De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento
E assim quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa lhe dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure
Estoril - Portugal, 10.1939
Nova vida, abundante vida, tudo quanto pode proporcionar um encontro pessoal e radical com uma pessoa especial. A contracultura da nova criação, em Jesus Cristo. N.B.: Este blog está em desacordo com o chamado novo acordo ortográfico de 1990.
sábado, setembro 05, 2009
terça-feira, setembro 01, 2009
Códice Sinaítico
Para os que, como eu, alguma vez trabalharam com códices (o livro manuscrito antigo no formato que conhecemos hoje), estudiosos de codicologia ou paleografia, ou simples curiosos por antiguidades e interessados na transmissão do texto bíblico, aqui fica ligação para o Projecto do Códice Sinaítico.
Este códice (sigla א [Aleph]), o século IV, é um dos mais antigos e importantes testemunhos do texto bíblico em língua grega e escrita uncial. A British Library, a cuja fundo o códice pertence, é a responsável do projecto. O mesmo pode ser visto aí visto em imagens digitalizadas de excelente nitidez e qualidade, percorrido com cursor, exploradoonline. O texto de cada fólio é transcrito em caracteres gregos minúsculos para mais fácil confronto, e é identificado pela referência bíblica respectiva em menus de cortina onde se podem seleccionar outras referências e assim visualizar a imagem do correspondente fólio.
"Um dos mais importantes livros do mundo", como se lê no texto de apresentação em inglês, sai dos ultra-reservados e posto à disposição do universo.
Este códice (sigla א [Aleph]), o século IV, é um dos mais antigos e importantes testemunhos do texto bíblico em língua grega e escrita uncial. A British Library, a cuja fundo o códice pertence, é a responsável do projecto. O mesmo pode ser visto aí visto em imagens digitalizadas de excelente nitidez e qualidade, percorrido com cursor, exploradoonline. O texto de cada fólio é transcrito em caracteres gregos minúsculos para mais fácil confronto, e é identificado pela referência bíblica respectiva em menus de cortina onde se podem seleccionar outras referências e assim visualizar a imagem do correspondente fólio.
"Um dos mais importantes livros do mundo", como se lê no texto de apresentação em inglês, sai dos ultra-reservados e posto à disposição do universo.
segunda-feira, agosto 10, 2009
LA PIERRE
Sur une courbe de la route
Là où le soleil s’est couché
Appuyé sur un rocher
J’ai pris une pierre
Dardée du ciel
Et sur elle je me suis dépouillé du tourbant
Au-dessus de ma tête les étoiles sont pendues
Mon âme fixe les pieds sur les marches
Et prend la route
Par où les anges montent
Avec le sueur de ma voix
Et descendent amenant la parole de ta bouche
Le rêve transpose le seuil des mes yeux endormants
Et tout ce que j’ai c’est cette pierre
Que mes cheveux et ma barbe ont polis
Venue et visite du ciel
Envers lui je la dresse
Je la lève de la terre
Sur elle je verse la libation d’huile
Et elle est la colonne et corniche da la Maison du ciel et de Dieu
La fondation de la maison
Où toi et moi habiterons
La pierre où je me suis reposé
Était la pierre dont j’ai célébré
Au-deçà des nuages la rencontre avec la présence
De celui qui au-delà d’elles a établi son trône
Immanent
Maintenant je sais qui tu es
Je reconnais que tu es ici
Que où que j’aille
Pour tous les points cardinaux
Ton aile est ma tente
Et celle-ci s’élargira au-delà de ma vue
De la terre et des générations de mes lombes
De l’immensité de poussière
Voici mon Dieu de toutes les lignes courbes et droites de la route
De toutes routes
Là où le soleil s’est couché
Appuyé sur un rocher
J’ai pris une pierre
Dardée du ciel
Et sur elle je me suis dépouillé du tourbant
Au-dessus de ma tête les étoiles sont pendues
Mon âme fixe les pieds sur les marches
Et prend la route
Par où les anges montent
Avec le sueur de ma voix
Et descendent amenant la parole de ta bouche
Le rêve transpose le seuil des mes yeux endormants
Et tout ce que j’ai c’est cette pierre
Que mes cheveux et ma barbe ont polis
Venue et visite du ciel
Envers lui je la dresse
Je la lève de la terre
Sur elle je verse la libation d’huile
Et elle est la colonne et corniche da la Maison du ciel et de Dieu
La fondation de la maison
Où toi et moi habiterons
La pierre où je me suis reposé
Était la pierre dont j’ai célébré
Au-deçà des nuages la rencontre avec la présence
De celui qui au-delà d’elles a établi son trône
Immanent
Maintenant je sais qui tu es
Je reconnais que tu es ici
Que où que j’aille
Pour tous les points cardinaux
Ton aile est ma tente
Et celle-ci s’élargira au-delà de ma vue
De la terre et des générations de mes lombes
De l’immensité de poussière
Voici mon Dieu de toutes les lignes courbes et droites de la route
De toutes routes
O ALTAR DA ALMOFADA 4 – A ALMOFADA
Com autorização do pastor, dirigi-me à frente e transmiti a lição que o Espírito de Deus me dera a respeito da almofada de Jacob.
– Irmãos, enquanto o pastor ministrava, recebi no meu espírito uma mensagem de Deus. Foi ao lermos o trecho que nos relata como Jacob dormiu com a cabeça pousada numa almofada de pedra, e após um encontro com Deus num sonho ergueu, com essa pedra, um memorial ao acontecimento e declarou ser aquele sítio “Casa de Deus”.
Ora, para Jacob chegara a hora de descansar. Deteve-se, fez uma pausa na sua jornada. Não insistiu em prosseguir. Anoitecera, tudo em redor escurecera, cessara o tempo de caminhar, era o tempo de dormir. Nesses épocas, vivia-se de sol a sol: acordava-se com o nascer do astro e ia-se para a cama no seu pôr. Não havia estradas nem grandes postes de iluminação pública. Dependia-se dos luminares do céu nos caminhos, e de archotes e lucernas a azeite ou petróleo, no interior como no exterior de casa.
Jacob deitou-se e descansou, pura e simplesmente.
A experiência pessoal ensina-me que é quando mais invocamos tarefas urgentes e inadiáveis, no trabalho ou em casa, compromissos familiares ou de outros tipos, e que é quando mais nos embrenhamos neles que menos conseguimos realizá-los. Que mais nos perdemos em atalhos, que mais vagamos de um lado para o outro, quais barcos à deriva. Ou, como se diz em linguagem comum, quais baratas tontas. O activismo faz perder o foco e arruína a estratégia previamente definida. O resultado disso consiste em quebra de produtividade, canseira e mais tensão, vulgarmente designada por stress.
Quem poderá não perceber que esta descrição é uma boa descrição da sua própria experiência?
Ora, Jacob descansou, e a pedra de descanso foi o fundamento da edificação da Casa de Deus. Descansar, quando tentados a nos escusarmos precisamente com o cansaço, é vir e estar na Casa de Deus.
Esta foi o teor da meditação que partilhei com os irmãos. O pastor levantou-se, agradeceu e comentou, em conclusão:
– É bom saber que a Casa de Deus é lugar de descanso.
– Irmãos, enquanto o pastor ministrava, recebi no meu espírito uma mensagem de Deus. Foi ao lermos o trecho que nos relata como Jacob dormiu com a cabeça pousada numa almofada de pedra, e após um encontro com Deus num sonho ergueu, com essa pedra, um memorial ao acontecimento e declarou ser aquele sítio “Casa de Deus”.
Ora, para Jacob chegara a hora de descansar. Deteve-se, fez uma pausa na sua jornada. Não insistiu em prosseguir. Anoitecera, tudo em redor escurecera, cessara o tempo de caminhar, era o tempo de dormir. Nesses épocas, vivia-se de sol a sol: acordava-se com o nascer do astro e ia-se para a cama no seu pôr. Não havia estradas nem grandes postes de iluminação pública. Dependia-se dos luminares do céu nos caminhos, e de archotes e lucernas a azeite ou petróleo, no interior como no exterior de casa.
Jacob deitou-se e descansou, pura e simplesmente.
A experiência pessoal ensina-me que é quando mais invocamos tarefas urgentes e inadiáveis, no trabalho ou em casa, compromissos familiares ou de outros tipos, e que é quando mais nos embrenhamos neles que menos conseguimos realizá-los. Que mais nos perdemos em atalhos, que mais vagamos de um lado para o outro, quais barcos à deriva. Ou, como se diz em linguagem comum, quais baratas tontas. O activismo faz perder o foco e arruína a estratégia previamente definida. O resultado disso consiste em quebra de produtividade, canseira e mais tensão, vulgarmente designada por stress.
Quem poderá não perceber que esta descrição é uma boa descrição da sua própria experiência?
Ora, Jacob descansou, e a pedra de descanso foi o fundamento da edificação da Casa de Deus. Descansar, quando tentados a nos escusarmos precisamente com o cansaço, é vir e estar na Casa de Deus.
