sábado, novembro 07, 2009

No Éden


"Para aqueles que frequentam o jardim
o mundo está sempre a florescer
Longe de mim diminuir o louvor"

José Tolentino Mendonça, in "Sintra, antiga Estalagem da Raposa"


Aqueles que frequentam o jardim
fazem de cada pétala a sua casa
em cada cor reflectem as luzes da cidade
em cada olor se lavam da poeira das estradas.

A sombra das árvores é o seu deleite.
Se se sentam nos bancos, é para que
os ouvidos fiquem atentos
ao salmo dos pássaros
e do rumor das folhas.

No jardim o tempo não tem fronteiras,
não há sebes,
nele deixa o infinito o seu lastro.

Longe de mim romper
a fina membrana do silêncio
longe de mim permitir que
a perene florescência
do mundo, que para eles é o jardim,
deixe de entoar o devido salmo do louvor.

1/11/09

Publicado como inédito em Poeta Salutor

crepúsculo sobre Atacama


rasgo com mãos de sonho

convertido em visão

visão quente

do rés da planura

a espraiar-se para o azul


deixar de sonhar

os olhos de ver

jóias no céu

cumprem-se o bastante no contemplar


2/10/09


quinta-feira, novembro 05, 2009

La nuite tombe sur Atacama


L’eau n’érode pas ces pierres
ni le vent ici a donné rendez-vous

à moins éventuellement que sur la toile du ciel
où il a tracé les premiers brouillons
de nuages
que tout au long de la nuit parcourront
le regard
sur l’ignoré sphère du ciel
d’où l’eau peut-être
ne tombera pas
ni le vent ne quittera son
absence

deux seuls sentinelles
légèrement courbées
en révérence au crépuscule
racontent l’histoire sans trame
du désert

Cai a noite em Atacama


A água não erode estes pedregais
nem o vento aqui marcou presença

a não ser talvez na tela do céu
onde riscou os primeiros esboços
de nuvens
que ao longo da noite percorrerão
o olhar
na incógnita esfera do céu
donde a água quiçá
não caia
nem o vento deixe a sua
ausência

duas sós sentinelas
ligeiramente curvadas
em reverência ao crepúsculo
relatam a história sem enredo
do deserto

23/10/09

segunda-feira, novembro 02, 2009

CONTRA O ABSENTISMO ESCOLAR… A POLÍCIA

Na Bélgica, a escolaridade é obrigatória até aos 18 anos, como se pretende que seja, aliás, em Portugal. Mas a diferença está em que, na Bélgica, a escolaridade É MESMO OBRIGATÓRIA. Contra o absentismo escolar, há já anos que enviam agentes de polícias por centros comerciais e outros lugares à caça de imberbes e absentistas. Quando apanham um outro dois, identificam-nos e escoltam-nos à escolinha, deixando-os no gabinete do respectivo director.
Qualquer que seja a desculpa dos acnosos adolescentes para andarem por aí em vez de na sala de aula: seja porque tenham perdido o autocarro ou porque estejam doentes.
Em caso de reincidência, são os pais dos prevaricadores quem paga uma pesada multa.
Uuhhmmm… Uma sugestão para a nova equipa do Ministério da Educação de Portugal.

NOS CANAIS DE VENEZA


Queria em todas as horas
prender num só abraço
os canais e as pontes
e cingir num laço as ilhas
encerrar num só olhar
os palácios e as igrejas
reter na concha da mão
as gôndolas
desfiar o labirinto de cada calle e fondamenta,
como só o faço aos cabelos do meu amor.

Esperava encontrar nos campi
de Veneza
os portos da minha armada
em cada sottoportego as pistas de tesouros
de piratas
soterrados detrás de cada porta
na praça de S. Marcos restauraria
a serenidade
dos veneráveis Doges de antanho
reconverteria
um sonho de grandeza
na grandeza de um sonho.

Conter-te em mim
era como a descoberta da dracma perdida
eras a cidade há muito demandada pelos meus exércitos imperiais.

