Nova vida, abundante vida, tudo quanto pode proporcionar um encontro pessoal e radical com uma pessoa especial. A contracultura da nova criação, em Jesus Cristo. N.B.: Este blog está em desacordo com o chamado novo acordo ortográfico de 1990.
sábado, janeiro 30, 2010
quinta-feira, janeiro 28, 2010
AS RAZÕES DAS RAÍZES

"As raízes é claro não se vêem
mas tu sabes
nelas se sustenta a árvore.
Para seres justo
pensa nas raízes"
Giannis Ritsos
Ao olhares para a árvore
não te detenhas na textura da casca
o tacteado das folhas
nada te revelará
Não o pouso das aves,
como se ele, por se acostumar
ao entrelaçado dos ramos,
lhe conhecesse os segredos
nem os seus bicos,
por muito que lhe amem os frutos
Não inquiras o vento
que a conduz na valsa
nem a chuva
que a veste de cristal
nem o sol que a salpica
de setas de reflexos de lume
Se queres fazer justiça à arvore
pergunta à sua alma oculta
pergunta ao que dela
os teus olhos
não vêem
às raízes escondidas
nas entranhas do solo
pergunta-lhes em que
profundas águas
tem bebido
e que terra
tem desvendado e sorvido
se é que queres
ser justo com a árvore
conhecer que razões dizem os seus anos
e saber que seiva a percorre
e entender o sabor dos seus frutos
Rui Miguel Duarte
28/01/10
domingo, janeiro 24, 2010
BATALHA NAVAL

“Mas, quando viu que o vento era muito forte teve medo, começou a afundar-se e gritou”
Evangelho de Mateus 14,30 (versão A Bíblia para todos p. 1974)
Nessa madrugada
as águas tinham arestas
como gumes frios de vidro
cortando os pés
o vento era uma matilha de molossos
cravando as mandíbulas sobre os teus membros
e perfurando-te o ouvido
até à espinha
com um silvo de cobra
Em baixo abre-se um alçapão
sob o teu pé, que se perde
e se combina com a matéria do abismo
Nada mais podes fazer
só a agitação da mão e o grito do náufrago
para tudo o mais o teu corpo
é já um com a água e o lodo
– Porque duvidas?
as arestas e as matilhas
o lugar da luta e do medo
estão na tua alma
20/01/10
sexta-feira, janeiro 15, 2010
QUEM SEGURA A MÃO?

Os antigos Gregos
diriam que
a mão de Posídon
abalara a terra
porque da ofensa de Ulisses
ainda não lhe foi
aplacada a cólera
Outros
dizem
ter sido a mão
de outro Deus
porque o povo
deu a face e o coração
a outro, ao Adversário
e assim
os dedos tocaram
nas raízes da terra
simplesmente
como se soltasse
uma folha ao vento
pois há uma cólera
por aplacar
Nem lhe sobra a pele
Os escombros
em carne viva
lançam ao espaço
uma mão
requerendo
outra mão
Quem a segura?
15/01/10
0:10 TMG+1
sábado, janeiro 09, 2010
Nesse dia…

Nesse dia as nuvens
encheram o saco
e este rasgou-se
tanto que já não havia fissuras
mas a bocarra toda aberta
do céu
na indiferença do sol
Nesse dia um Zeus furioso
desatou as cordas
que continham o bojo das nuvens
e delas fez chicotes
para escalavrar a terra
Nesse dia a chuva
foi visita intempestiva
e veio grosseiramente
brindar-nos
com uma bebedeira
de lama e morte
4/01/10
segunda-feira, janeiro 04, 2010
NA ESTRADA

"Foi nessa altura que se lhes abriu o entendimento e o reconheceram…"
Evangelho de Lucas 24,31 (versão A Bíblia para todos, p. 2100)
Não foi nos ramos de palavras
que distribuía vibrantes
de enigmas ilógicos
Não foi no gesto ténue de pássaro
no tremor do dedilhar dos fólios
da Lei Profetas e Escritos
Não foi no bronze liso
da pele do rosto
nem no negrume límpido
da barba
Não foi no timbre da voz
barítono na hora nocturna
divagante aos nossos cuidados
nem no incêndio ateado
nos nossos corações
ao seguirmos o fio diáfano
do seu discurso
de sonhos
Não foi no andar
preso da distância
no frenesim de esmagar
hectómetros
sob os calcanhares
sempre mais para diante
Foi no partir do pão
que nos abriu os olhos
e no-los lavou do sono
2/01/10
domingo, janeiro 03, 2010
A TUA PRESENÇA

