quarta-feira, setembro 08, 2010

SIMÃO DE CIRENE


“Quando o levavam, obrigaram um homem de Cirene chamado Simão, que vinha do campo, a carregar a cruz de Jesus às costas e a seguir atrás dele.”

Evangelho de Lucas 23,26 (versão A Bíblia para todos)


Simples homem da terra,

tisnado e áspero como os bois

irmãos do arado


o teu braço,

que antes se habituara

a quebrar na enxada

outro braço agora, de soldado

amante de sangue

ignorante das tuas horas

nesta hora ignaro

de demente vingança

prende e esmaga


braço por braço

ombro por ombro

sobre as tuas costas

faz poisar o peso de pena

de um condenado


abate-se a canga do céu

despojado de estrelas

a cruz toda do mundo


RUI MIGUEL DUARTE

29/08/10

segunda-feira, agosto 23, 2010

ODE LUNAR


Que encolhes, Lua

— dizem —

que quanta eras cessaste

de o ser

vêem-te estiolar


muito te pediram e tiraram,


Lua,


sob o teu candelabro se enlaçaram

os namorados, e juraram

que a eternidade

seria o prolongamento do beijo,


ó Lua alcoviteira


com o teu beneplácito de deusa

enlouqueceram os uivos dos lobos

as noites das aldeias,

e viram-se dos túmulos

redespertarem os mortos,

mas só nessas horas do teu reinado

efémero na noite, efémero

mas que deixava

nos ouvidos e nos olhos

o rumor do terror

que a aurora não dissipava,


ó Lua pantomineira


também te derramaste cheia

dentro do caldeirão da rainha bruxa

na preparação do molho agridoce

para embeber o pomo

que jugularia a vida de Branca de Neve,


ó Lua feiticeira


em ti requestaram inspiração

os poetas

com os teus segredos mancharam a folha

e organizaram a tinta,


ó Lua paroleira


a tua pele violentou

de um pequeno salto Neil Armstrong

sem que em ti achasse

nem no teu ventre gerasse

selenitas

filhos que te adornassem a velhice,


ó Lua solteira


tanto te pediram e extorquiram

estes terráqueos, mas sei triste

que nada te deram

que te não acalentaram

o coração


talvez por isso

arrefecida

— como dizem —

talvez por isso assim

desnudada

murches


21/08/10


A propósito de uma notícia segundo a qual a Lua está a encolher.

domingo, agosto 15, 2010

RACIONALIDADE DO ATEÍSMO

Antes de os meus amigos cristãos me apedrejarem, esclareço que este título não representa propriamente uma concordância com um tal axioma. Pode designar apenas o assunto do presente texto, e que o autor, cristão, se pretende discutir. No entanto, sempre o autor pode admitir que mesmo nos antípodas, no ateísmo, há racionalidade. E também pode avançar duas restrições: embora assim admita, não há toda a racionalidade da parte dos ateus nem eles sempre são racionais, nem a racionalidade esgota todas as possibilidades de compreensão do mundo e o discurso sobre a mesma.
Esta reflexão prende-se com a natureza do Homem. A verdade é mais do que uma vez, quer através de conversas pessoais, quer de leituras em oblíquo em páginas na internet, se lhe deparou a contestação ateísta à alegada da criação do Homem por Deus, como sua imagem e semelhança, como defende o Cristianismo e está exarado na Bíblia. Em contrapartida, o Homem seria mesmo o pior, a coisinha mais ruim da criação. Ora, o autor subscreve por inteiro esta afirmação. E acrescenta que tal noção está igualmente na Bíblia. Ora, se os ateus não a lêem, ou só o fazem para nela provarem que não há Deus e que ela é um armazém confuso de contradições, o autor destas linhas pergunta onde terão achado esta ideia. Se a têm, é bom, mostra que, ao menos neste domínio, têm boa intuição. E acabam por dar razão à Bíblia, na qual não crêem e a qual não passa de uma amálgama de historietas e fábulas. Como?
É que nesta, pese embora se declare que o Homem é efectivamente imagem e semelhança de Deus, é-o não para o alçar a um pedestal de ídolo a honrar, mas porque essa foi a determinação divina, uma prerrogativa do Seu arbítrio que assim decidiu honrar a criatura. A glória é pois do Criador e não desta. E mais ainda: esse livro da carochinha é tudo menos meigo com essa criatura hedionda. Chama-lhe caída, corrupta, má, egoísta, inimiga de Deus, merecedora de ira e castigo divinos, e outros mimos. Embora seja preciosa aos olhos de Deus, porque criada por Ele. Como uma obra de arte é preciosa ao artista que a fez.