Esta foi o teor da meditação que partilhei com os irmãos. O pastor levantou-se, agradeceu e comentou, em conclusão:
– É bom saber que a Casa de Deus é lugar de descanso.
terça-feira, julho 28, 2009
A Pedra
Numa curva de caminho
Onde o sol se deitou
Encostado a uma rocha
Tomei uma pedra
Dardejada do céu
E sobre ela me desfiz do turbante
Sobre a cabeça pendem-me as estrelas
A alma firma os pés na escadaria
E empreende o caminho
Por onde os anjos sobem
Com o suor da minha voz
E descem com a palavra da tua boca
O sonho transpõe o limiar dos meus olhos dormentes
E o que tenho é esta pedra
Que os meus cabelos e barba poliram
Vinda e visita do céu
Para ele a erijo
A levanto da terra
Sobre ela libo o azeite
E é a coluna e cornija da Casa do céu e de Deus
A fundação da casa
Onde tu e eu viveremos
A pedra onde descansei
Foi a pedra com que celebrei
Aquém das nuvens o encontro com a presença
Daquele que além delas estabeleceu o seu trono
Imanente
Agora sei quem és
Reconheço que estás aqui
Que aonde quer que eu vá
Para todos os pontos cardeais
A tua asa é a minha tenda
E esta se alargará para além da vista
Da terra e das gerações dos meus lombos
De imensidão de pó
Eis o meu Deus de todas as curvas e rectas do caminho
De todos os caminhos
Onde o sol se deitou
Encostado a uma rocha
Tomei uma pedra
Dardejada do céu
E sobre ela me desfiz do turbante
Sobre a cabeça pendem-me as estrelas
A alma firma os pés na escadaria
E empreende o caminho
Por onde os anjos sobem
Com o suor da minha voz
E descem com a palavra da tua boca
O sonho transpõe o limiar dos meus olhos dormentes
E o que tenho é esta pedra
Que os meus cabelos e barba poliram
Vinda e visita do céu
Para ele a erijo
A levanto da terra
Sobre ela libo o azeite
E é a coluna e cornija da Casa do céu e de Deus
A fundação da casa
Onde tu e eu viveremos
A pedra onde descansei
Foi a pedra com que celebrei
Aquém das nuvens o encontro com a presença
Daquele que além delas estabeleceu o seu trono
Imanente
Agora sei quem és
Reconheço que estás aqui
Que aonde quer que eu vá
Para todos os pontos cardeais
A tua asa é a minha tenda
E esta se alargará para além da vista
Da terra e das gerações dos meus lombos
De imensidão de pó
Eis o meu Deus de todas as curvas e rectas do caminho
De todos os caminhos
Férias: 1 a 17 de Julho
Férias, férias, férias!
Desejadas e ansiadas como um Messias, amadas com a mais sedutora amante, devoradas como um cozido à portuguesa, saboreadas como um chocolate e sorvidas como um sorvete, curtas como a chama de um fósforo, perdidas como uma nota de 500 €!
Assim foram as férias: em Sintra, os travesseiros, as queijadas, cabo da Roca, Amadora, Costa da Caparica, um gelado na geladaria Emanha no Parque das Nações, em Aveiro, as primeiras experiências de praia da Caroline, no Porto, no Douro, em caves de Porto, reencontro com amigos e com família, o aniversário do meu irmão, visita a igrejas nas quais já nos congregámos, descansar, o prazer de comer fora, de "ter um livro para ler e não o fazer" (como escreveu o Pessoa).
E ala, que são horas de regressar – agora que estava a ser giro…
segunda-feira, junho 22, 2009
O ALTAR DE ALMOFADA 3 – A PEDRA
Era uma sexta-feira do início de Maio de 2009. O céu estava aberto sobre Steinsel, no Luxemburgo. O meu pastor, Paulo Cardoso, ensinava sobre a importância de frequentar a casa de Deus, a casa de culto onde a comunidade de cristãos local se reúne para em conjunto celebrar Deus. Com efeito, muitos cristãos deixam de se congregar, e surgem as mais variadas desculpas. Eis um problema tão velho quanto a existência da Igreja de Cristo. Já o autor da carta aos Hebreus advertia para ele. O cansaço, o muito trabalho, o stress: alguns dos nomes que essas desculpas recebem. São nomes como esses, que começam como desculpas para justificar um hábito ou a falta dele, e se convertem em ídolos, senhores dominadores que estiolam o sentido do amor, do zelo e do compromisso e ocupam o lugar que pertencem a estes.
Um dos versículos bíblicos citados a propósito foi o comentário de Jacob ao sonho da escada celeste que tivera (Génesis 28:16):
— Realmente o Senhor está neste lugar; e eu não o sabia.
E o lugar, esse lugar, foi chamado pelo próprio Jacob “Casa de Deus”. A congregação dos santos no culto é a Casa de Deus. A verificação de Jacob interpela quem quer estar com Deus a vir ao lugar onde os santos se reúnem. E ao vir e se reunir pode ser surpreendido como Jacob o foi, e verificar que Deus está de facto aí. E encontrar Deus muda o figurino dos dias e das emoções.
Ora, a Casa de Deus é a igreja – tanto no sentido tradicional de edifício, como no sentido mais primordial de comunidade. O étimo é grego: ekklesia. Nos regimes democráticos de tipo ateniense, era o nome dado ao principal órgão de poder, a assembleia dos cidadãos; adoptado pelos cristãos, passou a designar a congregação dos santos, para o convívio, a adoração e a oração a Deus em conjunto. O tema deste passo bíblico não é explicitamente a fundação e natureza da igreja enquanto corpo congregador dos filhos de Deus. Este passo bíblico é a história de uma revelação pessoal a Jacob por parte de Deus. Esta revelação pessoal teve como propósito abrir a Jacob os horizontes mentais para a promessa divina que consistia em multiplicá-la em revelações e alianças pessoais por toda a sua família e descendentes.
O princípio, porém, fica estabelecido. Posso entender a Casa de Deus como o lugar onde se abre o espaço para descer uma escada de comunicação entre o céu e a terra, onde Deus faz a sua habitação. Consiste numa aliança cuja iniciativa parte de Deus e subordinada a cláusulas. Estas constituem promessas cujo beneficiário é a parte humana. O destino da Casa viva de Deus é ser composta de congregação de inúmeras relevações e alianças pessoais.
E tem como fundamento uma pedra. O pastor leu e enfatizou a declaração de Jacob de que Deus estava ali. E prosseguiu a exposição da mensagem. Mas a pedra chamava-me. Convidava-me a deter-me. Li num relance de olhos todo o episódio, mas a minha mente já sabia onde queria meditar, e que questões a despertavam. A pedra que serviu de almofada foi ungida e erigida como memorial do encontro com na Casa deste. Porquê? Teria isto algum significado ou seria mero acaso: Jacob tomou aquela pedra simplesmente porque era a que tinha à mão?
Estas perguntas ficaram a martelar no meu espírito, e pediam uma resposta. Imediatamente soube que uma ideia me estava a ser dada, e que ideia era. E estava certo que me era exigido proclamá-la. Pedi ao pastor para partilhar com a congregação o que o Espírito de Deus me mostrara.
Um dos versículos bíblicos citados a propósito foi o comentário de Jacob ao sonho da escada celeste que tivera (Génesis 28:16):
— Realmente o Senhor está neste lugar; e eu não o sabia.
E o lugar, esse lugar, foi chamado pelo próprio Jacob “Casa de Deus”. A congregação dos santos no culto é a Casa de Deus. A verificação de Jacob interpela quem quer estar com Deus a vir ao lugar onde os santos se reúnem. E ao vir e se reunir pode ser surpreendido como Jacob o foi, e verificar que Deus está de facto aí. E encontrar Deus muda o figurino dos dias e das emoções.
Ora, a Casa de Deus é a igreja – tanto no sentido tradicional de edifício, como no sentido mais primordial de comunidade. O étimo é grego: ekklesia. Nos regimes democráticos de tipo ateniense, era o nome dado ao principal órgão de poder, a assembleia dos cidadãos; adoptado pelos cristãos, passou a designar a congregação dos santos, para o convívio, a adoração e a oração a Deus em conjunto. O tema deste passo bíblico não é explicitamente a fundação e natureza da igreja enquanto corpo congregador dos filhos de Deus. Este passo bíblico é a história de uma revelação pessoal a Jacob por parte de Deus. Esta revelação pessoal teve como propósito abrir a Jacob os horizontes mentais para a promessa divina que consistia em multiplicá-la em revelações e alianças pessoais por toda a sua família e descendentes.
O princípio, porém, fica estabelecido. Posso entender a Casa de Deus como o lugar onde se abre o espaço para descer uma escada de comunicação entre o céu e a terra, onde Deus faz a sua habitação. Consiste numa aliança cuja iniciativa parte de Deus e subordinada a cláusulas. Estas constituem promessas cujo beneficiário é a parte humana. O destino da Casa viva de Deus é ser composta de congregação de inúmeras relevações e alianças pessoais.
