Nova vida, abundante vida, tudo quanto pode proporcionar um encontro pessoal e radical com uma pessoa especial. A contracultura da nova criação, em Jesus Cristo. N.B.: Este blog está em desacordo com o chamado novo acordo ortográfico de 1990.
segunda-feira, março 01, 2010
PALAVRA PROFÉTICA II
on the subway walls and tenement halls
And whispered in the sound of silence”
Simon and Garfunkel, “The sound of silence”
As luzes da cidade não contam
a história dos risos que pararam
do tráfego das pessoas no vaivém
das avenidas espessas
de neblina imanente
Os néones não cantam
a solidão do cimento
não tocam os gritos das sombras chinesas
recortadas pelo Anjo da Morte
nas diminutas janelas
Os sons desse mar de gente
não se consomem com o tempo
cada mão deixou de se anichar no conforto de outra
Aí, nos túneis do metro só as cervicais
são agitadas para um e outro lado
por duas ondas de vácuo
aí, nas galerias dos centros comerciais
atravessadas por sombras árvores andantes
aí, onde ninguém se detém a ouvir
e todos preferem o som do silêncio,
aí, nas paredes vestidas de graffiti
e de cartazes publicitários
e de propaganda aos candidatos
alguém escreveu sem desenhos nem cores
as palavras da profecia
aí, os olvidados profetas deixaram
o seu verbo, para não ser olvidado
aí, na cal ficou a visão
para que alguém ao passar a correr
não deixe de a ver
e a conte e a cante e a grite
16/02/10
quinta-feira, fevereiro 25, 2010
terça-feira, fevereiro 23, 2010
FUNCHAL 2010

Enquanto
estavas deitado no leito do vulcão
crente que os astros
te velariam
Enquanto
pérola escolhida do oceano
aconchegada no leito dos montes
cuidavas que dos céus
o diáfano manto
a nudez térrea
te vestiria
Enquanto
deitados os astros dormitavam
o aviso te não deram:
não do vulcão
foste traído
o céu, foi o céu que abriu
as comportas
e te fez rebentar dos olhos
desmedidas torrentes
de lágrimas
21/02/10
segunda-feira, fevereiro 15, 2010
AS ORIGENS DO AMOR E DO CIÚME EXPLICADAS AOS PEQUENINOS

Há dias, numas das rubricas do programa "Magasin de sainté au quotidien" do canal France 5, um dos especialistas residentes falou nas origens do ciúme e nas incidências de formas de ciúme nos dois sexos. Assim, as estatísticas revelam que os homens têm ciúme da traição sexual, enquanto as mulheres vão aos arames com a traição sentimental. Àqueles encoleriza que as parceiras prefiram o "truca-truca" com outros, a estas que os companheiros estejam é a na verdade com outras no pensamento.
Ora, que explicação há para isto? O especialista – e com ele a ciência – não têm dúvidas. A causa de tudo isto acha-se na evolução da espécies, e no motor desta, a sobrevivência dos mais aptos e a perpetuação do património genético destes.
O instinto do macho leva-o a procurar garantir a transmissão dos seus genes através da sua fêmea, e se possível de outras, daí que seja para ele inadmissível a intromissão de qualquer concorrente. A fêmea, por sua vez, sendo o elemento que cuida da prole, espera do seu macho que a fidelidade, para assim garantir para ela e para as ninhada a protecção e a sobrevivência.
Pronto, está explicado. Amor, paixão, flores, luares, rosas vermelhas, coração palpitante, suores frios, garganta seca, Deus é Amor, o Salomão do Cântico dos Cânticos? Os poetas, os amantes, Deus não sabem nada disso. Tudo se explica pela biologia. Com Camões, é preciso que "Cesse o que antiga musa canta / que outro valor mais alto se alevanta". Darwin, o supremo sábio, e seus discípulos, descobriram o segredo por tantos buscado!
É de esperar que os amantes homossexuais se ergam contra tal conclusão, pois no seu caso não estão implicadas nem a transmissão de genes nem a protecção da prole. Dirão certamente que o amor e o ciúme nada tem a ver com isso. E Safo, a lésbia e lésbica, que cantou soberbamente os sintomas físicos e emocionais do ciúme, a propósito de uma discípula sua, quando esta conversava com um pretendente?
E nisto até lhes dou razão. Querem tirar-me Amor, paixão, flores, luares, rosas vermelhas, coração palpitante, suores frios, garganta seca, Deus é Amor, o Salomão do Cântico dos Cânticos? E dão-me o quê em troca? Mera tirania dos cromossomas? Simples ditadura do ácido desoxirribonucleico? Não há pachorra!
sábado, janeiro 30, 2010
quinta-feira, janeiro 28, 2010
AS RAZÕES DAS RAÍZES