Mas ao ter as tuas pedras a meus pés
percebi
que não te podia conquistar
que a grande Torre do Relógio
não é o fundo do recife
onde pudesse
a minha âncora pousar.

És tu, a Sereníssima,
quem me conduz
em cortejo pelo Grande Canal
e quem, à flor das negras quilhas das gôndolas,
cobrindo o meu rosto
com uma das tuas muitas máscaras,
me faz jogar à apanhada e às escondidas
atrás da penumbra perdida
das tuas vielas e pontes

furtivamente propícias ao amor e à conspiração.

31/10/09

domingo, novembro 01, 2009

pés de sol


Descalça
e de alma nua,
a criança
penetra o limiar hermético
do nosso olhar

mergulha os pés sem mácula
para a inauguração da areia
por baixo há brasas quentes
passo a passo pé ante pé
titubeia
sobre o manto do sol

como sobre a erva hesitante
um tenro gamo
conquista o espaço prudente
deixa marcos
na superfície de poalha amarela

afinal a praia é agora dela
e são os seus pés agora firmes
quem pela areia difunde a claridade
e no nosso olhar
deixa um raio de sol
indelével

27/10/09

segunda-feira, outubro 26, 2009

FERIDA


“Espera-O uma coroa de espinhos
Para secar o sangue sobre a fronte, espera-o
a fome de um chicote
que as costas lhe há-de devorar”
J. T. Parreira, “No Jardim do Gêtsemani”

A fome batia uma litania
vai e vem sobre o dorso como tambor

O látego batia em sintonia
com a contagem ritmada
da voz do decurião
uma, duas, três, até quarenta
e com os gritos
de dor do condenado

E latejava as nossas cabeças
dentro de cada dentada das fauces
do chicote estampido vai e vem

Acirrámos os dentes
em aprovação do castigo
e dos gritos do condenado
as costas devoradas
as gotas de sangue salientes
eram o nosso prazer e satírico canto

Mas não deixávamos de pensar
que a obra do carrasco
devia ficar na discrição
recôndita duma caserna romana
longe da vista e do coração
e ensaiámos apartar o olhar
desviá-lo do esbatimento do seu rosto
em busca da geometria da dança
de um bando de pássaros que por ali voasse
ou admirar as coríntias colunatas do pátio
onde decorria o evento

Mais tarde esperava-o uma coroa
sobre a cabeça de espinhos
para o sangue na fronte lhe secar

E escorria das nossas cabeças

E depois ainda
esperava-o ser fixado na cruz
poucos de nós ficaram para ver
preferimos meter-nos pelas cruzes das ruas
pés apressados para o recolhimento e a piedade
pois esperava-nos a Peschah em casa
ao lume do assado do cordeiro,
o único a quem hoje se devia secar o sangue

Mas o vai e vem do flagelo batia em nós
e a voz de comando do decurião e os gritos de dor
o sangue porfiava em correr de nós
como mulheres nos dias da impureza
os panos não o estancavam
banhámo-nos mas a água
solidária tingia-se de escarlate

O chicote a coroa a voz do decurião e o sangue éramos nós
o que tínhamos nós com esse contumaz blasfemo
de rosto deformado condenado?

Caímos no chão

Éramos nós os condenados
de costas devoradas e frontes sangradas
à beira do vale onde a morte se dissimula de sombra

Por fim acordámos

Esse sangue
penetrava-nos até aos corações
e corria agora neles
lavados

17/10/09
Originalmente publicado em Papéis na gaveta, por gentileza do poeta J. T. Parreira

ECCE POIEMA

Anunciação do anjo a Zacarias (ícone russo)


"Mas como não acreditaste no que te disse, vais ficar mudo, sem poder falar, até ao dia em que isso acontecer, pois tudo se realizará no tempo devido.”
Evangelho de Lucas 1:20 (versão A Bíblia para todos, p. 2044)



Para mãos que trabalham
sem uma língua treinada
o silêncio pode ser de ouro
ou de chumbo maciço

Porém, esse silêncio ainda fala
ainda está cheio de poemas, cânticos
confessa apreensões ou revela sonhos
da dentro da linfa, das cavidades do osso

