OS BÁRBAROS
Γιατί οι βάρβαροι θα φθάσουν σήμερα
“Os bárbaros chegam hoje”
Konstantinos Kavafis
chegam hoje, vêm para ficar
com barbas pintadas de sol
chegam ao amanhecer
quando os risos esperam o galope
dos seus cavalos de pompa
os bárbaros de barba que impõe silêncio
aos medos que no gume ferem o grito
da injustiça chegam hoje
eles sabem quem somos que temos poetas
dissimulados na facunda beleza dos frisos
e trazem uma nova alma nas barbas
finas como fios de sangue
a nova alma de que carecemos
a nova liberdade, liberdade das palavras
que são enganos
vêm, estão para chegar, arranquemos
de nós todas as dúvidas que nas espadas
das barbas trazem a solução, pois
mais não precisamos que da claridade
do ferro nos nossos rostos
22/02/12
Nova vida, abundante vida, tudo quanto pode proporcionar um encontro pessoal e radical com uma pessoa especial. A contracultura da nova criação, em Jesus Cristo. N.B.: Este blog está em desacordo com o chamado novo acordo ortográfico de 1990.
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quarta-feira, fevereiro 22, 2012
sábado, fevereiro 18, 2012
QUEM OS DEUSES AMAM
Ὃν οἱ θεοὶ φιλοῦσιν ἀποθνῄσκει νέος
Quem os deuses amam morre novo
Menandro
os deuses amam
as tuas gargalhadas
e riem-se
encontram nos teus olhos
pérolas incandescentes
que anelam possuir
e para isso retorcem
os dedos
os deuses na tua boca
a voz amam
clamam pelo que tens
e eles não conhecem
e por isso no teu corpo jovem
acordam o sonho
e na mesma pressa de amar
to reclamam
quem os deuses amam?
que deuses amam?
18/02/12
terça-feira, fevereiro 07, 2012
ECLAIR
tes yeux de colombe
s’épanouissant en pétales d’ombre
tes yeux encastrés en arbre
dans un volcan de marbre
tes yeux de poussin
éclairant les premiers rideaux du matin
7/02/12
quarta-feira, fevereiro 01, 2012
LÍNGUA
“sempre que tenho de falar, trava-se-me a língua na boca”
Livro de Êxodo 4,10
Não falo, Senhor,
porque não sei
não há arcadas
que sustentem a minha voz
trava-se-me a língua é coxa
sempre que tenho
de discorrer sobre geada
o que me pedes, Senhor,
é como se cortasse
com lâmina mal afiada
a cabeça dum condenado,
não
me constranjas, Senhor,
a rasgar o silêncio
dentro do peito
fazê-lo falar mais o faz calar
como penedos corroídos
ao vento
1/02/12
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Rui Miguel Duarte
quinta-feira, janeiro 26, 2012
FÁTUOS
“Abria-se a noite como uma romã”
José Eduardo Agualusa, in Milagrário Pessoal, p. 108.
um fogo sem artifícios
estrelas pálidas e ululantes
no céus como só olhos de aves
as poderiam espalhar
estendidos na frescura dos beirais
escorre dos lábios o oiro
a que habituaste a rosa,
o que tens para nos dar
agora ó noite ardente,
rubra nas velas
que se acendem remotas
no rufar das cigarras
senão a explosão dos teus dedos
como grãos de romã?
segunda-feira, janeiro 23, 2012
PASSEIO DOMINICAL
No domingo chega-se tarde ao trabalho
as mães atrasam-se nos beijos que dão
aos filhos, de rostos luminosos de maçã
os passos atrasam-se
numa meticulosa triangulação de ar
uma perna que sucede ao chão
e este a outra perna
no domingo entra o jardim
pela crianças dentro
— que bom que hoje está soalheiro,
mas mesmo que neve
as ruas dançam em perfeita comunhão
no coração que guardam no olhar
no domingo suja-se louça de porcelana
chora a pele no choque contra a outra pele
como o amor do mar com a rocha
primacial, portentoso
no domingo é o vento que envolve
os braços e todos levanta em uníssono
num cântico raro
nos corações ao alto
a Deus nas alturas
23/01/12
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domingo, janeiro 15, 2012
EXTENSÃO DOS LÁBIOS
Só os lábios respiram.
