplo, aqui). Será Obama esse enganador com pele de cordeiro e corpo e boca de lobo? Estou certo de que não, e a Bíblia fala de um espírito de Anticristo, e de muitos anticristos, que já se manifestavam no tempo em que João escreveu as suas cartas. E não é nada certo que se trate de um homem, ou que os cristãos (evangélicos) tenhamos que basear a sua agenda pelo seu suposto advento (e sei que muitos evangélicos ditos "dispensacionalistas" discordarão de mim). Nem que seja tão pouco o seu oposto, o Messias, que esse só há um, Jesus Cristo, o ressurrecto Filho de Deus, cujo regresso eu e muitos esperam. Não dou, portanto, para este peditório.

Mas é algo em que devemos pensar. Aquilo que devemos fazer fazer é ser sensatos, ser sábios — uma exigência de Deus. Barack Obama não vai salvar o mundo. Nem levá-lo ao cataclismo da "grande tribulação". Nem creio que ele se julgue a si mesmo como salvador do mundo, mas dou-lhe o benefício da dúvida de acreditar que ele pensa de si mesmo ser alguém que quer deixar boa influência no mundo, como a sua função lho permitir. Um sentimento que muitos seres humanos partilham, seja qualquer for a sua religião.
Como é geral entre os Presidentes dos Estados Unidos da América, declara-se cristão. Apesar de os seus ascendentes terem sido muçulmanos. O seu pai tornou-se ateu. Mas tem defeitos, enquanto cristão. Com efeito, não é possível dizer quantos foram cristãos genuínos, daqueles cuja vida se resume m Cristo, em obedecer a Cristo, em viver Cristo, em pensar o que Cristo pensa e fazê-lo acontecer. Como escrevi, numa postagem de 21 de Agosto, intitulada "Os candidatos e as suas religiões":

"Todos se declaram evangélicos, mas as suas obras deixa muito perplexo e confuso quando à genuinidade da sua fé. No caso do presidente actual ou passados, George W. Bush foi eleito duas vezes com o apoio da maioria dos evangélicos. Confessa Cristo Jesus como Senhor e Salvador. Defende a pena de morte. Empreendeu uma guerra (no Iraque) com base numa mentira (a existência de armas de destruição), inspirado supostamente por Deus, mas que resultou num pântano. Quando Deus age e ordena uma acção, funciona e resulta restauração e estabilidade, não confusão. Jimmy Carter, ex-presidente democrata, embora evangélico, situa-se do outro lado da barricada política.
Bill Clinton igualmente se declarou evangélico baptista. Cometeu adultério e apoiou a liberdade do recurso ao aborto como opção.
Dos actuais candidatos, John McCain é conservador quanto ao aborto e à união matrimonial homossexual, e promete prosseguir a política externa de Bush. Barack Obama, se promete mudar a política externa, é liberal quanto ao aborto e defende o direito ao casamento homossexual."

E certamente que a maioria deles crê que Deus criou… a evolução. Pesados os prós e contras dos presidentes americanos e de candidatos a presidentes, qual deles é o mais cristão? Qual deles é menos convicto e radical seguidor de Cristo? Qual deles defende ideias e pratica acções mais abomináveis aos olhos de Deus? Não sei. Por isso — concluía eu nessa postagem — eu teria dificuldades em escolher em quem votar, se fosse cidadão americano e cristão evangélico.

Quem é pois Barack Obama? Nada mais do que um homem. É necessária esta circunspecção. Nem um semi-deus messiânico salvador do mundo nem um hediondo demónio. Não um ídolo (e sei que João Tomaz Parreira usa o termo conotativamente, no sentido em que o adolescente que foi o teria usado em relação a J. F. Kennedy — ou qualquer adolescente o usaria em relação a um jogador de futebol, cantor ou guerrilheiro revolucionário —, pois como cristão evangélico é insuspeito de idolatria). E é assim que todo o planeta o deveria ver. E como homem que é, tem defeitos e podres, falhará e desiludirá. E não uma vez apenas. E é certo que não cumprirá tudo o que propõe em todas a as área. Pessoalmente, espero um progresso: o de recolocar a praxis americana numa base de concerto com as outras nações, ainda que se julgue primeira entre iguais. De restaurar uma certa decência e legalidade, em coisas tão simples como não iniciar uma guerra a qualquer preço e de extinguir a vergonha de Guantánamo, como já decretou. Para que aqueles prisioneiros sejam efectivamente julgados pelos tribunais, quer estes provem ou não que são culpados de terrorismo. Foi o primado do Estado de Direito que fez a presunção da superioridade da civilização ocidental sobre as demais, consideradas mais brutais e arbitrárias na justiça e na defesa dos direitos humanos. Se Barack Obama se concentrar e conseguir pelo menos isto, será já digno de registo. Merecerá aplausos humanos de todo o lado e limpará a imagem da sua nação. Quanto ao mais, no entanto, a defesa dos interesses da sua nação será a sua prioridade. Quanto estes forem incompatíveis ou colidirem com os de outras nações ou grupos de nações, será o seu país que escolherá. Como assim foi com os seus predecessores. Não nos iludamos quanto a isso — para não nos desiludirmos demasiado.