Temos, pois, que esses ateus querem ser humanistas: o homem como centro, acima de todas as coisas e medida de todas a coisas, das que são enquanto são e das que não enquanto não são, segundo o axioma do sofista Protágoras de Céos. O Humanismo (ou o Humanismo secular, como lhe chamam) é a sua doutrina. E isto suscita ao autor destas linhas uma questão, que ele tem de colocar, pois é inevitável, embora pedindo licença para o fazer, não vá ofender a laicidade que todos devemos confessar: se o Homem é a pior coisinha da Terra, como pode haver um Humanismo e ser essa nefasta criatura a medida de todas coisas? E outra pergunta ainda, partindo da mesma premissa: se o Homem é a pior coisinha da Terra, não estão incluídos os próprios ateus? Pois silogisticamente é necessário concluir que, sendo os ateus igualmente homens, são eles mesmos uns bichos peçonhentos. E o autor, sendo homem, também o é, coisa que ele, crendo na Bíblia, assume à partida. Nesse caso — outra pergunta, é incontornável — não será melhor esses ateus humanistas suicidarem-se? O que seria um sacrifício altruísta para bem de todas as demais criaturas e da Mãe Natureza (uma divindade adorada pelos ateus?), pois assim livrariam a Terra da sua peçonha.

Chegam ao ponto, esses ateus, de trocar a expressão optativa "se Deus quiser", por outra, mais humanista e ateia, "se eu quiser". Não por temor religioso, o autor destas linhas permite-se ao menos invocar a mais elementar razoabilidade. Pois ninguém, ateu ou religioso, pode dizer: "Amanhã vou à bola, se eu quiser". Pois nenhuma cabeça, religiosa ou empedernidamente, está livre de que ao sair de casa lhe suceda como ao George Clooney, e que um piado vindo do 3.º andar lhe caia em cima!

O Humanismo secular é pois um sucedâneo mal amanhado, na opinião modesta mas correcta do autor destas linhas. Ele prefere o Humanismo clássico, cristão, classicista, que frutos muitos mais doces, intelectuais e literários, deixou.

sexta-feira, agosto 13, 2010

O NEGATIVO DO PENSAMENTO E CONFISSÃO POSITIVOS

O pensamento e a confissão positivos não são assim tão positivos no que respeita aos seus efeitos. E o que importa é alicerçar o sistema de crenças do indivíduo, do que na repetição de frases ocas — dizem estudos.

sexta-feira, agosto 06, 2010

PROFECIA SOBRE PORTUGAL


“Eu vi a Cristo num país de assombro
onde rapazes proclamam alto o Teu nome”
Ruy Cinatti, “Fezada”

Eu vi a Cristo num país de assombro
onde rapazes proclamam alto o Teu nome,
num país longínquo de cor e escombro.
Um país em que os homens pasmam de fome.

Esse é um país em que os rapazes na rua
encostam as rodas das bicicletas às valas
e descalçam os pés na lua.
Uma terra de coxos sem bengalas.

É um país cujos velhos
carregam sobre o dorso a humilhação
sem relhos nem trabelhos
de poupar à crise os escaravelhos.

Vi a Cristo nos olhos claros de um amigo,
dando às bocas a água copo a copo
e aos ventres grão a grão o trigo.
País de povo delapidado a martelo e escopro.