E tem como fundamento uma pedra. O pastor leu e enfatizou a declaração de Jacob de que Deus estava ali. E prosseguiu a exposição da mensagem. Mas a pedra chamava-me. Convidava-me a deter-me. Li num relance de olhos todo o episódio, mas a minha mente já sabia onde queria meditar, e que questões a despertavam. A pedra que serviu de almofada foi ungida e erigida como memorial do encontro com na Casa deste. Porquê? Teria isto algum significado ou seria mero acaso: Jacob tomou aquela pedra simplesmente porque era a que tinha à mão?
Estas perguntas ficaram a martelar no meu espírito, e pediam uma resposta. Imediatamente soube que uma ideia me estava a ser dada, e que ideia era. E estava certo que me era exigido proclamá-la. Pedi ao pastor para partilhar com a congregação o que o Espírito de Deus me mostrara.
segunda-feira, junho 15, 2009
O ALTAR DE ALMOFADA 2 – A PEDRA E AS ESCADAS
Embora aterrado com a visão – tão cheia de luz e fogo, e a voz de Deus, mais forte do que o trovão, som de muitas águas, mas nítida – a palavra que Deus lhe dera era o bastante para o tranquilizar. Percebia que essa palavra merecia a confiança.
Sabia que o sonho lhe fora dado pelo Deus de seu pai e avô. Entendera que lhe falara, que tivera o privilégio de Ele se lhe revelar. E confirmava que a promessa da multiplicação das gerações da linhagem de Abraão lhe era agora transmitida, incontáveis como as estrelas do céu e o pó da terra. E que esse Deus estaria com Ele, e que havia comunicação entre o céu e a terra, que os anjos de Deus seriam com ele para o guardar e lhe trazer a bênção do céu, em obediência à voz do Senhor. Sim, a promessa era também para ele, não apenas por ser da linhagem de Abraão. Deus falara com Jacob, e não com o neto de Abraão. Havia umas escadas entre ele e Deus. Do alto das escadas Deus falava-lhe, como falara com Abraão. Ouvira e ouviria Deus, como Abraão. Com ele Deus fizera uma aliança, a mesma que fizera com Abraão. Conhecia agora Deus pessoalmente, e não apenas por ouvir o avô e o pai falarem dele. Abraão fora conhecido como o amigo de Deus. Também com ele tinha Deus firmado essa relação íntima.
Sabia que a promessa de Deus à linhagem de Abraão era para uma terra deleitosa, e essa terra fora claramente apontada. Mas uma coisa não sabia:
– Não sabia que também nesta terra Deus está.
Sim, a promessa era Canaã. Essa era a herança. Mas percebia que o Deus dos seus antepassados e seu Deus era Senhor também de outras terras. Daquela terra. Da terra que era por ora o seu destino, Haran. Também aí o seu Deus seria com ele, e dirigiria os seus passos, e seria o seu conselheiro, e o protegeria, e lhe daria uma jovem e linda mulher, a quem amasse, e que o amasse e lhe desse muitos filhos e filhas. Aí o abençoaria.
Era costume entre os povos tomar pedras e fazer delas um marco da consagração de um voto aos seus deuses. Às promessas do Deus e de seu pai e avô e agora igualmente seu Deus respondeu Jacob com votos: entregar-Lhe-ia o dízimo de todos os bens que lhe fossem dados segundo essas promessas. Tomou ele também a sua pedra e consagrou-a como memorial ao Deus da aliança acabada de concertar. E conforme o costume, chamou à pedra, e ao lugar em que a achara, Casa de Deus. Como sinal último da aliança, ungiu a pedra com um pouco de azeite, que representa a presença de Deus. Sempre que ele ou seus filhos por ali passassem lembrar-se-iam da aliança de Deus com Jacob e reafirmá-la-iam em seus corações, voltando-se de novo para ela.
O olhar não sondou em redor nem a mente se questionou. A pedra que a mão tomou foi a que lhe serviu de almofada. Essa era a sua Bethel, a sua Casa de Deus.
Lembrara-se: o seu avô Abraão sacrificara e selara aliança com o seu Deus por ali. Então o Senhor já chamara para si havia muito aquela terra. A Abraão e à sua linhagem prometera um território da ribeira do Egipto até ao rio Eufrates. Aquela terra fazia parte da promessa. E Deus disse-lhe que lha dava. Ali plantara erva para os seus gados, ali abrira caminhos para as suas caravanas e mercancias. Ali construiriam cidades e plantariam e cultivariam cereais e árvores de fruto. Que lhe dissera Deus? Os seus filhos e netos estender-se-iam para todos os pontos cardeais. A estrada para Haran era igualmente herança para os seus filhos e netos. E Haran. E toda a terra.
Como poderia ter-se esquecido disso: que Deus também estava ali?
Sabia que o sonho lhe fora dado pelo Deus de seu pai e avô. Entendera que lhe falara, que tivera o privilégio de Ele se lhe revelar. E confirmava que a promessa da multiplicação das gerações da linhagem de Abraão lhe era agora transmitida, incontáveis como as estrelas do céu e o pó da terra. E que esse Deus estaria com Ele, e que havia comunicação entre o céu e a terra, que os anjos de Deus seriam com ele para o guardar e lhe trazer a bênção do céu, em obediência à voz do Senhor. Sim, a promessa era também para ele, não apenas por ser da linhagem de Abraão. Deus falara com Jacob, e não com o neto de Abraão. Havia umas escadas entre ele e Deus. Do alto das escadas Deus falava-lhe, como falara com Abraão. Ouvira e ouviria Deus, como Abraão. Com ele Deus fizera uma aliança, a mesma que fizera com Abraão. Conhecia agora Deus pessoalmente, e não apenas por ouvir o avô e o pai falarem dele. Abraão fora conhecido como o amigo de Deus. Também com ele tinha Deus firmado essa relação íntima.
Sabia que a promessa de Deus à linhagem de Abraão era para uma terra deleitosa, e essa terra fora claramente apontada. Mas uma coisa não sabia:
– Não sabia que também nesta terra Deus está.
Sim, a promessa era Canaã. Essa era a herança. Mas percebia que o Deus dos seus antepassados e seu Deus era Senhor também de outras terras. Daquela terra. Da terra que era por ora o seu destino, Haran. Também aí o seu Deus seria com ele, e dirigiria os seus passos, e seria o seu conselheiro, e o protegeria, e lhe daria uma jovem e linda mulher, a quem amasse, e que o amasse e lhe desse muitos filhos e filhas. Aí o abençoaria.
Era costume entre os povos tomar pedras e fazer delas um marco da consagração de um voto aos seus deuses. Às promessas do Deus e de seu pai e avô e agora igualmente seu Deus respondeu Jacob com votos: entregar-Lhe-ia o dízimo de todos os bens que lhe fossem dados segundo essas promessas. Tomou ele também a sua pedra e consagrou-a como memorial ao Deus da aliança acabada de concertar. E conforme o costume, chamou à pedra, e ao lugar em que a achara, Casa de Deus. Como sinal último da aliança, ungiu a pedra com um pouco de azeite, que representa a presença de Deus. Sempre que ele ou seus filhos por ali passassem lembrar-se-iam da aliança de Deus com Jacob e reafirmá-la-iam em seus corações, voltando-se de novo para ela.
O olhar não sondou em redor nem a mente se questionou. A pedra que a mão tomou foi a que lhe serviu de almofada. Essa era a sua Bethel, a sua Casa de Deus.
Lembrara-se: o seu avô Abraão sacrificara e selara aliança com o seu Deus por ali. Então o Senhor já chamara para si havia muito aquela terra. A Abraão e à sua linhagem prometera um território da ribeira do Egipto até ao rio Eufrates. Aquela terra fazia parte da promessa. E Deus disse-lhe que lha dava. Ali plantara erva para os seus gados, ali abrira caminhos para as suas caravanas e mercancias. Ali construiriam cidades e plantariam e cultivariam cereais e árvores de fruto. Que lhe dissera Deus? Os seus filhos e netos estender-se-iam para todos os pontos cardeais. A estrada para Haran era igualmente herança para os seus filhos e netos. E Haran. E toda a terra.
Como poderia ter-se esquecido disso: que Deus também estava ali?
terça-feira, junho 09, 2009
Camões: Em defesa da língua Portuguesa
E na língua, na qual quando imagina,
Com pouca corrupção crê que é a Latina
Os Lusíadas (Canto I estrofe 33)
Camões foi a seu tempo, juntamente com a sua geração, um grande renovador e fixador de novos padrões e formas na língua portuguesa, na sintaxe, no vocabulário, na expressividade retórica e estilística. Justamente amanhã se celebra o seu dia, e com ele o dia da alma lusa.
E como organismo vivo, a língua continua hoje a ser reinventada.
Vem isto a propósito precisamente de Camões, não o Luiz Vaz, mas o Instituto.
Há uns tempos, ao consultar a página da Direcção Geral dos Recursos Humanos da Educação, do Ministério da Educação, sobre concursos de recrutamento de pessoal docente, verifiquei que não havia nenhum concurso aberto, mas sim um tal "procedimento concursal".