"As raízes é claro não se vêem
mas tu sabes
nelas se sustenta a árvore.
Para seres justo
pensa nas raízes"
Giannis Ritsos
Ao olhares para a árvore
não te detenhas na textura da casca
o tacteado das folhas
nada te revelará
Não o pouso das aves,
como se ele, por se acostumar
ao entrelaçado dos ramos,
lhe conhecesse os segredos
nem os seus bicos,
por muito que lhe amem os frutos
Não inquiras o vento
que a conduz na valsa
nem a chuva
que a veste de cristal
nem o sol que a salpica
de setas de reflexos de lume
Se queres fazer justiça à arvore
pergunta à sua alma oculta
pergunta ao que dela
os teus olhos
não vêem
às raízes escondidas
nas entranhas do solo
pergunta-lhes em que
profundas águas
tem bebido
e que terra
tem desvendado e sorvido
se é que queres
ser justo com a árvore
conhecer que razões dizem os seus anos
e saber que seiva a percorre
e entender o sabor dos seus frutos
Rui Miguel Duarte
28/01/10
domingo, janeiro 24, 2010
BATALHA NAVAL

“Mas, quando viu que o vento era muito forte teve medo, começou a afundar-se e gritou”
Evangelho de Mateus 14,30 (versão A Bíblia para todos p. 1974)
Nessa madrugada
as águas tinham arestas
como gumes frios de vidro
cortando os pés
o vento era uma matilha de molossos
cravando as mandíbulas sobre os teus membros
e perfurando-te o ouvido
até à espinha
com um silvo de cobra
Em baixo abre-se um alçapão
sob o teu pé, que se perde
e se combina com a matéria do abismo
Nada mais podes fazer
só a agitação da mão e o grito do náufrago
para tudo o mais o teu corpo
é já um com a água e o lodo
– Porque duvidas?
as arestas e as matilhas
o lugar da luta e do medo
estão na tua alma
20/01/10
sexta-feira, janeiro 15, 2010
QUEM SEGURA A MÃO?

Os antigos Gregos
diriam que
a mão de Posídon
abalara a terra
porque da ofensa de Ulisses
ainda não lhe foi
aplacada a cólera
Outros
dizem
ter sido a mão
de outro Deus
porque o povo
deu a face e o coração
a outro, ao Adversário
e assim
os dedos tocaram
nas raízes da terra
simplesmente
como se soltasse
uma folha ao vento
pois há uma cólera
por aplacar
Nem lhe sobra a pele
Os escombros
em carne viva
lançam ao espaço
uma mão
requerendo
outra mão
Quem a segura?
15/01/10
0:10 TMG+1
sábado, janeiro 09, 2010
Nesse dia…

Nesse dia as nuvens
encheram o saco
e este rasgou-se
tanto que já não havia fissuras
mas a bocarra toda aberta
do céu
na indiferença do sol
Nesse dia um Zeus furioso
desatou as cordas
que continham o bojo das nuvens
e delas fez chicotes
para escalavrar a terra
Nesse dia a chuva
foi visita intempestiva
e veio grosseiramente
brindar-nos
com uma bebedeira
de lama e morte
4/01/10
segunda-feira, janeiro 04, 2010
NA ESTRADA

"Foi nessa altura que se lhes abriu o entendimento e o reconheceram…"
Evangelho de Lucas 24,31 (versão A Bíblia para todos, p. 2100)
Não foi nos ramos de palavras
que distribuía vibrantes
de enigmas ilógicos
Não foi no gesto ténue de pássaro
no tremor do dedilhar dos fólios
da Lei Profetas e Escritos
Não foi no bronze liso
da pele do rosto
nem no negrume límpido
da barba
Não foi no timbre da voz
barítono na hora nocturna
divagante aos nossos cuidados
nem no incêndio ateado
nos nossos corações
ao seguirmos o fio diáfano
do seu discurso
de sonhos
Não foi no andar
preso da distância
no frenesim de esmagar
hectómetros
sob os calcanhares
sempre mais para diante
Foi no partir do pão
que nos abriu os olhos
e no-los lavou do sono
2/01/10
domingo, janeiro 03, 2010
A TUA PRESENÇA

