Nova vida, abundante vida, tudo quanto pode proporcionar um encontro pessoal e radical com uma pessoa especial. A contracultura da nova criação, em Jesus Cristo. N.B.: Este blog está em desacordo com o chamado novo acordo ortográfico de 1990.
domingo, agosto 15, 2010
RACIONALIDADE DO ATEÍSMO
sexta-feira, agosto 13, 2010
O NEGATIVO DO PENSAMENTO E CONFISSÃO POSITIVOS
sexta-feira, agosto 06, 2010
PROFECIA SOBRE PORTUGAL

“Eu vi a Cristo num país de assombro
onde rapazes proclamam alto o Teu nome”
Ruy Cinatti, “Fezada”
Eu vi a Cristo num país de assombro
onde rapazes proclamam alto o Teu nome,
num país longínquo de cor e escombro.
Um país em que os homens pasmam de fome.
Esse é um país em que os rapazes na rua
encostam as rodas das bicicletas às valas
e descalçam os pés na lua.
Uma terra de coxos sem bengalas.
É um país cujos velhos
carregam sobre o dorso a humilhação
sem relhos nem trabelhos
de poupar à crise os escaravelhos.
Vi a Cristo nos olhos claros de um amigo,
dando às bocas a água copo a copo
e aos ventres grão a grão o trigo.
País de povo delapidado a martelo e escopro.
Vi a Cristo nas mãos crespas dos Seus seguidores,
curando as feridas de viúvas e grávidas,
abertas por abutres vestidos de Senhores.
É um país de estrondo, reanimado nas praias impávidas.
5/08/2010
sábado, julho 31, 2010
A MOSCA

segunda-feira, julho 26, 2010
SUBIDA AO SINAI
subo de dorso curvado
e olhar arrastando
no chão
o coração ainda se ergue
para o pico
mas o peso da convocação de Deus
a massa ingente da profecia por nascer
acabrunha o próprio ar
que respiro
sarça que arde nos pés
sobre a delicadeza sagrada
da terra,
temo apenas rasgá-la
por isso o meu dorso
pesado sem asas
e carente dum mistério duma voz duma palavra
que o salve
vai curvado
e sobe
20/07/10
terça-feira, julho 13, 2010
MEDITAÇÃO SOBRE O SALMO 93

“A selvagem exalação das ondas”
Sophia de Mello Breyner Andresen, “O Mar”
A selvagem exalação das ondas
subindo aos astros é mais possante
do que eu
o exaltado rugido do tropel das águas
abre mais a boca escura aos céus
do que o clamor cavo
da minha alma
o estampido excessivamente rouco
do seu chicote
flagelando os penhascos
consomem o ar que respiro
e desmantelam o chão que piso
Mas o Senhor nas alturas, forte e grandioso
no Seu trono
é mais levantado do que todas as águas
o fragor da Sua voz
mais sonora de eternidade
e escora-me o mundo sob os pés
é então que
toda a minha vacilação diluída
nas ondas se esvai, e todo o sobressalto
recolhe à vazante
é então que
a voz do Senhor acima dos céus, forte e grandioso
no Seu trono
ensurdece esse muito ruído das marés
num estreito murmúrio de búzios
10/07/10
sábado, junho 19, 2010
DISCURSOS
Há palavras vólucres
palavras que existem nos ares
que ocupam as mesas no lugar
das chávenas de café
umas arrebatam as ideias
outras exilam-nas
e projectam-se no espaço
de silêncio e névoa que vai
dos lábios do falante
aos ouvidos do auditor
são palavras coloridas
que coroas de flores
e que abrasam
e abraçam o perímetro
todo do teu coração
18/06/10
sábado, junho 12, 2010
O MAIOR AMOR

“Ninguém tem maior amor do que este, de dar alguém a sua vida pelos seus amigos”
Evangelho de João 15:13
Cada manhã que o dia me desperta
é uma noite mais que me adormece
o fôlego e ao peito me dá quebranto
Cada manhã que os teus olhos em orvalho me vêem
é uma noite mais que me oculta
a face por trás do véu da tua face
Cada manhã que o sol põe flores róseas nas minhas mãos
é uma noite mais que me desvenda
de todo o corpo
frutos vermelhos para o teu contentamento
10/06/10
quarta-feira, maio 26, 2010
O PIANO