Um pro quê?
Como a responsabilidade sobre os concursos de recrutamento de docentes para os cursos de língua e cultura portuguesa para os ensinos básico e secundário passou para a alçada do O o Instituto Camões, tutelado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros (que já tinha a responsabilidade sobre os concursos de recrutamento de leitores para as universidades estrangeiras), ontem mesmo, ao aceder ao portal de internet do Instituto, verifiquei que havia um "procedimento concursal" aberto para leitores.
Quando li isto na página do Ministério de Educação pensei que poderia ser uma de duas coisas: ou era da minha vista, ou era mais um neologismo da prolífera língua de quem escreveu essa enigmática expressão, o eduquês. Concluí que só podia ser de quem escreveu, e que a expressão viera de uma das cabecinhas pensadoras dos monstros Cila escondido num alto rochedo da Av. 5 de Outubro em Lisboa, e que mais monstruoso e temível ficou desde que se levantou a nova cabeça Prof. Doutora Maria de Lurdes Rodrigues.
Passado o susto, fui à minha vida. Até porque já não sou há três funcionário desse monstro, perdão, desse ministério. Olhos que não vêem, coração que não sente.
Eis senão quando depara-se-me no sítio internet do Camões a mesma medonha visão de palavras que antes me tinha traumatizado as tripas. Talvez as cabecinhas pensadoras da Cila que antes tinham trabalhado para o Ministério da Educação estivessem agora no Camões. O que estava recalcado veio à superfície. Nããããoooo!!!
Porém, uma rápida pesquisa na internet dirigiu-me a outras páginas de outros organismos da administração pública onde o monstro aparece, por exemplo, aqui, ou aqui.
No último link, o monstro é definido como "o conjunto de operações
que visa a ocupação de postos de trabalho necessários ao desenvolvimento das actividades e à prossecução dos
objectivos de órgãos ou serviços"…
Mas pergunto porque desenvolvimento não é "procedimento desenvolvimental". E aparece aí também o termo "recrutamento", e não "procedimento recrutamental".
Ai que do monstro Cila caí no monstro Caríbdis, pois os tentáculos aparecem por todo o lado! A expressão afinal não é da língua eduquês, mas de uma outra mais tentacular e omnipresente, o administrês, que subtilmente nos penetra em todos os poros e nos contamina o modo de pensar e de falar, e até eu já me deixei influenciar!
Ou então, visto de outra forma, não tão negativista, que plasticidade a da língua portuguesa!
Assim o Instituto Camõe, de mãos dadas com os demais órgãos da administração pública, faz a sua parte no fiel cumprimento da nobilíssima missão de defesa da lindíssima língua portuguesa, fiel dilecta da latina e tão semelhante à mãe. Perdão, da nobilíssima missão de procedimento defensal da lindíssima língua portuguesa – é assim que se deve dizer.
O Instituto fez jus ao nome do seu patrono.
Leitor, quando quiseres mandar outrem à fava, não o digas assim mesmo, com estas palavras mesmas, nem uses palavrões. E usar palavrões é banal e por isso deixou de ser dissuasor. Quão melhor não é usares uma outra estratégia que deixe o adversário de rastos, confuso, perdido, nauseado. Não entende que golpe baixo recebe, não tem anticorpos para ele e ei-lo a cair por terra, com uma dor de cabeça que lhe dá sensação de ter uma bomba-relógio lá dentro e com forte indigestão, sem conseguir conter o vómito.
Quando pois quiseres mandar alguém à fava, diz-lhe assim:
– Vai p'ró procedimento concursal!
Com pouca corrupção crê que é a Latina
Os Lusíadas (Canto I estrofe 33)
Camões foi a seu tempo, juntamente com a sua geração, um grande renovador e fixador de novos padrões e formas na língua portuguesa, na sintaxe, no vocabulário, na expressividade retórica e estilística. Justamente amanhã se celebra o seu dia, e com ele o dia da alma lusa.
E como organismo vivo, a língua continua hoje a ser reinventada.
Vem isto a propósito precisamente de Camões, não o Luiz Vaz, mas o Instituto.
Há uns tempos, ao consultar a página da Direcção Geral dos Recursos Humanos da Educação, do Ministério da Educação, sobre concursos de recrutamento de pessoal docente, verifiquei que não havia nenhum concurso aberto, mas sim um tal "procedimento concursal".
Um pro quê?
Como a responsabilidade sobre os concursos de recrutamento de docentes para os cursos de língua e cultura portuguesa para os ensinos básico e secundário passou para a alçada do O o Instituto Camões, tutelado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros (que já tinha a responsabilidade sobre os concursos de recrutamento de leitores para as universidades estrangeiras), ontem mesmo, ao aceder ao portal de internet do Instituto, verifiquei que havia um "procedimento concursal" aberto para leitores.
Quando li isto na página do Ministério de Educação pensei que poderia ser uma de duas coisas: ou era da minha vista, ou era mais um neologismo da prolífera língua de quem escreveu essa enigmática expressão, o eduquês. Concluí que só podia ser de quem escreveu, e que a expressão viera de uma das cabecinhas pensadoras dos monstros Cila escondido num alto rochedo da Av. 5 de Outubro em Lisboa, e que mais monstruoso e temível ficou desde que se levantou a nova cabeça Prof. Doutora Maria de Lurdes Rodrigues.
Passado o susto, fui à minha vida. Até porque já não sou há três funcionário desse monstro, perdão, desse ministério. Olhos que não vêem, coração que não sente.
Eis senão quando depara-se-me no sítio internet do Camões a mesma medonha visão de palavras que antes me tinha traumatizado as tripas. Talvez as cabecinhas pensadoras da Cila que antes tinham trabalhado para o Ministério da Educação estivessem agora no Camões. O que estava recalcado veio à superfície. Nããããoooo!!!
Porém, uma rápida pesquisa na internet dirigiu-me a outras páginas de outros organismos da administração pública onde o monstro aparece, por exemplo, aqui, ou aqui.
No último link, o monstro é definido como "o conjunto de operações
que visa a ocupação de postos de trabalho necessários ao desenvolvimento das actividades e à prossecução dos
objectivos de órgãos ou serviços"…
Mas pergunto porque desenvolvimento não é "procedimento desenvolvimental". E aparece aí também o termo "recrutamento", e não "procedimento recrutamental".
Ai que do monstro Cila caí no monstro Caríbdis, pois os tentáculos aparecem por todo o lado! A expressão afinal não é da língua eduquês, mas de uma outra mais tentacular e omnipresente, o administrês, que subtilmente nos penetra em todos os poros e nos contamina o modo de pensar e de falar, e até eu já me deixei influenciar!
Ou então, visto de outra forma, não tão negativista, que plasticidade a da língua portuguesa!
Assim o Instituto Camõe, de mãos dadas com os demais órgãos da administração pública, faz a sua parte no fiel cumprimento da nobilíssima missão de defesa da lindíssima língua portuguesa, fiel dilecta da latina e tão semelhante à mãe. Perdão, da nobilíssima missão de procedimento defensal da lindíssima língua portuguesa – é assim que se deve dizer.
O Instituto fez jus ao nome do seu patrono.
Leitor, quando quiseres mandar outrem à fava, não o digas assim mesmo, com estas palavras mesmas, nem uses palavrões. E usar palavrões é banal e por isso deixou de ser dissuasor. Quão melhor não é usares uma outra estratégia que deixe o adversário de rastos, confuso, perdido, nauseado. Não entende que golpe baixo recebe, não tem anticorpos para ele e ei-lo a cair por terra, com uma dor de cabeça que lhe dá sensação de ter uma bomba-relógio lá dentro e com forte indigestão, sem conseguir conter o vómito.
Quando pois quiseres mandar alguém à fava, diz-lhe assim:
– Vai p'ró procedimento concursal!
sexta-feira, junho 05, 2009
O ALTAR DE ALMOFADA 1 – NO CAMINHO
Aquele era o dia da partida. No alforge, além de provisão para uns dias de viagem, levava a bênção e o conselho do pai e o beijo da mãe. Um era a certeza de que o propósito da viagem se cumpriria, pois o Deus de seu pai e avô haviam prometido para a sua família uma descendência numerosa, e se Ele fora com eles cumprindo a Sua aliança com eles, seria igualmente com ele. O outro alimentava-lhe a alma com a garantia da cumplicidade: da sua mãe querida, que o ajudara a ganhar o lugar da primazia destinado, segundo o costume, ao irmão, sabia que podia esperar o mais terno acolhimento e as mais calorosas boas-vindas, ao regressar com sua esposa.
– Escuta bem, meu filho: não deves casar com nenhuma mulher de Canaã. Vai à Mesopotâmia, a casa do teu tio materno Labão, escolhe uma das filhas dele. Estão em idade de casar, e são gente de bem. E que o Deus do teu avô Abraão e teu pai seja contigo.