Vi a Cristo nas mãos crespas dos Seus seguidores,
curando as feridas de viúvas e grávidas,
abertas por abutres vestidos de Senhores.
É um país de estrondo, reanimado nas praias impávidas.

5/08/2010

sábado, julho 31, 2010

A MOSCA


“no seu peito insuflou a coragem da mosca”
Ilíada 17.570

A águia não apanha moscas
— pois não, nem a poesia
não sabias? não haverá método mais prosaico?
mais indolor?
a mosca, cuja coragem foi outrora clonada no peito de Menelau

ah se tivesse aqui o Luciano — não o meu pai,
o outro, o de Samósata,
pedia-lhe ao menos um discurso
um arrebatado elogio
e um culto e rebuscado encómio
talvez conseguisse comover a sua inteligência
e apelar ao seu bom senso
mas o bicho danado, estúpida filha
de uma… mosca parideira
não deixa de importunar o condutor
de lhe zumbir o ângulo de visão
e lhe volitar à roda da cabeça, penetrar nos ouvidos
e na esfera dos olhos,
de lhe debicar a pele
e o condutor lá tem de descolar as mãos do volante
para atender às solicitações da fulana
pária da vida, invasora dos habitáculos alheios

— Bem, se não temos o Luciano,
temos o Parreira — intervém a Cristina
como é belo o senso prático das mulheres quando é preciso —
se não vai lá com discursos de prosa
dá-se outra estética,
a da mão que brande os versos e mede o livro
uma pancada de metáforas bem escandidas
e já era!

28/07/10

segunda-feira, julho 26, 2010

SUBIDA AO SINAI

Ao subir ao monte
subo de dorso curvado
e olhar arrastando
no chão

o coração ainda se ergue
para o pico
mas o peso da convocação de Deus
a massa ingente da profecia por nascer
acabrunha o próprio ar
que respiro

sarça que arde nos pés
sobre a delicadeza sagrada
da terra,
temo apenas rasgá-la
por isso o meu dorso
pesado sem asas
e carente dum mistério duma voz duma palavra
que o salve
vai curvado

e sobe

20/07/10

terça-feira, julho 13, 2010

MEDITAÇÃO SOBRE O SALMO 93


“A selvagem exalação das ondas”
Sophia de Mello Breyner Andresen, “O Mar”

A selvagem exalação das ondas
subindo aos astros é mais possante
do que eu

o exaltado rugido do tropel das águas
abre mais a boca escura aos céus
do que o clamor cavo
da minha alma

o estampido excessivamente rouco
do seu chicote
flagelando os penhascos
consomem o ar que respiro
e desmantelam o chão que piso

Mas o Senhor nas alturas, forte e grandioso
no Seu trono
é mais levantado do que todas as águas
o fragor da Sua voz
mais sonora de eternidade
e escora-me o mundo sob os pés

é então que
toda a minha vacilação diluída
nas ondas se esvai, e todo o sobressalto
recolhe à vazante

é então que
a voz do Senhor acima dos céus, forte e grandioso
no Seu trono
ensurdece esse muito ruído das marés
num estreito murmúrio de búzios

10/07/10

sábado, junho 19, 2010

DISCURSOS

“Na verdade, há discursos escritos que obtêm muito mais efeito pelo enunciado do que pelas ideias.” Aristóteles, Retórica, 3.1 1404a


Há palavras vólucres
palavras que existem nos ares
que ocupam as mesas no lugar
das chávenas de café

umas arrebatam as ideias
outras exilam-nas
e projectam-se no espaço

de silêncio e névoa que vai
dos lábios do falante
aos ouvidos do auditor

são palavras coloridas
que coroas de flores
e que abrasam
e abraçam o perímetro
todo do teu coração

18/06/10

sábado, junho 12, 2010

O MAIOR AMOR


“Ninguém tem maior amor do que este, de dar alguém a sua vida pelos seus amigos”
Evangelho de João 15:13