“There is a silence where hath been no sound,
There is a silence where no sound may be,
In the cold grave – under the deep, deep sea”
Thomas Hood, “Silence”
Da praia cinzenta longe
guerreiro hirto contra as garras
levantadas das águas
resgatei tecla a tecla
o meu piano
No fundo denso e de lama
da floresta encontrei
a plateia para a minha tocata
e nela derramei tecla a tecla
a minha voz
Nos sinais das mãos
e no deleite dos olhares
fremente na fascinação das asas
pairando sobre a pele
nua
cativado foi tecla a tecla
o meu amor
Lá onde nunca
um assobio se ouviu
onde todo o som é impossível
lacei todas as teclas
do meu silêncio
ao frio silêncio
da funda e profunda tumba
do fundo do mar
18/05/10
TALVEZ

Talvez se eu abrir a janela ao dia
veja a noite acenar para mim
e as árvores sem mácula
estenderem pássaros
verdes
talvez deixe que o riacho
que passa indolente
no fundo da ribanceira
se projecte afinal no ar
e o beba com toda a força
da minha sede
talvez afinal eu precise
de um salto para além da rotina
do mesmo modo de versejar
e do mesmo jeito de beijar
e só precise disso mesmo:
que da noite das árvores do riacho e de ti
eu aprenda quanto mistério
há ainda em todos vós
por perscrutar
sábado, maio 08, 2010
Ensaio sobre a união do Corpo
Há dias, num “post” de um amigo do FaceBook, desenvolveu-se entre mim, ex-católico e ex-agnóstico e hoje tecnicamente evangélico, e outro amigo, ex-ateu e ex-convertido evangélico e actualmente católico, um debate em que de um lado e do outro se terçaram argumentos acerca dos fundamentos teológicos em que um e outro baseiam a preeminência da sua variante de Cristianismo em relação à do outro. Mal algum vem ao mundo com tais debates, simplesmente sei, por experiência, que quando a temática é religião, futebol e política, os debates têm a potencialidade intrínseca de se tornarem emocionais, porquanto mexem com a alma e com o sangue, habitam as cavernas da vida. Por outro lado, qualquer debate exige tempo e atenção dos contendores, o qual terá necessariamente de ser tomado de empréstimo a outras tarefas em agenda. Por isso, não queria prolongar muito esse debate, ainda porque, por outro lado, mais não seria do que os contendores mais não seriam do que novos avatares que, quiçá às centenas de milhar, já antes de nós o haviam tido.
O meu temor de a conversa degenerar em emocionalidade confirmou-se: o meu amigo entrou num registo de tentativa de persuasão e de conversão da minha pessoa. A frase-chave, em relação à rejeição de certos fundamentos dogmáticos caros ao catolicismo (como a primazia de Pedro, a questão da veneração ou adoração a Maria) pelos protestantes e evangélicos, foi: “Porque não aceitais?” Mais adiante, o meu amigo ousou dizer que, se eu lesse o que ele leu e pesquisasse o que ele pesquisasse, não continuaria a ser protestante por muito tempo. Pois era precisamente isso que eu queria evitar. Na minha infância de cristão nascido de novo, eu gostava desses debates, vibrava com a pesquisa das razões espirituais, históricas e escriturísticas que assistem à fé cristã e, convencido da pertinência das mesmas e animado de um espírito de missão e de fogo glossolálico pentecostal, partia à evangelização dos perdidos, incluindo dos católicos e dos evangélicos de outras denominações não pentecostais, pois estes últimos também andavam a perder algumas coisas importantes para terem uma vida cristã mais plena. E, em abono da verdade, não era só o entusiasmo que era grande, mas a minha facúndia e destreza dialéctica não eram