domingo, novembro 01, 2009

pés de sol


Descalça
e de alma nua,
a criança
penetra o limiar hermético
do nosso olhar

mergulha os pés sem mácula
para a inauguração da areia
por baixo há brasas quentes
passo a passo pé ante pé
titubeia
sobre o manto do sol

como sobre a erva hesitante
um tenro gamo
conquista o espaço prudente
deixa marcos
na superfície de poalha amarela

afinal a praia é agora dela
e são os seus pés agora firmes
quem pela areia difunde a claridade
e no nosso olhar
deixa um raio de sol
indelével

27/10/09

segunda-feira, outubro 26, 2009

FERIDA


“Espera-O uma coroa de espinhos
Para secar o sangue sobre a fronte, espera-o
a fome de um chicote
que as costas lhe há-de devorar”
J. T. Parreira, “No Jardim do Gêtsemani”

A fome batia uma litania
vai e vem sobre o dorso como tambor

O látego batia em sintonia
com a contagem ritmada
da voz do decurião
uma, duas, três, até quarenta
e com os gritos
de dor do condenado

E latejava as nossas cabeças
dentro de cada dentada das fauces
do chicote estampido vai e vem

Acirrámos os dentes
em aprovação do castigo
e dos gritos do condenado
as costas devoradas
as gotas de sangue salientes
eram o nosso prazer e satírico canto

Mas não deixávamos de pensar
que a obra do carrasco
devia ficar na discrição
recôndita duma caserna romana
longe da vista e do coração
e ensaiámos apartar o olhar
desviá-lo do esbatimento do seu rosto
em busca da geometria da dança
de um bando de pássaros que por ali voasse
ou admirar as coríntias colunatas do pátio
onde decorria o evento

Mais tarde esperava-o uma coroa
sobre a cabeça de espinhos
para o sangue na fronte lhe secar

E escorria das nossas cabeças

E depois ainda
esperava-o ser fixado na cruz
poucos de nós ficaram para ver
preferimos meter-nos pelas cruzes das ruas
pés apressados para o recolhimento e a piedade
pois esperava-nos a Peschah em casa
ao lume do assado do cordeiro,
o único a quem hoje se devia secar o sangue

Mas o vai e vem do flagelo batia em nós
e a voz de comando do decurião e os gritos de dor
o sangue porfiava em correr de nós
como mulheres nos dias da impureza
os panos não o estancavam
banhámo-nos mas a água
solidária tingia-se de escarlate

O chicote a coroa a voz do decurião e o sangue éramos nós
o que tínhamos nós com esse contumaz blasfemo
de rosto deformado condenado?

Caímos no chão

Éramos nós os condenados
de costas devoradas e frontes sangradas
à beira do vale onde a morte se dissimula de sombra

Por fim acordámos

Esse sangue
penetrava-nos até aos corações
e corria agora neles
lavados

17/10/09
Originalmente publicado em Papéis na gaveta, por gentileza do poeta J. T. Parreira

ECCE POIEMA

Anunciação do anjo a Zacarias (ícone russo)


"Mas como não acreditaste no que te disse, vais ficar mudo, sem poder falar, até ao dia em que isso acontecer, pois tudo se realizará no tempo devido.”
Evangelho de Lucas 1:20 (versão A Bíblia para todos, p. 2044)



Para mãos que trabalham
sem uma língua treinada
o silêncio pode ser de ouro
ou de chumbo maciço

Porém, esse silêncio ainda fala
ainda está cheio de poemas, cânticos
confessa apreensões ou revela sonhos
da dentro da linfa, das cavidades do osso

Voz que duvida, que fala do que não sabe
que com as mãos se queda a queimar incenso
a vigiar que a chama da menorah perene arda
a oferecer os pães

que escreve febril o que o silêncio apenas sussurr
ao que a voz na laringe emudece

Que te diz e conta, Zacarias, a voz que te secou?
Voz que guarda e
burila a sabedoria
que decanta os segredos
confiados pelo anjo do Senhor
esculpidos no ventre da tua mulher
afinados em outra voz, a que clamará no deserto

Mas quanto melhor
não é,
como numa salva de prata uma maçã de ouro servida
é a voz irrompendo
finalmente instruída e madura
que fala
e canta os altos louvores do Senhor!