Cada manhã que o dia me desperta
é uma noite mais que me adormece
o fôlego e ao peito me dá quebranto

Cada manhã que os teus olhos em orvalho me vêem
é uma noite mais que me oculta
a face por trás do véu da tua face

Cada manhã que o sol põe flores róseas nas minhas mãos
é uma noite mais que me desvenda
de todo o corpo
frutos vermelhos para o teu contentamento

10/06/10

quarta-feira, maio 26, 2010

O PIANO


“There is a silence where hath been no sound,
There is a silence where no sound may be,
In the cold grave – under the deep, deep sea”
Thomas Hood, “Silence”

Da praia cinzenta longe
guerreiro hirto contra as garras
levantadas das águas
resgatei tecla a tecla
o meu piano

No fundo denso e de lama
da floresta encontrei
a plateia para a minha tocata
e nela derramei tecla a tecla
a minha voz

Nos sinais das mãos
e no deleite dos olhares
fremente na fascinação das asas
pairando sobre a pele
nua
cativado foi tecla a tecla
o meu amor

Lá onde nunca
um assobio se ouviu
onde todo o som é impossível
lacei todas as teclas
do meu silêncio
ao frio silêncio
da funda e profunda tumba
do fundo do mar


18/05/10

TALVEZ




Talvez se eu abrir a janela ao dia
veja a noite acenar para mim
e as árvores sem mácula
estenderem pássaros
verdes

talvez deixe que o riacho
que passa indolente
no fundo da ribanceira
se projecte afinal no ar
e o beba com toda a força
da minha sede

talvez afinal eu precise
de um salto para além da rotina
do mesmo modo de versejar
e do mesmo jeito de beijar
e só precise disso mesmo:
que da noite das árvores do riacho e de ti
eu aprenda quanto mistério
há ainda em todos vós
por perscrutar

18/05/10

sábado, maio 08, 2010

Ensaio sobre a união do Corpo

Há dias, num “post” de um amigo do FaceBook, desenvolveu-se entre mim, ex-católico e ex-agnóstico e hoje tecnicamente evangélico, e outro amigo, ex-ateu e ex-convertido evangélico e actualmente católico, um debate em que de um lado e do outro se terçaram argumentos acerca dos fundamentos teológicos em que um e outro baseiam a preeminência da sua variante de Cristianismo em relação à do outro. Mal algum vem ao mundo com tais debates, simplesmente sei, por experiência, que quando a temática é religião, futebol e política, os debates têm a potencialidade intrínseca de se tornarem emocionais, porquanto mexem com a alma e com o sangue, habitam as cavernas da vida. Por outro lado, qualquer debate exige tempo e atenção dos contendores, o qual terá necessariamente de ser tomado de empréstimo a outras tarefas em agenda. Por isso, não queria prolongar muito esse debate, ainda porque, por outro lado, mais não seria do que os contendores mais não seriam do que novos avatares que, quiçá às centenas de milhar, já antes de nós o haviam tido.