Partiu. Estava só. A bênção e conselho do pai e a cumplicidade da mãe davam-lhe força aos pés na caminhada, mas estava só. Os quilómetros sucediam-se e essa percepção tornava-se progressivamente mais clara. Só. Ele teria apenas de escolher a noiva entre as primas, e suportar a desilusão caso nenhuma lhe agradasse verdadeiramente. Mas, segundo o costume, deveria procurá-la entre os parentes dos seus pais. O irmão já tinha várias esposas, ele nem uma. Talvez esta, para lhe dar os filhos prometidos e assim continuar a inumerável descendência de Abraão, e depois tomasse outras.
Mas talvez esse Deus de Abraão e de Isaac o guiasse e a prima que tinha para lhe dar por esposa fosse, afinal, lindíssima. Assim fizera com seus pais Isaac e Rebeca, e bem sabia quantos se amavam.
Deixara Bersheba ao nascer do sol em direcção a Haran, e ao cabo de muitas horas eis que o sol tombara. Aproveitou até ao último vestígio de escarlate no céu. O vindo de ocidente ficava-lhe pelas costas, e a sua sombra caminhava adiante de si. Por fim, o facho solar esgotava-se, e com ele a luz para lhe iluminar a estrada. Não adiantava continuar.
Estirou as pernas longamente, espreguiçou-se, respirou fundo e bocejou. Fechou os olhos e deixou-se ficar uns instantes, em silêncio, a captar a murmúrio do repouso na respiração. A textura doce da eternidade na chama de uns poucos segundos: abriu os olhos.
Novamente mãos à obra.
Com umas poucas ervas rasteiras por leito, recostou-se ao abrigo de uma rocha – um parco abrigo contra o fresco vento nocturno, mas ainda assim um abrigo. Tomou uma pedra suficientemente grande e suficientemente lisa para nela encostar a cabeça e fechou os olhos de vez. A única luz eram estrelas no céu, aquelas que se podiam deixar ver por entre as clareiras nas nuvens.
– Escuta bem, meu filho: não deves casar com nenhuma mulher de Canaã. Vai à Mesopotâmia, a casa do teu tio materno Labão, escolhe uma das filhas dele. Estão em idade de casar, e são gente de bem. E que o Deus do teu avô Abraão e teu pai seja contigo.
Partiu. Estava só. A bênção e conselho do pai e a cumplicidade da mãe davam-lhe força aos pés na caminhada, mas estava só. Os quilómetros sucediam-se e essa percepção tornava-se progressivamente mais clara. Só. Ele teria apenas de escolher a noiva entre as primas, e suportar a desilusão caso nenhuma lhe agradasse verdadeiramente. Mas, segundo o costume, deveria procurá-la entre os parentes dos seus pais. O irmão já tinha várias esposas, ele nem uma. Talvez esta, para lhe dar os filhos prometidos e assim continuar a inumerável descendência de Abraão, e depois tomasse outras.
Mas talvez esse Deus de Abraão e de Isaac o guiasse e a prima que tinha para lhe dar por esposa fosse, afinal, lindíssima. Assim fizera com seus pais Isaac e Rebeca, e bem sabia quantos se amavam.
Deixara Bersheba ao nascer do sol em direcção a Haran, e ao cabo de muitas horas eis que o sol tombara. Aproveitou até ao último vestígio de escarlate no céu. O vindo de ocidente ficava-lhe pelas costas, e a sua sombra caminhava adiante de si. Por fim, o facho solar esgotava-se, e com ele a luz para lhe iluminar a estrada. Não adiantava continuar.
Estirou as pernas longamente, espreguiçou-se, respirou fundo e bocejou. Fechou os olhos e deixou-se ficar uns instantes, em silêncio, a captar a murmúrio do repouso na respiração. A textura doce da eternidade na chama de uns poucos segundos: abriu os olhos.
Novamente mãos à obra.
Com umas poucas ervas rasteiras por leito, recostou-se ao abrigo de uma rocha – um parco abrigo contra o fresco vento nocturno, mas ainda assim um abrigo. Tomou uma pedra suficientemente grande e suficientemente lisa para nela encostar a cabeça e fechou os olhos de vez. A única luz eram estrelas no céu, aquelas que se podiam deixar ver por entre as clareiras nas nuvens.
sábado, maio 09, 2009
17'' que mudaram o curso da História
No 1.º de Maio deste ano, eu e as meninas (a Caroline e a Eunice) fomos passear ao centro termal e de lazer de Amnéville.
Entre outras pequenos passeios e aventuras (de comboiozinho, visita ao aquário, um lanche e uma partida de bowling), as meninas fizeram o seu primeiro passeio a cavalo (pónei).
Só da aventura da Caroline tenho registo vídeo. Magistral, tranquila, descontraída, dominadora da situação por parte da menina mais doce, esperta, enérgica, eléctrica, curiosa, comunicativa, bem disposta, faladora, aventureira, corajosa, destemida e fiteira, inventora da nova língua "gabum". Após uma reacção irada à colocação do capacete, já apaziguada, ei-la, com ele apenas meio posto, mas com destemor épico a assumir as rédeas do animal. A primeira vez, mas com a elegância e a segurança do cavaleiro experiente.
17'' magistrais que mudaram o curso da História. Aos 15 meses. Não tardará que se oiça falar de maiores proezas com influência ainda mais decisiva no curso da História.
segunda-feira, março 16, 2009
Dedicado ao mais celebrado mestre da eloquência de sempre

Demóstenes
Tu não sabes, mas os seixos moldaram-te
Nas praias da Ática
À beira do abandono lançaste o manto à areia
mas o vento elevou-o à altura das fragas
à tua voz e ao teu espírito
Daí o trovão fala às velas
o vento ecoa a elegância do pregão
aquele que faz o povo recobrar a força,
Demóstenes
e Atenas navega
para o porto da liberdade
Espírito e voz moldados
As gerações que se te seguirem
serão mais gagas do que tu
e contigo quererão aprender
na escola, não na vida
a voz e o espírito
o pulmão e o coração
a força e a elegância
a escolha do ritmo e do vocábulo
o relâmpago do raciocínio
e o trovão da paixão
imitarão a tua arte
honrar-te-ão como o mestre perfeito
da invenção, da ordem dos elementos, da beleza e da declamação
citarão os teus incisos, períodos e orações
decalcarão e jurarão sobre a tua eloquência
aspirarão à tua Coroa
Sem seixos, sem praia, sem fragas
sem o fogo e o vento a falarem às entranhas da cidade
sem a neblina propínqua da servidão
o espectro opaco da Macedónia
Quem tiver uma causa uma voz e um espírito e uma palavra
escutar-te-á
e de novo o teu espírito soprará e a tua voz de pedras rugirá
quinta-feira, março 05, 2009
CO2: não podemos exterminá-lo?

A ciência, como a conhecemos hoje (e como talvez desde sempre) tem os seus dogmas, os seus lugares comuns, declarações de fé, mitos. Quando chega ao domínio da divulgação, em revistas, jornais, programas de televisão, perde o rigor e ganha em ridículo, adopta uma retórica ideológica, dogmática, tautológica, religiosa, de verdade revelada, mais do que os próprios discursos dos religiosos que tanto zurze e critica. É assim com os darwinistas (ou neo-darwinistas) e com esses outros sacerdotes das altíssimas verdades da ecologia.
Desde que "descobriu" e "provou" o aquecimento global, que o homem é o grande responsável do fenómeno e que o principal agente gerador do efeito de estufa gerador do mesmo é o dióxido de carbono, sucede-se minuto a minuto a evangelização ecológica contra essa besta apocalíptica do século XXI. Há tempos, passou na televisão francesa um anúncio (não notei a quê, a minha atenção apenas foi chamada pelo que ouvi e vi de seguida) em que se sugeria qualquer coisa como se não se poderiam suspender as emissões de CO2. E a imagem, como se accionada por um comando à distância, parava, as pessoas paravam, tudo parava. Irónico ou não, a única solução para que as emissões de CO2, logo a poluição do planeta, cessem é que paremos, que não façamos nada, que paremos de respirar, que a vida. Ridículo.
Hoje, na rubrica de meteorologia do canal infanto-juvenil Gulli, ouvi algo que me deixou estarrecido: que o planeta não gosta do CO2.
Como?! Fervente de indignação, vociferei:
— Mentira!
A Eunice, com 8 anos, dizia que era verdade. E procurei explicar que não é bem assim. Que nós inspiramos oxigénio e expiramos dióxido de carbono, e que Deus criou o mundo de maneira que com as plantas verdes fosse ao contrário: elas inspiram dióxido de carbono e dão-nos o oxigénio.
Sim, se as árvores e todas as plantas verdes, que são a maioria dos seres vivos do planeta, pudessem falar, imagino que diriam, com maior indignação do que a minha:
— E nós? De que planeta somos?
quinta-feira, fevereiro 26, 2009
Grandes coisas o Senhor nos faz
Não seria justo escrever aqui sobre uma sessão de ministração de louvor e não falar da nossa igreja local, Comunidade Cristã Restauração e das coisas tremendas que o nosso grande e bom Deus tem feito connosco.