22/10/09

Originalmente publicado em Papéis na gaveta, por gentileza do poeta J. T. Parreira

quinta-feira, outubro 15, 2009

PASSOS


Provérbios 20:24 “os passos do homem são dirigidos pelo Senhor; o homem, pois, como entenderá o seu caminho?”

nem sempre sou confortado pela vara e pelo cajado
olho em redor
em vão
não estás.

o pastor toca com a vara e empurra a ovelha
gentilmente
na direcção que ele requer
assim me guias ou guiavas,
ou pensava que me guiavas
mas deixei de ver
a brilhar nas sombras
ou descansando sob uma árvore
enquanto eu me regalava no verde

mas o pastor nem sempre está
as nuvens negras cobrem-no
com o aguaceiro e a trovoada
certamente não virá
a buscar a ovelha perdida
e só

a apreensão engole-me
com dentes e uivo de lobo

até que me lembrei de algo que li:
entenderá o homem o seu caminho?
é o Senhor quem dirige os seus passos
mesmo na ignorância do homem

eis que o pastor
contra a mente turvada da ovelha
dispôs no chão uns marcos umas pedrinhas

regularmente
numa certa direcção
como as contas do colar de Ariadne
ensinam os passos à ovelha
para a liberdade do labirinto
e do vale da sombra do Minotauro

Rui Miguel Duarte
Herserange 13/10/09
publicado igualmente em A Ovelha Perdida e Liricoletivo

terça-feira, outubro 13, 2009

ESCUDO DA FÉ (AOS EFÉSIOS 6:16)


Conta o poeta Arquíloco que em certo dia de áspera peleja
largou o escudo em terra
e correu e correu
e ficou a vê-lo nas mãos de uns brutos
que o miravam e remiravam e giravam nas mãos grotescas
essa bela peça de topo de gama
de tecnologia de ponta
do armamento táctico-defensivo
e os ombros encolhidos da vergonha logo se expandiram
em risos de desprezo:
– Quero lá saber! Posso comprar outro pelo mesmo preço.
A cobardia vestiu-se de prosápia!

O poeta Horácio ao que parece
repetiu o gesto do seu mestre
em outro dia de rude luta.

Com quem queres aprender, soldado?
Porque soldado és
Vais ficar sentado no simpósio do sofá
e mergulhar
os olhos
e o nariz
em copos de cerveja
mordiscar tremoços
e ver a bola?
Ou como certo dia o poeta e rei David
debruçado do despreparo da varanda
a contemplar e contornar as famosas e formosas
curvas da mulher do vizinho?

É-te pesado o escudo? Não és digno de portar o estandarte
nem de calçar
as botas cardadas de soldado
que possuem o território inimigo com a palavra da paz.

Deixas o escudo no chão sobre os estilhaços e sangue dos teus camaradas?
Ou em casa, num canto secreto
do sótão escuro da infância
e do medo?

Viras o dorso às goelas rugidoras do leão?

Enquanto lá fora ferve o furacão?

A guerra, soldado, está aí
bate-te à porta com manápula de ferro.

Qual incêndio florestal
mais voraz
do que o abismo chega à tua tenda.
Não sabes que a seta do inimigo te perfurará
a cota de malha
e a tua carne à lâmina
será manteiga?
Julgas que fugirás?

Como ao dia claro se sucede
o arcano da noite
a guerra obrigatória vem.

O teu peito nu
inchado de prosápia ou tolhido de cobardia
estalará
e pela fenda o coração ser-te-á
roubado, soldado,
e com ele as saídas da vida.

Não há fronteira
nem rio outra margem
para onde mires o salto.

A guerra vem.

Que general e que exemplo seguirás?

Mira as mães da Lacedemónia
que ao retirarem cuidadosamente
os escudos do prego na parede
onde se cansavam de estar pendurados
os entregavam aos maridos e filhos
na despedida para a guerra
com alma de leoas
sem um beijo nem uma carícia
nem com voz de lã
severíssimas:
– Volta com ele ou sobre ele!

Toma, soldado, na mão
o escudo da fé
pés no chão
corrida contra o inimigo
vai e volta
não sem ele nem sobre ele
mas com ele.