O meu temor de a conversa degenerar em emocionalidade confirmou-se: o meu amigo entrou num registo de tentativa de persuasão e de conversão da minha pessoa. A frase-chave, em relação à rejeição de certos fundamentos dogmáticos caros ao catolicismo (como a primazia de Pedro, a questão da veneração ou adoração a Maria) pelos protestantes e evangélicos, foi: “Porque não aceitais?” Mais adiante, o meu amigo ousou dizer que, se eu lesse o que ele leu e pesquisasse o que ele pesquisasse, não continuaria a ser protestante por muito tempo. Pois era precisamente isso que eu queria evitar. Na minha infância de cristão nascido de novo, eu gostava desses debates, vibrava com a pesquisa das razões espirituais, históricas e escriturísticas que assistem à fé cristã e, convencido da pertinência das mesmas e animado de um espírito de missão e de fogo glossolálico pentecostal, partia à evangelização dos perdidos, incluindo dos católicos e dos evangélicos de outras denominações não pentecostais, pois estes últimos também andavam a perder algumas coisas importantes para terem uma vida cristã mais plena. E, em abono da verdade, não era só o entusiasmo que era grande, mas a minha facúndia e destreza dialéctica não eram modestas. Eu era uma espécie de Demóstenes evangélico. Entretanto, deixei-me disso. Infelizmente ou talvez não. Hoje não me interessa ter razão e ganhar o debate pela extenuação ou pela conversão do outro. Não me empenho em converter ninguém. Lembro-me de Jesus, e de como nem Ele, sendo a Verdade, se esforçava por converter ninguém, simplesmente ensinava, operava milagres, amava e estava com as pessoas e não lhes exigia adesão. Só com aqueles que O queriam seguir era mais exigente, por querer fazer destes mestres de vida para as gerações vindouras. E com os religiosos e leitores ávidos de teologia, esses que levam o debate teológico mais a sério do que a própria vida e tão convencidos em si mesmos da sua verdade como sendo a própria Verdade, era curto e grosso. E em seguida seguia o Seu caminho deixando-os a pensar e murmurar sozinhos. Será da idade, será das minhas experiências de vida cristã não sectária que mudei a minha atitude? Talvez por tudo isto, e estou contente com o facto. Em suma, nada tenho contra a troca de argumentos: um diz o que pensa, o outro faz o mesmo, e fica-se por aqui. Sem que um tente converter o outro. Católicos e protestantes/evangélicos já conhecem bem os argumentos dos outros. Repeti-los torna-se exercício de tautologia. E cada parte, estribada na sua convicção da sua superioridade, acaba cada parte por recorrer à argumentação pela infamação do outro: pega-se nos defeitos, contradições internas, erros e responsabilidades históricos e fealdades do outro como forma de desacreditar as suas ideias (a Inquisição, as cruzadas, o complexo imperial, o erro exegético da conexão Pedro/pedra, a veneração/adoração a Maria, o magister dixit dogmático da cúpula nos católicos, a sobrevalorização da “Tradição” a par e mesmo acima da Escritura; a não aceitação da antiguidade da noção da primazia de Pedro e da existência da igreja católica, a rejeição da honra devida à Mãe de Deus, as mais que muitas divisões teológicas e orgânicas, o desconhecimento absoluto e universal da formação do cânone e a ignorância teológica em geral, entre protestantes). Decido terminar o debate, pois tinha inquinado. A última intervenção foi desse meu amigo. Ao que ele disse eu teria com que refutar e contra-argumentar ponto por ponto. Até por uma questão de honra à minha idade, cabelos brancos, inteligência e conhecimentos, pois boa parte do que ele lera e me aconselhou a ler eu conhecia, tendo tirado conclusões distintas. E pelo que eu considerava ser um topete de alguém mais jovem do que eu, que, não tendo achado respostas às suas questões nas teologias protestante e evangélica, as teria achado na católica, tentando agora fazer um prosélito da sua confissão. Se eu tivesse prosseguido, faltando à minha promessa de me calar, não faltaria réplica a cada um dos meus argumentos. E a réplica não ficaria isenta de tréplica, e assim sucessivamente, de forma que, mesmo que cada um abandonasse a pretensão de querer converter o outro e nos cingíssemos ao plano das ideias, ainda estaríamos aqui daqui a cem anos. Eu tinha e tenho as minhas opiniões sobre os cultos, teologia, história, liturgias e alegações católicas, pelo conhecimento de décadas e de leituras, mas abstive-me e abstenho-me de dizer mais acerca do que penso. Mas como esse é peditório para o qual eu já dei e hoje o debate pelo debate, sem fim, não me interessa, calei-me. Ponto.