« Les fleurs/ et les arbres/ crient/ après ta présence // C’est leur beauté / que je pleure / à travers l’absence de tes yeux ». Nic Klecker (poeta luxemburguês, 1928-2009)
sábado, janeiro 02, 2010

"La mort sait bien
qu'elle va gagner le duel
en attendant
la vie
a des parades habiles
et l'amour
guide son fleuret"
Nic Klecker (poeta luxemburguês, 1928-2009 )
A morte e a vida têm um encontro marcado
um duelo à espada
de vida ou morte
a vida, com a fragilidade das pombas,
tem de ser conduzida
a sua testemunha é o amor
é este quem lhe adestra a mão
e quem a mantém denodadamente
no combate
mesmo que a vacilação
lhe desça pesada aos pés
a morte não traz padrinho
porque precisaria de ajuda?
o seu braço tem uma estocada irresistível
assomando ao campo aberto
o poeta assiste a tudo
a uma escassa distância
e diz a dor dos golpes
da morte
o dizê-lo é uma hábil parada
com que os vai sustendo
de um pouco mais ao longe
ouve-se a voz
espessa e férrea de um Profeta
declarar mudado o desfecho
para o duelo:
“O Amor
não falha
e o ferrão da morte
está quebrado”
Rui Miguel Duarte
26/12/09
Publicado também em Liricoletivo
sábado, dezembro 26, 2009
PALAVRA PROFÉTICA
Há um baú de tesouro
repleto e palpitante de mistérios
inefáveis depositados por Deus,
como a terra úbere de minérios,
os próprios anjos dele se surpreendem
reclinados na indagação
de novo vento que lhes enfune as asas
e nos lábios lhes cante nova canção
não é de madeira preciosa
nem engastado de diamante
é dotado de riso e choro
de canto doce e troante
esse tesouro é a mente
incendiada e tenra do profeta
apurada para a interpretação de Deus
trasladada em voz de pastor, rei ou poeta
desse tesouro não retira o profeta
um gemido em estado bruto inexprimível
em língua celeste inaudita
mas palavra de homem inteligível
ao tempo e ao entendimento da assembleia
conforto coragem leme e lema para o povo
assim dita e pronunciada é como na árvore
nascente a pujança de um renovo
20/12/09
quarta-feira, dezembro 23, 2009
NEVE

um leopardo malhado
as patas macias marcam a cadência do silêncio
o sol arrefeceu
quando as nuvens irromperam
em beijos
à terra
Passa na rua
um leopardo das neves
o bafo frio gelando o ar
a cauda semeia o branco
na rua sobre as árvores e às portas
o olho perde a íris
e todo é esclera
21/12/09
segunda-feira, dezembro 21, 2009
MANJEDOURA

quarta-feira, dezembro 16, 2009
O TROTE
segunda-feira, dezembro 07, 2009
Joanyr de Oliveira
domingo, dezembro 06, 2009
Poética rósea
Até pulverizar os espinhos
da rosa
à força de olhar
até que só reste deles
a raíz cortada
até ao branco
até à nua
altivez do caule
até deixar marcas
nas folhas
com a ponta da faca
dos dedos
aninhar-se na carne ígnea
das pétalas
imbricar-se nas suas volutas
até descer
ao fundo da campânula
tacteante nas patas das abelhas
até esmiuçar os estames
e até à nervura
beber o pólen
até a boca cheia
de açúcar
estar pronta
a conquistar o ar
Poética zoológica
O poema é um animal
Feroz como um urso faminto
de beleza matizada e elegante
como um leopardo
por vezes ouve-se-lhe o rugido de leão
a grande distância, impondo respeito
Ora é um gato, de provada agilidade
caindo sempre de pé
e revivendo sete vezes
no ouvido,
ora é um pássaro
que não comanda as próprias asas
não resistindo a abri-las
e a demandar os ares
Outras vezes, mais circunspecto,
apetecem-lhe
as profundidades,
as cores e formas
e tesouros perdidos
de afundados galeões
que só o mar oferece
e é um peixe,
outras é uma cobra
arrastando-se pela terra
demorada e silenciosa,
ou um coiote no deserto,
de nariz ao rés do chão
em busca de alimento
Um coelho,
que em qualquer vão de rocha faz a toca,
um pequeno lagarto,
que penetra nos palácio do rei
Como a baleia cruza todos os oceanos
como o albatroz sobrevoa todos os meridianos
como a andorinha sempre retorna ao seu ninho
O poema,
mesmo quando os demais
animais dormem,
abre os olhos
é então a plácida coruja
a vigia dos sonhos
27/11/09
No sonho