modestas. Eu era uma espécie de Demóstenes evangélico. Entretanto, deixei-me disso. Infelizmente ou talvez não. Hoje não me interessa ter razão e ganhar o debate pela extenuação ou pela conversão do outro. Não me empenho em converter ninguém. Lembro-me de Jesus, e de como nem Ele, sendo a Verdade, se esforçava por converter ninguém, simplesmente ensinava, operava milagres, amava e estava com as pessoas e não lhes exigia adesão. Só com aqueles que O queriam seguir era mais exigente, por querer fazer destes mestres de vida para as gerações vindouras. E com os religiosos e leitores ávidos de teologia, esses que levam o debate teológico mais a sério do que a própria vida e tão convencidos em si mesmos da sua verdade como sendo a própria Verdade, era curto e grosso. E em seguida seguia o Seu caminho deixando-os a pensar e murmurar sozinhos. Será da idade, será das minhas experiências de vida cristã não sectária que mudei a minha atitude? Talvez por tudo isto, e estou contente com o facto. Em suma, nada tenho contra a troca de argumentos: um diz o que pensa, o outro faz o mesmo, e fica-se por aqui. Sem que um tente converter o outro. Católicos e protestantes/evangélicos já conhecem bem os argumentos dos outros. Repeti-los torna-se exercício de tautologia. E cada parte, estribada na sua convicção da sua superioridade, acaba cada parte por recorrer à argumentação pela infamação do outro: pega-se nos defeitos, contradições internas, erros e responsabilidades históricos e fealdades do outro como forma de desacreditar as suas ideias (a Inquisição, as cruzadas, o complexo imperial, o erro exegético da conexão Pedro/pedra, a veneração/adoração a Maria, o magister dixit dogmático da cúpula nos católicos, a sobrevalorização da “Tradição” a par e mesmo acima da Escritura; a não aceitação da antiguidade da noção da primazia de Pedro e da existência da igreja católica, a rejeição da honra devida à Mãe de Deus, as mais que muitas divisões teológicas e orgânicas, o desconhecimento absoluto e universal da formação do cânone e a ignorância teológica em geral, entre protestantes). Decido terminar o debate, pois tinha inquinado. A última intervenção foi desse meu amigo. Ao que ele disse eu teria com que refutar e contra-argumentar ponto por ponto. Até por uma questão de honra à minha idade, cabelos brancos, inteligência e conhecimentos, pois boa parte do que ele lera e me aconselhou a ler eu conhecia, tendo tirado conclusões distintas. E pelo que eu considerava ser um topete de alguém mais jovem do que eu, que, não tendo achado respostas às suas questões nas teologias protestante e evangélica, as teria achado na católica, tentando agora fazer um prosélito da sua confissão. Se eu tivesse prosseguido, faltando à minha promessa de me calar, não faltaria réplica a cada um dos meus argumentos. E a réplica não ficaria isenta de tréplica, e assim sucessivamente, de forma que, mesmo que cada um abandonasse a pretensão de querer converter o outro e nos cingíssemos ao plano das ideias, ainda estaríamos aqui daqui a cem anos. Eu tinha e tenho as minhas opiniões sobre os cultos, teologia, história, liturgias e alegações católicas, pelo conhecimento de décadas e de leituras, mas abstive-me e abstenho-me de dizer mais acerca do que penso. Mas como esse é peditório para o qual eu já dei e hoje o debate pelo debate, sem fim, não me interessa, calei-me. Ponto.