Mesmo antes desta conversa, tinha já em mente escrever algo que com ela se relaciona. Que essa conversa tenha ocorrido apenas confirmou a necessidade e a urgência que o meu coração recebera do Espírito de Deus nesse sentido. O que significa ser cristão? O debate pelo debate nas cartas paulinas (1.ª aos Coríntios e aos Gálatas) é designado “facciosismo”, e classificado como carnalidade. Obra humana, pois. Nada tem a ver com o zelo de Deus pela Verdade, e esta em Amor. O impulso para meditar e escrever sobre o assunto surgiu após o fim-de-semana de comunhão anual da Aliança Evangélica do Luxemburgo, há algumas semanas atrás. Presente pela segunda vez para ministrar à comunhão de igrejas o pastor norte-americano Dan Sneed. O cerne do conjunto de mensagens, como no ano passado, foi o apropriado para as circunstâncias: a unidade. Mais propriamente, foi a mensagem de sexta feira que me sugeriu o mote. Tratou-se de essencialmente de um testemunho de testemunhos. Contou que em certa ocasião estivera no Iraque a pregar para um encontro de várias igrejas cristãs. Estavam presentes católicos, protestantes, ortodoxos, igrejas de rito oriental, metodistas. Inúmeras são as diferenças teológicas, hermenêuticas e litúrgicas entre uns e outros; todavia, imperava a unidade. Todos eles, se se pronunciassem sobre as suas concepções e doutrinas, teriam pano para mangas para discutir. Mas não o faziam. Amavam-se e tinham prazer em estar juntos. Havia no entanto necessidade de perdão. Todos eles tinham pessoalmente, ou alguém na família, que tivesse sido preso, torturado, perseguido, violado. Logo, todos eles tinham necessidade de perdoar a alguém. E a pregação que Deus instruiu Dan Sneed foi o testemunho do perdão ao assassino do seu próprio filho. E o Espírito Santo levou aqueles irmãos a abraçarem-se e chorar juntos, a perdoar, adorar a Deus em conjunto e a reforçar o amor que tinham uns pelos outros. Num país de maioria muçulmana, onde imperava um regime ditatorial, é uma questão de sobrevivência.

Discutir diferenças teológicas e tentar converter o outro é estranho aos cristão dessa terra, sejam eles católicos, protestantes, ortodoxos, igrejas de rito oriental, metodistas. É carnalidade e criancice. O sinal distintivo é o amor, o prazer de estar com e em serviço do outro. E este é o verdadeiro testemunho, no Iraque e em qualquer parte do mundo. É para isto que quero trabalhar, não para converter o meu irmão à minha teologia nem para ser convertido à dele. Quem quiser contestar que contesta, mas não pode deixar de entender o que dever entendido: isto é Cristianismo.

domingo, maio 02, 2010

Vilar Formoso (para Rui Miguel Duarte)



Cais de embarque
espreitando
para lá do silêncio
da curva das linhas
os sonhos que hão-de chegar
as malas, a vida
e os olhares sonâmbulos.

Poema de J. T. Parreira

sábado, maio 01, 2010

REFLEXÃO SOBRE SER CATÓLICO

Um artigo do Pe. Anselmo Borges. Para ler e pensar Aqui

sexta-feira, abril 23, 2010

CÓDICE

Códice Amiantino, fólio 5 recto no início do Antigo Testamento:
o profeta Esdras (?) copiando as Escrituras


“Ilias et Priami regnis inimicus Ulixes
Multiplici pariter condita pelle latent”
“A Ilíada e o Ulisses, fatal para o reino de Príamo,
estão ambos compactados dentro destes muitos fólios de pele”
Marcial (poeta latino, c. 38-102 d.C.),
Epigramas XIV.184

Suspenso da mão
oferece ao ar
as asas abertas dos fólios
o dedo mais dócil
que uma pena de pomba
passa um e logo o outro
nervosamente
para não romper
os delicados
capilares da tinta

o cheiro à humidade
do dedo suado de quem o lê
mistura-se com as partículas
da respiração e os fragmentos
de pele de quem o escreveu
e esta com a pele do animal que o deu

as letras os borrões de tinta
os erros de cópia e de ditado
contêm cartas tratados e poemas
todas as velhas histórias
do mundo
que o pó sepultou