Voz que duvida, que fala do que não sabe
que com as mãos se queda a queimar incenso
a vigiar que a chama da menorah perene arda
a oferecer os pães

que escreve febril o que o silêncio apenas sussurr
ao que a voz na laringe emudece

Que te diz e conta, Zacarias, a voz que te secou?
Voz que guarda e
burila a sabedoria
que decanta os segredos
confiados pelo anjo do Senhor
esculpidos no ventre da tua mulher
afinados em outra voz, a que clamará no deserto

Mas quanto melhor
não é,
como numa salva de prata uma maçã de ouro servida
é a voz irrompendo
finalmente instruída e madura
que fala
e canta os altos louvores do Senhor!

22/10/09

Originalmente publicado em Papéis na gaveta, por gentileza do poeta J. T. Parreira

quinta-feira, outubro 15, 2009

PASSOS


Provérbios 20:24 “os passos do homem são dirigidos pelo Senhor; o homem, pois, como entenderá o seu caminho?”

nem sempre sou confortado pela vara e pelo cajado
olho em redor
em vão
não estás.

o pastor toca com a vara e empurra a ovelha
gentilmente
na direcção que ele requer
assim me guias ou guiavas,
ou pensava que me guiavas
mas deixei de ver
a brilhar nas sombras
ou descansando sob uma árvore
enquanto eu me regalava no verde

mas o pastor nem sempre está
as nuvens negras cobrem-no
com o aguaceiro e a trovoada
certamente não virá
a buscar a ovelha perdida
e só

a apreensão engole-me
com dentes e uivo de lobo

até que me lembrei de algo que li:
entenderá o homem o seu caminho?
é o Senhor quem dirige os seus passos
mesmo na ignorância do homem

eis que o pastor
contra a mente turvada da ovelha
dispôs no chão uns marcos umas pedrinhas

regularmente
numa certa direcção
como as contas do colar de Ariadne
ensinam os passos à ovelha
para a liberdade do labirinto
e do vale da sombra do Minotauro

Rui Miguel Duarte
Herserange 13/10/09
publicado igualmente em A Ovelha Perdida e Liricoletivo

terça-feira, outubro 13, 2009

ESCUDO DA FÉ (AOS EFÉSIOS 6:16)


Conta o poeta Arquíloco que em certo dia de áspera peleja
largou o escudo em terra
e correu e correu
e ficou a vê-lo nas mãos de uns brutos
que o miravam e remiravam e giravam nas mãos grotescas
essa bela peça de topo de gama
de tecnologia de ponta
do armamento táctico-defensivo
e os ombros encolhidos da vergonha logo se expandiram
em risos de desprezo:
– Quero lá saber! Posso comprar outro pelo mesmo preço.
A cobardia vestiu-se de prosápia!

O poeta Horácio ao que parece
repetiu o gesto do seu mestre
em outro dia de rude luta.

Com quem queres aprender, soldado?
Porque soldado és
Vais ficar sentado no simpósio do sofá
e mergulhar
os olhos
e o nariz
em copos de cerveja
mordiscar tremoços
e ver a bola?
Ou como certo dia o poeta e rei David
debruçado do despreparo da varanda
a contemplar e contornar as famosas e formosas
curvas da mulher do vizinho?

É-te pesado o escudo? Não és digno de portar o estandarte
nem de calçar
as botas cardadas de soldado
que possuem o território inimigo com a palavra da paz.

Deixas o escudo no chão sobre os estilhaços e sangue dos teus camaradas?
Ou em casa, num canto secreto
do sótão escuro da infância
e do medo?

Viras o dorso às goelas rugidoras do leão?

Enquanto lá fora ferve o furacão?

A guerra, soldado, está aí
bate-te à porta com manápula de ferro.

Qual incêndio florestal
mais voraz
do que o abismo chega à tua tenda.
Não sabes que a seta do inimigo te perfurará
a cota de malha
e a tua carne à lâmina
será manteiga?
Julgas que fugirás?

Como ao dia claro se sucede
o arcano da noite
a guerra obrigatória vem.