« Les fleurs/ et les arbres/ crient/ après ta présence // C’est leur beauté / que je pleure / à travers l’absence de tes yeux ». Nic Klecker (poeta luxemburguês, 1928-2009)
sábado, janeiro 02, 2010

"La mort sait bien
qu'elle va gagner le duel
en attendant
la vie
a des parades habiles
et l'amour
guide son fleuret"
Nic Klecker (poeta luxemburguês, 1928-2009 )
A morte e a vida têm um encontro marcado
um duelo à espada
de vida ou morte
a vida, com a fragilidade das pombas,
tem de ser conduzida
a sua testemunha é o amor
é este quem lhe adestra a mão
e quem a mantém denodadamente
no combate
mesmo que a vacilação
lhe desça pesada aos pés
a morte não traz padrinho
porque precisaria de ajuda?
o seu braço tem uma estocada irresistível
assomando ao campo aberto
o poeta assiste a tudo
a uma escassa distância
e diz a dor dos golpes
da morte
o dizê-lo é uma hábil parada
com que os vai sustendo
de um pouco mais ao longe
ouve-se a voz
espessa e férrea de um Profeta
declarar mudado o desfecho
para o duelo:
“O Amor
não falha
e o ferrão da morte
está quebrado”
Rui Miguel Duarte
26/12/09
Publicado também em Liricoletivo
sábado, dezembro 26, 2009
PALAVRA PROFÉTICA
Há um baú de tesouro
repleto e palpitante de mistérios
inefáveis depositados por Deus,
como a terra úbere de minérios,
os próprios anjos dele se surpreendem
reclinados na indagação
de novo vento que lhes enfune as asas
e nos lábios lhes cante nova canção
não é de madeira preciosa
nem engastado de diamante
é dotado de riso e choro
de canto doce e troante
esse tesouro é a mente
incendiada e tenra do profeta
apurada para a interpretação de Deus
trasladada em voz de pastor, rei ou poeta
desse tesouro não retira o profeta
um gemido em estado bruto inexprimível
em língua celeste inaudita
mas palavra de homem inteligível
ao tempo e ao entendimento da assembleia
conforto coragem leme e lema para o povo
assim dita e pronunciada é como na árvore
nascente a pujança de um renovo
20/12/09
quarta-feira, dezembro 23, 2009
NEVE

um leopardo malhado
as patas macias marcam a cadência do silêncio
o sol arrefeceu
quando as nuvens irromperam
em beijos
à terra
Passa na rua
um leopardo das neves
o bafo frio gelando o ar
a cauda semeia o branco
na rua sobre as árvores e às portas
o olho perde a íris
e todo é esclera
21/12/09
segunda-feira, dezembro 21, 2009
MANJEDOURA

quarta-feira, dezembro 16, 2009
O TROTE
segunda-feira, dezembro 07, 2009
Joanyr de Oliveira
domingo, dezembro 06, 2009
Poética rósea
Até pulverizar os espinhos
da rosa
à força de olhar
até que só reste deles
a raíz cortada
até ao branco
até à nua
altivez do caule
até deixar marcas
nas folhas
com a ponta da faca
dos dedos
aninhar-se na carne ígnea
das pétalas
imbricar-se nas suas volutas
até descer
ao fundo da campânula
tacteante nas patas das abelhas
até esmiuçar os estames
e até à nervura
beber o pólen
até a boca cheia
de açúcar
estar pronta
a conquistar o ar
Poética zoológica
O poema é um animal
Feroz como um urso faminto
de beleza matizada e elegante
como um leopardo
por vezes ouve-se-lhe o rugido de leão
a grande distância, impondo respeito
Ora é um gato, de provada agilidade
caindo sempre de pé
e revivendo sete vezes
no ouvido,
ora é um pássaro
que não comanda as próprias asas
não resistindo a abri-las
e a demandar os ares
Outras vezes, mais circunspecto,
apetecem-lhe
as profundidades,
as cores e formas
e tesouros perdidos
de afundados galeões
que só o mar oferece
e é um peixe,
outras é uma cobra
arrastando-se pela terra
demorada e silenciosa,
ou um coiote no deserto,
de nariz ao rés do chão
em busca de alimento
Um coelho,
que em qualquer vão de rocha faz a toca,
um pequeno lagarto,
que penetra nos palácio do rei
Como a baleia cruza todos os oceanos
como o albatroz sobrevoa todos os meridianos
como a andorinha sempre retorna ao seu ninho
O poema,
mesmo quando os demais
animais dormem,
abre os olhos
é então a plácida coruja
a vigia dos sonhos
27/11/09
No sonho