Herserange (França) 11/10/09
publicado igualmente em A Ovelha Perdida e Liricoletivo

domingo, outubro 11, 2009

POEMA DE DEUS

POEMA DE DEUS

αὐτοῦ γάρ ἐσμεν ποίημα, κτισθέντες ἐν Χριστῷ Ἰησοῦ ἐπὶ ἔργοις ἀγαθοῖς οἷς προητοίμασεν ὁ θεὸς ἵνα ἐν αὐτοῖς περιπατήσωμεν.
“É que somos obra de arte, poema de Deus. Ele criou-nos em Cristo Jesus para produzirmos boas obras, as quais Ele de antemão preparara para nelas vivermos e nos movermos.”
Paulo, Carta aos Efésios 2:10


Sou um poema de Deus
manufacturado de palavra e terra
coroado de sol
de resplendor de aurora

No chão a tua mão pouso não achou
do vermelho barro que colheste
moldaste os meus rins
os meus ossos enrijeceste
vaso que
de água e sangue encheste

Do rude filão apartaste a ganga
e no lume
de milhares de sóis purificaste
o ouro da minha carne

À minha pele
não são ignotas a plaina
nem aos meus braços
a talha a martelo e escopro
o meu rosto
marchetado
de finas e várias peças de escultura
mais preciosas que mármore

no fundo da caverna da gestação
à massa bruta entreteceste
textura
partes órgãos funções
um coração que estremece e chora
olhos que vêem nariz que cheira mãos que apalpam
boca que fala
não um pedaço de madeira esculpida por um Gepeto
a quem uma fada deu vida

mais muito mais

em minhas narinas sopraste
e os meus pulmões respiraste
o sopro que é agora
a minha voz
que respira fala e profetiza e diz o poema

precisamente como tu

sou criação tua
poema teu
deste-me a tua palavra
e a tua arte
fizeste-me mundo e criação
filigrana de galáxias
nas raias do infinito
estertor de supernovas
expansão de nebulosas
sóis e planetas
asteróides e cometas
sistemas estelares e satélites
quasares e pulsares

fizeste-me mundo terra azul
crespidão de montes
explosão de vulcões
separação de terra e águas
rios de vales fendentes
árvores elevadas contra o vento
flores que ateiam cores e perfumes
do mar pleno o rugido
luares e canções
florestas e falésias
concerto de violino e risos de criança
semente caule e fruto

fizeste-me como tu
poeta

e assim mundo
com outros mundos universos paralelos
com outros poemas
transformados em poetas
e pintores e arquitectos
de mãos dadas
e vozes geminadas
faremos de toda a terra a obra que quiseste

a obra que preparaste
– eis aí a seara pronta para a ceifa

terça-feira, outubro 06, 2009

O dedo em riste




O dedo em riste da criança

os olhos
escrevem
se a voz
ainda é infante

nas margens do rio
recessos
de pequeninas colmeias
multímodas
ondulantes de cor
o rio
um longo sobressalto

o sorriso da criança no rio
pinta
a carvão e aguarela
de assombro
e novidade
a sua canção

– Papá, qu'é aquilo?

11/07/09 passeio no Douro entre Porto e Gaia

sexta-feira, setembro 25, 2009

Ataque ao prato

A Caroline já sabe comer sozinha, aos 20 meses. A delícia de vê-la crescer, adquirir em conquista aquilo que se tornará trivial. Belas experiências deste pai mais do que babado.

quinta-feira, setembro 24, 2009

MEDITAÇÃO SOBRE O SALMO 133

Ah querido irmão
Nada é mais doce
Do que as tépidas manhãs
Que amaciam as gotas do orvalho
Sim do orvalho de Hermon

Nada mais delicioso
Do que o nacarado óleo
Que desliza pela barba
O óleo da constrição do fruto da oliveira

Nos nossos conclaves, irmão
Há o mel dos abraços
E o sal dos risos
O veludo dos cantos
Entoados em conjunto
E o sol pleno das nossas danças

Ah somos Aarão de barba luzente
E irmãos do orvalho

Eia! Que nestes conclaves
Está o Irmão mais velho
Ele próprio do seu frasco
Derrama sobre nós o perfume
O mesmo que lhe ungiu os pés

CONTRADIÇÕES DO CORRUPTO

Por trinta moedas
E um beijo
Vendi o meu irmão
O meu coração de prata

O preço de um terreno

Ambição?
Não
O preço da minha decepção
Simplesmente
A possibilidade de um pouco de lucro
E de comprar um outro Messias

domingo, setembro 13, 2009

Quem é o inferno? C'est qui l'enfer?

