sábado, junho 12, 2010

O MAIOR AMOR


“Ninguém tem maior amor do que este, de dar alguém a sua vida pelos seus amigos”
Evangelho de João 15:13

Cada manhã que o dia me desperta
é uma noite mais que me adormece
o fôlego e ao peito me dá quebranto

Cada manhã que os teus olhos em orvalho me vêem
é uma noite mais que me oculta
a face por trás do véu da tua face

Cada manhã que o sol põe flores róseas nas minhas mãos
é uma noite mais que me desvenda
de todo o corpo
frutos vermelhos para o teu contentamento

10/06/10

quarta-feira, maio 26, 2010

O PIANO


“There is a silence where hath been no sound,
There is a silence where no sound may be,
In the cold grave – under the deep, deep sea”
Thomas Hood, “Silence”

Da praia cinzenta longe
guerreiro hirto contra as garras
levantadas das águas
resgatei tecla a tecla
o meu piano

No fundo denso e de lama
da floresta encontrei
a plateia para a minha tocata
e nela derramei tecla a tecla
a minha voz

Nos sinais das mãos
e no deleite dos olhares
fremente na fascinação das asas
pairando sobre a pele
nua
cativado foi tecla a tecla
o meu amor

Lá onde nunca
um assobio se ouviu
onde todo o som é impossível
lacei todas as teclas
do meu silêncio
ao frio silêncio
da funda e profunda tumba
do fundo do mar


18/05/10

TALVEZ




Talvez se eu abrir a janela ao dia
veja a noite acenar para mim
e as árvores sem mácula
estenderem pássaros
verdes

talvez deixe que o riacho
que passa indolente
no fundo da ribanceira
se projecte afinal no ar
e o beba com toda a força
da minha sede

talvez afinal eu precise
de um salto para além da rotina
do mesmo modo de versejar
e do mesmo jeito de beijar
e só precise disso mesmo:
que da noite das árvores do riacho e de ti
eu aprenda quanto mistério
há ainda em todos vós
por perscrutar

18/05/10

sábado, maio 08, 2010

Ensaio sobre a união do Corpo

Há dias, num “post” de um amigo do FaceBook, desenvolveu-se entre mim, ex-católico e ex-agnóstico e hoje tecnicamente evangélico, e outro amigo, ex-ateu e ex-convertido evangélico e actualmente católico, um debate em que de um lado e do outro se terçaram argumentos acerca dos fundamentos teológicos em que um e outro baseiam a preeminência da sua variante de Cristianismo em relação à do outro. Mal algum vem ao mundo com tais debates, simplesmente sei, por experiência, que quando a temática é religião, futebol e política, os debates têm a potencialidade intrínseca de se tornarem emocionais, porquanto mexem com a alma e com o sangue, habitam as cavernas da vida. Por outro lado, qualquer debate exige tempo e atenção dos contendores, o qual terá necessariamente de ser tomado de empréstimo a outras tarefas em agenda. Por isso, não queria prolongar muito esse debate, ainda porque, por outro lado, mais não seria do que os contendores mais não seriam do que novos avatares que, quiçá às centenas de milhar, já antes de nós o haviam tido.


O meu temor de a conversa degenerar em emocionalidade confirmou-se: o meu amigo entrou num registo de tentativa de persuasão e de conversão da minha pessoa. A frase-chave, em relação à rejeição de certos fundamentos dogmáticos caros ao catolicismo (como a primazia de Pedro, a questão da veneração ou adoração a Maria) pelos protestantes e evangélicos, foi: “Porque não aceitais?” Mais adiante, o meu amigo ousou dizer que, se eu lesse o que ele leu e pesquisasse o que ele pesquisasse, não continuaria a ser protestante por muito tempo. Pois era precisamente isso que eu queria evitar. Na minha infância de cristão nascido de novo, eu gostava desses debates, vibrava com a pesquisa das razões espirituais, históricas e escriturísticas que assistem à fé cristã e, convencido da pertinência das mesmas e animado de um espírito de missão e de fogo glossolálico pentecostal, partia à evangelização dos perdidos, incluindo dos católicos e dos evangélicos de outras denominações não pentecostais, pois estes últimos também andavam a perder algumas coisas importantes para terem uma vida cristã mais plena. E, em abono da verdade, não era só o entusiasmo que era grande, mas a minha facúndia e destreza dialéctica não eram modestas. Eu era uma espécie de Demóstenes evangélico. Entretanto, deixei-me disso. Infelizmente ou talvez não. Hoje não me interessa ter razão e ganhar o debate pela extenuação ou pela conversão do outro. Não me empenho em converter ninguém. Lembro-me de Jesus, e de como nem Ele, sendo a Verdade, se esforçava por converter ninguém, simplesmente ensinava, operava milagres, amava e estava com as pessoas e não lhes exigia adesão. Só com aqueles que O queriam seguir era mais exigente, por querer fazer destes mestres de vida para as gerações vindouras. E com os religiosos e leitores ávidos de teologia, esses que levam o debate teológico mais a sério do que a própria vida e tão convencidos em si mesmos da sua verdade como sendo a própria Verdade, era curto e grosso. E em seguida seguia o Seu caminho deixando-os a pensar e murmurar sozinhos. Será da idade, será das minhas experiências de vida cristã não sectária que mudei a minha atitude? Talvez por tudo isto, e estou contente com o facto. Em suma, nada tenho contra a troca de argumentos: um diz o que pensa, o outro faz o mesmo, e fica-se por aqui. Sem que um tente converter o outro. Católicos e protestantes/evangélicos já conhecem bem os argumentos dos outros. Repeti-los torna-se exercício de tautologia. E cada parte, estribada na sua convicção da sua superioridade, acaba cada parte por recorrer à argumentação pela infamação do outro: pega-se nos defeitos, contradições internas, erros e responsabilidades históricos e fealdades do outro como forma de desacreditar as suas ideias (a Inquisição, as cruzadas, o complexo imperial, o erro exegético da conexão Pedro/pedra, a veneração/adoração a Maria, o magister dixit dogmático da cúpula nos católicos, a sobrevalorização da “Tradição” a par e mesmo acima da Escritura; a não aceitação da antiguidade da noção da primazia de Pedro e da existência da igreja católica, a rejeição da honra devida à Mãe de Deus, as mais que muitas divisões teológicas e orgânicas, o desconhecimento absoluto e universal da formação do cânone e a ignorância teológica em geral, entre protestantes). Decido terminar o debate, pois tinha inquinado. A última intervenção foi desse meu amigo. Ao que ele disse eu teria com que refutar e contra-argumentar ponto por ponto. Até por uma questão de honra à minha idade, cabelos brancos, inteligência e conhecimentos, pois boa parte do que ele lera e me aconselhou a ler eu conhecia, tendo tirado conclusões distintas. E pelo que eu considerava ser um topete de alguém mais jovem do que eu, que, não tendo achado respostas às suas questões nas teologias protestante e evangélica, as teria achado na católica, tentando agora fazer um prosélito da sua confissão. Se eu tivesse prosseguido, faltando à minha promessa de me calar, não faltaria réplica a cada um dos meus argumentos. E a réplica não ficaria isenta de tréplica, e assim sucessivamente, de forma que, mesmo que cada um abandonasse a pretensão de querer converter o outro e nos cingíssemos ao plano das ideias, ainda estaríamos aqui daqui a cem anos. Eu tinha e tenho as minhas opiniões sobre os cultos, teologia, história, liturgias e alegações católicas, pelo conhecimento de décadas e de leituras, mas abstive-me e abstenho-me de dizer mais acerca do que penso. Mas como esse é peditório para o qual eu já dei e hoje o debate pelo debate, sem fim, não me interessa, calei-me. Ponto.