sábado, novembro 21, 2009
NEGAÇÃO
James Tissot (pintor francês 1836-1902)Brooklyn Museum Robert E. Blum Gallery
antes mesmo de a aurora multiplicar rosas
ouvir-se-á o murmúrio das vozes
no pátio
e ao vento uma palavra não soprada
O coração esconderá a vergonha
lançá-la-á ao crepitar da fogueira
acesa para aquecer corpos
consumir fadigas e tristezas
mas o ardor de um coração culpado
fogo nenhum extingue
antes mais o inflama
O seu rosto será familiar
cuspido e escarrado
alguém o terá visto
o braço direito desse Rei
E ao vento uma palavra não balbuciada
Sentados na roda dos coscuvilheiros,
os olhos mirarão o homem
de fronte suada de desassossego e fuga
As vozes certificarão o que ele preferirá ignorar
terá sido um desses que terão partilhado a mesa com o Galileu
e que tentará então com a aba do manto
manter o anonimato
As vozes darão carne à sombra que ele ansiará
por abandonar numa esquina
Mas fugirá o descanso desse coração incerto
pois ao vento uma palavra NÃO será protestada
E será este protesto quem acordará o galo,
que então se lembrará que será a hora
Outros olhos então pousarão nos seus
os olhos condoídos do Mestre
que lhe atravessarão a couraça da alma
E na esquina onde se quis esquecer
será aquela em que se reencontrará
no espelho das lágrimas: ainda que a voz minta
estas só sabem dizer a verdade
e desconhecem a palavra
NÃO
20/11/09
quinta-feira, novembro 19, 2009
NO HELESPONTO, XERXES
domingo, novembro 15, 2009
EXISTIR
Há pessoas que são como planetas que só conhecem movimentos de rotação: entra dia e sai dia e o mundo delas revolve-se num entediante movimento centrípeto, sempre e somente em torno de si próprias. Pessoas egoístas, possessivas, excessivamente centradas em si próprias e nos seus interesses, não existem realmente. Não conseguem sair delas próprias. São como rosas que nunca abrem, fontes que nunca nascem, estrelas que nunca brilham. Não participam das mil e uma vidas que existem fora delas – mais, para elas não existem outras vidas, só a sua.
Existir, ex-sistere, implica sair de si próprio! E o maior êxodo é aquele que é feito para fora de si mesmo.
Sair de si próprio provoca um descentramento. O centro geométrico muda à medida que o outro começa a ocupar a sua atenção: começa a dar-se, a repartir-se, a semear-se nos outros. O grão de trigo, se não morrer fica só; mas se morrer, se sair de si próprio, passa a existir como pão que alimenta
Sair de si próprio implica arriscar – arriscar-se a sair para um mundo-outro onde nada é costumeiro, habitual, familiar. Enquanto permanecer no útero em que foi concebido – esse seu habitat natural em que a vida se foi desenrolando – nunca conhecerá outros desafios e novas dimensões de vida. As novas harmonias já foram dissonâncias; as novas descobertas já foram impossibilidades; as novas ideias já foram silêncios; o romance e a poesia já foram páginas em branco. Há que arriscar!
Sair de si próprio faz aumentar o horizonte de esperança. A vida deixa de estar limitada aos nossos poucos recursos e à nossa pequena dimensão. O nosso horizonte de esperança aumenta ao percebermos que existem outras ideias, outros dons, outros contributos, outros sonhos que fazem o mundo avançar e pular.
O maior desafio da vida é existir.
sexta-feira, novembro 13, 2009
ROBERT ENKE (1977-2009)

O Outono vestia-se de chuva e alguma neblina