à espera
que numa ágil manhã
alguém lhes sacuda
longamente o sono
solitário do copista

23/04/10

O BAFO DE HEFESTO


Quando o deus abriu a boca
da terra arrotou uma maldição:
— Eyjafjallajökull!

não houve
quem não se apartasse
quem não deixasse aberta
uma clareira vasta de espaço
para que a indignação de Hefesto
se manifestasse
largamente

arriscado era pisar-lhe o manto
e mesmo no céu o enxofre
do bafo podre
endurecia o ar que nos é dado
respirar

e Hefesto absorto
tranquilo cachimbo
fumava

22/04/10

quinta-feira, abril 15, 2010

SEM PRESSA


“Não tenho tempo
para correr ao lado
de apressados”
Manuel Adriano Rodrigues

Não tenho tempo
para dar corda aos pés
mais além do que a simples marcha
e seguir os passos de corrida
dos que antes de baterem
com os cascos no chão
já os terão fincado
na praia do destino

Prefiro colher dum bando de aves
o voo (não as aves, pois são livres para voar)
escolho a longa menoridade dos homens
(a mais longa das criaturas de Deus)
pois há vida bastante na vida da infância

Elejo crescer sem crescer
como o bambu
estático na noite das raízes
e uma anónima madrugada
rebentar do casulo
a altura da cana

Recuso-me a adiantar a aprendizagem
de todos dos passos de valsa
a sorver o tempo de que o tempo
carece para desenhar o movimento
perfeito dos corpos no espaço

Antes quero marcar a vida
na batida lenta da areia

15/04/10

quarta-feira, abril 07, 2010


Antonio da Coreggio (c. 1534), "Noli me tangere"

ANÁSTASIS (1)

“Vamos ressuscitados, colher flores!”
Miguel Torga, in “Convite”

Madrugada
primeiro dia do sábado (2)
dia de resgatar o jardim
de revelar as pérolas
de dentro do mundo da concha

dia de colheres flores,
Maria Madalena,
e de anunciares aos irmãos,
ainda dormentes
nos seios da noite

que deixem de indagar
o estridor do oceano
no pavilhão dos búzios
e céleres acorram à cripta
que despojada está da sua missão
de para sempre dissimular à vista
a carne rubra da rosa

pois a esperança foi finalmente
engrinaldada

diz-lhes que a pedra rojou
e a sepultura deu rediviva
o que não tinha cadeias para agrilhoar

leva-lhes esta flor
em que a seiva livre de novo corre
diz-lhes que é perene
o seu perfume que à sua cor
até o sol e a lua murcham

diz aos irmãos, a Pedro a João
e aos demais
que o Mestre vive

25/03/10

(1) Ressurreição, em grego.
(2) Tradução literal da expressão hebraica que designava o primeiro dia da semana lunar. O "sabbath" (donde sábado), era o último dia, dedicado ao repouso e refrigério espiritual, físico e emocional e passou a designar por metonímia, na expressão aqui traduzida, todo o ciclo dos sete dias.

sexta-feira, março 26, 2010

Igreja perseguida

Escrevi há dias em comentário a "post" de um colega "facebooker" que as circunstâncias de perseguição se têm traduzido, historicamente, no cumprimento por parte da igreja do seu propósito. O tópico da discussão era a atitude desta face aos pobres, os desemparados, os "pródigos" do mundo, e a confissão de muitos colegas e irmãos de que a igreja (e quando dizemos "igreja" estamos implicados no que dizemos) tem falhado neste domínio, pois sofre dos males do comodismo e do compromisso com o conforto.
Introduzo aqui o esclarecimento da minha proposta, que pretendia gerar outro olhar e virar a mira para outro alvo complementar, por não ser certo que tenha sido entendida — e em que medida o foi. Porque é algo em que por vezes o meu íntimo reflecte. Porque não quero apenas um pouco da plenitude, mas a totalidade da mesma.