Mesmo antes desta conversa, tinha já em mente escrever algo que com ela se relaciona. Que essa conversa tenha ocorrido apenas confirmou a necessidade e a urgência que o meu coração recebera do Espírito de Deus nesse sentido. O que significa ser cristão? O debate pelo debate nas cartas paulinas (1.ª aos Coríntios e aos Gálatas) é designado “facciosismo”, e classificado como carnalidade. Obra humana, pois. Nada tem a ver com o zelo de Deus pela Verdade, e esta em Amor. O impulso para meditar e escrever sobre o assunto surgiu após o fim-de-semana de comunhão anual da Aliança Evangélica do Luxemburgo, há algumas semanas atrás. Presente pela segunda vez para ministrar à comunhão de igrejas o pastor norte-americano Dan Sneed. O cerne do conjunto de mensagens, como no ano passado, foi o apropriado para as circunstâncias: a unidade. Mais propriamente, foi a mensagem de sexta feira que me sugeriu o mote. Tratou-se de essencialmente de um testemunho de testemunhos. Contou que em certa ocasião estivera no Iraque a pregar para um encontro de várias igrejas cristãs. Estavam presentes católicos, protestantes, ortodoxos, igrejas de rito oriental, metodistas. Inúmeras são as diferenças teológicas, hermenêuticas e litúrgicas entre uns e outros; todavia, imperava a unidade. Todos eles, se se pronunciassem sobre as suas concepções e doutrinas, teriam pano para mangas para discutir. Mas não o faziam. Amavam-se e tinham prazer em estar juntos. Havia no entanto necessidade de perdão. Todos eles tinham pessoalmente, ou alguém na família, que tivesse sido preso, torturado, perseguido, violado. Logo, todos eles tinham necessidade de perdoar a alguém. E a pregação que Deus instruiu Dan Sneed foi o testemunho do perdão ao assassino do seu próprio filho. E o Espírito Santo levou aqueles irmãos a abraçarem-se e chorar juntos, a perdoar, adorar a Deus em conjunto e a reforçar o amor que tinham uns pelos outros. Num país de maioria muçulmana, onde imperava um regime ditatorial, é uma questão de sobrevivência.

Discutir diferenças teológicas e tentar converter o outro é estranho aos cristão dessa terra, sejam eles católicos, protestantes, ortodoxos, igrejas de rito oriental, metodistas. É carnalidade e criancice. O sinal distintivo é o amor, o prazer de estar com e em serviço do outro. E este é o verdadeiro testemunho, no Iraque e em qualquer parte do mundo. É para isto que quero trabalhar, não para converter o meu irmão à minha teologia nem para ser convertido à dele. Quem quiser contestar que contesta, mas não pode deixar de entender o que dever entendido: isto é Cristianismo.

domingo, maio 02, 2010

Vilar Formoso (para Rui Miguel Duarte)



Cais de embarque
espreitando
para lá do silêncio
da curva das linhas
os sonhos que hão-de chegar
as malas, a vida
e os olhares sonâmbulos.