Seria bom o Presidente eleito dos Estados Unidos da América ter um criado ou secretário com licença para o advertir em particular dessa verdade, no momento do desfile após o juramento. A exemplo da Roma antiga pagã. Num mundo em que os deuses eram humanos nas paixões e na aparência e se misturavam com os seres humanos deixando mestiços entre eles, não seria raro um general regressado vitorioso de uma campanha militar ser tentado a deixar-se possuir pela vaidade de um momento de sucesso e achar-se igual aos deuses ou até filho de um deus, por orgulho pessoal ou porque outros a isso o tentassem. Júlio César começou o que o seu sobrinho-neto Octaviano Augusto consumou: a glorificação da sua estirpe familiar pela redescoberta da sua ascendência divina, que remontaria ao princípio troiano Eneias e à mãe deste, a deusa Vénus. Ao general vitorioso esperava, pois, a honra de uma parada na capital do império, o triunfo, o seu exército exibindo o orgulho da sua disciplina e armamento, os prisioneiros de guerra (de preferência os chefes dos inimigos vencidos) e os despojos em exposição pública. Segundo é tradição, o general desfilava de pé, numa quadriga conduzida por um escravo pessoal, que lhe segredava os tais conselhos de temperança:
— Respica te, hominem te memento "Vira o teu olhar para ti próprio, lembra-te que és apenas um ser humano".

sábado, janeiro 10, 2009

Esmeralda…


Foi dada a sentença final ao caso Esmeralda, que tanto atraiu, entusiasmou e dividiu a opinião pública. A favor do pai "biológico", confirmando sentença já com quase cinco anos.
Confesso que fui daqueles que, desde o início, teve simpatia pela casal de pais "adoptivos". Acolher uma criança abandonada pelos progenitores, recebê-la como sua, dar-lhe uma casa e cuidados parentais é em si mesmo um acto cuja dignidade e beleza dispensam encómio. O pai "biológico" aparecia aos olhos da opinião pública como um daqueles homens que conhecem uma gaja, dão-lhe uma queca sem protecção e que mal o sol nasce dão às de vila-Diogo. A mãe "biológica", uma daquelas mulheres sexualmente emancipadas, que não rejeitam uma noite de prazer quando as hormonas fervem. E uma gravidez surge, consequência indesejada de uma noite de libertinagem. Como uma cárie em quem exagera nos doces. Por causa disso, há quem aborte!
A imagem transmitida era grosso modo esta. Maniqueísta quanto baste. De um lado os bons e generosos, do outro os maus.
Os pais "adoptivos" cometeram rapto da criança, para não terem de cumprir uma sentença que determinava a entrega da menina ao pai "biológico" . Mesmo assim, tal acto suscitou onda de simpatia.
Mas uma ideia começou a ver à minha mente: não teria o pai "biológico" o direito ao arrependimento? Como todo o ser humano? Se de início duvidava da paternidade (a mãe biológica, afinal, prostituía-se), ou não a desejava assumir, não mereceria a oportunidade de mudar de ideia, não poderia o seu coração ter-se deixado apoderar pelo sentimento de paternidade? Lutar pela custódia da filha, com unhas e dentes, fazer o legalmente possível e impossível para reconquistar o afecto da filha seriam a tradução de uma reviravolta interior. E dignas de compreensão, quando não de solidariedade. E os pais "adoptivos" insistiam, praticaram rapto, insistiam, possessivos, em reclamar para si a custódia, o que também não deixa de ser compreensível, pois tinham ganho afecto à menina. E o processo arrastou-se.
Presentemente, pois, tenho outra visão do caso. Já não o vejo a preto e branco. E considero a sentença agora exarada como justa, sensata e equilibrada. O pai "biológico", que com toda a certeza aprendeu a amar a filha, é quem fica com ela. Como deve ser. E prevê-se um regime de visitar por parte da família "adoptiva". Esta não fica de todo desligada da história da vida da menina, porque fará para sempre parte dela. E será bom que continue a fazê-lo, e não apenas na memória da mais remota infância, mas como numa relação com outros "pais". E o suposto trauma da mudança de família, de nome e de referências, do constante stress que a indefinição do seu destino lhe causaria, tudo isso será atenuado. Mesmo porque a criança terá acompanhamento psicológico.

All's well that ends well.

quinta-feira, janeiro 08, 2009

Na Gaza dos Filisteus

Na Gaza dos Filisteus,

A mão que golpeia a ilharga é a mesma que estilhaça o crânio.

Dispõe a pedra na funda a sombra de Golias
E lança-a…
Efraim riposta com a catapulta
Jacob arremete em cheio com a espada.

De Gaza os filhos de Ismael gritam em fúria
e dos pulmões jorra o sangue
as pedras voam.
Os filhos de Isaac soltam as matilhas de molossos.

A pedra que golpeia a ilharga, a espada que estilhaça o crânio
em arremetidas repetidas, uma e mais uma e outra ainda, até milhares de fragmentos
que tingem o mar de escarlate e cinza
pois é impossível escapar por terra, para o deserto, para lá dos montes:
há o muro, um bando de leões de dentes de aço no caminho. A porta fechada na cara da urgência e do pânico.

Os filhos de Abraão
lutam por um lugar entre as estrelas do céu
que seu pai contemplou e contou.
Mas só restam os crânios rolados na praia, o sangue a excrescer da pele da fronte.