Mesmo antes desta conversa, tinha já em mente escrever algo que com ela se relaciona. Que essa conversa tenha ocorrido apenas confirmou a necessidade e a urgência que o meu coração recebera do Espírito de Deus nesse sentido. O que significa ser cristão? O debate pelo debate nas cartas paulinas (1.ª aos Coríntios e aos Gálatas) é designado “facciosismo”, e classificado como carnalidade. Obra humana, pois. Nada tem a ver com o zelo de Deus pela Verdade, e esta em Amor. O impulso para meditar e escrever sobre o assunto surgiu após o fim-de-semana de comunhão anual da Aliança Evangélica do Luxemburgo, há algumas semanas atrás. Presente pela segunda vez para ministrar à comunhão de igrejas o pastor norte-americano Dan Sneed. O cerne do conjunto de mensagens, como no ano passado, foi o apropriado para as circunstâncias: a unidade. Mais propriamente, foi a mensagem de sexta feira que me sugeriu o mote. Tratou-se de essencialmente de um testemunho de testemunhos. Contou que em certa ocasião estivera no Iraque a pregar para um encontro de várias igrejas cristãs. Estavam presentes católicos, protestantes, ortodoxos, igrejas de rito oriental, metodistas. Inúmeras são as diferenças teológicas, hermenêuticas e litúrgicas entre uns e outros; todavia, imperava a unidade. Todos eles, se se pronunciassem sobre as suas concepções e doutrinas, teriam pano para mangas para discutir. Mas não o faziam. Amavam-se e tinham prazer em estar juntos. Havia no entanto necessidade de perdão. Todos eles tinham pessoalmente, ou alguém na família, que tivesse sido preso, torturado, perseguido, violado. Logo, todos eles tinham necessidade de perdoar a alguém. E a pregação que Deus instruiu Dan Sneed foi o testemunho do perdão ao assassino do seu próprio filho. E o Espírito Santo levou aqueles irmãos a abraçarem-se e chorar juntos, a perdoar, adorar a Deus em conjunto e a reforçar o amor que tinham uns pelos outros. Num país de maioria muçulmana, onde imperava um regime ditatorial, é uma questão de sobrevivência.
Discutir diferenças teológicas e tentar converter o outro é estranho aos cristão dessa terra, sejam eles católicos, protestantes, ortodoxos, igrejas de rito oriental, metodistas. É carnalidade e criancice. O sinal distintivo é o amor, o prazer de estar com e em serviço do outro. E este é o verdadeiro testemunho, no Iraque e em qualquer parte do mundo. É para isto que quero trabalhar, não para converter o meu irmão à minha teologia nem para ser convertido à dele. Quem quiser contestar que contesta, mas não pode deixar de entender o que dever entendido: isto é Cristianismo.
domingo, maio 02, 2010
Vilar Formoso (para Rui Miguel Duarte)
sábado, maio 01, 2010
sexta-feira, abril 23, 2010
CÓDICE
Códice Amiantino, fólio 5 recto no início do Antigo Testamento:o profeta Esdras (?) copiando as Escrituras
Multiplici pariter condita pelle latent”
“A Ilíada e o Ulisses, fatal para o reino de Príamo,
estão ambos compactados dentro destes muitos fólios de pele”
Marcial (poeta latino, c. 38-102 d.C.), Epigramas XIV.184
Suspenso da mão
oferece ao ar
as asas abertas dos fólios
o dedo mais dócil
que uma pena de pomba
passa um e logo o outro
nervosamente
para não romper
os delicados
capilares da tinta
o cheiro à humidade
do dedo suado de quem o lê
mistura-se com as partículas
da respiração e os fragmentos
de pele de quem o escreveu
e esta com a pele do animal que o deu
as letras os borrões de tinta
os erros de cópia e de ditado
contêm cartas tratados e poemas
todas as velhas histórias
do mundo
que o pó sepultou
à espera
que numa ágil manhã
alguém lhes sacuda
longamente o sono
solitário do copista
23/04/10
O BAFO DE HEFESTO