Não somos das maiores igrejas lusófonas do Luxemburgo (lusófonas, pois não é de portugueses nem de brasileiros, mas de quem se comunica primordialmente em português). Até há um mês, desde o tempo em que éramos CCVA, partilhávamos um espaço perto da gare central do Luxemburgo com outras comunidades: anglófona, chinesa, francófona africana e nigeriana. Os chineses encontraram espaço próprio há algum tempo. Quanto a nós, há muito que pedíamos a Deus mudança. Profetas vários de Deus, em momentos vários, falaram do que o pastor e nós cremos no nosso coração ser a visão de Deus para a nossa comunidade, e de que isso implicava um espaço. E era profetizado que em breve teríamos outro e melhor espaço. No lugarejo de Steinsel.
Este ano, finalmente, o Senhor providenciou. Uma prenda: dois salões grandes, sala de reuniões, de super igreja, duas casas de banho, espaço para arrumos e outro onde será feita cozinha. Com algum recheio: cadeiras, mesas, projectores de vídeo. Por uma renda mais alta do que a que se pagava no outro espaço, mas preço bom se se considerarem as condições.
Tempo de ousar crer que, nos momentos em que Deus decide, o passo de fé deve ser dado.
Já tivemos pregadores visitantes, ensinadores e profetas. Para mim, este espaço está desde já ligado a dois dos três ou quatro momentos em que Deus trouxe através de servos Seus as palavras de conhecimento e sabedoria mais específicas para a minha vida. Revelando coisas que os próprios não sabiam e eu e mais gente sabia, outras que confirmavam o que estava no meu coração. Numa das tardes, um profeta americano, antes de começar a orar por mim, diz:
– Então tu é que és o Doutor! Ah, Deus tinha-me dito. Se soubesses o que Deus me diz.
E continuou, falando do que está no meu coração. E ilustrando com imagens o que Ele quer realizar – pois muitas vezes o Espírito de Deus fala por imagens e parábolas, como o faz na Palavra que inspirou.
Cada irmão e irmã ouviu. Foi nítido o mover de Deus, revelando o que só nós sabíamos e trazendo conselho, encorajamento, restauração de auto-estima, reforço de convicções. Quantos dos meus leitores já passaram por esta situação: alguém sem conhecimento prévio, pelo Espírito de Deus, vos dizer coisas da vossa vida, do vosso coração, do vosso ministério, algo de vós mesmos, das vossas lutas, sonhos e desejos, que só vós sabeis? E não ficastes entusiasmados por Deus revelar coisas, porque se lembrou de vós, por ter falado pessoalmente convosco,
Deus foi e é bom. A prenda que nos deu só falta estar cheia. Mas também nisso cremos. Pois para isso existimos e para isso estamos convictos que Deus nos quer fazer prosperar.
quarta-feira, fevereiro 11, 2009
Louvor de guerra
Ontem, na igreja evangélica francófona de Esch-sur-Alzette (Luxemburgo), houve reunião especial de culto a Deus com o cantor e líder de louvor canadiano do Quebec Luc Dumont. Sendo reunião aberta, estiveram presentes representantes de outras igrejas irmãs – a italiana e a nossa, Comunidade Cristã Restauração.
Conduzidos pelo nosso irmão Luc, entrámos na presença de Deus. Depois, ele ministrou a Palavra de Deus. Sobre louvor. O mote foi "louvor de guerra". A Escritura, a narração da ameaça de invasão ao reino de Judá no reinado de Josafat (Segundo Livro de Crónicas 20).
No meio de uma comunicação bem humorada e com o relato de episódios de lutas na sua própria vida de homem e ministro de Deus em que o louvor abriu as portas para o mover de Deus e a vitória, várias lições e estratégias para vitória através do louvor foram por ele extraídas desse texto. Como não tirei apontamentos, compartilho algumas delas, aquelas que melhor retive. Uma é a da solidão na guerra, algo a evitar. Não estamos sós. A solidão abre o flanco para o medo e o inimigo. Os conselheiros de Josafat, ao lhe anunciarem a iminência da invasão, disseram que os inimigos marchavam contra ele. Erro. Não contra o rei, mas contra toda a nação. A antítese do que é a liderança eficaz, que vive da partilha e corresponsabilidade. Na crise, sacudiram a água do capote e entenderam que o problema era exclusivamente do rei.
Outra lição: a oração de Josafat é o exemplo de oração derrotista. Revelou medo do inimigo e dos seus propósitos, magnificou as fraquezas e insuficiências do reino – mostrando a distorção da visão a que pode levar o derrotismo, pois ele dispunha de um exército.
Pediu a ajuda divina e convocou o povo para jejum e oração colectivos. Até que finalmente Deus falou, através do levita Jaziel (v. 14 e seguintes). A lição é a de necessidade imperiosa do recurso à arma do louvor. Estamos em estado de guerra, uma guerra invisível. Para a vencer, teremos de escolher as melhores armas, e essas são as espirituais. A declaração profética de Jaziel mostra que o louvor é uma dessas armas de grande eficácia, e que deve ser usada com espírito de combate, e não de expectativa de derrota, nem em apatia. A garantia dada por Deus é que Ele próprio (v. 17) entra em combate e luta por nós, e que dá a vitória. Em tudo na vida.
Terminámos, como não podia deixar de ser, em louvor de guerra.
Conduzidos pelo nosso irmão Luc, entrámos na presença de Deus. Depois, ele ministrou a Palavra de Deus. Sobre louvor. O mote foi "louvor de guerra". A Escritura, a narração da ameaça de invasão ao reino de Judá no reinado de Josafat (Segundo Livro de Crónicas 20).
No meio de uma comunicação bem humorada e com o relato de episódios de lutas na sua própria vida de homem e ministro de Deus em que o louvor abriu as portas para o mover de Deus e a vitória, várias lições e estratégias para vitória através do louvor foram por ele extraídas desse texto. Como não tirei apontamentos, compartilho algumas delas, aquelas que melhor retive. Uma é a da solidão na guerra, algo a evitar. Não estamos sós. A solidão abre o flanco para o medo e o inimigo. Os conselheiros de Josafat, ao lhe anunciarem a iminência da invasão, disseram que os inimigos marchavam contra ele. Erro. Não contra o rei, mas contra toda a nação. A antítese do que é a liderança eficaz, que vive da partilha e corresponsabilidade. Na crise, sacudiram a água do capote e entenderam que o problema era exclusivamente do rei.
Outra lição: a oração de Josafat é o exemplo de oração derrotista. Revelou medo do inimigo e dos seus propósitos, magnificou as fraquezas e insuficiências do reino – mostrando a distorção da visão a que pode levar o derrotismo, pois ele dispunha de um exército.
Pediu a ajuda divina e convocou o povo para jejum e oração colectivos. Até que finalmente Deus falou, através do levita Jaziel (v. 14 e seguintes). A lição é a de necessidade imperiosa do recurso à arma do louvor. Estamos em estado de guerra, uma guerra invisível. Para a vencer, teremos de escolher as melhores armas, e essas são as espirituais. A declaração profética de Jaziel mostra que o louvor é uma dessas armas de grande eficácia, e que deve ser usada com espírito de combate, e não de expectativa de derrota, nem em apatia. A garantia dada por Deus é que Ele próprio (v. 17) entra em combate e luta por nós, e que dá a vitória. Em tudo na vida.
Terminámos, como não podia deixar de ser, em louvor de guerra.
quinta-feira, fevereiro 05, 2009
Caroline Sophie, 1 ano

A Caroline fez um ano, no dia 26. Teve cá a visita dos vós paternos. Festejámos o aniversário a 27, porque no dia 26, à depois de jantarmos, adormeceu. Os bebés não se regem pelos mesmos ritmos que nós.
1 ano com uma presença nova. Um solzinho dado por Deus à casa. 1 ano de aprendizagem da paternidade, no privilégio do contacto quase 24 horas com a minha filha. A mudar-lhe a fralda, dar-lhe banho, de comer, despi-la, vesti-la, levá-la a passear, brincar com ela, fazer cabriolas com ela, irritar-me com ela, deleitar-me com ela. Vê-la rir, sentir cócegas, pedir colo, dançar, bater palmas, cantar, parlar. De a ver vir da cama dela para a nossa (a dela está perpendicularmente colada aos pés da nossa, passando pela abertura na grade de guarda da dela para a nossa) e pôr-se entre nós.
De vociferar-lhe "Não!" e afastá-la de alguma coisa em que não deve mexer, aguentar-lhe depois a birra. Que é tempo de ir conhecendo o "não".
1 ano de bichos carpinteiros, de dificuldades em dormir, de boa disposição, das escassas horas diárias de sono, de sozinha fazer a festas, lançar os foguetes e apanhar as canas. Das festas à noite na cama. De a ver querer mexer em tudo, cheia de curiosidade, nunca parar, a ponto de eu dizer que gostaria de conhecer um inventor que inventasse um aparelho que captasse a energia que ela contém, pois é uma nova fonte de energia renovável.
