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sexta-feira, maio 30, 2008

Verdade conveniente



As árvores já têm copas de lava
de tão violentadas as águas do rio
exibem fissuras nos dedos
os ursos polares têm calor em pouco gelo
ao sol.

O que antes foram cedros e figueiras e abetos
não são hoje cardos?
E não pode a água fluir límpida
da boca do ventre?
Cessarem os sacrifícios de canários em minas de carvão?
Não basta o sangue de um só para lavar as suas entranhas?

Tirar o cinto que garroteia as nuvens
e retêm os mananciais na esponja e a luz
a rega precoce e tardia que fala e beija a terra
e alimenta com a profecia os chacais e as avestruzes
as bestas selvagens do ermo?

Vamos, filhos do Rei, que não é a hora de a rocha
emanar a lava, mas de estancar o vómito aos vulcões!
Manifestai a vossa glória de príncipes!
É a hora de plantar os lírios e colher o vetusto jardim
de deixar que os ossos enterrados sejam as raízes
da árvore da vida.
De rasgar no deserto a via por onde passarão os exércitos!
De fazer brotar o rio das ânsias de parto do pesadelo!

(27/05/08 Após ver o filme An inconvenient truth e correr a ler Paulo, Carta aos Romanos 8:19 “Porque a ardente expectação da criatura espera a manifestação dos filhos de Deus.”)

domingo, maio 18, 2008

Look who's talking! Conversa com a minha filha de 3 meses e 3 semanas


Foi no sábado de manhã. Pousei o maxy cozy com a minha filha Caroline no banco traseiro do carro e passava-lhe o cinto de segurança à volta. Já antes tinha saído com ela, a levar a minha mulher ao trabalho, uma segunda vez, em visita a uma casa para comprar, e saíamos pela terceira, para uma reunião no nosso banco para tratar do pedido de crédito.
Prendia o cinto e…

– Papá, aonde vamos? Já é a terceira vez que me levas a passear esta manhã.
E como ela gosta de passear. Quantas vezes a chorar por ter sido posta mais uma vez naquela cadeirinha afinal ela não acha tão cozy assim, basta dar à chave, meter a primeira e pôr as rodas em movimento para se aquietar e adormecer!
– Vamos ao banco, filha.
– O que é banco?
– Um banco é um sítio onde vamos falar com uns senhores e pedir-lhes dinheiro.
– Aaahhh... E precisas de dinheiro, papá?
– Sim.
– Ah, isso é coisa dos grandes. Os grandes é que pensam muito em dinheiro. Acordam a pensar no dinheiro. Vão trabalhar e cansar-se fora por causa do dinheiro, adormecem a pensar em dinheiro, sonham com dinheiro. Ou nem chegam a dormir por causa do dinheiro. Preocupam-se muito com o dinheiro, se não o têm e o desejam ou se o têm em excesso e não sabem o que fazer com ele. Zangam-se uns com os outros por causa do dinheiro, casam-se e separam-se por causa do dinheiro. Matam e matam-se por causa dele. Deprimem-se por causa dele. Os grandes vivem para o dinheiro.
– Ah, sim, filha, pois…
– Nós, os pequeninos, não precisamos de dinheiro. Nem sabemos o que é. Temos mama e biberão, pegam-nos ao colo, dão-nos banho, mudam-nos a fralda e a roupa, limpam-nos o bolsado, levam-nos a passear, embalam-nos, abanam-nos, fazem aviação connosco, riem, enchem-nos de beijinhos e carinhos, sorriem, cantam, balbuciam para nós, imitam-nos e deliciam-se com o nosso "arrreee" e falam "bebesês" connosco. Acorrem a toda a velocidade quando choramos, às vezes mais tomados de aflição e desespero do que nós mesmos. Não precisamos de dinheiro.

Uma lição de sabedoria da minha filha de 3 meses e 3 semanas.

sexta-feira, maio 02, 2008

Don't cry, Maddie!



Completa-se um ano sobre o caso mais mediático de sempre no mundo de desaparecimento de uma criança. Toca-nos a nós, Portugueses, porque se passou em Portugal.
Não quero dar a minha opinião nem botar palpites nem sentenças sobre quem presuma ser o culpado, se houve assassinato acidental ou propositado, com desembaraço do corpo, ou rapto. Se os pais montaram um grande esquema para encobrir uma eventual culpa, ou se simplesmente moveram mundos e fundos na busca da sua filhinha, como se calhar casal de pais faria se pudesse. Nem se o arrastamento ou a não resolução deste caso interessa a alguém. Nem quero filosofar sobre a razão porque, dentre tantos milhares de crianças desaparecidas no mundo, inclusive em Portugal, teve este caso tão grandes atenções das autoridades policiais, da comunicação e da opinião pública. Agora que outros casos vamos conhecendo de abusos de crianças e adolescentes, por vezes pelos próprios pais (como o caso daquele senhor austríaco que sequestrou durante 24 anos e gerou filhos dela).

Quero apenas invocar a criança, o elo mais fraco. A quem ninguém perguntou nada, e isenta de malícia para ser cúmplice do seu próprio desaparecimento. Invoco apenas a sua memória, como símbolo da colheita demoníaca que é fazer mal a uma criança. Em qualquer parte do mundo. Porque delas, das tais crianças, simples de coração, ingénuas, prontas a acreditar no amor dos grandes, dependentes, rápidas a ser cruéis – é certo – mas também a perdoar e esquecer; ainda sem noção do bem e do mal – e por isso herdeiras, mais do que ninguém, do Reino de Deus. Essas crianças que, sentadas no seu colo e saltitando ao seu redor, Jesus abençoou (Marcos 10:13-16), e nestas todas as crianças do mundo, esperança do futuro.

E quero dizer-lhe – embora tenha noção que ela não lerá estas palavras: don't cry! Estas foram as únicas palavras que se me oferece dizer-te. O Senhor Deus é o teu criador. Ele diz que, mesmo que uma mãe possa esquecer o seu bebé e perder o amor ao filho que ela gerou, ele, o teu Criador, jamais te esquecerá. O teu retrato está gravado na palma das suas mãos (Isaías 49:15-16)! E sei que te fará justiça. Que possas sossegar, pois és habitante do seu Reino! Quem te fez mal, melhor lhe fora se pendurassem uma pedra de mó ao pescoço e o lançassem ao fundo do mar, a enfrentar a julgamento do Senhor (Mateus 18:6). Porque o Senhor tem memória.

E o que te digo não é apenas para ti – mas para todas as crianças do mundo.