
« Les fleurs/ et les arbres/ crient/ après ta présence // C’est leur beauté / que je pleure / à travers l’absence de tes yeux ». Nic Klecker (poeta luxemburguês, 1928-2009)
Nova vida, abundante vida, tudo quanto pode proporcionar um encontro pessoal e radical com uma pessoa especial. A contracultura da nova criação, em Jesus Cristo. N.B.: Este blog está em desacordo com o chamado novo acordo ortográfico de 1990.



um leopardo malhado
as patas macias marcam a cadência do silêncio
o sol arrefeceu
quando as nuvens irromperam
em beijos
à terra
Passa na rua
um leopardo das neves
o bafo frio gelando o ar
a cauda semeia o branco
na rua sobre as árvores e às portas
o olho perde a íris
e todo é esclera
21/12/09

O poema é um animal
Feroz como um urso faminto
de beleza matizada e elegante
como um leopardo
por vezes ouve-se-lhe o rugido de leão
a grande distância, impondo respeito
Ora é um gato, de provada agilidade
caindo sempre de pé
e revivendo sete vezes
no ouvido,
ora é um pássaro
que não comanda as próprias asas
não resistindo a abri-las
e a demandar os ares
Outras vezes, mais circunspecto,
apetecem-lhe
as profundidades,
as cores e formas
e tesouros perdidos
de afundados galeões
que só o mar oferece
e é um peixe,
outras é uma cobra
arrastando-se pela terra
demorada e silenciosa,
ou um coiote no deserto,
de nariz ao rés do chão
em busca de alimento
Um coelho,
que em qualquer vão de rocha faz a toca,
um pequeno lagarto,
que penetra nos palácio do rei
Como a baleia cruza todos os oceanos
como o albatroz sobrevoa todos os meridianos
como a andorinha sempre retorna ao seu ninho
O poema,
mesmo quando os demais
animais dormem,
abre os olhos
é então a plácida coruja
a vigia dos sonhos
27/11/09

James Tissot (pintor francês 1836-1902)
Assim que viu o Helesponto inteiro recoberto de navios, todas as suas margens e as planícies de Abidos cheias dos seus homens, Xerxes considerou-se a si próprio afortunado, mas em seguida chorou. Ao aperceber-se disso, Artábano, seu tio paterno, aquele que anteriormente exprimira livremente a opinião de que não era recomendável marchar contra a Grécia, esse homem, ao notar que Xerxes chorava, disse-lhe: «Ó Rei, quão díspar é a tua atitude de agora e a de há muito pouco! Primeiro, declaras-te a ti próprio afortunado, agora choras!» «É que me veio à mente – disse ele – lamentar a brevidade de toda a vida humana, pois, dentre toda esta grande multidão de homens que aqui estão, dentro de cem anos, nem um único sobreviverá.»
Heródoto, Histórias VII, 45-46
Xerxes, rei da Pérsia (entre 485 e 465 a.C.). É o Assuero do livro bíblico de Ester. Como todos os monarcas do imenso império persa, era designado "Rei dos Reis" (Shāhanshāh).
Dario o Grande, seu pai, falhara a invasão da Grécia (derrota em Maratona em 490), mas Xerxes decidiu continuar. Heródoto relata como esse rei orgulhoso, para passar o estreito do Helesponto (actual Dardanelos), manda construir pontes. Uma tempestade destrói-as, e o Rei, irado, manda executar os responsáveis pelas obras e, pior ainda, castigar o próprio mar. O castigo consistiu em repreendê-lo, dar-lhe trezentas chicotadas, lançar às suas águas duas penas e marcá-lo com ferros em brasa.
No auge do orgulho e da glória, ao contemplar as multidões dos seus exércitos e hostes de mercenários múlti-étnicos, deixa-se tocar por um sentimento de trágico próprio do pensamento grego. Lembra-se de que é um mero ser humano e chora, pensando que ele e os seus homens, enquanto humanos, têm uma curta vida. Artábano, seu tio paterno, que o aconselhara a não marchar contra a Grécia, vê-o chorar, e tem com o rei um diálogo sobre a vida humana, as calamidades que a atingem e o desejo que a todos num ou noutro momento toca de preferir a morte à dor de viver.
Morreria assassinado às mãos deste mesmo tio materno.
Não discuto aqui até que ponto há no episódio e no diálogo história, lenda, retoque literário dado por um espírito em várias ocasiões preocupado em transmitir testemunhos. A meditação sobre o humano, o tema e natureza do diálogo, no entanto, são muito próprios da sensibilidade helénica (já notórios na épica homérica, bem como em outros géneros poéticos e no trágico). Phthoneron theion: a divindade invejosa, que cerceia ao ser humano a delícia da vida, e a abate, por vezes cruelmente, pois só a ela, a divindade, está reservado ser makar, bem-aventurado.
E não só, são sentimentos transculturais, pois podem ser lidos em confronto com passos de livros bíblicos, como os de Job ou Eclesiastes.