Por um lado, não parece que a perseguição seja condição sine qua non de a igreja ser e viver efectivamente do modo e nos moldes para que foi criada pelo Senhor. Creio, face à Bíblia, que o plano divino é de a igreja exercer o seu munus de forma triunfante e de assim influenciar o mundo jacente no maligno, pela diferença, pela contra-cultura. Tal não se cumpre necessariamente em contexto de perseguição, mas recordem-se outro momentos históricos em que as perseguições foram o motor de despertamentos espirituais e crescimento do Reino de Deus. E assim ainda é, fora do mundo ocidental ou ocidentalizado (que é quase todo o planeta), designadamente em regiões e nações de maioria ou oficialmente conotadas com uma determinada outra religião não-cristã ou não-evangélica ou doutrina política. A igreja dos primórdios, por exemplo, vivia confortavelmente em Jerusalém. Os discípulos do Caminho eram judeus que reconheceram em Jesus Cristo o cumprimento das profecias messiânicas; o Caminho era para Israel; e eram conhecidos e estimados pelo povo em geral pela sua união, amor e entrega aos outros, manifestando o primeiro amor, em termos práticos, na assistência aos necessitados. Encasularam-se, porém, porquanto a voz de Jesus soara (Actos 1:8): "e ser-me-eis testemunhas, tanto em Jerusalém, como em toda a Judéia e Samária, e até os confins da terra". A progressão não se dava. Os confins da terra foram confundidos com as muralhas da cidade de Deus. Então sucede o indesejável, o desconfortável: a perseguição, que obrigou à disseminação daqueles queridos discípulos de Jesus até aos confins da terra (conhecida), às "nações". E o Evangelho foi para todos. E o som da voz de Jesus é o mesmo hoje. Nem todos têm de ir até aos "confins da terra", há os que podem ser testemunhas em Jerusalém mesmo, no lugar do nosso conforto.

A reacção católica e régia francesa ao avanço do protestantismo conduziu a massacres. A Europa central foi devastada por estúpidas guerra de religiões. O Luxemburgo permaneceu imune à Reforma, católico e mariano, e ainda hoje o BI menciona a religião do portador, católico invariavelmente. O catolicismo e marianismo são considerados marcas da identidade nacional, e o cidadão luxemburguês que se converta ao Evangelho passa a ser olhado de viés, como traidor. Os estrangeiros que tenham a sua religião à vontade, o luxemburguês é ontologicamente católico.

As circunstâncias de perseguição ou de liberdade religiosa, pois, não determinam necessariamente a qualidade da vivência cristã. Podem ser bem ou mal aproveitadas. Há casos em que a liberdade é mal usada, e se promovem práticas evangelísticas questionáveis, seja porque se prega apenas a condenação e não a salvação e o perdão, seja porque se usa o nome de Deus levianamente (cf. aqui e aqui). No meio da perseguição também o conformismo, a tentação de simplesmente sobreviver se podem impor.
O confronto com a perseguição, com o desconforto, com a hostilidade cultural, mental, de valores e práticas, a redução das liberdades, ainda que indesejáveis, podem, contudo, ser uma circunstância a que Deus, ocasionalmente e com maior eficácia, recorre para purificar a sua igreja, retirá-la do conforto e reduzi-la à sua essência e àquilo que é essencial: a dependência da Sua Graça, a obediência a Ele, a vida para partilhar com os outros, os que não tiveram ainda a oportunidade de conhecer esse, o Seu Amor libertador. A perseguição pode servir como peneira que separa o discípulo que ama o Mestre daquele que ama o culto e botar sentenças sobre o Mestre. O trigo do joio.

O próprio Senhor garantiu que haveria, para quem o seguisse, muita coisa boa, e em quantidades industriais. Além de perseguições (Marcos 10:30).

Será que no mundo ocidental, na vetusta Europa pós-cristã e secular, estaremos a precisar de uma perseguiçãozinha?