1 ano de a ver crescer fisicamente, nas habilidades, na inteligência, na descoberta do mundo, nas manhas. 1 ano de graça e alegria.
segunda-feira, fevereiro 02, 2009
8 sonhos
A Catarina Queiroz endereçou-me o desafio de expor 8 sonhos. Uuhhmmm…
1. Aprofundar a relação pessoal com Deus.
2. Aprofundar e desenvolver o dom e vocação d'Ele em mim.
3. Retomar a aprendizagem de outras línguas (alemão e luxemburguês) e começar a aprender outras (hebraico bíblico).
4. Levar a cabo com sucesso (o melhor de mim) o trabalho de pós-doutoramento que tenho em mãos.
5. Fazer discípulos (a começar por gente de casa, da família).
6. Restauração de relacionamentos familiares.
7. Ver A Porta profissional aberta para depois da bolsa (a que melhor se adequa a mim pessoalmente e que seja canal para alcançar propósitos de Deus).
8. Dar, dar, e aumentar o dar: financeira, espiritual, emocionalmente.
A ordem é puramente arbitrária, não reflectindo uma hierarquia na ordem de prioridades, à excepção da primeira, condição da prosperidade e bom sucesso nas demais. Todas têm o mesmo grau de prioridade, situando-se em domínios diferentes.
Como se trata de uma cadeia, eu devo endereçá-lo a outros: Vítor Mota, Rute Joaquim, Tinoca Laroca.
1. Aprofundar a relação pessoal com Deus.
2. Aprofundar e desenvolver o dom e vocação d'Ele em mim.
3. Retomar a aprendizagem de outras línguas (alemão e luxemburguês) e começar a aprender outras (hebraico bíblico).
4. Levar a cabo com sucesso (o melhor de mim) o trabalho de pós-doutoramento que tenho em mãos.
5. Fazer discípulos (a começar por gente de casa, da família).
6. Restauração de relacionamentos familiares.
7. Ver A Porta profissional aberta para depois da bolsa (a que melhor se adequa a mim pessoalmente e que seja canal para alcançar propósitos de Deus).
8. Dar, dar, e aumentar o dar: financeira, espiritual, emocionalmente.
A ordem é puramente arbitrária, não reflectindo uma hierarquia na ordem de prioridades, à excepção da primeira, condição da prosperidade e bom sucesso nas demais. Todas têm o mesmo grau de prioridade, situando-se em domínios diferentes.
Como se trata de uma cadeia, eu devo endereçá-lo a outros: Vítor Mota, Rute Joaquim, Tinoca Laroca.
domingo, janeiro 25, 2009
Respica te, Barack Obama

O meu amigo João Tomaz Parreira destas andanças publica um poema dedicado a Barack Obama. Nele, confirma o seu sentimento de esperança suscitado pela eleição histórica afro-americano para a Presidência dos Es.tados Unidos da América, expresso dias antes num texto em prosa publicado aqui . Obama é o seu novo "ídolo" depois de J. F. Kennedy
Essa esperança não é justificada pela etnia do homem — o que em si mesmo é circunstância é motivo de júbilo, por a América, a nação que se diz a mais livre e igualitária da Terra com isto na sua generalidade (à excepção das minorias supremacistas brancos saudosos da era antes de Lincoln, que se deseja se tornem mais e mais minoritários) ultrapassar tabus e preconceitos como o de a cor da pele ser factor indicativo do grau de humanidade. Mais ainda: de com isto abrir um feliz precedente: em futuras eleições, porque não sonhar com a eleição de um Presidente de origem hispânica, ou índia. As nações e tribos índias foram os primeiros americanos, e dos mais excluídos do sonho americano. Assim a América pode aspirar a cumprir a declaração de princípios da sua Constituição e leis, formulada pelos Pais fundadores (religiosamente deístas) e antes mesmo pelo grupo cristão dos peregrinos embarcados do porto inglês Southhampton no navio Mayflower e chegados ao porto americano de Plymouth, em 1620, auto-exilados de Inglaterra por motivos religiosos, em busca de um lugar em que pudesse livremente viver e servir Deus num espírito e ética biblicamente fundados, que deram o exemplo de convívio fraterno com outros povos. "Liberty and Justice for all!"
O que mais atrai em Obama não é tanto essa circunstância de ter uma cara mais morena. É a revelação do seu carácter, ornado por uma "belíssma retórica identificativa", que nos "implica a todos", como escreve João Tomaz Parreira. A gentileza, o espírito de paz, da convivência tranquila das diferenças entre pessoas de bem e bom senso, de defensor da igualdade de oportunidades e prosperidade para todos. E foi isto que cativou milhares de milhões em todo o planeta, e os encheu de esperança. Um discurso novo, um sorriso novo, um estilo novo, agastados que estávamos todos com George W. Bush, o tosco e bruto adolescente fazedor de problemas e semeador de ventos. Se a mudança poderia vir para a nação americana, essa mudança repercutir-se-ia em todo o mundo. Pois tudo o que se passa, diz e faz na e da América se propaga para o mundo todo (ver o exemplo da actual crise financeira mundial). Mesmo em remotas terras de Trás-os-Montes
A esperança em Obama tornou-se a esperança de todo o planeta e converteu-se em Obamamania. E esta elevou o homem à categoria de salvador. Uma reportagem nas ditas terras de Trás-os-Montes, que vi num serviço informativo da SIC-Internacional são paradigmáticos disso. Pessoas havia nessas terras que expressavam ter fé em Barack Obama. E a uma pergunta do (ou da, não me lembro) repórter, responderam que o viam como salvador. O seu discurso inclusivo, inspirado numa concepção holística do planeta como casa de todos, na qual todos devemos (independentemente da religião, opções políticas, etc.) viver em boa vizinhança e cooperando para o bem de todos, favorece a criação dessa imagem de salvador, de novo Messias.
Entre as reacções conhecidas dos líderes políticos internacionais, uma destoou, a do Primeiro-Ministro russo, Vladimir Putin. Disse ele: "as grandes desilusões provêm das grandes esperanças". Este é o tipo de ideia e de frase que ninguém, na esperança colectiva, quer ouvir nem pensar. Cristãos evangélicos como João Tomaz Parreira, assim como certamente muitos na América, olham Obama com esperança, mas outros há que, com o faro sempre pronto e apurado para detectar os odores do Anticristo em todo o novo líder religioso, político e empresarial mundial que surja, o vêem nada mais nada menos como essa personagem sinistra e misteriosa cuja manifestação a Bíblia anunciara (por exemplo, aqui). Será Obama esse enganador com pele de cordeiro e corpo e boca de lobo? Estou certo de que não, e a Bíblia fala de um espírito de Anticristo, e de muitos anticristos, que já se manifestavam no tempo em que João escreveu as suas cartas. E não é nada certo que se trate de um homem, ou que os cristãos (evangélicos) tenhamos que basear a sua agenda pelo seu suposto advento (e sei que muitos evangélicos ditos "dispensacionalistas" discordarão de mim). Nem que seja tão pouco o seu oposto, o Messias, que esse só há um, Jesus Cristo, o ressurrecto Filho de Deus, cujo regresso eu e muitos esperam. Não dou, portanto, para este peditório.
Mas é algo em que devemos pensar. Aquilo que devemos fazer fazer é ser sensatos, ser sábios — uma exigência de Deus. Barack Obama não vai salvar o mundo. Nem levá-lo ao cataclismo da "grande tribulação". Nem creio que ele se julgue a si mesmo como salvador do mundo, mas dou-lhe o benefício da dúvida de acreditar que ele pensa de si mesmo ser alguém que quer deixar boa influência no mundo, como a sua função lho permitir. Um sentimento que muitos seres humanos partilham, seja qualquer for a sua religião.
Como é geral entre os Presidentes dos Estados Unidos da América, declara-se cristão. Apesar de os seus ascendentes terem sido muçulmanos. O seu pai tornou-se ateu. Mas tem defeitos, enquanto cristão. Com efeito, não é possível dizer quantos foram cristãos genuínos, daqueles cuja vida se resume m Cristo, em obedecer a Cristo, em viver Cristo, em pensar o que Cristo pensa e fazê-lo acontecer. Como escrevi, numa postagem de 21 de Agosto, intitulada "Os candidatos e as suas religiões":
"Todos se declaram evangélicos, mas as suas obras deixa muito perplexo e confuso quando à genuinidade da sua fé. No caso do presidente actual ou passados, George W. Bush foi eleito duas vezes com o apoio da maioria dos evangélicos. Confessa Cristo Jesus como Senhor e Salvador. Defende a pena de morte. Empreendeu uma guerra (no Iraque) com base numa mentira (a existência de armas de destruição), inspirado supostamente por Deus, mas que resultou num pântano. Quando Deus age e ordena uma acção, funciona e resulta restauração e estabilidade, não confusão. Jimmy Carter, ex-presidente democrata, embora evangélico, situa-se do outro lado da barricada política.
