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sexta-feira, março 31, 2006

Arca de Noé


Recentemente, foi anunciada a descoberta do local onde teria encalhado a arca de Noé, no monte Ararat, na Turquia. Há uma formação geológica que corresponderia à forma e às dimensões do grande navio.
Esta descoberta, porém, não é nova. Haverá até vários locais com forma de navio, e muitos outros achados arqueológicos que compravariam a teoria.
A questão, no entanto, não é pacífica. Desde logo pelo texto bíblico, que afirma, mais rigorosamente, que a arca encalhou "na região de Ararat", e não precisamente "no monte Aratat". Aratar seria forma alterada de Urartu, um antigo nome da região.
Um portal insuspeito como o cristão e de ciência criacionista Answers in Genesis, o melhor que conheço no domínio, faz uma análise profunda das alegadas provas, concluindo que estas não cumprem esse propósito de provar e que não escapam a um escrutínio científico cuidado. A tal formação geológica naviforme não se revelou senão após um sismo em 1948, tendo o seu relevo aumentado na sequência de outro sismo, em 1978. E há dois picos vulcânicos Ararat, um maior e outro menor. É antes presumível que a Arca tivesse, passados milhares de anos, sido destruída, por mão humana ou pela erosão. Além disso, não há necessidade biblicamente sustentada para que a Arca tivesse sido preservada como prova de fé.
Devemos ser sensatos e evitar o fanatismo cego na proclamação das nossas convicções face à verdade e veracidade da Bíblia. Como concluem os autores — e não resisto a citar (traduzindo do original inglês) —: "como cristãos necessitamos de constantemente exercitar a devida cautela perante alegações que se façam, e todas as alegações devem sempre ser submetidas ao mais rigoroso escrutínio científico." Deste modo, e por outro lado, não fica afastada a hipótese de a Arca ter realmente atracado naquela região; simplesmente, não naquele local, daquela forma e com aqueles indícios.

Um poema de Miguel Torga

Um poema de que gosto, de esperança, de ímpeto e convite a viver. Fica perfeito, e com mais força e pujança ainda, na boca dos ressuscitados de Cristo.

Vamos ressuscitados, colher flores!
Flores de giesta e tojo, oiro sem preço...
Vamos àquele cabeço
Engrinaldar a esperança!
Temos a Primavera na lembrança;
Temos calor no corpo entorpecido;
Vamos! Depressa!
A vida recomeça!
A seiva acorda, nada está perdido!

terça-feira, março 21, 2006

O despir da roupa



“… ergui os olhos e vi a última coisa que esperava: um enorme leão a aproximar-se de mim lentamente. E uma coisa estranha é que não havia luar a noite passada, mas havia luar no sítio onde o leão se encontrava. (…) Eu estava terrivelmente assustado. Podes pensar que, por ser um dragão, podia ter enfrentado qualquer leão com toda a facilidade. Mas não era essa espécie de medo que sentia. Não tinha medo de que ele me comesse, tinha só medo dele, não sei se estás a perceber. Bom, chegou junto de mim e olhou-me bem de frente, nos olhos. E eu fechei os meus com toda a força, mas de nada serviu, pois ele disse-me para o seguir.
(…)
Fizemos uma grande caminhada pelas montanhas. E havia sempre esse luar por cima e à volta do leão para onde quer que ele fosse. Por fim, chegámos ao cimo de uma montanha que eu nunca vira e lá no alto havia um jardim, com árvores, frutos e isso tudo. No meio, havia um poço. (…) A água era límpida como tudo e pensei que, se pudesse lá mergulhar e tomar banho, isso aliviaria a dor no meu braço. Mas o leão disse-me que primeiro tinha de me despir. (…) Ia dizer-lhe que não me podia despir porque não tinha roupa, quando de súbito pensei que os dragões são uma espécie de cobras e que as cobras largam a pele. Por isso, comecei a esfregar-me e as escamas come¬çaram a sair por todo o lado. Depois esfreguei um pouco mais fundo e, em vez de escamas a sair aqui e ali, toda a minha pele começou a cair que era uma beleza, como se eu fosse uma banana. Daí a um minuto ou dois pude sair de dentro dela. Vi-a ali caída ao meu lado com um aspecto bastante desagradável e foi uma sensação maravilhosa. Por isso comecei a entrar no poço para tomar banho. Mas, quando ia meter os pés na água, olhei para baixo e vi que eles estavam tão duros, rugosos, cheios de vincos e de escamas como antes. «Oh, não há problema», pensei, «isto só significa que tinha um fato mais pequeno por baixo do primeiro e que também vou ter de o tirar.» Por isso voltei a esfregar e a segunda pele também caiu muito bem; saí dela, deixei-a cair no meu lado, como a primeira, e entrei no poço para tomar banho. Bem, aconteceu de novo exactamente a mesma coisa. E pensei para comigo: «Oh meu, Deus, quantas peles terei ainda de tirar?» Estava desejoso de molhar o braço. Por isso esfreguei-me pela ter¬ceira vez, tirei uma terceira pele, igualzinha às outras duas, e saí dela. Mas, mal olhei para o meu reflexo na água, vi que de nada servira. Então o leão disse (embora eu não saiba se falou): «Tens de deixar que seja eu a despir-te.» Garanto-te que estava com medo das suas garras, mas também estava desesperado. Por isso deitei-me de costas e deixei-o actuar. O primeiro golpe que me deu foi tão fundo que pensei que me chegara ao coração. E, quando começou a puxar a pele, senti a maior dor que já tive na vida. A única coisa que me ajudou a suportar aquilo foi o prazer de sen¬tir a pele a sair. Se já alguma vez arrancaste a crosta de uma ferida, sabes como é. Dói que se farta, mas é tão bom vê-la sair!
– Estou a ver exactamente o que queres dizer – respondeu Edrnund.
– Bem, tirou-me aquela coisa horrorosa, como eu pensara ter feito das outras três vezes, só que não doera, e para ali estava, deitada na erva. Mas aquela pele era muito mais grossa, escura e nodosa do que as outras. Fiquei tão liso e macio com uma vara descascada e muito mais pequeno do que antes. Então ele pegou em mim (não gostei muito porque agora, que não tinha pele, estava muito sensível) e atirou-me para a água. Ardeu-me que se fartou, mas só durante um instante. Depois tornou-se delicioso e, mal comecei a nadar e a mexer-me na água, descobri que já não sentia nenhuma dor no braço. Foi então que percebi porquê. Era outra vez um rapaz. Nem acreditavas se eu te dissesse como sentia os meus braços. Sei que não têm músculos e que são moles, comparados com os do Caspian, mas estava tão contente por os ver! Pouco depois o leão tirou-me para fora da água e vestiu-me... (…)
– Penso que viste Aslan.
– Aslan! – exclamou Eustace. – Já ouvi esse nome várias vezes desde que chegámos ao Camínheíro da Alvorada. E sentia... não te sei dizer... odiava-o. Mas nessa altura odiava tudo. A propósito, quero pedir desculpa. Acho que fui detestável.
– Não há problema – respondeu Edmund. – Aqui para nós, não foste tão mau como eu durante a minha primeira viagem a Nárnia. Só foste palerma, mas eu fui um traidor.
– Bem, então não me fales disso. Mas, diz-me, quem é Aslan? Conhece-lo?
– Bem... Ele conhece-me – respondeu Edmund. – É o grande Leão, o filho do Imperador de Além-Mar, que me salvou e também salvou Nárnia.”