Poema de J. T. Parreira

sábado, maio 01, 2010

REFLEXÃO SOBRE SER CATÓLICO

Um artigo do Pe. Anselmo Borges. Para ler e pensar Aqui

sexta-feira, abril 23, 2010

CÓDICE

Códice Amiantino, fólio 5 recto no início do Antigo Testamento:
o profeta Esdras (?) copiando as Escrituras


“Ilias et Priami regnis inimicus Ulixes
Multiplici pariter condita pelle latent”
“A Ilíada e o Ulisses, fatal para o reino de Príamo,
estão ambos compactados dentro destes muitos fólios de pele”
Marcial (poeta latino, c. 38-102 d.C.),
Epigramas XIV.184

Suspenso da mão
oferece ao ar
as asas abertas dos fólios
o dedo mais dócil
que uma pena de pomba
passa um e logo o outro
nervosamente
para não romper
os delicados
capilares da tinta

o cheiro à humidade
do dedo suado de quem o lê
mistura-se com as partículas
da respiração e os fragmentos
de pele de quem o escreveu
e esta com a pele do animal que o deu

as letras os borrões de tinta
os erros de cópia e de ditado
contêm cartas tratados e poemas
todas as velhas histórias
do mundo
que o pó sepultou

à espera
que numa ágil manhã
alguém lhes sacuda
longamente o sono
solitário do copista

23/04/10

O BAFO DE HEFESTO


Quando o deus abriu a boca
da terra arrotou uma maldição:
— Eyjafjallajökull!

não houve
quem não se apartasse
quem não deixasse aberta
uma clareira vasta de espaço
para que a indignação de Hefesto
se manifestasse
largamente

arriscado era pisar-lhe o manto
e mesmo no céu o enxofre
do bafo podre
endurecia o ar que nos é dado
respirar

e Hefesto absorto
tranquilo cachimbo
fumava

22/04/10

quinta-feira, abril 15, 2010

SEM PRESSA


“Não tenho tempo
para correr ao lado
de apressados”
Manuel Adriano Rodrigues

Não tenho tempo
para dar corda aos pés
mais além do que a simples marcha
e seguir os passos de corrida
dos que antes de baterem
com os cascos no chão
já os terão fincado
na praia do destino

Prefiro colher dum bando de aves
o voo (não as aves, pois são livres para voar)
escolho a longa menoridade dos homens
(a mais longa das criaturas de Deus)
pois há vida bastante na vida da infância

Elejo crescer sem crescer
como o bambu
estático na noite das raízes
e uma anónima madrugada
rebentar do casulo
a altura da cana

Recuso-me a adiantar a aprendizagem
de todos dos passos de valsa
a sorver o tempo de que o tempo
carece para desenhar o movimento
perfeito dos corpos no espaço

Antes quero marcar a vida
na batida lenta da areia

15/04/10

quarta-feira, abril 07, 2010


Antonio da Coreggio (c. 1534), "Noli me tangere"

ANÁSTASIS (1)

“Vamos ressuscitados, colher flores!”
Miguel Torga, in “Convite”

Madrugada
primeiro dia do sábado (2)
dia de resgatar o jardim
de revelar as pérolas
de dentro do mundo da concha

dia de colheres flores,
Maria Madalena,
e de anunciares aos irmãos,
ainda dormentes
nos seios da noite

que deixem de indagar
o estridor do oceano
no pavilhão dos búzios
e céleres acorram à cripta
que despojada está da sua missão
de para sempre dissimular à vista
a carne rubra da rosa

pois a esperança foi finalmente
engrinaldada

diz-lhes que a pedra rojou
e a sepultura deu rediviva
o que não tinha cadeias para agrilhoar

leva-lhes esta flor
em que a seiva livre de novo corre
diz-lhes que é perene
o seu perfume que à sua cor
até o sol e a lua murcham

diz aos irmãos, a Pedro a João
e aos demais
que o Mestre vive

25/03/10

(1) Ressurreição, em grego.
(2) Tradução literal da expressão hebraica que designava o primeiro dia da semana lunar. O "sabbath" (donde sábado), era o último dia, dedicado ao repouso e refrigério espiritual, físico e emocional e passou a designar por metonímia, na expressão aqui traduzida, todo o ciclo dos sete dias.

sexta-feira, março 26, 2010

Igreja perseguida

Escrevi há dias em comentário a "post" de um colega "facebooker" que as circunstâncias de perseguição se têm traduzido, historicamente, no cumprimento por parte da igreja do seu propósito. O tópico da discussão era a atitude desta face aos pobres, os desemparados, os "pródigos" do mundo, e a confissão de muitos colegas e irmãos de que a igreja (e quando dizemos "igreja" estamos implicados no que dizemos) tem falhado neste domínio, pois sofre dos males do comodismo e do compromisso com o conforto.
Introduzo aqui o esclarecimento da minha proposta, que pretendia gerar outro olhar e virar a mira para outro alvo complementar, por não ser certo que tenha sido entendida — e em que medida o foi. Porque é algo em que por vezes o meu íntimo reflecte. Porque não quero apenas um pouco da plenitude, mas a totalidade da mesma.