Orlando Neves
Para onde se estendem os lábios
para o exílio do som à beira das fráguas
donde nascerá a palavra
estendem-se na respiração
ar que entra ar que sai
que semeia árvores nas nossas mãos
e colhe pássaros de asas limpas
para onde se estendem os lábios
sopra um vento que fala suavemente
ouve-se o seu convite
para longas conversas de amigos
à mesa dos rios
para onde se estendem os lábios
não cabem as saudades o mar
deposita novas cores
sobre os ombros
tem ainda e sempre a mesma sedução
a mesma canção modulada nas ondas
só os lábios respiram
no sal dos dentes
15/01/12
terça-feira, janeiro 10, 2012
DÍPTICO DA ADÚLTERA
"Moisés, na lei, mandou-nos apedrejar tais mulheres até à morte. E tu, que dizes?”
Evangelho segundo João 8:5
ELES
dizem que és uma adúltera
dizem que te esqueceste à porta
da chave que te abre a rosa
dizem que a vela descerrou
o mastro
e a ele te vergaste
que embebeste a carne
em leite e mel de estranho
dizem que a redondez dos teus seios
é ofensa para os próprios seixos
que eles emergiam das mãos
EU
dizem que direi eu
eu nada direi, direi
que dizem as bocas do que lhes calam as vozes
direi que neste chão cabe o sangue e o ouro
dir-te-ei, a ti, que te devolvo o que perdeste
ou abandonaste, não importa
o coração isento de pedras
o rosto lavado
guarda-os assim
sem olvidar as lágrimas
10/01/12
terça-feira, dezembro 27, 2011
PASTORES
na Arcádia ou em Belém Efrata
os pastores tangem lira
tangem as cordas tensas
do céu,
tangem estrela a estrela
as notas
que formam ondulações
na lã
na Arcádia ou em Belém Efrata
em serras e vales crespos tangem flauta
e articulam os primeiros versos
do poema do fim da tarde
deixando que o sol ao pegar fogo
entoe os últimos
na Arcádia ou em Belém Efrata
os pastores de mãos manchadas de leite
criam salmos lestos
ao nascer de um cordeiro
27/12/11
os pastores tangem lira
tangem as cordas tensas
do céu,
tangem estrela a estrela
as notas
que formam ondulações
na lã
na Arcádia ou em Belém Efrata
em serras e vales crespos tangem flauta
e articulam os primeiros versos
do poema do fim da tarde
deixando que o sol ao pegar fogo
entoe os últimos
na Arcádia ou em Belém Efrata
os pastores de mãos manchadas de leite
criam salmos lestos
ao nascer de um cordeiro
27/12/11
quarta-feira, dezembro 14, 2011
ORFEU'N BLUES
pela galeria do metro vai
Orfeu
em busca da sua Eurídice
tê-la-á deixado cair
para ser tragada pelo torvelinho
do ar frio que se instiga
lá de cima da rua?
procura-a na galeria
na luz mole
dos olhos que reviram
desdém
procura perceber nos magotes
de vozes um silêncio
que soe à voz de Eurídice
por isso Orfeu toca o saxofone
como um bailarino em busca do seu par
Orfeu estende o som
na busca lança-o da galeria
para a escadaria e desta para o túnel
estende-a e recolhe-a
no chegar e no partir
de mais uma composição
tão paciente e tão flexível
a busca e tanto lhe dói e queima a boca
que cada sopro no saxofone
é a pronúncia do nome
Eurídice
Eurídice
Eurí-dice
Eu-rí-di-ce
Orfeu toca para Eurídice ouvir
toca uma marcha lenta
uma modinha cega
13/12/11
sexta-feira, novembro 25, 2011
SIDERAUX
je cherche l'espace indistinct
entre deux couleurs de l'arc-en-ciel
je cherche le doigt
qui cloue les étoiles
24/11/11
sábado, novembro 19, 2011
À SOMBRA
“O SENHOR Deus fez crescer uma planta, mais alta do que Jonas, para lhe dar sombra e o confortar do seu desgosto.”