O teu peito nu
inchado de prosápia ou tolhido de cobardia
estalará
e pela fenda o coração ser-te-á
roubado, soldado,
e com ele as saídas da vida.

Não há fronteira
nem rio outra margem
para onde mires o salto.

A guerra vem.

Que general e que exemplo seguirás?

Mira as mães da Lacedemónia
que ao retirarem cuidadosamente
os escudos do prego na parede
onde se cansavam de estar pendurados
os entregavam aos maridos e filhos
na despedida para a guerra
com alma de leoas
sem um beijo nem uma carícia
nem com voz de lã
severíssimas:
– Volta com ele ou sobre ele!

Toma, soldado, na mão
o escudo da fé
pés no chão
corrida contra o inimigo
vai e volta
não sem ele nem sobre ele
mas com ele.


Herserange (França) 11/10/09
publicado igualmente em A Ovelha Perdida e Liricoletivo

domingo, outubro 11, 2009

POEMA DE DEUS

POEMA DE DEUS

αὐτοῦ γάρ ἐσμεν ποίημα, κτισθέντες ἐν Χριστῷ Ἰησοῦ ἐπὶ ἔργοις ἀγαθοῖς οἷς προητοίμασεν ὁ θεὸς ἵνα ἐν αὐτοῖς περιπατήσωμεν.
“É que somos obra de arte, poema de Deus. Ele criou-nos em Cristo Jesus para produzirmos boas obras, as quais Ele de antemão preparara para nelas vivermos e nos movermos.”
Paulo, Carta aos Efésios 2:10


Sou um poema de Deus
manufacturado de palavra e terra
coroado de sol
de resplendor de aurora

No chão a tua mão pouso não achou
do vermelho barro que colheste
moldaste os meus rins
os meus ossos enrijeceste
vaso que
de água e sangue encheste

Do rude filão apartaste a ganga
e no lume
de milhares de sóis purificaste
o ouro da minha carne

À minha pele
não são ignotas a plaina
nem aos meus braços
a talha a martelo e escopro
o meu rosto
marchetado
de finas e várias peças de escultura
mais preciosas que mármore

no fundo da caverna da gestação
à massa bruta entreteceste
textura
partes órgãos funções
um coração que estremece e chora
olhos que vêem nariz que cheira mãos que apalpam
boca que fala
não um pedaço de madeira esculpida por um Gepeto
a quem uma fada deu vida

mais muito mais

em minhas narinas sopraste
e os meus pulmões respiraste
o sopro que é agora
a minha voz
que respira fala e profetiza e diz o poema

precisamente como tu

sou criação tua
poema teu
deste-me a tua palavra
e a tua arte
fizeste-me mundo e criação
filigrana de galáxias
nas raias do infinito
estertor de supernovas
expansão de nebulosas
sóis e planetas
asteróides e cometas
sistemas estelares e satélites
quasares e pulsares

fizeste-me mundo terra azul
crespidão de montes
explosão de vulcões
separação de terra e águas
rios de vales fendentes
árvores elevadas contra o vento
flores que ateiam cores e perfumes
do mar pleno o rugido
luares e canções
florestas e falésias
concerto de violino e risos de criança
semente caule e fruto

fizeste-me como tu
poeta

e assim mundo
com outros mundos universos paralelos
com outros poemas
transformados em poetas
e pintores e arquitectos
de mãos dadas
e vozes geminadas
faremos de toda a terra a obra que quiseste

a obra que preparaste
– eis aí a seara pronta para a ceifa

terça-feira, outubro 06, 2009

O dedo em riste




O dedo em riste da criança

os olhos
escrevem
se a voz
ainda é infante

nas margens do rio
recessos
de pequeninas colmeias
multímodas
ondulantes de cor
o rio
um longo sobressalto

o sorriso da criança no rio
pinta
a carvão e aguarela
de assombro
e novidade
a sua canção

– Papá, qu'é aquilo?