C. S. Lewis, O Caminheiro da Alvorada

Neste breve excerto de um dos contos da série Crónicas de Nárnia, conta-se uma profunda operação de metamorfose sofrida por uma das suas personagens, Eustace. Caída no ponto mais baixo da solidão e da desgraça e atingido o ponto máximo do grotesco do se carácter, transformou-se num feio dragão, na ilha em que a extrema tentação atacava o incauto, a sedução de um tesouro. A metamorfose em dragão era assim a consequência natural e a figuração perfeita da decadência do coração.
E foi precisamente no estado de feio dragão, ou antes, de homem-em-dragão, que se manifesta o arrependimento e o desejo de mudança. É então que se revela alguém, Aslan, que lhe diz que tem de o despir. Eustace ainda tenta despir-se a si mesmo, mas em vão: cobrem-no camadas de velha pele, sem jamais atingir a mais interior, a última. Uma esconde sempre outra. E só Aslan o pode vestir. Só assim a metamorfose se reverte e o homem-em-dragão torna-se dragão-em-homem, ou melhor, em verdadeiro e total homem, exterior e interiormente, melhor do que antes fora. O despir desssa velha roupa assemelha-se ao rebentar do casulo da crisálida da lagarta, uma vez feita borboleta. Foi um processo com dor, mas o resultado é belo.
Em Nárnia, só Aslan era apto para limpar, revestir de justiça e transformar a natureza íntima. Na Terra dos filhos de Adão e Eva, igualmente só Jesus Cristo, o filho do Criador, pode dizer (Apocalipse 3:17-18):
“Não se apercebem que são desgraçados e miseráveis, pobres, cegos e nus. Aconselho-vos a que me comprem ouro fino para serem ricos; roupas brancas para se vestirem e não se sentirem envergonhados da vossa nudez; e remédio para porem nos olhos de modo a poderem ver.”

domingo, março 12, 2006

Excelência na durabilidade

«Da próxima vez que você se preparar para trabalhar nalgum projecto importante (seja ele qual for), antes de seleccionar os materiais a serem usados e decidir qual será sua abordagem, tente fazer uma pausa pelo tempo suficiente que lhe permita ter uma visão de longo prazo. Pergunte-se: "Como posso fazer isto durar por séculos, ao invés de apenas décadas?"
Alguém fez uma afirmação ousada ao dizer que neste mundo apenas duas coisas vão durar para sempre: a Palavra de Deus e as pessoas. Tudo o mais eventualmente vai deteriorar-se e desaparecer. Se esta afirmação é verdadeira, se você quiser mesmo exercer um impacto que venha durar séculos, talvez seja sábio investir mais do seu tempo buscando aquilo que beneficie e melhore a vida das pessoas. Em João 15:16 Jesus disse: "...Eu os escolhi para irem e darem fruto, fruto que permaneça…"»
In Momentos de Integridade com Rick Boxx (ASPEC - Reflexões da semana 27 de Fevereiro)