"L'enfer c'est les autres" Jean-Paul Sartre
Antes de conhecer Cristo pensava eu ser uma vítima. Os outros não me compreendiam, rejeitavam-me, nauseavam-me.
Ao conhecer Cristo aprendi que sou carrasco. Que não compreendo os outros, rejeito-os, causo-lhes náuseas. Porque eu sou um outro para os outros.
Assim com propriedade concluo o silogismo: "L'enfer c'est moi".

"L'enfer c'est les autres" Jean-Paul Sartre
Avant de connaître le Christ je pensais que j’étais une victime. Mal compris des autres, ils me rejetaient, me provoquaient des nausées.
Je l’ai connu et j’ai appris que je suis un bourreau. Que je ne comprends pas les autres, je les rejette et leur provoque des nausées. Car je suis un autre pour les autres.
Alors je conclus avec propriété le syllogisme : "L'enfer c'est moi".

sexta-feira, setembro 11, 2009

OFICINA



Os reis vêm a ti
Trazem as suas espadas e os ceptros e as coroas
As espadas estão embotadas
Os ceptros quebrados
E as coroas de aço pesam nas cabeças
Ouro em vez de bronze
E muitas perguntas

Os sábios trazem ouro incenso e mirra
Cadernos em vez de livros

As mãos e bocas são de barro
Os corações e entendimento de pedra
Sobre a tua mesa as depositam

Ó mais nobre dos artesãos
Quem se atreve a questionar a tua arte?

sábado, setembro 05, 2009

Vinicius de Moraes, Soneto de fidelidade

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa lhe dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure

Estoril - Portugal, 10.1939

terça-feira, setembro 01, 2009

Códice Sinaítico

Para os que, como eu, alguma vez trabalharam com códices (o livro manuscrito antigo no formato que conhecemos hoje), estudiosos de codicologia ou paleografia, ou simples curiosos por antiguidades e interessados na transmissão do texto bíblico, aqui fica ligação para o Projecto do Códice Sinaítico.
Este códice (sigla א [Aleph]), o século IV, é um dos mais antigos e importantes testemunhos do texto bíblico em língua grega e escrita uncial. A British Library, a cuja fundo o códice pertence, é a responsável do projecto. O mesmo pode ser visto aí visto em imagens digitalizadas de excelente nitidez e qualidade, percorrido com cursor, exploradoonline. O texto de cada fólio é transcrito em caracteres gregos minúsculos para mais fácil confronto, e é identificado pela referência bíblica respectiva em menus de cortina onde se podem seleccionar outras referências e assim visualizar a imagem do correspondente fólio.
"Um dos mais importantes livros do mundo", como se lê no texto de apresentação em inglês, sai dos ultra-reservados e posto à disposição do universo.

segunda-feira, agosto 10, 2009

LA PIERRE

Sur une courbe de la route
Là où le soleil s’est couché
Appuyé sur un rocher
J’ai pris une pierre
Dardée du ciel
Et sur elle je me suis dépouillé du tourbant

Au-dessus de ma tête les étoiles sont pendues
Mon âme fixe les pieds sur les marches
Et prend la route
Par où les anges montent
Avec le sueur de ma voix
Et descendent amenant la parole de ta bouche
Le rêve transpose le seuil des mes yeux endormants

Et tout ce que j’ai c’est cette pierre
Que mes cheveux et ma barbe ont polis
Venue et visite du ciel
Envers lui je la dresse
Je la lève de la terre
Sur elle je verse la libation d’huile
Et elle est la colonne et corniche da la Maison du ciel et de Dieu
La fondation de la maison

Où toi et moi habiterons

La pierre où je me suis reposé
Était la pierre dont j’ai célébré
Au-deçà des nuages la rencontre avec la présence
De celui qui au-delà d’elles a établi son trône
Immanent