Por um lado, não parece que a perseguição seja condição sine qua non de a igreja ser e viver efectivamente do modo e nos moldes para que foi criada pelo Senhor. Creio, face à Bíblia, que o plano divino é de a igreja exercer o seu munus de forma triunfante e de assim influenciar o mundo jacente no maligno, pela diferença, pela contra-cultura. Tal não se cumpre necessariamente em contexto de perseguição, mas recordem-se outro momentos históricos em que as perseguições foram o motor de despertamentos espirituais e crescimento do Reino de Deus. E assim ainda é, fora do mundo ocidental ou ocidentalizado (que é quase todo o planeta), designadamente em regiões e nações de maioria ou oficialmente conotadas com uma determinada outra religião não-cristã ou não-evangélica ou doutrina política. A igreja dos primórdios, por exemplo, vivia confortavelmente em Jerusalém. Os discípulos do Caminho eram judeus que reconheceram em Jesus Cristo o cumprimento das profecias messiânicas; o Caminho era para Israel; e eram conhecidos e estimados pelo povo em geral pela sua união, amor e entrega aos outros, manifestando o primeiro amor, em termos práticos, na assistência aos necessitados. Encasularam-se, porém, porquanto a voz de Jesus soara (Actos 1:8): "e ser-me-eis testemunhas, tanto em Jerusalém, como em toda a Judéia e Samária, e até os confins da terra". A progressão não se dava. Os confins da terra foram confundidos com as muralhas da cidade de Deus. Então sucede o indesejável, o desconfortável: a perseguição, que obrigou à disseminação daqueles queridos discípulos de Jesus até aos confins da terra (conhecida), às "nações". E o Evangelho foi para todos. E o som da voz de Jesus é o mesmo hoje. Nem todos têm de ir até aos "confins da terra", há os que podem ser testemunhas em Jerusalém mesmo, no lugar do nosso conforto.

A reacção católica e régia francesa ao avanço do protestantismo conduziu a massacres. A Europa central foi devastada por estúpidas guerra de religiões. O Luxemburgo permaneceu imune à Reforma, católico e mariano, e ainda hoje o BI menciona a religião do portador, católico invariavelmente. O catolicismo e marianismo são considerados marcas da identidade nacional, e o cidadão luxemburguês que se converta ao Evangelho passa a ser olhado de viés, como traidor. Os estrangeiros que tenham a sua religião à vontade, o luxemburguês é ontologicamente católico.

As circunstâncias de perseguição ou de liberdade religiosa, pois, não determinam necessariamente a qualidade da vivência cristã. Podem ser bem ou mal aproveitadas. Há casos em que a liberdade é mal usada, e se promovem práticas evangelísticas questionáveis, seja porque se prega apenas a condenação e não a salvação e o perdão, seja porque se usa o nome de Deus levianamente (cf. aqui e aqui). No meio da perseguição também o conformismo, a tentação de simplesmente sobreviver se podem impor.
O confronto com a perseguição, com o desconforto, com a hostilidade cultural, mental, de valores e práticas, a redução das liberdades, ainda que indesejáveis, podem, contudo, ser uma circunstância a que Deus, ocasionalmente e com maior eficácia, recorre para purificar a sua igreja, retirá-la do conforto e reduzi-la à sua essência e àquilo que é essencial: a dependência da Sua Graça, a obediência a Ele, a vida para partilhar com os outros, os que não tiveram ainda a oportunidade de conhecer esse, o Seu Amor libertador. A perseguição pode servir como peneira que separa o discípulo que ama o Mestre daquele que ama o culto e botar sentenças sobre o Mestre. O trigo do joio.

O próprio Senhor garantiu que haveria, para quem o seguisse, muita coisa boa, e em quantidades industriais. Além de perseguições (Marcos 10:30).

Será que no mundo ocidental, na vetusta Europa pós-cristã e secular, estaremos a precisar de uma perseguiçãozinha?

quarta-feira, março 24, 2010

IGREJA RENDIDA AOS "SLOGANS" ARROJADOS


A diocese de Nancy (departamento de Meurthe-et-Moselle, onde habito, região da Lorena, em França) da Igreja Católica, recorreu, para a sua campanha anual de recolha de donativos, às virtualidades da publicidade e aos slogans arrojados.
O arrojo está na linguagem utilizada. Em primeiro lugar, o nome de Jesus associado a Crise, paronomásia por "Cristo". Em segundo lugar, o recurso ao nome "Diabo" no apelo à oferta, valendo-se para isso do vazio de sentido que o vocábulo tem na linguagem comum, restringindo-se a mero bordão de linguagem e interjeição: "Donnez, que diable!" Este vazio existe também em português: "Dêem, diabo!" O que não é muito diferente de: "Dêem, porra!"
Cf. aqui

quinta-feira, março 18, 2010

VALE DA SOMBRA DA MORTE


“Perguntou-lhe Simão Pedro: «Para onde vais, Senhor?» Jesus respondeu-lhe: «Para onde eu vou, tu não me podes seguir agora, mas hás-de seguir-me mais tarde.»”
Evangelho de João 13,36 (versão EA Bíblia para todos p. 2133)


Não podes, querido amigo,
seguir-me agora
sabes, tenho uma estrada diante de mim
que tu não conheces
pés nenhuns foram nela ainda
experimentados
o couro de sandálias nenhumas
nas suas pedras jamais se gastou

Querido amigo,
o céu aqui não é de açucenas
os penedos são gigantes espessos
ao passarmos rente a eles
acendem um véu negro no rosto
do abismo
o chão não é de pétalas
tem arestas é pontiagudo
como pregos que não sossegam
o sangue

Sei que nele
há um vale da sombra
é todo o céu e toda a terra
em peso sobre a minha cabeça
sombra da morte mais temível
do que a própria
morte

esse vale foi moldado à forma
rósea do meu corpo
o meu sangue foi-lhe
desde a Eternidade prometido
poderei eu estancá-lo?