11/07/09 passeio no Douro entre Porto e Gaia

sexta-feira, setembro 25, 2009

Ataque ao prato

A Caroline já sabe comer sozinha, aos 20 meses. A delícia de vê-la crescer, adquirir em conquista aquilo que se tornará trivial. Belas experiências deste pai mais do que babado.

quinta-feira, setembro 24, 2009

MEDITAÇÃO SOBRE O SALMO 133

Ah querido irmão
Nada é mais doce
Do que as tépidas manhãs
Que amaciam as gotas do orvalho
Sim do orvalho de Hermon

Nada mais delicioso
Do que o nacarado óleo
Que desliza pela barba
O óleo da constrição do fruto da oliveira

Nos nossos conclaves, irmão
Há o mel dos abraços
E o sal dos risos
O veludo dos cantos
Entoados em conjunto
E o sol pleno das nossas danças

Ah somos Aarão de barba luzente
E irmãos do orvalho

Eia! Que nestes conclaves
Está o Irmão mais velho
Ele próprio do seu frasco
Derrama sobre nós o perfume
O mesmo que lhe ungiu os pés

CONTRADIÇÕES DO CORRUPTO

Por trinta moedas
E um beijo
Vendi o meu irmão
O meu coração de prata

O preço de um terreno

Ambição?
Não
O preço da minha decepção
Simplesmente
A possibilidade de um pouco de lucro
E de comprar um outro Messias

domingo, setembro 13, 2009

Quem é o inferno? C'est qui l'enfer?

"L'enfer c'est les autres" Jean-Paul Sartre
Antes de conhecer Cristo pensava eu ser uma vítima. Os outros não me compreendiam, rejeitavam-me, nauseavam-me.
Ao conhecer Cristo aprendi que sou carrasco. Que não compreendo os outros, rejeito-os, causo-lhes náuseas. Porque eu sou um outro para os outros.
Assim com propriedade concluo o silogismo: "L'enfer c'est moi".

"L'enfer c'est les autres" Jean-Paul Sartre
Avant de connaître le Christ je pensais que j’étais une victime. Mal compris des autres, ils me rejetaient, me provoquaient des nausées.
Je l’ai connu et j’ai appris que je suis un bourreau. Que je ne comprends pas les autres, je les rejette et leur provoque des nausées. Car je suis un autre pour les autres.
Alors je conclus avec propriété le syllogisme : "L'enfer c'est moi".

sexta-feira, setembro 11, 2009

OFICINA



Os reis vêm a ti
Trazem as suas espadas e os ceptros e as coroas
As espadas estão embotadas
Os ceptros quebrados
E as coroas de aço pesam nas cabeças
Ouro em vez de bronze
E muitas perguntas

Os sábios trazem ouro incenso e mirra
Cadernos em vez de livros

As mãos e bocas são de barro
Os corações e entendimento de pedra
Sobre a tua mesa as depositam

Ó mais nobre dos artesãos
Quem se atreve a questionar a tua arte?

sábado, setembro 05, 2009

Vinicius de Moraes, Soneto de fidelidade

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa lhe dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure

Estoril - Portugal, 10.1939

terça-feira, setembro 01, 2009

Códice Sinaítico

Para os que, como eu, alguma vez trabalharam com códices (o livro manuscrito antigo no formato que conhecemos hoje), estudiosos de codicologia ou paleografia, ou simples curiosos por antiguidades e interessados na transmissão do texto bíblico, aqui fica ligação para o Projecto do Códice Sinaítico.
Este códice (sigla א [Aleph]), o século IV, é um dos mais antigos e importantes testemunhos do texto bíblico em língua grega e escrita uncial. A British Library, a cuja fundo o códice pertence, é a responsável do projecto. O mesmo pode ser visto aí visto em imagens digitalizadas de excelente nitidez e qualidade, percorrido com cursor, exploradoonline. O texto de cada fólio é transcrito em caracteres gregos minúsculos para mais fácil confronto, e é identificado pela referência bíblica respectiva em menus de cortina onde se podem seleccionar outras referências e assim visualizar a imagem do correspondente fólio.
"Um dos mais importantes livros do mundo", como se lê no texto de apresentação em inglês, sai dos ultra-reservados e posto à disposição do universo.