Livro de Jonas, 4:6
O Senhor fez crescer uma planta
o Senhor fez a planta cresceu
para calar os gritos da minha alma
para soprar sobre o fogo
mais selvagem do que eu
a planta cresceu com ramos
que amaciam o meio-dia
deslizando pelos meus sonhos
devolvendo-me as lágrimas
que me abandonaram
no ventre cheio de muitos cuidados
a planta cresceu
amante
dos meus cabelos, o amor perfeito
do tom grisalho do meu coração
com ela me posso cobrir
na sua sombra de água
19/11/11
quarta-feira, novembro 16, 2011
SANSÃO
os cabelos, os cabelos
como noites varridas
à ilharga dos cometas
que passam em repentinos lumes
pela boca de Dalila
os cabelos, os cabelos
como noites fendidas
pelas asas dos pássaros
que fazem ninhos habituais
nos seios de Dalila
os cabelos, os cabelos
têm o volume de toda a força
das marés, reduzem
a escória bruta a pedra polida
do rosto de Dagon
16/11/11
como noites varridas
à ilharga dos cometas
que passam em repentinos lumes
pela boca de Dalila
os cabelos, os cabelos
como noites fendidas
pelas asas dos pássaros
que fazem ninhos habituais
nos seios de Dalila
os cabelos, os cabelos
têm o volume de toda a força
das marés, reduzem
a escória bruta a pedra polida
do rosto de Dagon
16/11/11
sábado, novembro 12, 2011
LIÇÃO DE VOO
"trouxemos as nuvens
para as nossas sandálias
e voamos "
João Tomaz Parreira, in "Lei do retorno"
trouxemos as nuvens
para as nossas sandálias
de andorinha
para nos fazerem sombra
no voo
mas as nuvens são fragmentos
no céu recortadas por facas
desconhecidas
é que só uma coisa conhecemos:
ser aves incessantes
umbilicalmente incessantes
para nós não há nuvens nem céu aberto
de volta ao nosso ninho
lá onde se erigem as nossas janelas
tudo o que somos
é voo
12/11/11
segunda-feira, outubro 31, 2011
RUTE
“Rute foi então para os campos e pôs-se a apanhar as espigas que os ceifeiros deixavam ficar”
Rute 2:3
colhe
com os olhos que tem nas mãos
o que outros deixam ficar
ou não vêem colhe espigas soltas
como pontas de novelos
é o cuidado dos bicos longos
do flamingo posto nos dedos
Rute sabe que colhe
onde não semeou
nos campos de Booz
sabe que colhe o pão que
lhe disseminará na mesa de cada dia
mas não sabe que nesse gesto
de ceifeira pobre semeia
brasas de sol
em outros olhos que têm mãos
29/10/11
Rute 2:3
colhe
com os olhos que tem nas mãos
o que outros deixam ficar
ou não vêem colhe espigas soltas
como pontas de novelos
é o cuidado dos bicos longos
do flamingo posto nos dedos
Rute sabe que colhe
onde não semeou
nos campos de Booz
sabe que colhe o pão que
lhe disseminará na mesa de cada dia
mas não sabe que nesse gesto
de ceifeira pobre semeia
brasas de sol
em outros olhos que têm mãos
29/10/11
quinta-feira, outubro 27, 2011
MADRUGADA
“O que precisa nascer
aparece no sonho buscando
frinchas no teto”
Adélia Prado, “Alvará de demolição”
O que precisa nascer
faz no tecto o soalho
e abre frinchas onde colocámos
os pensamentos
pois sobre as nossas cabeças
jaz um chão
de pedra ou magma
onde busca a água
e possui os minerais
desse chão nocturno de folhas
fissuradas do sonho
se levantam os ramos
do inalcançável
é lá que flutuam
as aves
27/10/11
quinta-feira, outubro 20, 2011
EXTENSÃO