Só eu,
querido amigo
só eu posso atravessá-lo

deixa-me ir, querido amigo,
até à outra fímbria do vale

lá as águas dos riachos
têm a cor do sol
então ao meu chamado virás
dirás que vens da minha parte

e no prado dos teus olhos
desenrolar-se-á,
até o perderes de vista, o verde

18/03/10

segunda-feira, março 15, 2010

7 CANÇÕES

Um "e-book gratuito": 7 canções de um pai para sua filha. Aqui

VIOLÊNCIA EM CONTEXTO ESCOLAR: TESTEMUNHO PESSOAL

Muito se tem falado ultimamente sobre violência em contexto escolar: alunos contra alunos, alunos contra professores, pais contra professores. Falar disso é mau e bom. Mau é uma evidência empírica de que esse mal existe. Bom porque ele é denunciado, enquanto algumas cabacinhas pensadoras com responsabilidade pedagógica, psicológica, política e administrativa preferem ignorá-lo, relegá-lo para os arrabaldes de meras "coisas de miúdos", de "excepções", explicáveis pelo contexto familiar, varrê-lo para debaixo do tapete, mudar-lhe o nome, como se isso eliminasse o problema. Há suicídios de alunos e professores, no auge do desespero.
Urge fornecer boas estatísticas, não manchar a reputação de Portugal como país de brandos costumes. Inculpar os culpados é impensável, pois não há culpa, porque castigar e falar de culpa é traumatizante. Há somente disfunções e problemas lá em casa, e isso explicaria tudo. No entanto, é o país que sofre de disfunção, e a única disfunção de que sofre – perdoem-me a grosseria – é a eréctil. Um país que não tem erecções de coragem para atacar os problemas masculamente e de frente e os resolver, como eles são, suicida-se a prazo. Vive-se ainda sem se conseguir superar o dogma sacrossanto do “bom selvagem”. Não é preciso ser cristão e crer na Bíblia para o saber e perceber: a psicologia secular, se ainda o não aprendeu, é arrogante e burra.