Maintenant je sais qui tu es
Je reconnais que tu es ici
Que où que j’aille
Pour tous les points cardinaux
Ton aile est ma tente
Et celle-ci s’élargira au-delà de ma vue
De la terre et des générations de mes lombes
De l’immensité de poussière

Voici mon Dieu de toutes les lignes courbes et droites de la route
De toutes routes

O ALTAR DA ALMOFADA 4 – A ALMOFADA

Com autorização do pastor, dirigi-me à frente e transmiti a lição que o Espírito de Deus me dera a respeito da almofada de Jacob.
– Irmãos, enquanto o pastor ministrava, recebi no meu espírito uma mensagem de Deus. Foi ao lermos o trecho que nos relata como Jacob dormiu com a cabeça pousada numa almofada de pedra, e após um encontro com Deus num sonho ergueu, com essa pedra, um memorial ao acontecimento e declarou ser aquele sítio “Casa de Deus”.
Ora, para Jacob chegara a hora de descansar. Deteve-se, fez uma pausa na sua jornada. Não insistiu em prosseguir. Anoitecera, tudo em redor escurecera, cessara o tempo de caminhar, era o tempo de dormir. Nesses épocas, vivia-se de sol a sol: acordava-se com o nascer do astro e ia-se para a cama no seu pôr. Não havia estradas nem grandes postes de iluminação pública. Dependia-se dos luminares do céu nos caminhos, e de archotes e lucernas a azeite ou petróleo, no interior como no exterior de casa.
Jacob deitou-se e descansou, pura e simplesmente.
A experiência pessoal ensina-me que é quando mais invocamos tarefas urgentes e inadiáveis, no trabalho ou em casa, compromissos familiares ou de outros tipos, e que é quando mais nos embrenhamos neles que menos conseguimos realizá-los. Que mais nos perdemos em atalhos, que mais vagamos de um lado para o outro, quais barcos à deriva. Ou, como se diz em linguagem comum, quais baratas tontas. O activismo faz perder o foco e arruína a estratégia previamente definida. O resultado disso consiste em quebra de produtividade, canseira e mais tensão, vulgarmente designada por stress.
Quem poderá não perceber que esta descrição é uma boa descrição da sua própria experiência?
Ora, Jacob descansou, e a pedra de descanso foi o fundamento da edificação da Casa de Deus. Descansar, quando tentados a nos escusarmos precisamente com o cansaço, é vir e estar na Casa de Deus.
Esta foi o teor da meditação que partilhei com os irmãos. O pastor levantou-se, agradeceu e comentou, em conclusão:
– É bom saber que a Casa de Deus é lugar de descanso.

terça-feira, julho 28, 2009

A Pedra

Numa curva de caminho
Onde o sol se deitou
Encostado a uma rocha
Tomei uma pedra
Dardejada do céu
E sobre ela me desfiz do turbante

Sobre a cabeça pendem-me as estrelas
A alma firma os pés na escadaria
E empreende o caminho
Por onde os anjos sobem
Com o suor da minha voz
E descem com a palavra da tua boca
O sonho transpõe o limiar dos meus olhos dormentes

E o que tenho é esta pedra
Que os meus cabelos e barba poliram
Vinda e visita do céu
Para ele a erijo
A levanto da terra
Sobre ela libo o azeite
E é a coluna e cornija da Casa do céu e de Deus
A fundação da casa

Onde tu e eu viveremos

A pedra onde descansei
Foi a pedra com que celebrei
Aquém das nuvens o encontro com a presença
Daquele que além delas estabeleceu o seu trono
Imanente

Agora sei quem és
Reconheço que estás aqui
Que aonde quer que eu vá
Para todos os pontos cardeais
A tua asa é a minha tenda
E esta se alargará para além da vista
Da terra e das gerações dos meus lombos
De imensidão de pó

Eis o meu Deus de todas as curvas e rectas do caminho
De todos os caminhos

Férias: 1 a 17 de Julho





















Férias, férias, férias!