Quando o deus abriu a boca
da terra arrotou uma maldição:
— Eyjafjallajökull!
não houve
quem não se apartasse
quem não deixasse aberta
uma clareira vasta de espaço
para que a indignação de Hefesto
se manifestasse
largamente
arriscado era pisar-lhe o manto
e mesmo no céu o enxofre
do bafo podre
endurecia o ar que nos é dado
respirar
e Hefesto absorto
tranquilo cachimbo
fumava
22/04/10
quinta-feira, abril 15, 2010
SEM PRESSA

“Não tenho tempo
para correr ao lado
de apressados”
Manuel Adriano Rodrigues
Não tenho tempo
para dar corda aos pés
mais além do que a simples marcha
e seguir os passos de corrida
dos que antes de baterem
com os cascos no chão
já os terão fincado
na praia do destino
Prefiro colher dum bando de aves
o voo (não as aves, pois são livres para voar)
escolho a longa menoridade dos homens
(a mais longa das criaturas de Deus)
pois há vida bastante na vida da infância
Elejo crescer sem crescer
como o bambu
estático na noite das raízes
e uma anónima madrugada
rebentar do casulo
a altura da cana
Recuso-me a adiantar a aprendizagem
de todos dos passos de valsa
a sorver o tempo de que o tempo
carece para desenhar o movimento
perfeito dos corpos no espaço
Antes quero marcar a vida
na batida lenta da areia
15/04/10
quarta-feira, abril 07, 2010

“Vamos ressuscitados, colher flores!”
Miguel Torga, in “Convite”
Madrugada
primeiro dia do sábado (2)
dia de resgatar o jardim
de revelar as pérolas
de dentro do mundo da concha
dia de colheres flores,
Maria Madalena,
e de anunciares aos irmãos,
ainda dormentes
nos seios da noite
que deixem de indagar
o estridor do oceano
no pavilhão dos búzios
e céleres acorram à cripta
que despojada está da sua missão
de para sempre dissimular à vista
a carne rubra da rosa
pois a esperança foi finalmente
engrinaldada
diz-lhes que a pedra rojou
e a sepultura deu rediviva
o que não tinha cadeias para agrilhoar
leva-lhes esta flor
em que a seiva livre de novo corre
diz-lhes que é perene
o seu perfume que à sua cor
até o sol e a lua murcham
diz aos irmãos, a Pedro a João
e aos demais
que o Mestre vive
25/03/10
(1) Ressurreição, em grego.
(2) Tradução literal da expressão hebraica que designava o primeiro dia da semana lunar. O "sabbath" (donde sábado), era o último dia, dedicado ao repouso e refrigério espiritual, físico e emocional e passou a designar por metonímia, na expressão aqui traduzida, todo o ciclo dos sete dias.
sexta-feira, março 26, 2010
Igreja perseguida
quarta-feira, março 24, 2010
IGREJA RENDIDA AOS "SLOGANS" ARROJADOS

A diocese de Nancy (departamento de Meurthe-et-Moselle, onde habito, região da Lorena, em França) da Igreja Católica, recorreu, para a sua campanha anual de recolha de donativos, às virtualidades da publicidade e aos slogans arrojados.
quinta-feira, março 18, 2010
VALE DA SOMBRA DA MORTE

“Perguntou-lhe Simão Pedro: «Para onde vais, Senhor?» Jesus respondeu-lhe: «Para onde eu vou, tu não me podes seguir agora, mas hás-de seguir-me mais tarde.»”
Evangelho de João 13,36 (versão EA Bíblia para todos p. 2133)
Não podes, querido amigo,
seguir-me agora
sabes, tenho uma estrada diante de mim
que tu não conheces
pés nenhuns foram nela ainda
experimentados
o couro de sandálias nenhumas
nas suas pedras jamais se gastou
Querido amigo,
o céu aqui não é de açucenas
os penedos são gigantes espessos
ao passarmos rente a eles
acendem um véu negro no rosto
do abismo
o chão não é de pétalas
tem arestas é pontiagudo
como pregos que não sossegam
o sangue
Sei que nele
há um vale da sombra
é todo o céu e toda a terra
em peso sobre a minha cabeça
sombra da morte mais temível
do que a própria
morte
esse vale foi moldado à forma
rósea do meu corpo
o meu sangue foi-lhe
desde a Eternidade prometido
poderei eu estancá-lo?
Só eu,
querido amigo
só eu posso atravessá-lo
deixa-me ir, querido amigo,
até à outra fímbria do vale
lá as águas dos riachos
têm a cor do sol
então ao meu chamado virás
dirás que vens da minha parte
e no prado dos teus olhos
desenrolar-se-á,
até o perderes de vista, o verde
18/03/10