Sou aqui o narrador autodiegético de uma situação de violência no contexto escolar da qual fui vítima. Entre os anos lectivos de 2003-2005 acompanhei como professor de História e Geografia de Portugal e director de turma uma turma nos seus 5.º e 6.º ano, numa escola EB 2,3 do concelho de Oliveira de Azeméis, distrito de Aveiro. Sempre activo, sempre interventivo e atento, e sempre procurando resolver, e na hora, os problemas que se apresentavam, sempre comunicando com os encarregados de educação. De um ano para o outro, o comportamento geral, dentro e fora da sala de aula. Em certa ocasião, ao chegar à escola, funcionários comunicam-me que cinco meninos e uma menina da turma teriam estado a atirar pinhas fechadas uns aos outros. Não se feriram, felizmente, embora houvesse tal risco: pinhas fechadas são duras como peras. Mas feriram um vidro: 30 € de despesa. No inquérito que realizei os meninos sacudiram a água do capote uns para outros. Mas a maioria dos testemunhos, incluindo de outros colegas da turma e de outra turma que se encontrava junto da sala ao lado, apontava na direcção de um menino, a que chamarei Zé Maria. Um dos envolvidos disse que não assumia a denúncia porque o Zé Maria tinha “amigos”.
Na verdade, o Zé Maria era um rufia, preguiçoso, com um pai um tanto arrogante. Faltava frequentemente às aulas, sendo que no 6.º ano o problema apenas se tinha aligeirado. A mãe (encarregada de educação) justificava na caderneta, invariavelmente, com doença do seu rebento. Sem atestado médico. Ou com outros motivos mais peregrinos. Por exemplo, no 5.º ano, tinham à sexta-feira aulas de tarde. Certa sexta-feira, tinham teste de Matemática ao último bloco de 90 m do dia. Faltou todo o dia. Motivo: fora acompanhar o pai ao Porto e com isso atrasou-se. Assim certos pais justificam faltas dos filhos. E pior, em dia de teste. Havia, pois, um problema de “disfunção” nas funções parentais. O menino — ouvia eu de quando em vez da parte de outros colegas e de pais — ameaçava que um dia o pai viria à escola para bater no Director. Isto podia não passar de bravata entre pares, não rara em pré-adolescentes e adolescentes, sem maiores consequências do que as de uma boca insensata debitando estupidez. E nunca liguei nem me atemorizei com isso.
Como, porém, seis pré-adolescentes tivessem estado envolvidos e qualquer um podia ter atirado a pinha causadora do estrago no vidro (ou, o que teria sido pior, num olho dum colega), decidi, com a concordância da Vide-Presidente do Conselho Executivo, aplicar a justiça salomónica: seriam todos solidária e equitativamente responsabilizados pelo pagamento do dano e sofreriam todos a pena de serviço à escola, sob a direcção de um funcionário, em qualquer tarefa tal como a de limpeza do espaço escolar, com calendário e em horário estipulado. Os encarregados de educação compareceram todos e aceitaram, excepto os do Zé Maria. Como eu esperava, nem puseram os pés na escola. Limitei-me a informá-los por carta.
Os alunos cumpriram todos a pena e os respectivos encarregados de educação pagaram todos os 5 € por cabeça do novo vidro. O Zé Maria não só não pagava como ostensivamente se escusou a cumprir a pena. Por várias vezes o confrontei com o facto, em privado e diante da turma, nas aulas de Formação Cívica. Justificação da criaturinha: o pai não queria! Não é preciso dizer como eu ia aos arames com isso: um aluno e os pais quererem fazer as leis na escola! Tristemente, nem os outros cinco colegas tiveram a erecção de dignidade de se revoltarem, de se encolerizarem contra o colega que eles sabiam ser o culpado e que não sofria o castigo que eles estavam a sofrer. Por não se rir apenas da cara do Director de Turma e da autoridade escolar, mas igualmente deles. A única evolução na atitude do aluno e dos pais (ou da mãe) foi o facto de um dia ele ter trazido os 5 € de indemnização pelo vidro, dados pela mãe às ocultas do pai. Quanto ao cumprimento do castigo, népia neribi!
Por diversas vezes apelei aos mais altos responsáveis da hierarquia escolar, o Conselho Executivo, pedindo a sua intervenção, que chamassem o aluno e os pais. Como é habitual nestes casos, e inércia, a procrastinação é a praxis. Era-me dada razão moral, mas nada era feito. O Conselho Executivo agiria, mas tinha tantos processos e assuntos pendentes em cima da mesa… Eu não queria tomar a iniciativa de levar o menino pela força a cumprir o castigo. Ter-me-ei acobardado, temia a tal reacção do pai? Ou queria simplesmente que o assunto fosse tratado como deveria, institucionalmente? Querendo ao mesmo tempo evitar o tratamento emocional do mesmo, o recurso às paixões (ódio, fúria, cólera, raiva) e ao argumento da força física? Ou tudo ao mesmo tempo? Hoje não sei dizê-lo com clareza, nem dissecar as emoções. Talvez um pouco de tudo. Se a autoridade do Director de Turma era posta em causa, então a autoridade superior estava obrigada a intervir. Para mim isso era claro e assim deveria ser feito. Era-me impossível não sentir náuseas daquela situação de injustiça.
Certo dia (21 ou 22 de Abril de 2005), ao fim de uma tarde de aulas, estava eu na escola a tratar de assuntos da Direcção de Turma, após a aula de Educação Física. Nisto, encontro-me no pátio de entrada com a colega docente da disciplina. Aparecem alguns alunos da turma, entre os quais o Zé Maria. Um dos colegas ia precisamente cumprir mais uma sessão da pena de serviço. De novo questionei o Zé Maria porque não o cumpria ele também a pena, pois estava igualmente na sua hora. Respondeu que tinha treino de futebol a seguir. Irado, fiz-lhe saber que, por minha vontade e como era justo, estaria a cumprir a sua pena e em treino nenhum. E continuei a conversar com a professora de educação física uns dois ou três minutos, após o que me retirei. A reacção do mal educado rapazinho à minha repreensão foi jogar a mochila ao chão e pegar no telemóvel para ligar ao papá queixando-se de que o “Director não o deixava sair”.
Como tivesse o carro na oficina, pus-me a caminho de casa a pé, uns 10 a 15 m. Entre o episódio com o menino e a partida da escola não se haviam passado talvez mais de 5 m. Numa rua uma carrinha comercial pára ao meu lado: eram o pai e a mãe do Zé Maria. Houve discussão. Procurei chamar à razão o casal, observando que os assuntos de escola se resolvem na escola e não na rua, e que na escola as regras são as do Regulamento Interno da mesma e as autoridades são o Conselho Executivo e o Director de Turma. A mãe recomendava-me que olhasse para o meu passado e assegurava que no ano seguinte eu não estaria naquela escola. Respondi que ela não me conhecia para invocar o meu passado nem tinha poder para eu sair ou continuar naquela e que se não continuasse seria por efeitos do concurso. E queria seguir o meu caminho. A senhora desferiu uma bofetada numa das minhas faces. Não com um muita força, sem deixar marca, mas valeu pela atitude. Numa coisa me enganara: a violência veio da mãe e não do pai. O pai logo se fez grande perante mim (por acaso até era mais alto, mas fez-se maior): que eu não bateria à mulher dele! A minha resposta foi que não reagiria ao mal com igual gesto, mas que apresentaria queixa deles. Cheios de arrogância, desafiaram-me a fazê-lo, seguros de não haverem provas nem testemunhas do ocorrido e ameaçando-me que sabiam onde eu vivia.