Desejadas e ansiadas como um Messias, amadas com a mais sedutora amante, devoradas como um cozido à portuguesa, saboreadas como um chocolate e sorvidas como um sorvete, curtas como a chama de um fósforo, perdidas como uma nota de 500 €!
Assim foram as férias: em Sintra, os travesseiros, as queijadas, cabo da Roca, Amadora, Costa da Caparica, um gelado na geladaria Emanha no Parque das Nações, em Aveiro, as primeiras experiências de praia da Caroline, no Porto, no Douro, em caves de Porto, reencontro com amigos e com família, o aniversário do meu irmão, visita a igrejas nas quais já nos congregámos, descansar, o prazer de comer fora, de "ter um livro para ler e não o fazer" (como escreveu o Pessoa).
E ala, que são horas de regressar – agora que estava a ser giro…

segunda-feira, junho 22, 2009

O ALTAR DE ALMOFADA 3 – A PEDRA

Era uma sexta-feira do início de Maio de 2009. O céu estava aberto sobre Steinsel, no Luxemburgo. O meu pastor, Paulo Cardoso, ensinava sobre a importância de frequentar a casa de Deus, a casa de culto onde a comunidade de cristãos local se reúne para em conjunto celebrar Deus. Com efeito, muitos cristãos deixam de se congregar, e surgem as mais variadas desculpas. Eis um problema tão velho quanto a existência da Igreja de Cristo. Já o autor da carta aos Hebreus advertia para ele. O cansaço, o muito trabalho, o stress: alguns dos nomes que essas desculpas recebem. São nomes como esses, que começam como desculpas para justificar um hábito ou a falta dele, e se convertem em ídolos, senhores dominadores que estiolam o sentido do amor, do zelo e do compromisso e ocupam o lugar que pertencem a estes.
Um dos versículos bíblicos citados a propósito foi o comentário de Jacob ao sonho da escada celeste que tivera (Génesis 28:16):
— Realmente o Senhor está neste lugar; e eu não o sabia.
E o lugar, esse lugar, foi chamado pelo próprio Jacob “Casa de Deus”. A congregação dos santos no culto é a Casa de Deus. A verificação de Jacob interpela quem quer estar com Deus a vir ao lugar onde os santos se reúnem. E ao vir e se reunir pode ser surpreendido como Jacob o foi, e verificar que Deus está de facto aí. E encontrar Deus muda o figurino dos dias e das emoções.
Ora, a Casa de Deus é a igreja – tanto no sentido tradicional de edifício, como no sentido mais primordial de comunidade. O étimo é grego: ekklesia. Nos regimes democráticos de tipo ateniense, era o nome dado ao principal órgão de poder, a assembleia dos cidadãos; adoptado pelos cristãos, passou a designar a congregação dos santos, para o convívio, a adoração e a oração a Deus em conjunto. O tema deste passo bíblico não é explicitamente a fundação e natureza da igreja enquanto corpo congregador dos filhos de Deus. Este passo bíblico é a história de uma revelação pessoal a Jacob por parte de Deus. Esta revelação pessoal teve como propósito abrir a Jacob os horizontes mentais para a promessa divina que consistia em multiplicá-la em revelações e alianças pessoais por toda a sua família e descendentes.
O princípio, porém, fica estabelecido. Posso entender a Casa de Deus como o lugar onde se abre o espaço para descer uma escada de comunicação entre o céu e a terra, onde Deus faz a sua habitação. Consiste numa aliança cuja iniciativa parte de Deus e subordinada a cláusulas. Estas constituem promessas cujo beneficiário é a parte humana. O destino da Casa viva de Deus é ser composta de congregação de inúmeras relevações e alianças pessoais.
E tem como fundamento uma pedra. O pastor leu e enfatizou a declaração de Jacob de que Deus estava ali. E prosseguiu a exposição da mensagem. Mas a pedra chamava-me. Convidava-me a deter-me. Li num relance de olhos todo o episódio, mas a minha mente já sabia onde queria meditar, e que questões a despertavam. A pedra que serviu de almofada foi ungida e erigida como memorial do encontro com na Casa deste. Porquê? Teria isto algum significado ou seria mero acaso: Jacob tomou aquela pedra simplesmente porque era a que tinha à mão?
Estas perguntas ficaram a martelar no meu espírito, e pediam uma resposta. Imediatamente soube que uma ideia me estava a ser dada, e que ideia era. E estava certo que me era exigido proclamá-la. Pedi ao pastor para partilhar com a congregação o que o Espírito de Deus me mostrara.