“…para amar queria a terra toda, para morrer bastam-me os flancos do silêncio”
Eugénio de Andrade, “Seja isto dito assim” (Memória doutro rio)
para navegar
toda a água é oceano
e o astrolábio é navio
para cantar todo o corpo
é peito e fornalha na voz
se quero rir tiro a máscara antiga
se quero sonhar estendo o coração
para lá das ruínas
para morrer tão pouco me basta
que os olhos se calem sobre o teu flanco
para te amar uma ilha é ainda pouco
só me chega a terra toda
09/10/11
Eugénio de Andrade, “Seja isto dito assim” (Memória doutro rio)
para navegar
toda a água é oceano
e o astrolábio é navio
para cantar todo o corpo
é peito e fornalha na voz
se quero rir tiro a máscara antiga
se quero sonhar estendo o coração
para lá das ruínas
para morrer tão pouco me basta
que os olhos se calem sobre o teu flanco
para te amar uma ilha é ainda pouco
só me chega a terra toda
09/10/11
QUANDO SAÍRES DE ÍTACA
Quando saíres de Ítaca, Ulisses,
os cavalos deixarão Ítaca
vão todos contigo para um único galope
na ágora de Ílion
vão todos, as suas crinas cinza
ondulam na vibração da cabeleira
de Posídon
ficará Ítaca despovoada
de cavalos
e cavaleiros, nem os navios
desfilarão nas avenidas
marítimas da cidade
ao partires de Ítaca,
restará apenas
o fio tenso
do arco e do tear
o fio denso
do horizonte
que a tua mão traçará
estendida de um extremo
ao outro do mar
sem cavalos, ficarão em Ítaca
apenas homens a pé
soldados de infantaria
sem general
15/10/11
os cavalos deixarão Ítaca
vão todos contigo para um único galope
na ágora de Ílion
vão todos, as suas crinas cinza
ondulam na vibração da cabeleira
de Posídon
ficará Ítaca despovoada
de cavalos
e cavaleiros, nem os navios
desfilarão nas avenidas
marítimas da cidade
ao partires de Ítaca,
restará apenas
o fio tenso
do arco e do tear
o fio denso
do horizonte
que a tua mão traçará
estendida de um extremo
ao outro do mar
sem cavalos, ficarão em Ítaca
apenas homens a pé
soldados de infantaria
sem general
15/10/11
sábado, outubro 01, 2011
DA MATÉRIA DO POEMA
“Subi ao alto, à minha Torre esguia,
Feita de fumo, névoas e luar”
Florbela Espanca, “Torre de névoa”
o meu poema não habita
em torres de névoa não há espera matinal
por D. Sebastião
morreram todos eles para sempre
e os seus corpos secaram
nos dentes dos chacais
em Alcácer-Quibir
no meu poema não ardem baixo os luares
sobre as águas
no meu poema há só o sol a prumo
não há Ítacas, Társis nem Índias
de fuga ou nostalgia
há a amplidão nítida dos rios
que duma mão nascem e na outra desaguam
no meu poema há a outra margem
uma terra toda inteira
ainda sem nome nem padrão
de descoberta
30/09/11
Feita de fumo, névoas e luar”
Florbela Espanca, “Torre de névoa”
o meu poema não habita
em torres de névoa não há espera matinal
por D. Sebastião
morreram todos eles para sempre
e os seus corpos secaram
nos dentes dos chacais
em Alcácer-Quibir
no meu poema não ardem baixo os luares
sobre as águas
no meu poema há só o sol a prumo
não há Ítacas, Társis nem Índias
de fuga ou nostalgia
há a amplidão nítida dos rios
que duma mão nascem e na outra desaguam
no meu poema há a outra margem
uma terra toda inteira
ainda sem nome nem padrão
de descoberta
30/09/11
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