Apresentei queixa no posto local da GNR. Contei o ocorrido ao Conselho Executivo, cujo Presidente, finalmente, passada cerca de uma semana, finalmente chamou o pai à escola e decidiu aplicar uma pena de serviço à escola ao heróico menino. A professora de EF foi minha testemunha de que não retive nem torturei o menino, da má educação deste e que rapidamente eu deixei o espaço escolar. O Presidente do Conselho Executivo também aceitou a meu pedido testemunhar do problema disciplinar e de falta de respeito de aluno e pais pela autoridade da escola, que conduziram ao episódio de violência. Chamei alguns pais e outros alunos da turma. Duas mães concordaram que as suas filhas testemunhassem que ouviram o Zé Maria ameaçar que um dia bater no Director. Uma dessas mães conhecia o pai desde crianças. Eram vizinhos. Esse pai era um rufia, como o seu filho. E os pais desse menino futuro pai tratavam as bravatas desse aprendiz de “hooligan” como personalidade forte. Por várias vezes essa mãe me advertira contra a linguagem arrogante desse pai. Eu nunca dera importância às tricas entre pais, antigos ou actuais vizinhos e ex-colegas de escola. Os professores são amiúde chamados para o interior de brigas, coscuvilhice e rivalidades entre pais, que lhes não dizem respeito. Como às bravatas dos alunos no recreio. Nessa circunstância, porém, tudo isso se tornava pertinente, e era legítimo eu capitalizá-lo para meu proveito e defesa. Até ao fim do ano lectivo o pai foi à escola uma vez, pedindo para me apertar a mão, justificando-se com o “stress” e preocupado se eu discriminava o filho pelo ocorrido entre os pais e eu. Que o previsível chumbo dele teria a ver com esse facto, e com as faltas dele. Respondi que não discriminava ninguém, que exigia de todos o mesmo e que o previsível chumbo (“retenção” na nomenclatura oficial) se deveria à não aquisição de competências escolares e comportamentais. Apenas. Como viria a acontecer.
A advogada do meu sindicato deixou-me desencorajado, uma vez que, segundo a sua experiência, não havendo testemunhas, o procedimento mais habitual do tribunal era o arquivamento do caso. E que este caso não deveria escapar ao que era habitual.
Como cristão, deixei com Deus o caso. Se os tribunais se demorassem ou nunca fizessem justiça, Ele o faria. Só queria que aqueles pais e aquele filho aprendessem uma valente lição. Continuei a minha vida, e no ano lectivo seguinte fui colocado em Chaves. Em Janeiro (se me não falha a memória) do ano seguinte foi enviada para a minha anterior morada carta do tribunal convocando-me como testemunha para julgamento de processo que o Ministério Público movera contra aquele casal. Já não era eu o autor, mas o Estado. Contrariamente às expectativas que me foram dadas, a juíza encarregada do caso deduzira acusação. E menos de um ano depois! A advogada oficiosa nomeada para defender o casal, tendo obtido o meu número de telefone, contacta-me propondo-me a eventualidade de desistir da acusação caso o casal me pedisse desculpas públicas diante da juíza. Não me repugnou a hipótese. Não pedia indemnização, e interessava-me mais que essa gente crescesse.
Nas vésperas do julgamento, em oração, vieram-me de Deus ao espírito palavras do livro de Provérbios nas quais se lê que o tolo se enreda com as palavras da própria boca.
No dia do mesmo (princípios de Fevereiro de 2006), a advogada de defesa procura-me, juntamente com o pai do Zé Maria, para reiterar a proposta de acordo. Nisto, intrometeu-se a procuradora (ou promotora, não sou especialista em direito) pública na conversa: eu não teria de ceder a proposta nenhuma de acordo se não quisesse. Até porque, tratando-se de crime contra funcionário público, era mais grave do que contra um cidadão particular e a lei não permitia outra coisa a não ser o respectivo julgamento.
Testemunhei eu: a atitude irresponsável desses encarregados de educação que permitem que o seu educando falte justificam faltas por motivos estapafúrdios; a sua arrogância, em especial do pai; que esperava agressão deste, e muito menos a mãe; que sempre desvalorizei as bravatas e ameaças do menino, pois nunca esperava que se concretizassem; que eu não pedira indemnização, apenas queria que eles aprendessem uma lição; face à tentativa de descredibilizar o meu testemunho parte de advogada que, concentrado na situação que vivia, dificilmente pensei em procurar testemunhas da agressão (havia uma esplanada nas redondezas, tentei que o condutor de um carro, que passara, parasse, embora sem sucesso).
testemunharam as minhas testemunhas e as do casal. Estas testemunhas eram chamadas uma por uma, depunham e retiravam-se. As duas meninas confirmaram o que haviam dito. O Presidente do Conselho Executivo de nada se lembrava… Tanta coisa, tantos assuntos e ocorrências, já antes tinha ido a tribunal por causa de outro caso. Como se lembraria de mais um? Nem se lembrava do que me dissera meses antes, que esse pai fora grosseiramente mal educado com uma educadora de um jardim de infância pertencente ao agrupamento de escolas a que ele presidia, a propósito de uma outra filha, mais novinha. Ele fora o professor de Matemática desta turma no 5.º ano. Parecia-me mais rígido no domínio da autoridade da escola e dos professores do que o anterior presidente (mais brando, por assim dizer). Afinal, enganei-me: os erros de “casting” muitas vezes não mudam com os actores… Parecia estar ali contrariado, num outro planeta… Temi pela decisão da juíza por causa desta testemunha. A professora de EF, porém, manteve que o menino foi mal educado, e que eu continuei a conversar com ela, após o que saí da escola. As testemunhas do casal eram duas vizinhas, que obviamente confirmaram o que toda a gente sabia, que aquele casal era gente do melhor.
A juíza, antes de dar por encerrada a sessão, perguntou ao casal se queria declarar alguma coisa, permitindo-lhe apenas que respondessem às perguntas que ela lhes colocasse. Negaram que me tivessem agredido ou ameaçado. Que a mãe ficara no carro a falar ao telefone. Que apenas queriam falar comigo. Que não sabiam por que eu os acusara, porque perseguia o filho. Inclusive, depois do episódio, que o pai fora à escola certa vez, ainda no 5.º ano, e pedira ao Presidente do CE para chumbarem o filho de modo que eu não continuasse a ser Director de Turma dele no 6.º. E que eu retivera o menino na escola pelo menos um quarto de hora. Nisto, não só me contradisseram, como também contradisseram o testemunho da professora de EF, ao qual eles assistiram. Imprudência.
Indignado, comentávamos, eu e a mãe dumas das meninas testemunhas, o desplante daquele casal em mentir e fazer-se passar por pessoas de bem. E questionei a razão de quererem um acordo, se afinal negavam ter prevaricado. No fim, apresentei estas apreensões à promotora (ou procuradora?). Respondeu-me com uma pergunta: o que esperava eu que eles fizessem? E tranquilizou-me: o meu testemunho fora sincero e convincente. Ficou com o meu endereço para me enviar cópia da sentença, que seria lida uma semana depois.
Recebi cópia. O casal foi considerado culpado e condenado a pena suspensa comutada em muitos dias de multa: ela por agressão e ameaça, ele por ameaça. No cúmulo, ascendia a quase 2 000 € (falo de memória). O testemunho do casal foi considerado contraditório. Efectivamente, cumpriu-se a palavra que Deus me dera: meteram os pés pelas mãos ao abrir a boca. Soube por essa mãe que o pai de um outro aluno da turma assistira à leitura da sentença, e que a juíza dissera, pedagogicamente, entre outras coisas, que assuntos de escola são para ser resolvidos internamente.