segunda-feira, junho 15, 2009

O ALTAR DE ALMOFADA 2 – A PEDRA E AS ESCADAS

Embora aterrado com a visão – tão cheia de luz e fogo, e a voz de Deus, mais forte do que o trovão, som de muitas águas, mas nítida – a palavra que Deus lhe dera era o bastante para o tranquilizar. Percebia que essa palavra merecia a confiança.
Sabia que o sonho lhe fora dado pelo Deus de seu pai e avô. Entendera que lhe falara, que tivera o privilégio de Ele se lhe revelar. E confirmava que a promessa da multiplicação das gerações da linhagem de Abraão lhe era agora transmitida, incontáveis como as estrelas do céu e o pó da terra. E que esse Deus estaria com Ele, e que havia comunicação entre o céu e a terra, que os anjos de Deus seriam com ele para o guardar e lhe trazer a bênção do céu, em obediência à voz do Senhor. Sim, a promessa era também para ele, não apenas por ser da linhagem de Abraão. Deus falara com Jacob, e não com o neto de Abraão. Havia umas escadas entre ele e Deus. Do alto das escadas Deus falava-lhe, como falara com Abraão. Ouvira e ouviria Deus, como Abraão. Com ele Deus fizera uma aliança, a mesma que fizera com Abraão. Conhecia agora Deus pessoalmente, e não apenas por ouvir o avô e o pai falarem dele. Abraão fora conhecido como o amigo de Deus. Também com ele tinha Deus firmado essa relação íntima.
Sabia que a promessa de Deus à linhagem de Abraão era para uma terra deleitosa, e essa terra fora claramente apontada. Mas uma coisa não sabia:
– Não sabia que também nesta terra Deus está.
Sim, a promessa era Canaã. Essa era a herança. Mas percebia que o Deus dos seus antepassados e seu Deus era Senhor também de outras terras. Daquela terra. Da terra que era por ora o seu destino, Haran. Também aí o seu Deus seria com ele, e dirigiria os seus passos, e seria o seu conselheiro, e o protegeria, e lhe daria uma jovem e linda mulher, a quem amasse, e que o amasse e lhe desse muitos filhos e filhas. Aí o abençoaria.

Era costume entre os povos tomar pedras e fazer delas um marco da consagração de um voto aos seus deuses. Às promessas do Deus e de seu pai e avô e agora igualmente seu Deus respondeu Jacob com votos: entregar-Lhe-ia o dízimo de todos os bens que lhe fossem dados segundo essas promessas. Tomou ele também a sua pedra e consagrou-a como memorial ao Deus da aliança acabada de concertar. E conforme o costume, chamou à pedra, e ao lugar em que a achara, Casa de Deus. Como sinal último da aliança, ungiu a pedra com um pouco de azeite, que representa a presença de Deus. Sempre que ele ou seus filhos por ali passassem lembrar-se-iam da aliança de Deus com Jacob e reafirmá-la-iam em seus corações, voltando-se de novo para ela.
O olhar não sondou em redor nem a mente se questionou. A pedra que a mão tomou foi a que lhe serviu de almofada. Essa era a sua Bethel, a sua Casa de Deus.

Lembrara-se: o seu avô Abraão sacrificara e selara aliança com o seu Deus por ali. Então o Senhor já chamara para si havia muito aquela terra. A Abraão e à sua linhagem prometera um território da ribeira do Egipto até ao rio Eufrates. Aquela terra fazia parte da promessa. E Deus disse-lhe que lha dava. Ali plantara erva para os seus gados, ali abrira caminhos para as suas caravanas e mercancias. Ali construiriam cidades e plantariam e cultivariam cereais e árvores de fruto. Que lhe dissera Deus? Os seus filhos e netos estender-se-iam para todos os pontos cardeais. A estrada para Haran era igualmente herança para os seus filhos e netos. E Haran. E toda a terra.
Como poderia ter-se esquecido disso: que Deus também estava ali?