Bill Clinton igualmente se declarou evangélico baptista. Cometeu adultério e apoiou a liberdade do recurso ao aborto como opção.
Dos actuais candidatos, John McCain é conservador quanto ao aborto e à união matrimonial homossexual, e promete prosseguir a política externa de Bush. Barack Obama, se promete mudar a política externa, é liberal quanto ao aborto e defende o direito ao casamento homossexual."
E certamente que a maioria deles crê que Deus criou… a evolução. Pesados os prós e contras dos presidentes americanos e de candidatos a presidentes, qual deles é o mais cristão? Qual deles é menos convicto e radical seguidor de Cristo? Qual deles defende ideias e pratica acções mais abomináveis aos olhos de Deus? Não sei. Por isso — concluía eu nessa postagem — eu teria dificuldades em escolher em quem votar, se fosse cidadão americano e cristão evangélico.
Quem é pois Barack Obama? Nada mais do que um homem. É necessária esta circunspecção. Nem um semi-deus messiânico salvador do mundo nem um hediondo demónio. Não um ídolo (e sei que João Tomaz Parreira usa o termo conotativamente, no sentido em que o adolescente que foi o teria usado em relação a J. F. Kennedy — ou qualquer adolescente o usaria em relação a um jogador de futebol, cantor ou guerrilheiro revolucionário —, pois como cristão evangélico é insuspeito de idolatria). E é assim que todo o planeta o deveria ver. E como homem que é, tem defeitos e podres, falhará e desiludirá. E não uma vez apenas. E é certo que não cumprirá tudo o que propõe em todas a as área. Pessoalmente, espero um progresso: o de recolocar a praxis americana numa base de concerto com as outras nações, ainda que se julgue primeira entre iguais. De restaurar uma certa decência e legalidade, em coisas tão simples como não iniciar uma guerra a qualquer preço e de extinguir a vergonha de Guantánamo, como já decretou. Para que aqueles prisioneiros sejam efectivamente julgados pelos tribunais, quer estes provem ou não que são culpados de terrorismo. Foi o primado do Estado de Direito que fez a presunção da superioridade da civilização ocidental sobre as demais, consideradas mais brutais e arbitrárias na justiça e na defesa dos direitos humanos. Se Barack Obama se concentrar e conseguir pelo menos isto, será já digno de registo. Merecerá aplausos humanos de todo o lado e limpará a imagem da sua nação. Quanto ao mais, no entanto, a defesa dos interesses da sua nação será a sua prioridade. Quanto estes forem incompatíveis ou colidirem com os de outras nações ou grupos de nações, será o seu país que escolherá. Como assim foi com os seus predecessores. Não nos iludamos quanto a isso — para não nos desiludirmos demasiado.
Seria bom o Presidente eleito dos Estados Unidos da América ter um criado ou secretário com licença para o advertir em particular dessa verdade, no momento do desfile após o juramento. A exemplo da Roma antiga pagã. Num mundo em que os deuses eram humanos nas paixões e na aparência e se misturavam com os seres humanos deixando mestiços entre eles, não seria raro um general regressado vitorioso de uma campanha militar ser tentado a deixar-se possuir pela vaidade de um momento de sucesso e achar-se igual aos deuses ou até filho de um deus, por orgulho pessoal ou porque outros a isso o tentassem. Júlio César começou o que o seu sobrinho-neto Octaviano Augusto consumou: a glorificação da sua estirpe familiar pela redescoberta da sua ascendência divina, que remontaria ao princípio troiano Eneias e à mãe deste, a deusa Vénus. Ao general vitorioso esperava, pois, a honra de uma parada na capital do império, o triunfo, o seu exército exibindo o orgulho da sua disciplina e armamento, os prisioneiros de guerra (de preferência os chefes dos inimigos vencidos) e os despojos em exposição pública. Segundo é tradição, o general desfilava de pé, numa quadriga conduzida por um escravo pessoal, que lhe segredava os tais conselhos de temperança:
— Respica te, hominem te memento "Vira o teu olhar para ti próprio, lembra-te que és apenas um ser humano".
sábado, janeiro 10, 2009
Esmeralda…

Foi dada a sentença final ao caso Esmeralda, que tanto atraiu, entusiasmou e dividiu a opinião pública. A favor do pai "biológico", confirmando sentença já com quase cinco anos.
Confesso que fui daqueles que, desde o início, teve simpatia pela casal de pais "adoptivos". Acolher uma criança abandonada pelos progenitores, recebê-la como sua, dar-lhe uma casa e cuidados parentais é em si mesmo um acto cuja dignidade e beleza dispensam encómio. O pai "biológico" aparecia aos olhos da opinião pública como um daqueles homens que conhecem uma gaja, dão-lhe uma queca sem protecção e que mal o sol nasce dão às de vila-Diogo. A mãe "biológica", uma daquelas mulheres sexualmente emancipadas, que não rejeitam uma noite de prazer quando as hormonas fervem. E uma gravidez surge, consequência indesejada de uma noite de libertinagem. Como uma cárie em quem exagera nos doces. Por causa disso, há quem aborte!
A imagem transmitida era grosso modo esta. Maniqueísta quanto baste. De um lado os bons e generosos, do outro os maus.
Os pais "adoptivos" cometeram rapto da criança, para não terem de cumprir uma sentença que determinava a entrega da menina ao pai "biológico" . Mesmo assim, tal acto suscitou onda de simpatia.
Mas uma ideia começou a ver à minha mente: não teria o pai "biológico" o direito ao arrependimento? Como todo o ser humano? Se de início duvidava da paternidade (a mãe biológica, afinal, prostituía-se), ou não a desejava assumir, não mereceria a oportunidade de mudar de ideia, não poderia o seu coração ter-se deixado apoderar pelo sentimento de paternidade? Lutar pela custódia da filha, com unhas e dentes, fazer o legalmente possível e impossível para reconquistar o afecto da filha seriam a tradução de uma reviravolta interior. E dignas de compreensão, quando não de solidariedade. E os pais "adoptivos" insistiam, praticaram rapto, insistiam, possessivos, em reclamar para si a custódia, o que também não deixa de ser compreensível, pois tinham ganho afecto à menina. E o processo arrastou-se.
Presentemente, pois, tenho outra visão do caso. Já não o vejo a preto e branco. E considero a sentença agora exarada como justa, sensata e equilibrada. O pai "biológico", que com toda a certeza aprendeu a amar a filha, é quem fica com ela. Como deve ser. E prevê-se um regime de visitar por parte da família "adoptiva". Esta não fica de todo desligada da história da vida da menina, porque fará para sempre parte dela. E será bom que continue a fazê-lo, e não apenas na memória da mais remota infância, mas como numa relação com outros "pais". E o suposto trauma da mudança de família, de nome e de referências, do constante stress que a indefinição do seu destino lhe causaria, tudo isso será atenuado. Mesmo porque a criança terá acompanhamento psicológico.
All's well that ends well.
quinta-feira, janeiro 08, 2009
Na Gaza dos Filisteus
Na Gaza dos Filisteus,
A mão que golpeia a ilharga é a mesma que estilhaça o crânio.
Dispõe a pedra na funda a sombra de Golias
E lança-a…
Efraim riposta com a catapulta
Jacob arremete em cheio com a espada.
De Gaza os filhos de Ismael gritam em fúria
e dos pulmões jorra o sangue
as pedras voam.
Os filhos de Isaac soltam as matilhas de molossos.
A pedra que golpeia a ilharga, a espada que estilhaça o crânio
em arremetidas repetidas, uma e mais uma e outra ainda, até milhares de fragmentos
que tingem o mar de escarlate e cinza
pois é impossível escapar por terra, para o deserto, para lá dos montes:
há o muro, um bando de leões de dentes de aço no caminho. A porta fechada na cara da urgência e do pânico.
Os filhos de Abraão
lutam por um lugar entre as estrelas do céu
que seu pai contemplou e contou.
Mas só restam os crânios rolados na praia, o sangue a excrescer da pele da fronte.
A mão que golpeia a ilharga é a mesma que estilhaça o crânio.
Dispõe a pedra na funda a sombra de Golias
E lança-a…
Efraim riposta com a catapulta
Jacob arremete em cheio com a espada.
De Gaza os filhos de Ismael gritam em fúria
e dos pulmões jorra o sangue
as pedras voam.
Os filhos de Isaac soltam as matilhas de molossos.
A pedra que golpeia a ilharga, a espada que estilhaça o crânio
em arremetidas repetidas, uma e mais uma e outra ainda, até milhares de fragmentos
que tingem o mar de escarlate e cinza
pois é impossível escapar por terra, para o deserto, para lá dos montes:
há o muro, um bando de leões de dentes de aço no caminho. A porta fechada na cara da urgência e do pânico.
Os filhos de Abraão
lutam por um lugar entre as estrelas do céu
que seu pai contemplou e contou.
Mas só restam os crânios rolados na praia, o sangue a excrescer da pele da fronte.
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