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segunda-feira, outubro 31, 2011

RUTE

“Rute foi então para os campos e pôs-se a apanhar as espigas que os ceifeiros deixavam ficar”
Rute 2:3

colhe
com os olhos que tem nas mãos 
o que outros deixam ficar
ou não vêem colhe espigas soltas
como pontas de novelos

é o cuidado dos bicos longos 
do flamingo posto nos dedos
Rute sabe que colhe 
onde não semeou
nos campos de Booz
sabe que colhe o pão que
lhe disseminará na mesa de cada dia

mas não sabe que nesse gesto
de ceifeira pobre semeia
brasas de sol 
em outros olhos que têm mãos 

29/10/11

quinta-feira, outubro 27, 2011

MADRUGADA


“O que precisa nascer
aparece no sonho buscando
frinchas no teto”
Adélia Prado, “Alvará de demolição”

O que precisa nascer
faz no tecto o soalho
e abre frinchas onde colocámos
os pensamentos

pois sobre as nossas cabeças
jaz um chão
de pedra ou magma
onde busca a água
e possui os minerais

desse chão nocturno de folhas
fissuradas do sonho
se levantam os ramos
do inalcançável
é lá que flutuam
as aves

27/10/11

quinta-feira, outubro 20, 2011

EXTENSÃO

“…para amar queria a terra toda, para morrer bastam-me os flancos do silêncio”
Eugénio de Andrade, “Seja isto dito assim” (Memória doutro rio)

para navegar 
toda a água é oceano 
e o astrolábio é navio
para cantar todo o corpo 
é peito e fornalha na voz

se quero rir tiro a máscara antiga
se quero sonhar estendo o coração
para lá das ruínas 

para morrer tão pouco me basta
que os olhos se calem sobre o teu flanco

para te amar uma ilha é ainda pouco
só me chega a terra toda

09/10/11

QUANDO SAÍRES DE ÍTACA

Quando saíres de Ítaca, Ulisses,
os cavalos deixarão Ítaca
vão todos contigo para um único galope
na ágora de Ílion
vão todos, as suas crinas cinza
ondulam na vibração da cabeleira 
de Posídon 

ficará Ítaca despovoada 
de cavalos 
e cavaleiros, nem os navios
desfilarão nas avenidas 
marítimas da cidade
ao partires de Ítaca, 
restará apenas 
o fio tenso 
do arco e do tear
o fio denso 
do horizonte
que a tua mão traçará
estendida de um extremo 
ao outro do mar

sem cavalos, ficarão em Ítaca 
apenas homens a pé
soldados de infantaria
sem general 

15/10/11

sábado, outubro 01, 2011

DA MATÉRIA DO POEMA

“Subi ao alto, à minha Torre esguia, 
Feita de fumo, névoas e luar”
Florbela Espanca, “Torre de névoa”

o meu poema não habita 
em torres de névoa não há espera matinal
por D. Sebastião 
morreram todos eles para sempre 
e os seus corpos secaram 
nos dentes dos chacais 
em Alcácer-Quibir
no meu poema não ardem baixo os luares 
sobre as águas

no meu poema há só o sol a prumo

não há Ítacas, Társis nem Índias
de fuga ou nostalgia
há a amplidão nítida dos rios
que duma mão nascem e na outra desaguam

no meu poema há a outra margem
uma terra toda inteira
ainda sem nome nem padrão 
de descoberta

30/09/11

FUTURO PERFEITO

“Cantar
é empurrar o tempo ao encontro das cidades futuras”
Carlos de Oliveira

se cantamos
cortamos a vida
deixamos para trás
o rasto de nós
perdemos ao longo da terra
as lágrimas
o que perdido estava
deixámo-lo ir na corrente
para onde escorriam os nossos olhos

tínhamos um encontro ali
marcado com as cidades futuras
para isso empurrámos o tempo
e arrancámos o espaço
no coração em sangue
nos lábios ainda tenros
cantar
é percorrer ruas
ainda por abrir

25/09/11