Ainda fiquei a perder com isto: deslocação, combustível, almoço, uma multa de estacionamento por não ter achado lugar decente para deixar o carro enquanto decorria o julgamento. O meu caso nunca foi comunicado ao Ministério da Educação para constar das estatísticas. Mas foi-me feita justiça. Graças a Deus. Infelizmente, quantos casos há em que isso não sucede? Com o silêncio ou, no mínimo, a inércia daqueles que deveriam ser mais expeditos a defender a justiça, a legalidade, a autoridade e a ordem nas escolas, em defender os profissionais que nelas trabalham seriamente (professores e funcionários) e em punir os alunos culpados, quando o são: os Conselhos Executivos.

segunda-feira, março 01, 2010

FUNCHAL 2010



Enquanto
estavas deitado no leito do vulcão
crente que os astros
te velariam

Enquanto
pérola escolhida do oceano
aconchegada no leito dos montes
cuidavas que dos céus
o diáfano manto
a nudez térrea
te vestiria

Enquanto
deitados os astros dormitavam
o aviso te não deram:
não do vulcão
foste traído
o céu, foi o céu que abriu
as comportas
e te fez rebentar dos olhos
desmedidas torrentes
de lágrimas

21/02/10

PALAVRA PROFÉTICA II

“And the sign said, The words of the prophets are written
on the subway walls and tenement halls
And whispered in the sound of silence”
Simon and Garfunkel, “The sound of silence”

As luzes da cidade não contam
a história dos risos que pararam
do tráfego das pessoas no vaivém
das avenidas espessas
de neblina imanente

Os néones não cantam
a solidão do cimento
não tocam os gritos das sombras chinesas
recortadas pelo Anjo da Morte
nas diminutas janelas

Os sons desse mar de gente
não se consomem com o tempo
cada mão deixou de se anichar no conforto de outra

Aí, nos túneis do metro só as cervicais
são agitadas para um e outro lado
por duas ondas de vácuo
aí, nas galerias dos centros comerciais
atravessadas por sombras árvores andantes
aí, onde ninguém se detém a ouvir
e todos preferem o som do silêncio,
aí, nas paredes vestidas de graffiti
e de cartazes publicitários
e de propaganda aos candidatos

alguém escreveu sem desenhos nem cores
as palavras da profecia
aí, os olvidados profetas deixaram
o seu verbo, para não ser olvidado
aí, na cal ficou a visão
para que alguém ao passar a correr
não deixe de a ver

e a conte e a cante e a grite

16/02/10

quinta-feira, fevereiro 25, 2010

terça-feira, fevereiro 23, 2010

FUNCHAL 2010


Enquanto
estavas deitado no leito do vulcão
crente que os astros
te velariam

Enquanto
pérola escolhida do oceano
aconchegada no leito dos montes
cuidavas que dos céus
o diáfano manto
a nudez térrea
te vestiria

Enquanto
deitados os astros dormitavam
o aviso te não deram:
não do vulcão
foste traído
o céu, foi o céu que abriu
as comportas
e te fez rebentar dos olhos
desmedidas torrentes
de lágrimas

21/02/10

segunda-feira, fevereiro 15, 2010

AS ORIGENS DO AMOR E DO CIÚME EXPLICADAS AOS PEQUENINOS


Há dias, numas das rubricas do programa "Magasin de sainté au quotidien" do canal France 5, um dos especialistas residentes falou nas origens do ciúme e nas incidências de formas de ciúme nos dois sexos. Assim, as estatísticas revelam que os homens têm ciúme da traição sexual, enquanto as mulheres vão aos arames com a traição sentimental. Àqueles encoleriza que as parceiras prefiram o "truca-truca" com outros, a estas que os companheiros estejam é a na verdade com outras no pensamento.
Ora, que explicação há para isto? O especialista – e com ele a ciência – não têm dúvidas. A causa de tudo isto acha-se na evolução da espécies, e no motor desta, a sobrevivência dos mais aptos e a perpetuação do património genético destes.
O instinto do macho leva-o a procurar garantir a transmissão dos seus genes através da sua fêmea, e se possível de outras, daí que seja para ele inadmissível a intromissão de qualquer concorrente. A fêmea, por sua vez, sendo o elemento que cuida da prole, espera do seu macho que a fidelidade, para assim garantir para ela e para as ninhada a protecção e a sobrevivência.
Pronto, está explicado. Amor, paixão, flores, luares, rosas vermelhas, coração palpitante, suores frios, garganta seca, Deus é Amor, o Salomão do Cântico dos Cânticos? Os poetas, os amantes, Deus não sabem nada disso. Tudo se explica pela biologia. Com Camões, é preciso que "Cesse o que antiga musa canta / que outro valor mais alto se alevanta". Darwin, o supremo sábio, e seus discípulos, descobriram o segredo por tantos buscado!

É de esperar que os amantes homossexuais se ergam contra tal conclusão, pois no seu caso não estão implicadas nem a transmissão de genes nem a protecção da prole. Dirão certamente que o amor e o ciúme nada tem a ver com isso. E Safo, a lésbia e lésbica, que cantou soberbamente os sintomas físicos e emocionais do ciúme, a propósito de uma discípula sua, quando esta conversava com um pretendente?

E nisto até lhes dou razão. Querem tirar-me Amor, paixão, flores, luares, rosas vermelhas, coração palpitante, suores frios, garganta seca, Deus é Amor, o Salomão do Cântico dos Cânticos? E dão-me o quê em troca? Mera tirania dos cromossomas? Simples ditadura do ácido desoxirribonucleico? Não há pachorra!